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OURIQ

Um diário trasladado

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07
Out09

Ler


Eremita

A revista Ler também chega a Ourique. Seguem-se algumas notas sobre os seus cronistas residentes.

 

Eduardo Pitta realiza na crónica a antítese do Borda de Água.  É gritante o contraste entre a pluviometria de mérito duvidoso desta publicação e o rigor com que Pitta cita, referencia e enumera. A enumeração, em particular, é o primeiro grande traço distintivo da prosa de Pitta enquanto cronista. Para ele, o "etc." é displicência. E percebe-se no rígido critério que segue para enumerar (a data de nascimento, salvo erro) que estamos perante uma das cabeças mais bem arrumadas da nação. O segundo traço distintivo da prosa de Pitta enquanto cronista é a exploração do choque de classes. Como poucos, ele percebeu que épater la bourgeoisie já não se consegue atacando-a pelos lados, com os excessos de uma vida marginal, nem por baixo, com a recordação da miséria, mas pelo topo, com referências explícitas à classe alta. Certos apartes de Pitta são como a sirene do Stuka alemão, que causava mossa psicológica antes de largar a bomba. Como resumir esta complexidade? Talvez dizendo que o cronista traçou a bissectriz entre os decadentes franceses e os estetas ingleses e depois aplicou-lhe uma rotação de 180 graus. Trata-se de um gesto técnico de elevada dificuldade e que não se recomenda ao neófitos, mas Pitta não se tem dado mal. 

 

Abel Barros Baptista materializa-se pela leitura. Em Portugal, não conheço outro caso idêntico. Uma pessoa inicia a leitura e o Abel - ping! -aparece ao nosso lado, a menos que não haja um assento confortável. Lê-lo é sempre um prazer, mas também um desafio. A leitura vive do diferencial de inteligência concentrada por unidade de tempo entre o escritor e o leitor. É esse diferencial que se compra e se preserva nos livros.  Por isso, o escritor não tem de ser mais inteligente do que o leitor, basta que se esforce o suficiente. Aquilo que fascina e, de certa forma, chega a incomodar em Abel Barros Baptista é o seu gozo em controlar esse fluxo. Há nisso alguma perversão, porque ele deixa sempre a ideia de que não nos deu tudo. Ou que escreveu praticamente ao ritmo da nossa leitura, pelo que não o perceber de imediato denuncia a inferioridade do leitor. É grande a subtileza e maior a originalidade nesta mania do Abel. Uma subtileza que deixa a milhas os cronistas incapazes de revelar a sua inteligência sem recorrer à arrogância  - Pulido Valente, Pereira Coutinho, etc. - e uma originalidade suficiente para parir uma ideia nova num texto sobre fumadores, feito que, por contraste, expõe a aridez da imaginação de Miguel Sousa Tavares.

 

 

Pedro Mexia não deve desperdiçar o seu talento em exercícios que não digam respeito à sua pessoa ou aos livros importantes. O problema não é ele ser mau noutras digressões, pois consegue uns folgadíssimos mínimos olímpicos, mas sim ser tão bom nas suas modalidades de eleição, em que acumula records. Como se não bastasse, na sua crónica neste número da Ler escolheu um péssimo alvo. O Jazz tem os seus standards, que são eternos, mas este conceito funciona mal para as anedotas e para a maledicência. Dizer mal de Laurinda Alves é coisa para blogues e não para uma revista de literatura. Mais: é coisa para os blogues de anónimos.

 

Jorge Reis-Sá lembra-me o Serginho da selecção canarinha do mundial de 1982. O Serginho foi provavelmente o pior avançado que alguma vez vi jogar. Como chegou ele ali? É um mistério que perdura. Sem deixar antes de  recordar que o Ouriquense é um blogue de um anónimo, também não se percebe como Reis-Sá chegou onde chegou. Há na Ler uma tendência algo palerma  para o exercício literário de curso de escrita criativa. O Agualusa tem as suas trips de pastiches pífios, o Mexia dedica-se aos livros maus e o Reis-Sá teve uma péssima ideia. Da coluna O bem e o mal só se pode dizer o pior. A ideia é má porque Reis-Sá, ao dizer algo e o seu contrário, suicida a sua opinião, isto é, mata metade do interesse de uma crónica. E o que sobra é muito pouco, pois ele não tem recursos para corrigir o que nasceu torto. O resultado são duas  composições da primária. Um dos meninos diz que gosta da vaca porque a vaca dá leite e o outro menino diz que não gosta da vaca porque a vaca come as ervinhas. Infelizmente, parece não haver quem dê a ambos os meninos umas valentes reguadas. 

 

Rogério Casanova leva a Ler às costas. O grande desafio de Francisco José Viegas está em conseguir que Casanova vá escrevendo cada vez mais páginas sem melindrar os outros escribas. Não é uma empreitada fácil, mas temos o direito de sonhar com uma edição especial da revista totalmente escrita por este crítico.

 

(continua)

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