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Ouriquense

10
Ago18

Confissões públicas

Eremita

No que diz respeito às liberdades individuais, a Holanda legalizou o consumo e o comércio de droga (supostamente das leves, mas com uma enorme tolerância face a todas as outras, cuja liberalização total, aliás, já se discute), não penaliza e até consente a prostituição e legalizou, há muito, o aborto e a eutanásia. Ou seja: absoluta liberdade individual de cada um dispor do seu corpo e da sua personalidade, independentemente de juízos morais de terceiros. E, se no âmbito dos direitos individuais a Holanda é exemplarmente liberal, em termos económicos também o é: baixos impostos, intervenção do governo reduzida e em forte decréscimo desde, pelo menos, os anos 90 do século passado, leis simples e claras, tendo daqui resultado uma das economias mais fortes do Ocidente, com exportações e uma actividade financeira das mais competitivas e prósperas do mundo. Em resultado disto, a Holanda ocupa sempre um dos dez primeiros lugares no ranking de competitividade do Fórum Económico Mundial, tem uma taxa de desemprego residual, superávites orçamentais e ficou no sétimo lugar no Índice de Desenvolvimento Humano do ano de 2016 (Portugal estava num humilíssimo 41º lugar). Para além de tudo isto, o óbvio: a Holanda é uma democracia estabilizada, com um estado laico.

 

Apesar de tudo isto e dos indicadores de sucesso, não gostei do que vi. Ou melhor, o que vi, sobretudo a partir da análise de Amesterdão, onde estive mais tempo, não me agradou. (...)

 

Em conclusão, parece-me que as liberdades de que usufrui o povo holandês, que perfazem a quase totalidade das principais liberdades libertárias ou liberais, contribuíram mais para a desagregação social do que para a sua elevação. Julgo que essas liberdades destruíram o sentido de «comunidade» e contribuíram muito para a banalização do mal, ou, vá lá, do vício, em vez de terem completado as pessoas que delas beneficiam.  (...)

 

A sociedade holandesa parece ter construído o seu padrão existencial a partir de um princípio de individualismo total, o que deveria agradar a um liberal como eu, que sempre o preguei. Esse excessivo individualismo – onde cada um faz o que quer, no pressuposto de que não interfira com a liberdade dos outros – pareceu-me ter conduzido a sociedade holandesa a um enorme desenraizamento social e humano. Poderei estar a dizer um enorme disparate, porque não consultei estatísticas nem números, mas aposto que o número de divórcios e, sobretudo, de pessoas que vivem sem família nuclear é elevadíssimo.  (...)

 

... os holandeses não têm desemprego, dispõem de níveis excepcionais de desenvolvimento humano, de liberdade e de concorrência económica e de invejáveis liberdades? É inegável que sim. E, no fim disso tudo, serão mais felizes do que nós, portugueses? Francamente, acho que não. rui a.

As citações são de um texto apropriadamente intitulado "Um liberal confessa-se em Amsterdão". O título não é apenas belo, pois destaca-se na forma como honra o verbo "confessar". Já ninguém confessa a ponta de um corno, se me permitem a expressão. Não sei o que se passa nos confessionários, mas em público, quando alguém usa o verbo "confessar", em regra é para proferir algo que em nada o compromete, antes pelo contrário, pois o "fishing for compliments" e o "soft virtual signaling" são quase sempre evidentes. Não é o que se lê no texto de rui a., que revela alguns sinais de conservadorismo a lembrar um Pedro Arroja de uma fase ainda precoce mas que já deixava sinais da beatização aguda subsequente. Percebe-se que num liberal agnóstico atento tais pensamentos sejam motivo de reflexão. 

 

A forma mais óbvia de discutir o texto de rui a. é responder-lhe com um argumento empírico. Os Holandeses estão entre os 10 povos "mais felizes" do mundo. Poderíamos discutir a validade destes estudos, isto é, se realmente medem a felicidade, se são apenas um índice que sintetiza estatísticas socioeconómicas objectivas ou até um instrumento perverso ao serviço do "marxismo cultural". Francamente, é o que menos me interessa. 

