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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

20
Set09

V


Eremita


John Coplans



30.03.08
Se um autocarro com membros de uma orquestra sinfónica se despenhasse, por mais minuciosa que fosse a inspecção aos cadáveres seria impossível identificar quem tocava o quê. O exercício também é válido para uma orquestra filarmónica, para um grupo de música barroca e uma big band. Mas se no autocarro em que viajava a orquestra estivesse também o concertista que com eles acabara de interpretar a Fantasia para un Gentilhombre, não seria preciso um detective para o identificar; bastaria olhar para as mãos de todos eles.

 

Não há na civilização ocidental registo de um tocador de tuba enfezado, mas também os talhantes podem ser robustos. As bochechas de Dizzy Gillespie eram idiossincrasia e não traço distintivo da classe dos trompetistas. Maria João Pires tem umas mãos pequenas. Com a ressalva de me escapar outro, só conheço um instrumentista que molda o seu corpo ao instrumento. É o guitarrista.

 

Em rigor, as unhas de um guitarrista são mais instrumento do que corpo. É como se parte da guitarra ficasse agarrada às mãos. Por crescerem continuamente, as unhas precisam de ser limadas, mas também o instrumento requer tratamento. Sendo as unhas a menos orgânica das estruturas externas do corpo e sendo a madeira o mais vivo dos materiais inertes, o dedilhado restaura a ordem natural das coisas.

 

Quando me perguntam se toco guitarra, procuram apenas uma confirmação. Mais perspicaz foi a rapariga que descobriu vergonha no meu hábito de ter os dedos recolhidos num perpétuo punho frouxo, para assim esconder as unhas. Estava era equivocada. O problema não é a imagem horripilante das mãos de um homem com unhas compridas, antes o desconforto de quem sabe que não é um guitarrista de verdade e que, por isso, não merece exibir as unhas que tem. É vergonha, sim. Mas não é a vaidade, são os remorsos.

 

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