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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

01
Ago08

...


Eremita

Saí com a guitarra dentro do estojo para ir tocar no castelo. Não se vê ali uma torre de menagem, um resto de muralha, sequer uma ameia, mas por ocupar a parte mais elevada da vila é assim se referem à zona do reservatório de água moderno com uma área circundante mais ou menos ajardinada. Ali existe uma pérgula com vinha que dá uma sombra agradável e a vista sobre o Baixo Alentejo é empolgante, apetece logo conquistar Marrocos (vide Woody Allen). Ainda antes de lá chegar encontrei um velhote num banco de jardim, que mal me viu pegou numa viola campaniça e começou a tocar uma modinha. Pensei que me desafiava para uma desgarrada e sentei-me, com ideias de apenas o acompanhar. Assim foi. Copiei-lhe a harmonia básica e tocámos sincronizados durante um minuto. Depois ele disse qualquer coisa que não percebi bem (é desdentado) e começou a improvisar sobre a harmonia. Há poucas coisas neste mundo mais agradáveis do que dar sustentação harmónica a alguém, e o prazer aumenta quando a pessoa nos surpreende. O velho tinha um instinto melódico apurado, espremeu a tonalidade até ao impossível, sem nunca de lá sair. Convidei-o para tocar comigo no castelo, mas creio que me disse já não ter pernas para subir aquela rua. Espero voltar a vê-lo.

 

Subi a rua íngreme com a ligeireza de sempre. Os anos vão-me tratando bem. Se é verdade que também vão tardando outras coisas, ainda tardam a calvície e a barriga. Já no cimo, batido por uma aragem fresca, um cartaz amarrotado  atravessou-se à minha frente. Rodando sobre si próprio, galgou depois o lancil do passeio e foi pela rua transversal abaixo, ganhando velocidade até levantar voo (impulsionado pela incipiente corrente térmica do asfalto que começava a aquecer?) Assumiu então uma forma mais aerodinâmica e foi planando acima das copas das laranjeiras que ladeiam a rua. Julguei ter visto o rosto de um preto numa das suas pontas e lembrei-me de Ricardo Chibanga. Há anos que a imagem de um cartaz alado de Ricardo Chibanga me persegue, ora descolando-se, ora indo do chão para a parede, como numa sequência com a seta do tempo invertida. No cartaz desta manhã havia um preto, quase juro, mas não o Chibanga; seria por certo uma estrela de hip-hop.

 

Aguentei-me no castelo até quase ao meio-dia, estudando Villa-Lobos. Depois começou a fazer muito calor, mesmo à sombra. 

 

Fiquei em casa a ler durante a tarde. O meu irmão deixou-me a guitarra, o computador, roupa e três caixotes com livros. Tenho  12 metros de prateleiras em casa. Quanto tempo preciso de ficar aqui até ter lido 12 metros de lombadas? Comecei pelo Crimes Exemplares, de Max Aub. É o exemplo acabado de como um conjunto de boas histórias não é suficiente para fazer um bom livro. Como quase todas seguem a mesma estrutura, Aub não se limita a destruir a tensão do policial, consegue mesmo aborrecer. Julga que banalizar o crime mais horrendo chega para seduzir o leitor e aplica a fórmula ad nauseam,  mas o que o leitor interioriza não é a banalização do crime horrendo, é a banalização do método de Aub. Enfim, antes sacrificar um autor do que inocentes às mãos de um eventual leitor perturbado pelo génio do escritor. Como se não bastasse a rigidez estrutural, Aub tem insuficientes obsessões para diversificar as histórias. Quantos criminosos por intolerância com a falta de pontualidade estamos dispostos a aturar? Ainda menos do que os criminosos que não toleram gente palradora. Parece que este é um livro de culto, mas há cultos que não se entendem. Em todo o caso, perfiz  2 cm. 

 

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