 

O texto é um magnífico pretexto para confessarmos alguma evolução no nosso pensamento criadora de tensão interna. No meu caso, sem me alongar muito, reconheço a tendência para um aumento progressivo do conservadorismo, apesar de ainda me definir como um "homem de esquerda" e não ver sequer razão para me dizer agnóstico em vez de simplesmente ateu. Reconheço a centralidade das religiões estabelecidas, a importância da família, as virtudes da monogamia (apesar de ouvir o Savage Lovecast), a melancolia da prostituição, a imoralidade de se negar a uma criança o direito a conhecer os seus progenitores biológicos, o paternalismo de muitos progressistas, a hipocrisia de muitos esquerdistas, a superioridade do trivium e quadrivium face a disciplinas modernas, a possibilidade séria de num futuro próximo o aborto ser encarado como uma prática grotesca (tendo eu feito campanha pela IVG), o gosto por tatuagens e piercings em corpos bonitos e a repulsa quando os corpos são feios (como se não bastasse o conservadorismo, também o elitismo), a força moral de Jordan Peterson, o génio de Agustina, o mérito da técnica na arte ou - refromulando - a vontade de esmurrar Damien Hirst... Enfim, esta tendência tem tido uma evolução gradual nas últimas duas décadas, talvez acelerada depois do nascimento das minhas filhas. Mas tudo isto é profundamente banal e previsível. Confesso que teria preferido evoluir no sentido oposto para me descobrir libertário aos 50. Em suma, confesso a vaidade frustrada de não me ter descoberto mais original. 

09
Ago18

Monchique: a excepção que não é coincidência

Vasco M. Barreto

Obviamente, não esperem do Ouriquense prosa sobre eucaliptos, limpeza de matos e economia rural. Também não estávamos impacientemente à espera que o Governo falhasse, como se tivessem ficado contas por ajustar desde o trágico Verão de 2017 - quem andar à procura de prosa para potenciar a sua indignação deve ler os blogs de direita. Porém, há três pormenores bizarros que gostaria de assinalar. O primeiro: os media e uma multitude de patetas nas redes sociais não aprenderam nada; continuam a mostrar belíssimas fotografias das chamas e a apostar nos directos nocturnos que realçam a magia dos fogos, para deleite dos pirómanos. O segundo: onde anda Tiago Oliveira, o engenheiro florestal escolhido pelo Governo para chefiar a Estrutura de Missão para a Gestão Integrada de Fogos Rurais? Com tantos especialistas por aí, a ausência de Tiago Oliveira parece ser... a excepção que confirma a regra. Também Costa usou esta frase batida (é o terceiro pormenor): "a excepção que confirmou a regra do sucesso da operação [de combate aos incêndios] ao longo de todos os outros dias”. Os mais puristas e inflexíveis indignam-se com a popularidade desta expressão, que parece desafiar o princípio da indução, mas não precisamos de ir tão longe. Uma excepção pode confirmar a regra no sentido em que existe como singularidade por a regra se ter aplicado na maior parte dos casos e é assim que todos nós - incluindo Costa - empregamos a expressão. Mas há um problema com as excepções usadas como argumento. As excepções são muito apreciadas pelos cientistas, não como justificação mas por revelaram a verdadeira natureza das leis, incluindo os seus limites. A mecânica newtoniana funciona muito bem, excepto a velocidades muito altas, com objectos de massa colossal ou à escala atómica. No caso do incêndio de Monchique, parece evidente que aquela região tem características especiais onde a "regra do sucesso" de Costa  - admitindo que existe - deixa de se aplicar, pois também no terrível ano de 2003 arderam 70 000 ha (quase o triplo da área que ardeu até agora). Coincidence? I think not

07
Ago18

A inteligência da direita também está em crise

Vasco M. Barreto

A direita está em crise e precisa de se definir, de se renovar e de construir um projecto comum de alternativa política. E, sim, um novo partido (com o perfil de um Ciudadanos, por exemplo) poderia ser uma peça importante nesse processo. Mas nada disso tem a ver com Santana Lopes, que só será (eventualmente) solução para o problema chamado Rui Rio – roubando-lhe uns poucos de votos e agravando a sua derrota nas legislativas até níveis insustentáveis que forcem a sua substituição na liderança do PSD. Não é que seja pouco ou que não tenha o seu mérito. Mas é táctico e efémero – e absolutamente incerto. E, portanto, não chega. Alexandre Homem Cristo, Observador

 

Li o Ramos, o Miguel Pinheiro e o Alexandre. Todos reconhecem a crise da direita (embora Ramos chute para cima e fale de crise de regime) e malham em Rio, como se espera de um colunista do Observador. Todos apontam o vazio de ideias, mas nenhum é capaz de dizer como se resolve a crise. Só o Alexandre confessa que sonha com um Ciudadanos português. Meus caros, já temos um catastrofista (VPV) e o que se espera da direita é alguma ideia nova. Se nem os colunistas, na sua sustentável leveza de inimputabilidade, ousam pensar, o que se pode esperar de um político?

