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Ouriquense

11
Jun16

Vergonha e culpa

Eremita

 

A história é conhecida: para castigar o filho rebelde, um casal de japoneses em viagem de carro resolveu deixá-lo durante uns instantes na berma da estrada. Correu mal. Antes de os pais voltarem para o meter de novo no carro, o miúdo embrenhou-se na floresta, um lugar que - segundo a imprensa - estava cheio de ursos esfomeados. O final foi feliz: após alguns dias de grande ansiedade, o miúdo foi encontrado. 

 

Não me interessa fazer de pedagogo de sofá. O que sei eu e que autoridade tenho, se poucas semanas bastaram para ter dado uma palmada no rabo de uma das minhas bebés após um período de berraria e choro? O que me fascinou foi o vídeo que mostro, seguramente pelo acréscimo de empatia vindo da minha condição de pai. Mais universal do que a linguagem musical é a linguagem corporal com que um japonês se expressa durante um acto de contrição público, apesar da complexidade dos pedidos de desculpa que a cultura japonesa produziu.

 

Após a Segunda Grande Guerra, um livro popularizou a ideia de que no Japão existiria uma cultura da vergonha, por oposição a uma cultura da culpa, que seria característica dos EUA. Esta dicotomia sempre me pareceu enganadora. Sendo fácil imaginar situações que provocam vergonha sem culpa, como escorregar numa casca de banana perante o olhar de outros, em sociedade é difícil conceber a situação inversa, pois a culpa causará sempre vergonha. Naturalmente, à vergonha associamos a esfera pública e o sentimento de culpa tem uma vivência sobretudo íntima. Lembremos então o confessionário, a engenhosa peça de mobiliário inventada pelos católicos para lidar com a vergonha sem a trazer a público, e aceite-se que no Japão as manifestações públicas de vergonha são mais exuberantes do que no Ocidente (1, 2), mas sem tomar as consciências dos japoneses como menos escrupulosas e libertas de culpa; o grau de exteriorização da vergonha pode resultar apenas de diferenças culturais na definição dos espaços público e privado. Por outras palavras, a dicotomia mais rigorosa seria entre cultura da vergonha versus cultura sem vergonha (no espaço público, entenda-se). Porque se algum antropólogo já se deu ao trabalho de elaborar a geografia da culpa sem um viés eurocentrista ou outro, talvez tenha chegado à conclusão de que a culpa faz parte intrínseca da natureza humana e alicerça as mais elementares e intuitivas noções de justiça, como a ética de reciprocidade. É um sentimento que não teve inventor e precede Abraão, sendo depois trabalhado e instrumentalizado pela cultura, nomeadamente as religiões e a psiquiatria. De onde virá então o fascínio (ocidental) por esta separação entre as culturas da vergonha e da culpa? Muito possivelmente, da vontade de que a tradição judaico-cristã mantenha o monopólio da culpa. A vergonha resulta apenas de uma ferida no orgulho, ou seja, é um sentimento pouco nobre, por ser autocentrado, enquanto a culpa, por implicar empatia com os outros (vítimas dos nossos actos), é um sentimento estimável, que nos humaniza.

 

Bibliografia

Shame and Guilt: A Psychocultural View of the Japanese Self Takie Sugiyama Lebra Ethos Vol. 11, No. 3, Self and Emotion (Autumn, 1983), pp. 192-209

 

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