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OURIQ

Um diário trasladado

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23
Set09

Espanhola espoleta reflexão


Eremita


Os ecologistas gostam de ilustrar a diversidade de espécies de uma determinada região com representações gráficas do número acumulado de espécies novas observadas (nas ordenadas) em função do número de amostras recolhidas, do tempo de observação ou da área estudada (nas abcissas). Em qualquer destes três casos, a curva de acumulação de espécies novas tende para um plateau. Por outras palavras, com o aumento das amostras recolhidas, do tempo dedicado à observação ou da área inspeccionada, mais difícil vai sendo observar uma espécie nova. Ao produzir estes gráficos, o ecologista não determina o número absoluto de espécies, mas pela medida do esforço necessário para observar mais uma espécie nova fica com uma estimativa desse valor e pode decidir, de forma informada, se vale a pena continuar o estudo ou se deixou de valer a pena prolongá-lo. Tudo isto é trivial. O problema é o seguinte: a curva de acumulação de mulheres bonitas que se vão cruzando na vida de um homem nunca atinge o plateau. Como explicar isto?

 

Se Ourique fosse um ecossistema, a espanhola que vi ontem no café passaria por tartaruga tropical desorientada  a dar à costa numa qualquer praia do Atlântico Norte. E se eu fosse dado a misticismos, diria que o ano de intervalo entre as aparições da "Mila Jovovich" e de esta espanhola tem um significado profundo. Não sendo essa a minha natureza, concluo apenas que estes são eventos raros em Ourique. Talvez se comece aqui a desconstruir o paradoxo. Quando é preciso um ano para acrescentar uma mulher bonita à colecção, o plateau foi atingido. Está pois errada a formulação anterior. Em termos objectivos, o homem acumula mulheres bonitas como o ecologista acumula espécies. Aos trinta e tal anos, um homem com uma existência normal terá chegado ao plateau. É apenas a sua percepção que difere da percepção do ecologista. O ecologista pode adorar a natureza, mas também pretende dar o seu trabalho por terminado. Para ele, a aproximação ao plateau corresponde a um esgotamento da sua paciência. O ecologista passa então a preferir repetir as observações, ao invés de desejar identificar novas espécies (a menos, claro, que se trate da descoberta de uma nova espécie, isto é, um ser vivo nunca antes descrito). No fundo, o ecologista quer reforçar o plateau. Com o homem e as mulheres bonitas a situação é distinta. A aproximação ao plateau não se traduz numa perda de paciência, é antes uma tragédia e um dos melhores exemplos da terrível definição de experiência que Vergílio Ferreira nos deixou. Salvo lapso de memória, para o escritor a experiência era desautorização progressiva daquilo que nos entusiasmou. É neste estado mental que a visão inesperada de uma mulher bonita deve ser entendida, isto é, como um instante regenerador que devolve a esperança e nega a realidade, ou seja, a experiência. O plateau também existe para o homem, mas  bastará uma inesperada espécie nova para ele sentir que tem diante de si uma floresta virgem. 

 

 

 

 

 

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