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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

19
Ago08

...


Eremita

 

 

Dois elementos a usar recorrentemente: os estendais de roupa e o baloiço da casa do tio. Não me convém a fama de tarado por roupa interior - até porque seria injusta - e delegar a missão numa personagem que ninguém conhece e que actua pela calada é uma solução. A tara desta criatura não é por roupa interior feminina, o que seria aborrecido, mas sim por boxers e outras cuecas. Acompanhar-se-á depois a génese de um mito na vila, de dinâmica comparável ao mito urbano, apenas diferente na escala: o homem roubaria as cuecas para curar um desgosto de amor, agravado por ter  respondido à convocação para que fosse buscar as suas cuecas a casa da namorada. Impossibilitado de corrigir esse erro diplomático, vergado pela imagem das cuecas lavadas, dobradas e  entregues com a solenidade de quem devolve um estandarte que deixou fazer sentido hastear naquelas paragens, só resta a esta desequilibrada criatura roubar todas as cuecas nos estendais da roupa enquanto rosna baixinho: "sou um frouxo, o Chamberlain da cueca". Trata-se de um gesto vingativo, de quem pretende perturbar a harmonia doméstica que lhe foi negada, mas também profundamente idiota, de quem confunde causa com efeito, algo que em antropologia se designa por cargo cult  - passo o academicismo.


Quanto ao baloiço da casa do tio, o melhor é fazer dele um objecto com propriedades hipnóticas ou então um mero artifício para a analepse. Explorar também a possibilidade de o baloiço ser usado por um inventor da vila, mistura do cigano Melquíades (Márquez) com o velho Atílio (telenovela O Casarão) que pretendia fazer ouro a partir do esterco que remexia numa banheira. Este inventor julga que a solução para a máquina de movimento perpétuo é um lubrificante feito à base de um azeite por ele muito alterado, obtido a partir de umas oliveiras que só crescem nas redondezas. O homem actua também pela calada, embora os seus propósitos sejam mais nobres e aparentemente menos idiotas. Noite sim noite não, galga o muro da casa dos meus tios para lubrificar os 3 baloiços de forma distinta, imprimindo-lhe depois exactamente o mesmo movimento. Apressa-se a deixar a casa e é da rua principal que mede o tempo que cada baloiço demora a parar. Noite não noite sim, trabalha até de madrugada com base nas observações feitas na véspera. Evitar ao máximo falar da rapariga que muitos anos depois se suicidou e com quem baloucei tantas vezes.

19
Ago08

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Eremita

Se a gente a morar no campo e a pisar a secura do montado fosse numerosa, a notícia mais interessante do fim-de-semana teria sido a do bombeiro da corporação de Marvão  que combateu um fogo posto da sua própria autoria. Este último dado - ter combatido o fogo - desapareceu ou não chegou sequer à imprensa, só o ouvi na rádio, mas dou-o por verdadeiro. O bombeiro pirómano não é mais raro que o político corrupto e o policial que recorre à extorsão. A coisa e o seu contrário, etc. Há mesmo testemunhos de que este bombeiro é uma pessoa pacata, como manda o figurino. Mas será que o bombeiro pirómano típico vai depois apagar o seu próprio fogo? E por que motivo o faz? Para não levantar suspeitas? Por arrependimento? Para prolongar o gozo?  Eis uma das vantagens de só ver televisão no café:  não será o criminologista  Moita Flores a responder a estas minhas ânsias. 

19
Ago08

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Eremita

 Descentralização e uma ideia de Europa: morar em Ourique e sonhar com Parma

 

 

"Ce n'était point là le véritable sujet d'inquiétude qui avait fait disparaître la gaieté de Fabrice."La position où le hasard me place n'est pas tenable, se disait-il. Je suis bien sûr qu'elle ne parlera jamais, elle aurait horreur d'un mot trop significatif comme d'un inceste. Mais si un soir, après une journée imprudente et folle, elle vient à faire l'examen de sa conscience, si elle croit que j'ai pu deviner le goût qu'elle semble prendre pour moi, quel rôle jouerai-je a ses yeux? exactement le casto Giuseppe (proverbe italien, allusion au rôle ridicule de Joseph avec la femme de l'eunuque Putiphar).

 

 

 

 

 

 

"Faire entendre par une belle confidence que je ne suis pas susceptible d'amour sérieux? je n'ai pas assez de tenue dans l'esprit pour énoncer ce fait de façon à ce qu'il ne ressemble pas comme deux gouttes d'eau à une impertinence. Il ne me reste que la ressource d'une grande passion laissée à Naples, en ce cas, y retourner pour vingt-quatre heures: ce parti est sage, mais c'est bien de la peine! Resterait un petit amour de bas étage à Parme, ce qui peut déplaire; mais tout est préférable au rôle affreux de l'homme qui ne veut pas deviner. Ce dernier parti pourrait, il est vrai, compromettre mon avenir; il faudrait, à force de prudence et en achetant la discrétion, diminuer le danger." (Capítulo VII)

La duchesse le regardait avec admiration; ce n'était plus l'enfant qu'elle avait vu naître, ce n'était plus le neveu toujours prêt à lui obéir; c'était un homme grave et duquel il serait délicieux de se faire aimer. Elle se leva de l'ottomane où elle était assise, et, se jetant dans ses bras avec transport:

 - Tu veux donc me fuir? lui dit-elle.

 - Non, répondit-il de l'air d'un empereur romain, mais je voudrais être sage.

Ce mot était susceptible de diverses interprétations Fabrice ne se sentit pas le courage d'aller plus loin et de courir le hasard de blesser cette femme adorable. Il était trop jeune, trop susceptible de prendre de l'émotion; son esprit ne lui fournissait aucune tournure aimable pour faire entendre ce qu'il voulait dire. Par un transport naturel et malgré tout raisonnement, il prit dans ses bras cette femme charmante et la couvrit de baisers. Au même instant, on entendit le bruit de la voiture du comte qui entrait dans la cour, et presque en même temps lui-même parut dans le salon; il avait l'air tout ému". (Capítulo XI)

 

É grave que  fique a pairar uma dúvida capaz de me distrair do essencial, sendo esta uma cena tão importante. O aparente desajuste entre as falas e os actos neste último excerto é uma falha de revisão, uma falha de leitura ou uma maneira ardilosa que Stendhal encontrou para reforçar o desajuste entre o pensamento de Fabrício no capítulo VII e a sua acção futura no capítulo XI? Se a condessa se lança nos braços dele e é em pleno voo dela que ocorre o diálogo, coincidindo a pronúncia da última sílaba de "sage" por Fabrício com o momento em que ele a recebe, seria preciso introduzir no palácio um quarterback capaz de projectar a condessa pelo ar com suficiente cinética para que a cena fosse possível. A hipótese não é tão estapafúrdia como o leitor menos avisado pensará: John Grisham escreveu Playing for Pizza, onde relata precisamente o quotidiano de um quarterback americano na liga Italiana, a jogar pelos Parma Panthers. Enfim, ficariam eles abraçados e nós a braços com um anacronismo. Como decidir entre este anacronismo histórico e anterior anacronismo físico? (Perdoem-me o delírio, precisava de expulsar isto para poder retomar a leitura).

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