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OURIQ

Um diário trasladado

OURIQ

Um diário trasladado

24
Mai19

AMÍGDALA


Eremita

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AMÍGDALA (s.f. do gr. amygdále, pelo lat. amygdàla, amêndoa). 1. Imunologia Orgãos linfóides da garganta cuja função principal é pagar as prestações das casas de praia dos otorrinolaringologistas 2. Desenvolvimento e senescência Atingem o tamanho máximo na puberdade e tendem a atrofiar depois, tal como o talento (e os cabelos) de tantos jovens actores, em rigoroso contraste com a sua ginecomastia. 3. Cirurgia e prevenção dos acidentes de trabalho A remoção das ~ é aconselhável quando interferem com a respiração (ver adenoidismo) ou a ingestão de alimentos (ver deglutição), bem como entre actrizes de filmes para adultos (ver, mas fora do escritório) 4. Neurobiologia Designa também um núcleo cerebral com papel fundamental no processamento das emoções, em particular o medo. Em caso de atrofia, o indivíduo não reconhece o perigo, daqui se concluindo que a coragem é um sintoma patológico. Assim se compreende também que um dos cognomes de Humberto Delgado - "General sem Medo" - tivesse sido transmutado com recurso a referências anatómicas características, do popular e brejeiro - "General com Tomates", ao mais escolástico e de circulação restrita - "General sem ~" 5. Zoologia e Parentescos A ~ cerebral é extremamente reactiva a estímulos externos, hipertrofiando diante de um animal feroz ou de uma sogra, entre outros exemplos.

24
Mai19

Louis CK no Maxime


Eremita

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Por viver em Ourique e necessidade de cumprir a condição de eremita, conto com o moço de recados para absorver o cosmopolitismo lisboeta. Esta noite ele estará no Maxime para assistir ao espectáculo de stand up de Louis CK, provavelmente o melhor comediante de sempre no subgénero do humor sobre a paternidade. Veremos se haverá ânimo para desenvolver o tema nos próximos dias.

24
Mai19

O Adónis da Bavária (18)


Eremita

bola velha.jpg

A aversão que tive por marcas chegou ao ponto de arrancar as etiquetas da roupa, um acto com uma ideologia subjacente e conscientemente estúpido. Um único nome resistiu a tal purga: Adidas. Ainda hoje é a única marca desportiva que me atrai. Era costume imaginar uma fábrica imensa da Adidas na Europa central, a regurgitar chuteiras e ténis Nastase 24 horas por dia. Os meus operários tinham a fisionomia e o arcaboiço bem torneado que via nos murais, mas não eram torneiros mecânicos da Lisnave nem gente da Marinha Grande; não sopravam o vidro, enchiam bolas de futebol. Muitas vezes sonhei que espreitava a fábrica do cimo de uma colina, ponto alto de uma aventura pela Europa a cravar boleia a camionistas e a enfiar-me dentro de carruagens de mercadorias. Consigo hoje imaginar sem dificuldade formas mais estimulantes de um miúdo gozar a clandestinidade na Europa Central. Em minha defesa, só posso lembrar que não escolhemos os sonhos. De resto, não falo de uma idiossincrasia. O fascínio pela Adidas era epidémico. Um colega tinha uns Nastase perpetuamente imaculados e pregava longos sermões em quem tivesse estado perto de os sujar. Este rapaz falava com os ténis e dera-lhes não sei se um ou se dois nomes próprios. Conheço uma mão-cheia de outros casos a roçar a demência.

 


Pensar na Adidas comporta alguns riscos, como se alguém tivesse indexado uma série de recordações a esta palavra, sem discriminar entre as que são delicadas e aquelas perfeitamente inócuas. Fico agora a pensar nuns calções da Adidas azuis-escuros com riscas brancas. Foi no Verão, fazia um calor insuportável e jogávamos à bola na praia mas longe do mar. O tipo dos calções era alemão. Sem que pudesse perceber o que estava a acontecer, de repente pareceu-me tratar-se de um belo rapaz. Gostei de o ver com os calções, fixei-lhe as coxas bronzeadas, quase não mais olhei para os outros. Temendo que notassem o meu interesse, optei logo por abandonar a partida, inventando uma desculpa qualquer. O episódio perturbou-me. Ainda não tinha currículo sexual, provas dadas. Assumia-me como heterossexual, claro, gostava de raparigas, mas talvez como se gosta de bichos exóticos; do Mico Leão, por exemplo. Não havia propriamente tensão erótica. Era ainda um miúdo quando o Adónis da Bavária apareceu a estragar-me as férias grandes. No regresso à escola vinha com a atenção redobrada e muita apreensão. Por sorte, era tradição começarmos o ano lectivo logo com uma peladinha depois das aulas. A entrar pelo meu corredor surgiu então um tipo com os mesmo calções azuis da Adidas, um ar também germânico, forte e loiro, arianíssimo mas ainda bronzeado da praia. Só podia ser um teste, mas não comentei a coincidência por falta de cúmplice. No momento capital envolvemo-nos numa disputa de bola em corrida e caímos um sobre o outro. Nos instantes de lucidez que se seguiram senti-me cientista e cobaia partilhando o mesmo corpo. Apressei-me a registar mentalmente todas as impressões daquele contacto físico: uma dor lombar, um insuportável cheiro a suor masculino, uma total falta de delicadeza, um desconforto geral, mas apenas físico. No resto, só indiferença. Sorri de contentamento quando ele ainda estava por cima de mim. O rapaz estranhou e levantou-se logo, a marcar-me com o sobrolho carregado. E eu a sorrir, sempre a sorrir. A minha orientação sexual resolveu-se naquela tarde. O que fazer com as recordações que envelhecem mal, como este alívio, hoje datado?  Sou pela inviolabilidade da memória. Daí a uns meses a Cristina entraria na minha vida e começaria a sofrer do desgosto de amor. 

