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OURIQ

Um diário trasladado

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28
Mar10

Animismo


Eremita

 

A estatística de suicídios em território nacional diz-nos que não é fácil viver no Alentejo. Mas também não é fácil ler no Alentejo; ler a céu aberto, bem entendido, no montado ou na margem direita do Guadiana. As amplitudes térmicas são más para o papel e o sobreiro é uma árvore que não evoluiu para proteger ninguém da chuva, muito menos um clássico da literatura russa com encadernação de cabedal - antes ler no Minho, apesar de aí chover mais, porque o castanheiro é uma árvore frondosa. Sim, os leitores mais atentos lembrar-se-ão que elegi o solitário plátano para local de leitura, mas tento andado a experimentar outros lugares. Isto explica o problema com que me debato actualmente. Se entre as páginas 150 e 200 levantei - interiormente - a hipótese de não resistir à leitura de Moby Dick, a partir da página 200 senti uma dinâmica de vitória e comecei a temer que será Moby Dick, o livro, que não me resistirá. São já várias as páginas que se soltaram, apresentando nas margens as marcas dessa insubordinação. Curiosamente, são todas páginas lidas e é impossível não ver este incidente, explicável pelo clima, o meu desmazelo e a má qualidade da cola usada pela Wordsworth Classics, como um símbolo da caducidade da memória de um leitor. Talvez por isso, hoje, ao acordar, creio que ainda havia vestígios na minha cabeça de um sonho em que o livro tinha perdido todas as páginas, excepto a última, cuja leitura eu terminava. Depois de o ter pousado, este objecto desprovido de inércia foi arrastado por uma brisa de ar e, apesar de ser matéria sonhada, a capa e contracapa não começaram a bater como asas, talvez porque entretanto a última página também se tivesse destacado e livro sem páginas é como pássaro sem quilha. Foi rastejando pelo chão, aos trambolhões, aqui e ali retardado pela vegetação, que o livro se aproximou da ribeira, sem qualquer elegância, mas com a convicção de quem vai sempre na mesma direcção por mais intransponíveis que sejam os obstáculos. Naturalmente, pensei que Ahab se alojara nos veios da lombada quebrada, antes da debandada geral, e que da ribeira contava chegar ao Sado e fazer-se de novo ao mar. Experimentei algum ânimo neste animismo, mas assim como quem chega ao jogo de palavras pelos conceitos e não ao contrário, o que redime o trocadilho.

 

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