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OURIQ

Um diário trasladado

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27
Nov09

A Tordo e a direito


Eremita

Há frases incompreensíveis em Hotel Memória, livro de João Tordo: 

 

"A cidade, lá fora, acendia e apagava como um bolo numa festa de aniversário."

(página 79)

 

Nota-se que Tordo pertence à geração das velas de anos de chama persistente, mas convém lembrar que o bolo, em si, não acende nem apaga. Aliás, mesmo a imagem da vela é muito tosca. Um néon perto da janela pode acender e apagar, mas a cidade como um todo não acende nem apaga. Ou melhor, acende às 7 da tarde e apaga às 7 da manhã. Também acende e apaga ao ritmo do movimento das pálpebras, como é do conhecimento geral. 

 

Há frases péssimas:

 

"não era um sono leve; era um sono de mil toneladas, acompanhado de um ressonar intenso."

(página 70)

 

Esta citação tem quase uma dimensão fractal, pois capta o principal defeito da escrita de Tordo: too much information. Existe o nanny state e existe Tordo, o nanny writer. Não conheço outro autor que facilite tanto a vida ao seu leitor. Tordo avisa-nos até de que chegou a altura de ler todos os parágrafos: "é aqui que tem início a parte mais obscura desta história" (página 77). Não sei se estamos perante um futuro grande escritor, mas tenho a certeza de me ter cruzado com um gajo porreiro.

 

Há frases batidas:

 

"Quando me vim dentro dela, com a voracidade de um furacão..."

 

O Ouriquense não admira escritores com medo de escrever sobre o acto sexual, só que Tordo escusava de ser um gajo porreiro até para o José Rodrigues dos Santos, que faz parecer um escritor interessante. O furacão é voraz? É, engole vacas e telhados de casas prefabricadas, mas, tanto quanto posso recordar, há uma incompatibilidade entre as manifestações físicas de um furação e as de uma ejaculação. Enfim, consigo reconstituir o  encadeamento lógico que passou pela cabeça de Tordo: "ora bem, como seria batido usar a imagem do vulcão, a que outros cataclismos posso recorrer? Avalanches? Terramotos? Furacões? Ah, o furacão tem uma decomposição fonética interessante e que posso usar para reforçar subliminarmente a ideia de violência: "fura" remete para a dor e "cão" para o bestialismo. Avalanche? Avalanche remete para os desenhos animados da Heidi [o jovem Tordo viu a reposição da série]." Mas refira-se que a mulher invadida pelo furacão não levantou voo em rodopio, nem é  por quem o narrador se apaixona - é só uma tipa qualquer. Neste pormenor, Tordo distancia-se de Rodrigues dos Santos e revela-se um homem sensível, ou seja, confirma que é um gajo porreiro. Tordo é mesmo dos gajos mais porreiros que tenho lido. 

 

Há estrangeirismos:

 

"... um tempo razoável entre o assassinato... " (pág. 169)

 

Há ainda um impressionante número de "explosões faciais".  (perdi essas notas)

 

O cherrypicking é uma técnica injusta e convém acrescentar algo mais. Hotel Memória cumpre como romance de jovem escritor, mas não é um bom romance - passo o paternalismo. A técnica narrativa de Tordo está demasiado presente e, em vez de libertar, aprisiona. A terrível história de expiação que abre o livro nunca chega a ser matéria para uma reflexão profunda e o Tordo deste livro não é o escritor de dramas psicológicos com o fôlego que o tema exige, mas um cultor de tramas, reenvios, guinadas, que realiza com competência. Tordo é um escritor ambicioso, mas também - suspeito - o produto típico das escolas de escrita criativa. Não há neste livro um cuidado especial com a linguagem, nem um estilo idiossincrático; ele domina o português, mas não acrescenta. Também não se sente uma obsessão que pareça genuína. Na verdade, são raros os momentos durante a leitura de Hotel Memória  em que não está exposta a receita que Tordo segue. Em parte, isso resulta de um excesso de confiança do escritor nos méritos do protocolo. Uma das personagens do romance (Daniel da Silva) é um fadista e as passagens sobre fado são as que melhor revelam o calcanhar de Aquiles de Tordo. Ele terá feito a sua "pesquisa", mas saiu-lhe demasiado sumária e surge no livro mais regurgitada do que digerida, daí resultando uma prosa de Lonely Planet, que talvez passe numa tradução mas que é intragável para qualquer português, mesmo aqueles que não apreciam este género musical. Também os dois homossexuais, sobretudo o russo (Samuel) que tem uma paixão impossível por Daniel, parecem caricaturas quando descritos pela sua homossexualidade, ficando a ideia de que Tordo quis sobretudo dar umas pinceladas  com um certo colorido.

 

As melhores passagens de Hotel Memória têm álcool ou opiáceos. Tordo sabe escrever sobre a dependência química. É curioso notar que, ao invés do irritante hábito de citar o nome de todas as ruas de Nova Iorque sem descrever ambientes, omissão que reduz aquele espaço urbano ao seu estereótipo universal, as suas descrições de bebedeiras captam bem as impressões que guarda daquela cidade quem por lá se chegou a embriagar. 

 

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