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OURIQ

Um diário trasladado

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13
Fev10

A inspiração é uma coordenada


Eremita

Abomino os cursos de escrita criativa. A irritação começa logo no epíteto "criativa". Parece que existe para distinguir estes cursos das aulas de alfabetização, embora a muitos dos seus alunos talvez estas fossem uma opção mais avisada. Também a ideia de discutir os exercícios com os outros colegas é muito pouco apelativa. E se nesses cursos Salinger se deu bem sentado, quando aprendia, deu-se depois muito mal de pé, como professor. Haja respeito por um homem que conseguiu morrer duas vezes sem recorrer a truques místicos.

 

Com a bibliografia de "escrita criativa" a relação é distinta, sobretudo porque não há convívio. Mas quando olho para trás, o melhor conselho que aprendi num desses livros ou artigos não é de E. M. Forster, John Gardner, James Wood ou qualquer outro nome respeitável. O melhor conselho é de Stephen King. Não o King provocador de fiction writers, present company included, don't understand very much about what they do—not why it works when it's good, not why it doesn't when it's bad. I figured the shorter the book, the less the bullshit. Nem o King assertivo de I believe the road to hell is paved with adverbs, and I will shout it from the rooftops - uma tirada que entusiasma adolescentes mas em que a primeira oração é boa e a segunda sofrível. É mesmo o King que gasta alguns parágrafos do seu pequeno livro a explicar como a sala onde se escreve deve estar mobilada. Tal preocupação tocou-me fundo. Durante anos pensei que uma carreira de escritor estaria à distância do IKEA mais próximo. Depois apurei o juízo, comecei a ir a antiquários. Mas foi em vão. Nunca consegui recriar o local ideal para escrever - e seria uma recriação, pois fui tendo imagens na cabeça. Só em Ourique vim a perceber que o meu erro foi ter feito uma interpretação literal do conselho de King. 

 

Aqui no Cotovio não há propriamente mobília, pois a casa está em ruínas e tão vazia por dentro que parece ter sido pilhada. Só que no outro dia, quando descia do monte encimado pelo marco geodésico e caminhava ladeado de arbustos que se enchem de flores brancas na Primavera, flores grandes, capazes de atrair abelhas e até apicultores, senti ali, ali mesmo, não uma promessa de Primavera mas algo que, à falta de outro termo, eu diria, sem mais demoras, poder ser descrito como "inspiração". Se sempre pensara que a inspiração descia sobre os homens vinda dos céus, experimentei algo distinto: a minha inspiração subiu-me pelas pernas e vinha tão carregada do cheiro aos actinomicetos da terra molhada que, em rigor, também me entrou pelas narinas. Estaquei logo, como se fosse um  descobridor de água por radiestesia que, de súbito, sente vibrações no seu graveto em forquilha. Sentei-me num pequeno afloramento xistoso, senti a pedra quente, etc., tirei o bloco de notas e comecei a escrevinhar impacientemente, freneticamente e depois obsessivamente (grita, Stephen, vai gritando). Nunca nada assim me havia acontecido. Há homens que têm dias triunfais; eu tive umas boas 3 horas triunfais. E materializou-se uma história no fim. Uma história em que não havia sequer pensado até então, nem mesmo quando estava junto do marco geodésico, mas que não é filha da escrita automática. A história não tem qualidade para se apresentar ao público e só a sua génese importava contar.

 

Tenho voltado ao mesmo sítio. Ao fim do primeiro dia, temi que aquela experiência tivesse resultado do cheiro a terra molhada. Todos sabemos que não há nada mais forte do que um estímulo olfactivo para reavivar a memória, com a excepção do waterboarding. Por isso decidi voltar nos dias seguintes. Escolhi dias solarengos e secos, dias frios, tardes amenas e até uma noite de luar. Fiz variar tudo o que se pode variar, inclusive os meus humores. Cheguei mesmo a ir para aquele lugar com vontade de urinar. Só não levei lá o moço de recados, pois seria incapaz de lidar com a confirmação de que também aquele idiota pode ser possuído pela minha inspiração. O resultado tem sido sempre o mesmo: a terra pode estar seca, a minha bexiga acalma-se sempre e o que vem, sem falta, é uma compulsão para a escrita que dura 3, por vezes 4 horas. É sempre com o frenesim do primeiro dia que tenho composto contos. A qualidade varia muito, mas conto mostrar dois deles nos próximos dias. Um é sobre um tenista etíope de 2 metros, a envergadura de um albatroz e um serviço tão infalível e indefensável que as regras tiveram de mudar para o jogo não morrer, matando-o a ele. O outro é sobre um velho que troca a pornografia hardcore por uma modelo peituda que nem os mamilos mostra. A demora explica-se pela dificuldade em decifrar a minha caligrafa - mesmo vertida sem urgência, é praticamente ilegível. 

 

 

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