Segunda-feira, 20 de Março de 2017
Segunda-feira, 20 de Março, 2017

discussão sobre até que extremos devemos separar a obra do autor é recorrente. O dilema surge quando o autor de uma obra genial revela ser um crápula ou, no mínimo, defende ideias politicamente incorrectas. Hitler foi - dizem-me - um aguarelista medíocre, mas os exemplos abundam, variando no grau da pulhice e da genialidade, sem que ninguém arrisque apresentar uma correlação entre as duas variáveis: os anti-semitas Richard Wagner e Louis-Ferdinand Céline, o fã dos nazis Knut Hamsun, o nacionalista e belicista Ernst Jünger, o apoiante da ditadura militar argentina Jorge Luis Borges, o violador de uma menor Roman Polanski, o racista e misógino V.S. Naipaul, etc. As opiniões tendem invariavelmente para a seguinte polarização: uns, armados em paladinos da liberdade de expressão e amadores das belas artes, defendem a autonomia da obra face ao carácter do autor versus outros, tão puros e decentes que são incapazes de apreciar a obra de uma besta. Portugal não tem uma grande tradição de artistas controversos, mas, ao declarar que iria votar na extrema-direita holandesa, J. Rentes de Carvalho suscitou entre nós as duas reacções da praxe (1 e 2). Com franqueza, a vida é curta e já não há grande pachorra para esta polarização, que me parece muito burguesa e refém de uma hipocrisia insuportável. Tentemos uma terceira via. Será impensável defender a ideia de que o autor com opiniões controversas ou até abomináveis torna a sua obra muito mais desconcertante, perturbadora e, naturalmente, apetecível ou mesmo irresistível, pois é esse o apelo do fruto proibido? Lobo Antunes bem pode andar a seduzir plateias por aí com a sua voz doce repleta de empatia pelos portugueses remediados, mas não são os bons sentimentos que me farão voltar aos livros dele. Por outro lado, creio que é desta que vou abrir um livro de Rentes de Carvalho e suspender por momentos o juízo que formulei depois de ler uma crítica devastadora. Citando um outro autor polémico, não defendo sequer esta atitude, trata-se simplesmente de descrever a vida como ela é



Eremita às 10:33
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8 comentários:
De caramelo a 20 de Março de 2017 às 15:00
A opinião da Patrícia Reis parece-me a menos hipócrita. Eu, pelo menos, ainda não descobri como se faz isso de separar o autor da sua obra. Andei durante uns tempos angustiado quando li que o Simenon teria sido colaborador na França ocupada e, porque não o queria largar, não descansei enquanto não me convenci (certo ou errado) de que não teria sido tanto assim, coisa que me deu muito trabalho de exegese e três anos de psicanálise (esta não, pronto).
Eu acho que a polarização não é essa; cada um tem as suas bestas particulares. Eu não teria ficado preocupado se o Simenon tivesse sido acusado de ser compagnon de route do PCUS. E porque é que ainda tenho aversão à cavalgada das valquírias e não me acontece o mesmo a ouvir o coro do exército vermelho a cantar a Internacional? Pois. Está menos burguês assim?
Em conclusão, enquanto não me constar que é pelo menos tão bom como o Knut Hamson ou o Curzio Malaparte, não vou ter oportunidade de descobrir o Rentes de Carvalho, e se fosse esse o caso, já se saberia.


De nelson moura a 20 de Março de 2017 às 19:18
Pretendo apenas e modestamente acrescentar um comentario a questão.GenioxObra.Há quem sustente que faz parte ou seja que não poderia ser de uma forma sem a outra.Milles Davis por exemplo e outros talvez fossem diferentes na sua música? fosse outra a sua forma de viver e caracter.Talvez na música? e apenas na música??
A crítica é de facto demolidora.Desconfio sempre das críticas demolidoras.


De caramelo a 21 de Março de 2017 às 09:46
Nelson, eu acho que a discussão não é bem essa. Geralmente, os artistas usam a sua vida na sua obra, de uma forma ou outra, com algumas excepções. O Jorge Luís Borges, por exemplo, escrevia contos sobre livros, basicamente, coisa que acho muito chata. Nem sequer é por ele ser facho que não o leio mais; é mesmo por o achar chato. Ou a Virginia Woolf. Depois de lhe pegar um bocado, dá-me logo vontade de ler o Soeiro Pereira Gomes. Isto é mesmo uma crítica literária minha, não tem nada a ver com a vida dos artistas.
Esta discussão acerca do Rentes, é mais ou menos como se segue, com as devidas adaptações. Imagine um cozinheiro que faz uns bifes extraordinários e bate na mulher. Eu não vou lá, porque não gosto do artista. No que depender de mim, o tipo vai a falência. Mesmo que o artista não tenha apurado a arte de bater os bifes a treinar na mulher e esta seja uma questão privada. No fundo, é isto. Mas, no outro extremo, há quem tenha tanto amor à arte que não só lá vai aos bifes como seria capaz de comer lascas da mulher do cozinheiro, preparadas por este com aquele molhinho especial. Depois há aquelas nuances, algumas inexplicáveis, outras embaraçosas. Eu, como tenho uma fraqueza por passo de ganso, gosto dos filmes da Leni Riefensthal. Mas já não me vejo a elogiar as técnicas de filmagem do Nascimento de Uma Nação do Grifith.


