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OURIQ

Um diário trasladado

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Um diário trasladado

20
Jan20

Helena Matos: um caso mental


Eremita

«O facto de ter havido sensivelmente ao mesmo tempo outra morte de um jovem no Campo Grande, em Lisboa, que resistiu a um assalto e foi esfaqueado – e cujos alegados responsáveis foram detidos uma semana depois – , ajuda a explicar, no entendimento de Inês Amaral, alguma reacção das redes sociais a um alegado silenciamento do caso de Giovani.» ESTA É A SEGUNDA QUESTÃO QUE O TEXTO LEVANTA: O QUE SE QUER DIZER COM ISTO: “resistiu a um assalto e foi esfaqueado”. PRETENDE-SE QUE A CULPA POR TER MORRIDO É DA VÍTIMA?  Helena Matos, Blasfémias

Preciso da vossa ajuda. Será que alguém lê na passagem "que resistiu a um assalto e foi esfaqueado" algo mais do que informação neutra que apenas ajuda o leitor a recordar o caso? É um dúvida sincera. Não me interpretem mal: creio que ainda está por esclarecer se houve bom jornalismo no caso da morte de Giovani e conto voltar ao assunto. Apenas gostaria de poder concluir já que, mesmo num caso em que até poderia ser a voz sensata, Helena Matos consegue a proeza de escancarar o seu preconceito e perder a razão. Não me lembro de outro exemplo recente  que supere este na pornografia jornalística.

 

18
Jan20

Ainda havia juízes em Berlim. E jornalistas, ainda há?


Eremita

morte de Luís Giovani dos Santos Rodrigues, estudante cabo-verdiano, de 21 anos, da Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo do Instituto Politécnico de Bragança, em 20 de dezembro de 2019, na cidade de Bragança. tem sido mal contada. Por motivo da investigação policial? Não. Pois, de outro modo a polícia não se apressaria a informar os média que o crime estava associado a um motivo fútil e não a ódio racial... Então, porque não se conta  a história toda? Por o crime não se enquadrar na narrativa politicamente correta. (...)

Um amigo cabo-verdiano de Giovani foi empurrado propositadamente no bar Lagoa Azul, na cidade de Bragança, contra uma rapariga por um elemento de um grupo de rapazes ciganos, que têm provocado desacatos na cidade. Balbino Caldeira, Do Portugal Profundo, 8.01.2020

É verdade que o Facebook está a eliminar todos os posts e a suspender as contas de utilizadores que lincam o post Do Portugal Profundo “O assassínio de Giovani e os racismos”, sobre o homicídio do jovem cabo-verdiano Luís Giovani dos Santos Rodrigues?

Há que ter em conta o seguinte, ensina a história da blogosfera que o Balbino Caldeira, autor do Portugal Profundo, não escreve sem ter a certeza. Helena Matos, Blasfémias, 10.01.2020

A PJ esclarece que, ao contrário do que circula nalguns meios, os suspeitos não pertencem a uma  minoria étnica. “Não é um grupo de ciganos contra um  grupo de cabo-verdianos”, enfatiza. “São pessoas normais, vulgares.” Têm entre 22 e 34 anos. São trabalhadores indiferenciados. Alguns estão desempregados. São amigos ou, pelo menos, conhecidos uns dos outros. Foram tomar um copo ou dançar naquele bar naquela sexta-feira à noite. Terão agido, em grupo, por motivo torpe ou fútil. Público, 18.01.2020

