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Ouriquense

22
Mar19

Neblima sobre a demissão de Pedro Santos Guerreiro

Eremita

Pedro Santos Guerreiro deixa de ser o director do Expresso, por decisão tomada entra a administração do Grupo Impresa e o próprio. O director-geral de Informação da Impresa, Ricardo Costa, assume a direcção do Expresso de forma “interina e temporária”.

A notícia vem na sequência do pedido de demissão formulado por Vítor Matos, editor de Política daquele semanário, que contestou o facto de uma recente edição da newsletter  ter aparecido assinada por si, quando  - por esquecimento seu -  tivera de ser redigida por outros elementos da redacção.  

Segundo o Público, que aqui citamos, Pedro Santos Guerreiro disse que “não foi esse episódio que motivou a sua saída”, mas que quis abandonar o cargo porque “deixou de sentir o apoio da redacção”. Clube de Imprensa

Quando a notícia é o jornalista, o jornalismo torna-se críptico. Jerónimo de Sousa acharia esta regra pateta e diria muito simplesmente:  "em casa de ferreiro, espeto de pau". Neste momento, há por aí notícias que nos dizem que Pedro Santos Geurreiro (PSG) foi demitido e outras que dizem que ele se demitiu. É possível que ambas as notícias estejam correctas, sendo de admitir o cenário em que, pressentindo o veredicto do grande chefe, PSG tenta antecipar-se e diz que se demite exactamente no mesmo momento em que é demitido. Também é verdade que sabemos agora que no Expresso de PSG houve pelo menos um episódio em que o jornalista que assinou a notícia não a escreveu. Isto é muito relevante. Quantas vezes esta prática se repetiu para que as páginas ficassem bem compostinhas? Não sabemos. Mas o mais frustrante é que, segundo PSG, "não foi esse episódio que motivou a sua saída". Então foi que "episódio"? Alguma vez se saberá? PSG vai explicar-se na sua próxima coluna do Expresso com uns trocadilhos e umas aliterações, naquele estilo tiki-taka da prosa travadinha de frase curta mas tão a rebentar de pathos que ao segundo parágrafo começamos a ouvir na cabeça uma banda sonora pastosa e épica? Ou estará o caso arrumado?  Se PSG não quer alimentar os boatos sobre os Panama papers e o Expresso que tanto despreza, é bom que se explique.  

21
Mar19

“Never tell a lie when you can bullshit your way through”

Eremita

Mesquita Nunes, defendendo a carreira profissional fora da política, diz que "tem de haver espaço nos partidos para quem tem vida profissional”, como se quem o escolheu para a Galp não tivesse tido em consideração o seu percurso políitico, incluindo o brilhante futuro político de que todos falam. A Pedro Nuno Santos coube dizer que a mulher "não merece ser menorizada no seu percurso profissional" por causa dele, pelo que ter ido para o Governo (como chefe de gabinte do amigo Duarte Cordeiro) é natural. Destas afirmações podemos concluir que a promiscuidade entre a política e os negócios, bem como o compadrio e nepotismo sob o manto da "confiança política", estão para durar pelo menos uns bons 30 anos, que é o período de vida activa que Mesquita Nunes e Nuno Santos têm pela frente. 

 

Sócrates, por ser um caso extremo, habituou-nos mal. Os políticos não tendem a ser tão mentirosos como o ex-PM, pois geralmente chega-lhes a arte da tanga. As duas recentes afirmações da nata política da minha geração são apenas isso, duas grandes tangas. Mas a tanga é muito mais difícil de combater do que a mentira. Deixo-vos com duas passagens de um livrinho que fez muito sucesso há uns anos e se lê em menos de uma hora: On Bullshit, de Harry Franfurt:

The liar is inescapably concerned with truth-values. In order to invent a lie at all, he must think he knows what is true. And in order to invent an effective lie, he must design his falsehood under the guidance of that truth. On the other hand, a person who undertakes to bullshit his way through has much more freedom. His focus is panoramic rather than particular. He does not limit himself to inserting a certain falsehood at a specific point, and thus he is not constrained by the truths surrounding that point or intersecting it. He is prepared to fake the context as well, so far as need requires. This freedom from the constraints to which the liar must submit does not necessarily mean, of course, that his task is easier than the task of the liar. But the mode of creativity upon which it relies is less analytical and less deliberative than that which is mobilized in lying. (...)

What bullshit essentially misrepresents is neither the state of affairs to which it refers nor the beliefs of the speaker concerning that state of affairs. Those are what lies misrepresent, by virtue of being false. Since bullshit need not be false, it differs from lies in its misrepresentational intent. The bullshitter may not deceive us, or even intend to do so, either about the facts or about what he takes the facts to be. What he does necessarily attempt to deceive us about is his enterprise. His only indispensably distinctive characteristic is that in a certain way he misrepresents what he is up to.

