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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

22
Set09

Um dia no prostíbulo


Eremita

 Ou como perdi a virgindade pela segunda vez  (a 11 de Setembro de 2009)

 

 

 

Sempre tive uma opinião multifacetada sobre a prostituição. O homem da esquerda moderna que há em mim sente-se tentado a tratá-las por "trabalhadoras sexuais". O cosmopolita que também cá anda opta por "meninas" ou até "meretrizes". Isto quando consigo calar o "putas", tarefa difícil, pois o moralista é o mais rápido dos três.  O primeiro preocupa-se com a moldura legal do ofício. O segundo pretende melhorar a oferta. E o terceiro quer, no fundo, que vão todas para a puta que as pariu, assim redundantemente, porque minam a ideia de paixão. Nunca consegui discutir a prostituição com outra pessoa, porque essa pessoa está sempre a mais. Parafraseando o poeta: putas, questão que eu tenho comigo mesmo. Passemos pois aos aspectos autobiográficos. 

 

 

Excluindo os objectos inanimados, na minha infância tive três paixões proibidas. Da primeira não posso falar porque essa pessoa ainda está viva. A segunda foi por um tenista sueco - sendo estrangeiro e famoso, para o caso podemos dá-lo por morto. A terceira foi por uma prostituta de bairro, que se especializara em pernetas motorizados. A rapariga fizera-se com formas que nem o Fellini teria sido capaz de enquadrar. Ela topava o meu desejo e brincava comigo, mas nunca procurou aliciar-me. Sabia-se para maiores de 16 anos. Foi a primeira mulher que segui na rua, sempre à distância de um ângulo de esquina por abrir. Viria alguns anos depois a repetir a graça em Budapeste e desconfio que a moça também se dedicava ao ramo, mas não é possível apurá-lo. Devemos agora explicar a escolha de Badajoz.

 

 

 

Na minha infância, a Espanha era importante, entre outras razões, por ser o país em que se podia roubar nos supermercados, nomeadamente, bisnagas de leite condensado.  Cruzar a fronteira era, também, pisar o risco. Como se sabe, esta forma de ostracizar in situ e na hora a transgressão alicerçou a formação cívica de toda uma geração. E não se inventou ainda observatório capaz de avaliar o lento decaimento moral que resultou do fim dos postos fronteiriços entre os dois países ibéricos. Em suma, a escolha de Badajoz, mais do que um anacronismo, é um atavismo.  Mas detalhemos as motivações para a viagem. 

 

(Continua)

 

 

 

 

 

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