A Roleta Russa
Eremita
Quatro homens jogam à roleta russa na mesa de um pátio. O jogo dura há cinco dias, com pequenas pausas para a higiene pessoal e sestas curtas, sem uma única morte. A notícia começa a espalhar-se. Há um ajuntamento. Surge a suspeita de que nenhuma bala está alojada no tambor e pedidos para que abram a arma, mas os jogadores recusam e desafiam quem deles duvida a sentar-se à mesa para jogar também. Ninguém o faz. Passam-se mais dois dias, a assistência não arreda pé. Mais três dias. Dois dias. Um dia. Alguém da assistência decide juntar-se. O jogo prossegue a cinco, sem alterações. Passa outro dia e senta-se um novo elemento. Ao fim de mais alguns dias os jogadores são 11 e a assistência não parou de crescer. Mais alguém decide tentar a sua sorte, puxando uma cadeira mesmo ao lado direito do que acabou de jogar. A pistola vai passando de cabeça em cabeça no sentido horário e o recém-chegado sente cada clique com impaciência. Quando recebe a arma, simula que a aponta à cabeça, mas com um gesto rápido tenta abrir o tambor. O revólver rebenta-lhe de imediato nas mãos. Um estilhaço do cano corta-lhe a carótida direita, o tambor da arma, ainda sólido depois da explosão, fura-lhe a caixa torácica e rompe-lhe o coração. Há mais surpresa que pânico. Ninguém se aproxima do corpo imóvel. A assistência começa a dispersar. Ficam os 4 jogadores. Depois de se certificarem que não há mais ninguém por perto, contam as cadeiras em volta da mesa. Três deles colocam então uma quantia indeterminada mas avultada de dinheiro sobre o pano verde. Após uma pausa, o que não havia jogado a mão ao bolso recolhe o dinheiro todo, com um largo abraço que varre a mesa por inteiro. Depois abandonam o pátio, sem arrumar as cadeiras.