 

20
Mar19

Peter Singer e Moçambique

Eremita

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fonte

It makes no difference whether the person I can help is a neighbor's child ten yards away from me or a Bengali whose name I shall never know, ten thousand miles away. ... The moral point of view requires us to look beyond the interests of our own society. Previously ..., this may hardly have been feasible, but it is quite feasible now. From the moral point of view, the prevention of the starvation of millions of people outside our society must be considered at least as pressing as the upholding of property norms within our society. Peter Singer

Um dia terei de ler tudo o que Peter Singer escreveu para tentar perceber por que motivo discordo tanto  —  e de um modo quase visceral  —   das suas posições sobre a dieta, o "altruísmo efizaz", o aborto e o utilitarismo em termos gerais. Entretanto, fiz um donativo para as vítimas moçambicanas do ciclone e não sinto qualquer problema de consciência em não ter procurado saber se há vítimas nos países vizinhos. Como se explica isto? Talvez entendendo o altruísmo como uma manifestação de empatia que não pode ser absolutamente racional para que evitemos a analysis paralysis. O número da conta está neste artigo.

19
Mar19

Dia do pai

Eremita

Uma infância feliz e o apoio incondicional do meu pai ao longo que quase cinco décadas fazem-me corar quando oiço as recorrentes histórias de tirania paterna. Só não me invade um sentimento de culpa por saber que o ressentimento tende a ser mais divulgado do que a gratidão. Este modesto contributo não corrigirá esse viés intemporal, mas publique-se.

19
Mar19

Dia do palhaço

Eremita

Muito se perora. Não sou excepção e reconheço em mim um interesse particular pelas questões de género. Que diferença essencial existe entre o pai e a mãe na nossa casa? As nossas miúdas sabem. Elas cedo perceberam que a minha especialidade distintiva é a palhaçada, das brincadeiras físicas às intermináveis trocas de acusações sobre quem, afinal, é "patareco". Também as disciplino, claro que sim. Mas passados três anos,  é a palhaçada que me define. 

17
Mar19

Houllebecq e as birthstrikers

Eremita

Screen Shot 2019-03-17 at 11.34.21.png

"Sa mère avait regretté ce mari volage mais munificent, et qui d’ailleurs lui laissait pas mal de liberté de son côté, mais surtout elle n’avait pas supporté l’idée de se retrouver seule avec sa fille, son mari était certes un queutard mais également un père assez tendre, qui prenait une grande part dans les soins de l’enfant, et elle ne se sentait aucune fibre maternelle, absolument aucune, et avec les enfants dans le cas de la mère c’est tout un, soit on se dévoue totalement à eux, on oublie son propre bonheur pour se consacrer au leur, soit c’est l’inverse qui se produit, et ils ne sont plus qu’une présence immédiatement gênante et rapidement hostile. Sérotonine, de Michel Houellebecq
Houellebecq tem algo de idiot savant, isto é, a sua prosa oscila entre um admirável conhecimento profundo e sincero da solidão e uma embaraçosa ignorância quanto às relações humanas. Veja-se a afirmação categórica e absolutista sobre a maternidade, que só se explica por uma experiência de filho mal amado que não seria depois amenizada pela paternidade (Houllebecq não tem filhos). Aliás, cada vez mais a mulher é capaz de se realizar como mãe e profissional, o que reforça o anacronismo.
 
Um dos raros exemplos que, pelo radicalismo aparenta dar razão a Houllebecq, é o das BirthStrikers,  as mulheres (e alguns homens) que abdicam da procriação em protesto contra o “climate breakdown and civilisation collapse”. Mas estas mulheres não são sequer mães e, não só suspeito que estejam a usar as alterações climáticas para sublimar outros (legítimos) receios,  como aposto que em alguns anos muitas mudarão de ideias, independentemente do estado do planeta. Houllebecq ficou refém do seu passado; elas são reféns de um futuro que nem sequer lhes pertence. Prefiro de longe Lisístrata, a personagem de uma peça grega de Aristófanes que iniciou uma greve sexual entre as mulheres para acabar com a Guerra do Peloponeso. 
 
 
 
 
12
Mar19

Greves de fome à portuguesa

Eremita

"I have hope, indeed. All men must have hope and never lose heart. But my hope lies in the ultimate victory for my poor people. Is there any hope greater than that?

Bobby was slightly embarrassed to admit that he was paying a bit more attention to religion. I’m saying prayers – crawler! (and a last minute one, some would say). But I believe in God, and I’ll be presumptuous and say he and I are getting on well this weather. I can ignore the presence of food staring me straight in the face all the time. But I have this desire for brown wholemeal bread, butter, Dutch cheese and honey. Ha! It is not damaging me, because, I think, “Well, human food can never keep a man alive forever,” and I console myself with the fact that I’ll get a great feed up above (if I’m worthy). But then I’m struck by this awful thought that they don’t eat food up there. But if there’s something better than brown wholemeal bread, cheese and honey, etcetera, then it can’t be bad.

