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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

12
Out08

...


Eremita

 

 

 

O esmero que dedico à composição do rosto de Tatiana começa a travar a progressão do enredo. Tudo isto é muito pouco subtil. Mas é importante convencer o leitor de que a visão da rapariga que passou pela rua, quando através das minhas pequenas colunas Sony ofereci Stockhausen à vila, era mesmo do tipo paralisante. O ângulo ajudou. Se uma mulher olha da rua para um homem que está à janela, a inversão dos papéis tradicionais só pode gerar alguma expectativa. Isso e o facto de ao restringir o campo da imagem ao rosto, o ângulo com que o observava fazia do asfalto da rua um pano de fundo homogéneo que realçava ainda mais o batom carmim dos seus lábios. 

"I would have preferred David Bowie, but it sounds as if you're throwing a party for ghosts... it's kind of cute". Uma estrangeira em Ourique. Já só se chega aqui ao engano, esta é uma vila que nunca se prostituiu para turistas, por falta de talento e de vocação. "A party for Ghosts"  era ao que lhe soava a Gesang der Jünglinge,  mas soou a profecia.


 

(cont)

 

 

 

 

 

12
Out08

...


Eremita

 

É de andar à pancada?

(...) Já não ando à tareia há mais de 6 meses" António Lobo Antunes (Pública, 12.10.08)."

 

  

Que saudades de uma boa tareia. Não me meto numa há mais de 20 anos. São poucas as alturas em que nos podemos sentir tão vivos como durante uma luta. Sobretudo se estamos a apanhar mais do que a dar. O que no meu caso era a regra. Foi por isso estúpido ter abdicado deste recurso. Mas pelo menos não fui medricas ao ponto de entretanto me ter tornado apreciador de boxe.

 

09
Out08

Fenómenos paranormais


Eremita

Sou por natureza e formação céptico em relação aos fenómenos paranormais. Dobrar colheres com a força da mente só pode ser um truque de ilusionista. Porém, nos últimos dias em Lisboa, quando ficava com dores de cabeça pela força de certos pensamentos, conseguia depois vergar esses pensamentos e deixar de ter dores. Esta capacidade seria invejável se não se desse o caso de precisar de muita elasticidade mental, que pela lei da conservação da energia é proporcional à energia potencial elástica do pensamento que se verga. Isto cria um problema, porque o pensamento acaba sempre por se soltar numa vergastada ainda mais violenta. 

09
Out08

Cerco


Eremita

 Aos poucos a cidade foi apertando o cerco e transformou a minha vida num encadeamento de escapadas de ilusionista, em que a sair de uma situação cumpria apenas o objectivo de entrar na situação seguinte. 

09
Out08

Diário do Alentejo


Eremita

O Diário do Alentejo seria um palco para a experimentação discreta. Uma ideia a explorar: começar a crónica no tema A e acabar em B. Algumas regras e tendências: privilegiar  as associações excêntricas de temas da actualidade, não fazer a transição com uma palavra pivot, não usar mais de uma frase para a transição, não voltar ao primeiro tema depois de esgotar o segundo. As regras são fundamentais. O dodecafonismo surgiu porque a ausência de regras no atonalismo levava a um desequilíbrio provocado pela repetição de uma nota. Criou-se então a regra de não se repetir uma nota antes de tocar todas as outras. Por outro lado, é verdade que quase ninguém ninguém toca ou ouve Schoenberg.

 

 

09
Out08

Fôlego social


Eremita

Houve uma altura em que perdi o fôlego social. Mais de uma hora de convívio começava a pesar-me. Chegava animado aos jantares. A perspectiva de conhecer uma nova pessoa entusiasmava-me. Envolvia-me na conversa. Chegava a experimentar todas as pulsões: o gozo de arrancar uma risada aos convivas, o pique de uma discussão acalorada, o equívoco gerado por um toque de pernas acidental. Mas quando vinha a sobremesa já só pensava em sair dali e ir para casa. Foi mais ao menos por essa altura que voltei a deixar de ser pontual. Antes chegava atrasado por causa de um excesso de vontade, que me levava a programar demasiadas coisas. Depois passei a fazê-lo pela percepção de um excesso de falta de vontade, ou seja, para que o pouco entusiasmo não me abandonasse antes do fim do serão. Os meus amigos não repararam. Nem no período em que fui pontual, nem na alteração das razões da minha impontualidade. Durante anos foram invariavelmente dizendo: " chegas semrpe atrasado!". Da minha parte, reconheço que só tentei respostas pontuais. 

