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OURIQ

Um diário trasladado

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14
Mar10

Os olhos de Tatiana


Eremita

 

 

Uma disciplina férrea impede-me de trocar os traços no rosto de Tatiana entretanto estabelecidos. É que não posso fazer com eles o que - aparentemente - Joaquim Manuel Magalhães faz aos seus poemas. Reformulando com recurso a um universo mais facilmente apreensível por todos, inclusive quem vos escreve: o rosto de Tatiana não é um produto de alta tecnologia para ir sempre actualizando, nem pode reflectir a eventual inconstância do seu criador. Para que não fiquem dúvidas: ela só não terá sempre o nariz de Rosemarie DeWitt se Igor a desfigurar.

 

Felizmente, há um capital de partes omissas na fisionomia e anatomia de Tatiana que ainda posso ir usando para destrunfar a realidade, embora as juras de amor a esta mulher me impeçam de o fazer com a mesma desfaçatez com que um primeiro-ministro em ocaso de mandato delapida o patrinónio público. Deverá por isso haver sempre uma reserva de fisionomia indefinida na figura de Tatiana, capaz de me proteger, para que ela cumpra a sua missão, a saber: servir de tampão - isto é jargão da química - passional e ajudar-me a concretizar esta vida de eremita sem me perder, como, por falta de uma rede de salvação e um plano de contingência, se perdem aqueles que renunciam aos prazeres da carne e do espírito. Dito isto, creio que estou em condições de atribuir  um olhar a Tatiana e não prevejo qualquer arrependimento.

 

São pouco os rostos de mulheres belas na publicidade capazes de surpreender. A diversidade de rostos feios é infinitamente superior à diversidade de rostos bonitos. Não vou aqui discorrer sobre esta ambiciosa afimação, porque a sua defesa definitiva não está ao alcance de nenhum indivíduo - Umberto Eco não sabe nada de selecção sexual e quem sabe de selecção sexual não se preocupa com Umberto Eco -, mas não a solto para  compor um estilo ou transpor para a estética a frase de arranque de Tolstoy em Anna Karenina - de resto, uma frase que sempre me pareceu absurda. Digamos que é assim e pronto, pedindo eu aqui ao leitor o impossível, isto é, a credulidade que os matemáticos deram a Fermat. Retomando: um rosto belo e surpreendente é uma raridade e merece ser celebrado. Ora, a rapariga que entra no novo anúncio da Nivea tem uma beleza absolutamente desconcertante e tomei a liberdade de fazer dos seus olhos os olhos de Tatiana. Como é óbvio, não me vou preocupar com questões de compatibilidade e simular a quimera que leva o nariz da DeWitt e os olhos da modelo da Nivea para ver se combinam. Tatiana é uma personagem assumidamente atomizada. 

 

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