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OURIQ

Um diário trasladado

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15
Nov09

Uma questão de recursos


Eremita

 

A educação de Miguel Sousa Tavares

 

Há um revisionismo de cariz ecológico capaz de encontrar na má gestão dos recursos naturais a causa última para o declínio das civilizações. A Ilha da Páscoa é o melhor exemplo. Reza assim: colonizada por umas dezenas de polinésios, durante séculos anos a civilização foi florescendo nesta ilha. No seu apogeu, teria cerca de sete mil habitantes, organizados por clãs capazes e capazes de esculpir enormes blocos de pedra, o que é interpretado como prova de riqueza tecnológica, cultural e material. Quando os europeus lá chegaram,  só já encontraram três mil nativos, que moravam em grutas, viviam em luta permanente e praticavam o canibalismo. Ao longo dos últimos séculos, a população definhou ainda mais, esta ilha pobre nunca viria a despertar realmente o interesse de colonizadores - o turismo é recente- e hoje  só resta uma pequena aldeia de nativos. O que causou o declínio desta civilização? Para uns foi a desflorestação provocada pelos nativos. A Ilha da Páscoa tem hoje poucas árvores, mas porque a floresta foi diminuindo, para aumento da área de exploração agrícola e - é aqui que a imaginação perde contacto com a realidade, para benefício da narrativa - fornecimento dos troncos indispensáveis à movimentação das estátuas. Sem floresta, deixou de haver madeira para construir casas, apodreceram as canoas capazes de chegar ao mar alto e o solo ficou mais exposto à erosão e à drenagem dos seus nutrientes. A escassez de alimentos conduziu então os clãs à guerra, à prática da escravatura e ao canibalismo. Eis o exemplo típico da ascensão e colapso de uma civilização vítima do seu próprio crescimento. Controverso? A controvérsia nunca impediu ninguém de retirar ensinamentos, apenas promete ensinamentos futuros, igualmente assertivos.

 

Desculpem a ousadia de contrariar o John Donne de "no man is an island", mas posso assegurar que qualquer eremita tradicional é uma Ilha da Páscoa - assim metonimicamente, bem entendido. O eremita tradicional não fez das relações sociais o que os habitantes da Ilha da Páscoa fizeram da floresta. O eremita tradicional fez da solidão o que os habitantes da Ilha da Páscoa fizeram da floresta. Naturalmente, o eremita tradicional entra em colapso  - há quem enlouqueça, quem se atire de um penedo e quem acumule. Convém pois frisar esta ideia, até por razões de saúde pública: o verdadeiro recurso que o eremita pretende preservar é a solidão, não são as relações sociais. Ora, a prática continuada e rigorosa da solidão esgota-a como recurso. Um recurso, por definição, é algo a que se recorre para saciar uma necessidade. Se a solidão se torna uma rotina, deixa de existir como recurso. Trata-se de um princípio universal e que não precisa de gravitas: é também a ausência de um corte de cabelo que possibilita recorrer aos efeitos regeneradores de um corte de cabelo. Daqui se extrai um paradoxo inevitável: o eremita da nova geração - por oposição ao seu congénere tradicional que vivia no ermo e apedrejava os visitantes - tem a obrigação de defender a vida em sociedade e de a praticar episodicamente, de um modo que lhe pareça tolerável, sob pena de esgotar o seu recurso vital. É só por isso que o Ouriquense existe.

 

 

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