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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

18
Ago08

...


Eremita

O meu irmão passou por aqui no sábado de tarde e, como me havia prometido, trouxe o primeiro conjunto de tupperwares. Tinha-lhe pedido este modelo, que julgo estar indicado para bolos e me pareceu também adequado para o Guerra e Paz ("War and Peace", doravante) por ter altura suficiente e a transparência necessária para o livro continuar a insinuar-se. Infelizmente ele não o encontrou e trouxe uns modelos mais banais - também mais em conta - de tampa encarnada e caixa de plástico esbranquiçado praticamente opaco. Vou ter de escrever o nome dos livros a marcador em cada caixa. 

 

Optei por lhe dizer que fim contava dar aos tupperwares porque gozo de um capital de tolerância junto da família para estas excentricidades. Creio que sempre os respeitei por isso, nunca chegando a abusar da excentricidade ou - o que seria grave - a tornar-me um falso excêntrico só para os impressionar. É claro que ele me perguntou depois sobre o (desem)emprego, onde eu morava, quanto pagava de renda e se já tinha feito as contas à herança - uma coisa é tolerância, outra falta de interesse. Discuti estes tópicos com ele no café, perto da Mó - não quero levar ninguém a minha casa. Procurei sossegá-lo e menti, sabendo que era uma mentira com limite de validade, isto é, capaz de a prazo se tornar uma verdade. Creio que esta é a forma mais nobre de mentir, muito mais do que fazê-o por piedade, mentira que tarde ou cedo acaba por revoltar alguém, enquanto a outra cedo ou tarde incita o próprio a usar o futuro para corrigir o passado e com uma taxa de sucesso apreciável, apesar da ligeira sensação de vertigem. É por isso que vou agora ter de começar a enviar o currículo às revistas de viagens que disse já ter contactado. O meu plano é usar a liberdade de que um eremita goza em Ourique para me tornar escritor de viagens. Admito que isto não seja sonho de eremita, mas o paradoxo é apenas aparente. Não conto sair da vila, as viagens serão inventadas. Enganar futuros turistas não me causa grandes problemas de consciência. Estar desempregado, curiosamente, perturba-me. Por muito que me custe concordar com nazis (que se apropriaram da expressão, faço notar), o trabalho liberta

 

O mano despediu-se ao fim da tarde. Com uma pilha de tupperwares ao lado, fiquei a acenar até o carro dele desaparecer de vista. Chegou a apetecer-me pedir-lhe que me levasse de carro até à barragem. De bicicleta é uma estucha, mas a principal razão é que com ele ao volante sinto-me mais seguro do que um filho a ser conduzido pelo seu pai. Os irmãos mais velhos exercem seus estranhos poderes sem disso se darem conta.

18
Ago08

...


Eremita

 

 

Que papel para o Pingo Doce na construção do universo ouriquense? Tatiana dá-me o primeiro talão com recado manuscrito antes ou depois da morte de Igor? Quais os efeitos de uma dieta estival feita à base do gaspacho de pacote? Esta história começa a gerar uma certa ansiedade, parece que preciso de ir animando Tatiana quotidianamente, como se rega uma planta ou - prefiro esta imagem - se faz nos presépios ambiciosos com o Reis Magos, que vão avançando um pouco todos os dias, a caminho da manjedoura. Hoje imaginei uma morte violentíssima para Igor  e um título cheio de pretensões para o episódio: A morte de Igor.

 

Que música oiço? Que música oiço mesmo? Li que a integral de Bach está à venda por 60 e poucos euros na FNAC (nota mental para o meu irmão: "compra-me a integral de Bach quando fores a Lisboa"). A integral pode funcionar no Ouriquense. A regularidade da música barroca liga bem com o ritmo do diário, o meu conhecimento superficial do compositor mas acima da média dará para impressionar o leitor mediano, o Bach prolífico é uma inspiração para continuar isto até à meia-idade e saco ainda a piscadela de olho a Herberto Helder  - o estilo, o estilo - e à mulher que me fez gostar de música e - de certo modo, tirando os touros, a pesca e o futebol, que a precederam - de tudo o que merece ser apreciado nesta vida, como o sexo, os livros e o pensamento - mas não o passado  e a comida, que lhe foram necessariamente ulteriores, pois um adolescente é uma besta desmemoriada sem paladar. 

 


18
Ago08

Maik e Rosy


Eremita

Na sexta fui ver Maik e Rosy ao cineteatro. Estava menos de meia casa, mas Maik é um bom mágico. Não consegui adivinhar-lhe um único truque, excepto quando fez aparecer pombas, porque é difícil reduzi-las a duas dimensões sem pinga de sangue. Rosy é uma partenaire triste, o que acaba por beneficiar o espectáculo. Imagino-os casados. Quis o acaso que Maik me chamasse ao palco e na minha apresentação pública à vila tive um segundo de hesitação antes de inventar um nome falso. Se excluirmos a progressiva degenerescência da minha assinatura, foi a primeira vez que acusei um problema com a identidade e pergunto-me se não terá sido um turning point. Veremos. Maik perorou a seguir sobre a diferença entre iludir com truques e iludir por sugestão. Se o percebi bem, no truque temos a nítida noção de que estamos a ser enganados e na sugestão o engano é tão profundo que seríamos capazes de jurar pela acuidade dos nossos sentidos. A distinção vale para o ilusionismo, para a ficção, enfim, para a vida em geral. 

 

Ao palco subiu comigo uma rapariga ucraniana. Chama-se Tatiana, admitindo que não fez como eu. Pareceu-me muito tímida. Não olhou para a plateia, nem para Maik, nem para mim, apenas para Rosy, que não chegou a retribuir-lhe o sorriso. Quem sorriu muito foi o homem para junto de quem Tatiana voltou. Maik, um animal de palco, topou o óbvio e dois números volvidos estava a chamar esse homem ao palco. Apesar de não falar português tão bem como Tatiana, mostrou grande à-vontade e tentou até uma piada. Chama-se Igor  - ainda disse o apelido, que me escapou. Creio que também Tatiana e Igor estão casados.

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