09
Out08

A primeira vez


Eremita

Acabo de regressar do Pingo Doce (6 litros de Gaspacho). A Tatiana (a ucraniana que subiu comigo ao palco no espectáculo de Maik e Rosy) começou a sorrir para mim em meados de Setembro e desde então faço sempre fila na caixa dela. A fila de Tatiana tem o rácio de sexos invertido relativamente às outras. Dos poucos homens que entram no supermercado, quase todos escolhem a sua caixa. Não creio que tal se deva à sua simpatia, pois ela sorri pouco - e gostaria de acreditar que só sorriu ainda para mim. Hoje vestia uma farda um número abaixo do seu tamanho e só assim reparei no que devia ser já ser evidente para todos. Isto deixou-me um pouco desapontado, porque desejar uma mulher atraente não é necessariamente uma manifestação de alta sensualidade. Como se não bastasse, esta súbdita revelação tocou-me como a um adolescente. É que ela tem as mamas da Sophie Marceau, ao ponto do próprio discreto relevo dos mamilos sob a bata me ter lembrado uma cena da francesa em La Fidelité. Por sorte, o crachá com o seu nome está mesmo por cima do seu mamilo esquerdo e creio que ela pensou que eu fixara o olhar no seu nome. Só isso explica que me tivesse hoje falado pela primeira vez, assim: "eu sei que escreve-se com "i" mas prefere "y". Não mereço esta sorte.  

08
Out08

...


Eremita

O prazer que retiro de ouvir Miguel Esteves Cardoso é praticamente igual ao prazer da sua leitura. Ele tem um diferencial entre o que verbaliza e o que escreve praticamente nulo, é uma espécie de antítese do Veríssimo e de uma série de outros grandes escritores que são fracos conversadores. Isto não é bom nem mau, sugere apenas que MEC escreve muito depressa e que o meu défice de talento poderia expressar-se numa infinita falta de tempo - distinto de falta de vagar -  para escrever como gostaria. Quem me ouvisse não discordaria. 

08
Out08

...


Eremita

Estive ontem a passear por entre as campas e os jazigos do cemitério de Ourique. Também encetei conversa com o coveiro, para concluir que na literatura  as conversas com os coveiros são sempre um pouco exageradas. À sepultura da minha Emília ainda falta uma campa e relvar aquele talhão não é opção, disse-me ele. Por mim, um cemitério deveria parecer-se mais a um jardim do que a uma pedreira de mármore toda graffitada, mas esta deve ser uma opinião minoritária e o assunto é delicado.

 

 

 

08
Out08

...


Eremita

argumentos óbvios para se preferir uma tradução em inglês a uma em português: os livros podem ser mais baratos e as traduções tendem a ser melhores, porque se trata de um mercado mais competitivo. Mas é curioso como uma longa discussão pode decorrer sem que ninguém frise que a grande decisão é entre ler na língua nativa (do leitor)  ou numa terceira língua (que não é a do leitor nem a do autor do livro). A blogosfera é uma caixinha de surpresas e é possível que estejamos perante uma discussão entre bilingues. Atrevo-me porém  a sugerir que a regra é outra e que é precisamente a diferença no domínio da língua que determina a escolha. Há quem não goste de ir ao dicionário e por isso prefira a tradução para português.  Eu funciono ao contrário: gosto das traduções em inglês porque conheço melhor o português. Estando eu menos alerta naquela língua, o tradutor nunca se agiganta, é o um mero operário - conceito que os editores de Vasco Graça Moura têm dificuldade em interiorizar, mas que para mim é fundamental.

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