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Um diário trasladado

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02
Nov09

Cachapa e as virtudes dos subsídios estatais


Eremita

Sem pretender chocar os escravos do cânone ocidental, declaro ler prosa de escritores portugueses contemporâneos que não vivem no Conde Redondo nem em Lanzarote. É raro acabar um livro, mas trata-se de um problema que também tenho com o cânone. Talvez por isso, ter concluído o A Materna Doçura, do Cachapa, é significativo. Com a autoridade conferida pela minha muito incompleta e apressada amostragem da nova prosa lusitana, declaro que o A Materna Doçura é o melhor livro português dos últimos anos, uma síntese feliz da racionalidade destituída de vida de Gonçalo M. Tavares (dele só li alguns textos curtos) com o sentimentalismo acéfalo de Inês Pedrosa (dela só li o título de Fazes-me falta e algumas crónicas). A ideia que percorre o Materna doçura é tão boa, mas tão boa, que é uma pena ninguém ter aconselhado o seu autor a orientar a carreira para revisões sucessivas desta sua obra (há algumas arestas a limar). Talvez assim se tivesse evitado um livro com um título estranhíssimo (Segura-te ao  meu peito em chamas) e outro  (Rio da Glória) que dizem ser uma crítica a uma certa escritora light fornecida num pacote que inclui uma viagem ao Brasil. É trágico mas bate certo. Creio que o A Materna Doçura foi escrito quando Cachapa era bolseiro. Anos depois de a bolsa acabar, Rio da Glória parece ser vítima de um raciocínio economicista primário: piscar os olhos ao maior mercado lusófono e parasitar o estilo que mais vende. Naturalmente, só podia sair merda. 

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