Bobby Sands died on the 66th day of hunger strike. Nine of his comrades followed him to their deaths. Francis Hughes, Ray McCreesh, Patsy O’Hara, Joe McDonnell, Martin Hurson, Kevin Lynch, Kieran Doherty, Tom McElwee, “Red Mickey” Devine. Just under a month before his death Sands was elected to the British parliament." Fonte

Parece que depois da greve de fome de um enfermeiro roliço abortada ao segundo dia, é agora um elemento da PSP que resolve iniciar o mesmo tipo de protesto. Não conheço os percursos profissionais de cada uma destas figuras, mas suspeito estarmos perante um dos vários efeitos perversos que as carreiras no sindicalismo geram. Para minorar o embaraço colectivo, espero que a moda não pegue. Não assistimos à costumeira farsa depois da tragédia, é mesmo um caso imoral que o ridículo não chega a tornar cómico. Recorrer à greve da fome para resolver questiúnculas salariais é uma ofensa à memória de todos aqueles que morreram de fome por grandes causas. 

 

07
Mar19

Orientação política e imprensa: "mau trabalho"

Eremita

Faz todo o sentido chamar atenção para as contas de merceeiro que o Expresso fez sobre a representação dos partidos nos media. O formidável Valupi excitou-se tanto que descreve o trabalho como o "mais interessante artigo publicado num jornal desde o começo do milénio". É díficil estimar as partes de ironia e hipérbole nesta apreciação de Valupi, pois no post imediatamente anterior ele diz que não há imprensa em Portugal. Já o entusiasmo de Valupi é muito fácil de explicar: a contagem dos políticos com púlpito mediático permite-lhe concluir que estamos perante um ataque continuado e estrutural ao PS. Enfim, a peça é importante porque desmente a ideia, alimentada durante décadas pela direita, de que a esquerda domina os media. Eu bem desconfiava, mas este assunto é demasiado importante para ser tratado por jornalistas sem cultura estatística e matemática. Qualquer análise minimamente séria e sustantiva tem de incluir políticos, sim, mas também  jornalistas e colunistas com orientação política clara. Terá depois de estimar a influência de cada uma destas figuras recorrendo a métricas (share, tiragem, likes, partilhas e comentários, só para mencionar o óbvio) e à evolução destas ao longo do tempo. Não se faz em duas horas, o tempo que a jornalista do Expresso deve ter perdido a juntar os seus dados, mas também não seriam precisos 2 meses. 

05
Mar19

Moby-Dick e outras pilas

Eremita

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Como expliquei em tempos, Ricardo Araújo Pereira (RAP) complica-me a vida. A Lia adora-o e ri mais com as piadas dele do que com as minhas. Chamem-me primário, mas perturba-me que outros homens sejam mais capazes do que eu de provocar reacções físicas na minha mulher. A quantidade de piadas falhadas que acumulo nesta casa deu-me inclusive uma ideia catita sobre um homem frustrado por ter a ambição mas lhe faltar o talento para o humor. Creio que é um ângulo ainda pouco explorado e - com a minha megalomania típica para títulos - chamei a este  conto "O artista do riso". Mas disperso-me. Gostaria apenas de frisar que as obsessões não são um problema. A obsessão pode ser uma força criativa poderosa e, quando tudo falha à nossa volta, é à obsessão que vamos buscar a força para atravessar o deserto. Em registo life coaching, afirmo que o problema não é termos uma obsessão, mas esquecermos que ela existe. Melville escreveu sobre isto de forma muito capaz, eu serei apenas mais sintético. Por saber que invejo RAP (mais talentoso para o humor do que eu, mais alto, mais bem sucedido e bem pago, etc.), censuro o impulso de o criticar, embora sonhe com o dia em que alguém escreverá sobre o seu trabalho um texto demolidor. De resto, ando há anos a preparar esse texto. Já li muito sobre teoria do humor, da filosofia pré-Bergson às referências pós-Victor Raskin, e se me perguntarem qual é a minha principal motivação, seria desonesto não glosar a personagem de Bill Murray em The Life Aquatic, respondendo simplesmente: "vingança". Daí a minha atenção às pouquíssimas críticas de que a nossa unanimidade nacional é alvo. "O Sr. Araújo e as suas merdas" despertou-me naturalmente a curiosidade e até as glândulas salivares. Infelizmente, descubro que quem o escreveu tem uma obsessão ainda mais primária do que a minha. Afinal, criticar o RAP por ciúme é menos ridículo do que fazê-lo para vingar Sócrates.

 

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