24
Mai19

Luís Soares


Eremita

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Dino Kužnik

O grande êxodo para o Facebook deixou os blogs num estado desolador, se tivermos por comparação o entusiasmo e exuberância de 2003-2006. Tenho procurado blogs novos com algum método e quase nenhum me atrai. Vejo muita prosa infantil, muita temática feminina, quase toda a gente aprisionada pela actualidade e as celebridades nacionais, alguns blogs semiprofissionais de merchandising que promovem trapos, cremes e experiências, blogs de opinião política cristalizada ou comatosa, alguns blogs sobre livros, mas sem crítica, e blogs com piadas e memes, claro, porque hoje já não seremos todos Charlie, mas somos todos humoristas. Porém, de vez em quando, aparecem uma pérolas que abrem o horizonte. Recomendo o blog de Luís Soares, nomeadamente os posts sobre fotografia. 

 

23
Mai19

Ainda se lembram?


Eremita

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fonte

No dia 21 de maio de 2003 o absurdo triunfou sobre a minha vida.


Foram precisos quinze anos, as várias instâncias judiciais portuguesas e a proteção da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, para que pudesse finalmente triunfar eu sobre esse triunfo do absurdo, que se materializou na decisão de me prender por crimes que não cometi, recorrendo a indícios que o não eram, negando-me o acesso aos meios de prova que permitissem refutar as imputações que me eram feitas.


No fim fez-se justiça. Mas não sei sobre quantas pessoas o mesmo tipo de absurdo que transformou a minha vida numa outra vida, também minha, mas não a mesma, vai triunfar hoje. Fonte

22
Mai19

Realismo mágico (17)


Eremita

bola velha.jpg

Nunca consegui passar dos 124 toques na bola sem a deixar cair. O número é embaraçoso. Não abro o Guinness Book há anos, mas o recorde deve andar pelos quatro dígitos. No bairro havia quem chegasse aos 1000 toques. Eu dominava os rudimentos do malabarismo: manter a bola baixa, quase colada ao pé, e estar sempre equilibrado, enquadrado com o esférico. Manter a bola baixa não melhora apenas o controle; aumenta o número de toques por unidade de tempo. E o tempo é importante. Aliás, ainda hoje defendo que o recorde de toques na bola é definido menos pelo domínio técnico do que pela resistência ao tédio ou, se se preferir, a capacidade de concentração. Sucede que esta é uma opinião sem suporte empírico. Como se verá.


Um dia resolvi desafiar um amigo para um duelo de toques. Escolhi-o a dedo: um tipo melhor do que eu mas de excepcionalidade improvável, rapaz para valer talvez uns 200 toques em dia inspirado. Perdi o primeiro embate (198 a 67), o segundo (167 a 90) e antes do terceiro fiz deslizar o meu trunfo da manga: "e se fôssemos contando uma história enquanto damos toques?". Fez-se silêncio e esperei pela facada óbvia em quem expunha o flanco: " bem, tu apenas terias tempo para uma anedota curta...". Mas não. Ele concordou sem se alongar. Era de poucas falas. Na minha cabeça a disciplina que contar uma história implica faria com que eu não cedesse à vadiagem mental que a partir dos 50 toques me atacava e, pelo contrário, perturbaria o meu adversário, incapaz de encaixar a bivalência e de se acomodar à novidade. O preconceito óbvio era que eu seria um "criativo" e o meu adversário um burocrata. Comecei eu, num arranque prudente ao décimo toque, com um "era uma vez..." Não passei dos 45. A história saiu pífia e ficou por concluir. Depois foi a vez dele. Ao quarto toque soltou para o ar: "a vinha foi o presente envenenado que inquinaria quatro gerações e num século conduziria os Andrade à decadência moral e financeira..." Aos 350 toques ainda eu não conseguira fechar a boca de espanto. Diante de mim revelava-se um génio do realismo mágico, que improvisava uma história em flashbacks múltiplos e fazia a trama correr sem hesitações pelas quatro gerações dos Andrade, metendo bruxaria, animismo e nunca trocando os nomes. Nem deixando cair a bola. Havíamos começado pouco depois de almoço. Ao crepúsculo eu ouvia - com irreprimível interesse- a descrição da melhor colheita de sempre dos Andrade. Os Andrade prosperavam, tinham um futuro risonho pela frente e só mais três horas de narrativa poderiam levar aquela história idílica aos abismos antecipadamente descritos. E ele nas calmas, com 4600 toques, sem sequer se excitar nas partes que envolviam o Andrade patriarca e a criadagem mestiça e viçosa. Um génio. 5000 toques. Quando o chamaram da janela para que fosse jantar, passou-me a bola com o pé e eu tentei dominá-la no ar, mas desequilibrei-me. Ele então olhou-me com candura e o que disse foi sincero: "se quiseres continuo amanhã e fazemos disto um folhetim".

22
Mai19

A Operação Marquês e a persistência de uma alucinação


Eremita

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Graças ao instinto político de Costa, o PS resistiu bem à Operação Marquês e à prisão de Vara. O PS governa, vai ganhar as Europeias e discute-se hoje se chegará à maioria absoluta nas legislativas. Com o passar do tempo, é cada vez mais improvável que venha a ser prejudicado pelo julgamento que se avizinha e terminará sabe Deus quando. Na parte dos abusos que foram cometidos pela Justiça e no julgamento antecipado na praça pública, o Valupi tem razão. No impacto do "julgamento político", o Valupi nunca teve e nunca terá razão. Isto é tão óbvio e a insistência tão contraproducente que só se pode explicar por uma alucinação induzida pela escrita ad nauseam do mesmo texto

 

 

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