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Eremita

Por insistência dos pais, Julião começou a comer a sopa com a mão direita por volta dos 5 anos de idade. Eles eram pessoas sensatas e esclarecidas. Se na viragem para o século XXI o canhoto já não era discriminado na escola há algumas décadas, menos razões havia para uma reeducação forçada em casa. Comer a sopa era o único acto social que criava um problema ao canhoto, a saber, o choque de cotovelos à mesa. Por isso os pais lhe disseram para contrariar o hábito de pegar na colher com a mão esquerda, o que acabou por suceder. Foi já na adolescência que Julião recuperou o seu instinto natural. Tratou-se então de um gesto de tal modo deliberado que podemos facilmente identificar a causa próxima: uma sessão na Cinemateca de 2001, Odisseia no Espaço, o filme de Kubrick. Todos recordarão a cena em que um hominídeo põe o engenho ao serviço da violência, mas quase ninguém nota que o fémur mortal é levantado do chão com a mão direita. Julião notou. No dia seguinte, mas só ao jantar, pegou na colher com a mão esquerda e mergulhou-a no caldo verde com a lentidão de quem está consciente de viver um episódio importante da sua biografia e se esforça por registar todos os pormenores, como a presença de uma rodela de chouriço na sopa. Os pais só repararam ao fim de algumas refeições, provavelmente por serem apenas três à mesa. E depois não se preocuparam com a reposta seca do rapaz, a esvaziar qualquer hipótese de voltar a usar a mão direita para comer a sopa; pelo contrário, interpretaram a surpreendente firmeza de Julião como o despontar já algo tardio de uma "personalidade forte".