10
Jan20

Rudimentos de estética


Eremita

O que apetece dizer, para encetar uma possível discussão com estes detractores, é que de facto eles têm toda a razão. Mas a razão que têm já tem mais de dois séculos, já a encontramos na Estética de Hegel, quando ele afirma que a obra de arte não é, para o homem moderno, a aparição concreta do divino, já não põe ninguém em êxtase, mas é apenas uma ocasião privilegiada para pôr em acção um juízo crítico sobre a arte que tem tanto valor como a própria arte. A verdade suprema da obra de arte, aquela que Hegel dizia ter chegado ao seu fim, enunciando assim o axioma conhecido como a morte da arte, é agora o puro princípio criativo-formal. Podemos dizer isto de outra maneira: a arte do nosso tempo obriga-nos sempre a colocar o negativo da arte, a não-arte, no seu horizonte. Sim, é verdade, a escultura de Pedro Cabrita Reis, assim como toda a arte desde os finais do século XIX, volta para nós a sua face obscura (mesmo que sejam vigas de ferro pintadas de branco) fazendo-nos ver que não é possível nenhum juízo crítico que não tenha em conta esta junção da arte com a sua sombra, com a não-arte. E é só a partir deste princípio que podemos começar a discutir criticamente a peça de Cabrita Reis na Leça da Palmeira (assim como grande parte do corpus da arte moderna e contemporânea). Vir para os jornais dizer “isto não é arte” é mais ou menos o mesmo que chegar a uma festa muito depois de todos os convidados já se terem ido embora (e, dessa festa, já só guardarem uma memória melancólica) e começar a gritar: “Que fraude, a festa para que fui convidado afinal não se realizou, o que vejo à minha frente não tem nada de festivo”. António Guerreiro, Público

09
Jan20

Paulo Tunhas


Eremita

Em tempos já longíquos, o maradona (o blogger) escreveu que via futebol por causa dos pormenores. O que são os pormenores? Para o maradona, no caso do futebol, suponho que sejam subtilezas tácticas, detalhes pouco evidentes para quem não percebe nada de bola mas estruturantes. Para mim, no caso das leituras que faço à direita, são pequenos aspectos óbvios para toda a gente mas irrelevantes. Hoje, em Por Trump, Paulo Tunha faz um daqueles exercícios de contrarian à força em que tenta defender o narciso patológico que é Donald Trump. Não me apanharão a levar a sério a defesa de Tunhas. Qualquer cronista que, por insegurança, inabilidade ou precipitação, denuncie o objectivo de provocar a esquerda perde para os cronistas de direita e conservadores mais seguros que já ultrapassaram o complexo da discriminação e escrevem de uma forma muito mais arejada, ousada e interessante. Reparei apenas que o cronista dedicou algum tempo a explorar o filão que são as lombadas de quem resolve comunicar com o mundo usando a sua biblioteca pessoal como pano de fundo. Foi o suficiente para ler a crónica até ao fim. O gosto que maradona revela pelos pormenores fizerem dele um virtuoso entusiasta da bola, mas no meu caso só descubro vícios. Tunhas faz a apologia de Trumm e dou comigo a avaliar apenas a sua competência para explorar uma ideia divertida. A vítima de Tunhas foi Luís Costa Ribas, o homem da SIC nos EUA, que aparentemente tem entre as suas lombadas uma de um livro do próprio Costa Ribas. A ideia do cronista foi "excelente". A execução leva um "bom menos". Porque o zoom às lombadas que surgem nos telejornais merecia uma abordagem exaustiva, definitiva e menos engajada. Podia ser um fashion police, tão frívolo como o original, mas para intelectuais.

08
Jan20

A semana de 4 dias e a desigualdade salarial


Eremita

Na verdade, estas são tanto ideias de futuro como do passado. O maior economista do século XX, John Maynard Keynes, dedicou-lhes metade de um seu famoso opúsculo, As possibilidades económicas para os nossos netos, de 1930. Nesse panfleto Keynes fez duas previsões. A primeira é a de que o aumento da riqueza, que após milhares de anos de estagnação disparara no século XVIII, continuaria a ganhar velocidade, e que os países desenvolvidos seriam no século XXI “entre quatro e oito vezes mais ricos” do que ao tempo em que ele escrevia. Acertou. A seguir, Keynes fez a pergunta: e que faremos nós com essa riqueza? Trabalhar menos, respondeu, prevendo que no século XXI poderíamos vir a ter uma semana de trabalho de quinze horas.