De xilre a 21 de Março de 2017 às 14:34
Pedindo desde já desculpa ao nosso anfitrião pela usurpação do espaço, diria que Borges poderia mais ser considerado um anarquista moderado do que «facho». Vejo-o mais na frase «Creo que un día mereceremos que no haya gobiernos» do que no elogio tardio à simpatia de Pinochet. De recordar que foi muito maltratado por Péron que o colocou como inspetor de galinhas no mercado de Buenos Aires.
Quanto aos contos, ele achava «chato» escrever livros grandes (para além de que, sendo cego, e ditando os livros, isso seria mais complicado) e preferia, como ele diz, fazer de conta que já existiam e escrever sobre eles.
Claro que escreveu contos sobre mais do que livros -- desde lutas de gauchos, com facas e mortes sangrentas: «El hombre de la esquina rosada», até história(s) romântica(s): «Ulrica».


De caramelo a 21 de Março de 2017 às 17:01
Não conheço esses contos de que fala. Ou, se os li, não me ficaram na memória. Li o Aleph, uma colecção de contos, e outras coisas, daquelas mais conhecidas. Achei aquilo mesmo muito aborrecido. Por exemplo, o Italo Calvino é muito divertido.


De Anónimo a 21 de Março de 2017 às 14:53
O Ermita descobriu então a "terceira via" para esta questão polarizada: é a chamada abordagem nem carne nem peixe, em rigor é um cruzamento entre unicórnio e sereia. Bem visto.


De nelson moura a 21 de Março de 2017 às 15:06
Pois eu creio que a questão também é mesmo essa.O exemplo do cozinheiro pode servir.Quando começamos a misturar questões morais,politicas ,éticas para justificar os nossos juizos a coisa se complica.
-O cozinheiro bate na mulher ."fora isso" defende posições progressistas.Sofreu na pele pela luta anti ditadura.
-Trata bem a mulher e a familia toda.Trata bem os amigos e é ativo socialmente.Disponivel para ajudar o próximo.Há um senão .Ele defende posições politicamente incorretas.
-Ele tem os defeitos dos anteriores e nenhuma das suas qualidades mas...é meu irmão ou pai.Como é que fica??
Não creio que afirmar que um livro é chato (devo dizer que devia ser proibido dizer isso sobre o J L Borges mas aí é a minha costela estalinista a falar)ou um filme faz dormir seja uma crítica.São estados de alma e podem passar.
Há uma questão paralela que me interessa também.O facto de que a opinião de um artista sobre um assunto qualquer tenha um valor maior que por vezes o de um "especialista" na matéria.Basta assistir às campanhas eleitorais e ver as listas de artistas a assinar papeis partidarios para caucionar as suas políticas sobre as mais diversas questões.
Ao contrario do"chefe" eu acho esta discussão interessante.


De caramelo a 21 de Março de 2017 às 17:13
Pois bem, Nelson, se o cozinheiro foi anti-fascista, vou lá e bato-lhe eu na mulher, para ela ser mais compreensiva com o stress emocional de ser torturado pelos algozes fascistas. Por outro lado, se é meu pai, bate na minha mãe, e ainda por cima não tem a decência e a qualidade de me dar todos os dias o melhor bife, escarracho-o. No fundo, nada disto é complicado; não há razão nenhuma para não aplicarmos à apreciação dos artistas a complicação moral que é a vida diária.

Um universo tão antigo é já suficientemente rico em arte para podermos seleccionar o que consumimos como nos der na gana. Ainda por cima, alguém com a bênção da memória fraca e da leitura lenta, como eu, pode muito bem ler o mesmo Gogol e o mesmo Maupassant, alternadamente, todos os anos, e fica-se consolado de contos. Eu tenho a certeza absoluta, consolidada agora mesmo, de que nunca pegarei no Rentes, e nem sequer é pelas suas posições politicas. De qualquer forma, os antigos têm uma vantagem: podemos bem dispensá-los dos padrões morais que utilizamos actualmente. Já ninguém olha para o Caravaggio a pensar que ele era um doido de um sacana ladrão e assassino.


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