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Ouriquense

25
Out16

Um heterossexual sai do armário

Eremita

21.10.16

 

A cultura gay fascina-me, embora só muito recentemente tivesse começado a ler ficção com personagens homossexuais (ou comportamentos homossexuais - não vou entrar nessa discussão) e me pareça que não viverei o suficiente para chegar à leitura dos estudos queer. Creio que este fascínio, isto é, esta mistura de curiosidade e admiração, não é nada invulgar entre os heterossexuais. Mas antes, quem revelasse este interesse seria rotulado de homossexual reprimido, e hoje, depois da revolução nos costumes que vai no sentido da aceitação de qualquer orientação sexual (entre adultos), mostrar curiosidade pelo modo de viver dos homossexuais é coisa de reaccionário, pois já não basta respeitar a diferença, devemos agir como se fôssemos todos iguais. Recuso tal imposição. Admito que este fascínio, tal como o que sinto pelos judeus, resulta sobretudo da atracção natural pelo underdog (homossexuais e judeus foram perseguidos ao longo da História) e de uma associação destas duas condições a manifestações de génio individual, razões em si pouco originais mas plausíveis, que tornam improvável um fundo de homofobia por algum mecanismo psicológico metamorfoseado no seu contrário. 

 

Depois de ter lido com grande prazer The City and the Pillar, de Gore Vidal, li ontem o primeiro conto da trilogia Persona, de Eduardo Pitta, que tem alguns paralelos com o romance de Vidal. Avancei depois para o romance A Cidade Proibida, também de Pitta, que ainda não concluí. O romance foi elogiado na imprensa de referência pela forma directa e crua como Pitta descreve as cenas sexuais. Na prosa de Pitta, as personagens não "fazem amor". Também não "fornicam" e ainda bem, pois é verbo que me deixa a cabeça povoada de coelhos frenéticos. As personagens de Pitta simplesmente fodem, o que se aplaude. A questão que coloco é se Pitta e outros escritores que descrevem as práticas homossexuais não beneficiarão dentro da comunidade largamente heterossexual daquilo que dá aos canhotos alguma superioridade no desporto. Refiro-me à raridade (há um termo técnico na disciplina da Evolução: frequency-dependent selection), que faz com que o adversário canhoto seja um oponente contra quem se tem menos prática, pois geralmente o adversário é destro, e faz com que a descrição da prática homossexual, tão pouco habitual no romance lusitano, nos pareça à partida superior às sopas de peixe com leite de mama de Rodrigues dos Santos ou ao "pénis a pique húmido de sede, grosso de veias, vermelho em flor de Pessanha" de António Lobo Antunes. 

 

25.10.16

 

Terminei entretanto a trilogia de contos Persona e o romance A Cidade Proibida. O livro dos contos traz uma marginália de crítica seleccionada, com a opinião de Miguel Real, Pedro Mexia, Maria Augusta Silva, Jorge Listopad, Fernando Matos Oliveira, Helena Barbas e Edgard Pereira. Pela qualidade, destacam-se os trechos de Fernando Matos Oliveira e Edgard Pereira, mas os críticos são unânimes a reconhecer as qualidades formais de uma escrita "sóbria, irreprensível", com um "ritmo acelerado" e cheia de "pathos autobiográfico e sobredeterminação erótica", bem como a relevância temática destes "contos tão políticos como morais", "marcados pelo arbítrio e abusos de poder", que serão uma "lbertação sem pudor da vertente gay da literatura".  Estas apreciações são extensíveis a A Cidade Proibida, embora sobre este romance seja ainda necessário frisar a exploração das tensões entre a classe média e a alta burguesia, reveladora de uma Lisboa hiperclassista, que para uns será caricatural, mas talvez não para quem conheça as elites - em todo o caso, a sensibilidade de Pitta lembrou-me a estratificação social no Funchal, paralelo que talvez decorra da influência britânica na Lourenço Marques onde Pitta cresceu e na ilha da Madeira. 

 

A prosa de Pitta é "irrepreensível" na medida em que não há uma passagem críptica, nem se apanha uma frase que seja uma cedência ao lirismo, o que não significa que todas as opções sejam indiscutíveis. A começar, temos um "narrador autoritário", talvez em demasia, sobretudo quando em A Cidade Proibida não deixa que a explosão controlada de uma subalterna, que até então parecia tolerar a orientação sexual do patrão, seja feita em discurso directo, substiuindo-se à personagem no relato desse desabafo, o que resulta numa oportunidade perdida. Porque nesse momento o romance atinge o climáx de um dos temas predilectos do autor: a hipocrisia, tanto dos que escondem as suas práticas homossexuais, como daqueles que na aparência nada têm de homofóbico, antes pelo contrário, até ao dia em que estala o verniz. No romance, há ainda uma passagem que soa deslocada, quando a mãe da personagem principal reflecte sobre as consequências da separação provável do seu filho e do namorado, ocasião para Pitta enfiar de calçadeira a discussão sobre a útima fronteira da inclusão social dos homossexuais, i.e., o direito à parentalidade, sem que nada no romance o pedisse e ainda menos quando, en passant, são referidos episódios concretos recentes envolvendo políticos, como o do argumento de autoridade de Francisco Louçã diante de Paulo Portas por apenas o primeiro ter prole. O romance não precisava desse ruído da actualidade. Também o modo lacónico, sem punch, com que Pitta conclui os três contos e o romance deixa o leitor algo frustrado. Mas é verdade que muito antes do fim o leitor já deu a leitura por compensadora, sobretudo no magnífico Pesadelo, o terceiro e o mais longo conto de Persona, cujas primeiras páginas são um prodígio da arte narrativa ao nível da melhor ficção portuguesa que li até hoje, gerindo Pitta a informação como o mais talentoso dos dealers alicia novos clientes com o fiado das doses de droga, sendo o leitor apanhado num vórtex irresistível desde as primeiras linhas. 

 

 

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