Quinze horas! É metade do que propõe a primeira-ministra finlandesa. Rui Tavares, Público

Propor uma semana de trabalho de 4 dias é uma ideia muito repetida nos meios intelectuais da esquerda cosmopolita (e.g., "work as identity, burnout as style") e deve dar votos, o que talvez explique a motivação de Rui Tavares para pegar no tema, mas não vale dizer que Keynes acertou na previsão do enriquecimento e não concluir que falhou na previsão das 15 horas de trabalho semanais. Enfim, é a retórica.

A falha principal da crónica é não discutir que efeitos teria a semana de quatro dias na desigualdade salarial. O mais provável efeito da revolucionária semana de 4 dias seria acentuar as desigualdades salariais e diminuir a indignação que o tema gera. Como se atingiria este sonho húmido da direita? Uma minoria de obcecados com trabalho, gente altamente competitiva e bem sucedida, continuaria a trabalhar 6/7 dias por semana. Mas grande massa de trabalhadores estaria acomodada ao fim-de-semana de 3 dias, tão satisfeita que perderia a autoridade moral para criticar os "1%". Assim, o reconhecimento oficial implícito de dois modos de vida (viver para o lazer ou para o trabalho) introduziria uma divisão nos rendimentos do trabalho que dificultaria a criação de impostos ultra-progressivos ou tectos salariais. De resto, mesmo esta medidas impossíveis apenas atenuariam levemente o efeito perverso da ideia do Rui Tavares. Só mesmo a proibição da semana de trabalho com mais de 4 dias seria profiláctica, mas esta é uma ideia que até o colectivista mais radical acharia disparatada. 

05
Jan20

O desejo mimético e as macaquices de imitação


Eremita

(...) A nossa conceção de justiça, por exemplo, depende da existência de Deus. Não há direito natural (“direitos humanos”) sem Deus. Não vale a pena abanarem a cabeça, porque um raciocínio cem por cento secularizado não nos garante os direitos humanos. Sem transcendência, isto é, sem uma dimensão independente da imanência física, a soberania da ciência, da economia e do poder político, torna-se impossível contemplarmos algo como o amor, na nossa vida privada, ou a justiça, na nossa vida coletiva. A ideia de “injustiça” é uma criação da Bíblia. Henrique Raposo, Expresso (via Corta-fitas)

Talvez haja uma dúvida irredutível nas discussões sobre a existência de Deus e o agnosticismo seja a única posição formalmente lógica a adoptar. Muitos argumentos, nomeadamente aqueles sobre a origem do universo, escapam ao senso comum e ao bom senso, por mais que os físicos se esforcem. Porém, houve um argumento que a ciência descartou nos últimos anos. Esse argumento marcou durante séculos presença nestes debates e é natural que, por alguma inércia cognitiva, continue a ser copiado e usado. Mas depois da projecção mediática que o primatólogo Frans de Waal teve nas últimas duas décadas, ver esse argumento na imprensa de refêrencia é algo chocante.  Afirmar e propagar que a ideia de "injustiça" é uma criação da Bíblia revela uma ignorância e uma pulsão evangelizadora preocupantes. Nem vou perder tempo com uma leitura literal da passagem destacada (é evidente que outros textos anteriores à Bíblia transmitem a ideia de injustiça). O sentimento de injustiça está presente entre diversos primatas. Vou repetir: o sentimento de injustiça está presente entre diversos primatas, não é exclusivo da nossa espécie. Aliás, não é sequer exclusivo dos primatas, mas adoptemos os baby steps para não sobrecarregar o SNS com uma vaga de católicos empedernidos em estado de choque.

Para quem não gosta de ler, aqui fica a parte central de uma comunicação de Frans de Waal que mostra uma experiência fulcral para consolidar a tese de que a ideia de injustiça precede o nascimento da nossa espécie. A estrela é um macaco-prego-de-cara-branca que não recebeu o pagamento a que julgava ter direito e dá capote a Arménio Carlos na expressão da sua sensação de injustiça. Naturalmente, sobra a possibilidade de horas antes este macaco ter sido catequizado usando uma tradução da Bíblia para linguagem gestual simplificada, pormenor que os autores do estudo talvez tenham ocultado por serem agentes do marxismo cultural. É tudo uma questão de fé, certo? 

 

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