04
Ago18

"Porque é que vocês nos odeiam mais do que o necessário?"

Judeu

"Pode-se rejeitar e ser contra a Lei tal como ela é, como sucede com muitos cidadãos israelitas, judeus e árabes, no seu todo. Aliás, de acordo com uma sondagem feita esta semana à população judaica (80% do total), 52% concordam com a necessidade da Lei (potencialmente baseados nas razões que invoquei atrás), mas 60% exigem que se inclua um artigo que garanta igualdade a todos os cidadãos, judeus ou não, no espírito da nossa Declaração de Independência de 1948." Raphael Gamzou

04
Ago18

Rui Rio e Catarina Martins não sobreviverão

Vasco M. Barreto

Zandingando

Faltou a Rio a ambição desmedida de Cristas. O militante de base gosta de megalómanos - veja-se o sucesso há uns anos de Bruno de Carvalho -  e Rio é um contabilista germanófilo que só brilharia se o actual ministro das finanças fosse despesista. Como se não bastasse Montenegro, agora temos o "jovem" Pedro Duarte, que já andava em tirocínio televisivo para a liderança, e Santana vai mesmo criar um novo partido. Quantos votos vale Santana? 5%? 8% Ninguém sabe, mas estamos a assistir à primeira fragmentação da direita em décadas. Sem um discurso de ataque frontal ao PS, com a economia a aguentar-se, o BE e PCP domesticados e o PSD fragmentado, o PS obterá um resultado que lhe permitirá atingir a maioria absoluta negociando apenas com o PCP, que é único partido que verdadeiramente importa controlar para manter a CGTP no bolso. Está a ser um péssimo Verão para Rio e Catarina Martins.

 

PS: havendo links para notícias essencialmente idênticas, a ordem de preferência decrescente é: Público, Expresso, Observador, DN e Correio da Manhã. 

31
Jul18

De novo a questão racial

Vasco M. Barreto

A convite de António Guerreiro, escrevi recentemente um artigo para a Electra, que deve aparecer no próximo número (o terceiro) da revista. O artigo é um desenvolvimento de uma questão sobre ciência e ética que trouxe para o Ouriquense e centra-se nas diferenças no Q.I. médio de brancos e negros norte-americanos. Obviamente, as questões raciais não se esgotam neste tópico e quem se interessa pelo assunto deve apreciar esta nova conversa de Sam Harris, desta vez com Coleman Hughes,  um brilhante jovem de 22 anos que tem vindo a ganhar protagonismo desde que começou a publicar na Quillette artigos sobre questões raciais. A tensão mais interessante que este assunto gera é entre os intelectuais negros que play the race card (Ta-Nehisi CoatesMichael Eric Dyson, Cornell West...), muito apreciados pela esquerda norte-americana, e os intelectuais que irritam a esquerda por não estarem dispostos  a usar a herança da escravatura e o racismo vigente como explicações eternas para as estatísticas mais negativas das comunidades negras norte-americanas (Coleman Hughes, Glenn Loury e John Mcwhorter, Thomas Sowell...). Boa escuta e boas leituras.

31
Jul18

Ressacando Robles: o que é ser de esquerda?

Vasco M. Barreto

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Ando demasiado cansado (fisicamente) e sem tempo para investir o necessário nesta questão, mas é a única que sobra do caso Robles, depois de esgotados todos os ajustes de contas e apanhadas com as pontas dos dedos lambidas as últimas migalhas deste grande festim de indignação. Não se trata de branquear Robles. Um político, sobretudo um político moralista, está sujeito a um escrutínio que não se aplica aos outros cidadãos. Não se trata também de definir o pensamento de esquerda, que está para lá de cristalizado. Sem recorrer a bengalas da História e slogans, eu diria que o pensamento de esquerda emana de um desconforto profundo com as assimetrias de berço que nos leva a defender formas de redistribuição da riqueza, entre outros privilégios de linhagem, e a encarar com algum cepticismo a meritocracia. Mas não é a ideologia que Robles nos força a confrontar, antes a prática. O que é um comportamento de esquerda, admitindo que não se deve esgotar no voto à esquerda e na defesa verbal ou escrita das ideias e partidos de esquerda? Não esqueci que o caramelo me pediu que definisse a "esquerda caviar", pois é muito provável que seja a mesma questão, apenas numa formulação mais provocatória e já com o dedo na ferida. 

Continua

 

 

 

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