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Ouriquense

09
Mai17

Manuel (8)

Eremita

Manuel, fiel, era assaltado pela dúvida de saber se a masturbação seria uma zona franca para a libertinagem. Nunca pensava na namorada de longa data durante tais práticas, uma exclusão que começou por lhe parecer sensata, para não associar o seu amor às lembranças traumáticas da puberdade, como as inquirições matutinas sobre as manchas nos lençóis ou os exercícios masturbatórios colectivos em que apenas participara devido à pressão dos pares, e que depois de entrar em Direito passaria a interpretar como uma prova de respeito, por ter concluído que estaria a abusar da imagem dela, o que configuraria uma violação do direito à imagem, algo impensável para ele; punheteiro, sim, mas formalista. Perguntar à namorada se o autorizava nunca foi parte da solução, porque pertencia ao grupo de homens para quem perguntar era um sinal de fraqueza. Com o passar dos anos, a sua explicação deixou de funcionar e, apesar de cada vez menos frequentes, cada masturbação no duche deixava-o moralmente ressacado. Foi então que, durante um serão entre colegas, sem que tivesse procurado o conselho, ouviu um aparte durante uma disputa de fanfarronices: "A infidelidade em pensamento só acontece quando se pensa em alguém em concreto". No caminho para casa, foi trabalhando a teoria e na manhã seguinte tinha apurado um conceito, que parecia manejar na cabeça com o mesmo prazer com que o garimpeiro roda nos dedos a pepita retida pela peneira. Com alguma pompa, apelidou a sua ideia de "diluição de responsabilidade por quimerização do objecto de desejo". Nesse dia, o duche foi mais longo do que era habitual, mas executou as restantes rotinas domésticas com um voluntarismo e ânimo tais que acabou por recuperar os minutos perdidos, chegando ao emprego a horas.

 

A quimerização do objecto do desejo parecia funcionar. Manuel punha em prática a sua ideia com o zelo de um criador que sente uma obra-prima entre as mãos. Ia buscar à Nouvelle Vague um corte de cabelo, da publicidade extraía um par de pernas e lábios polposos, um olhar de alguém com que se cruzou podia aparecer de repente, como um relâmpago inofensivo. Quando estava cansado e com pressa, recorria às nádegas e mamas da pornografia soft, mas ao fim-de-semana investia na construção de quimeras surpreendentes, verdadeiras criações que fundiam as imagens do cinema e da rua com as do retrato fotográfico, da pintura dos grandes museus, da estatuária em mármore, da banda desenhada francófona e da manga japonesa. As suas mestiças em mosaico sublimes e nunca repetidas entre masturbações, cuja diferente matéria  se harmonizava na cinética do corpo, eram, no fundo, mulheres sem personalidade jurídica, com uma biografia sem passado nem futuro, que se esgotava na fantasia que Manuel criava. O seu apuro atingiria um virtuosismo impensável, sobretudo na anonimização do rosto e na quimerização de segundo e superiores graus. O primeiro processo consistia na produção de uma imagem de fusão de múltiplas caras, fosse em composição cubista, síntese computurizada de uma simetria matemática ou por um efeito de estroboscópio, em que de múltiplos rostos acelerados surgia um rosto de uma placidez lasciva indescritível. O segundo consistia no uso de quimeras de fantasias anteriores como matéria-prima para a construção de novas quimeras, método em que, pela reiteração sucessiva, Manuel apostava, pois a libertação só lhe parecia possível no dia em que atingisse a completa abstracção do acto masturbatório.

 

Passaram-se anos sem história. Um dia, uma velha quimera bate à porta do quarto de hotel de luxo que Manuel fantasiava e a ménage à trois que se segue deixa-o apreensivo. Na vez seguinte, surgem mais velhas quimeras, que o perseguem com uma sofreguidão ninfomaníaca. Manuel sente-se refém das suas criações, sem lhes conseguir resistir. Cada fantasia transforma-se primeiro num bacanal, depois num enredo de contornos sadomasoquistas e a seguir num autêntico ajuste de contas com as quimeras a revelar consciência de classe, aguentando Manuel como podia, sem nunca deixar de reincidir, até ao momento marcante da desquimerização de um dos objectos de desejo, que o põe em confronto com imagens de múltiplas mulheres de existência real e o leva a abandonar para sempre a masturbação matinal no duche. 

 

 

 

04
Mai17

Paulo e André (8)

Eremita

Por confiar nele, o seu grande amigo de infância, filho do grande amigo do seu pai, Paulo confessou a André que era infiel à sua mulher. André não acusou surpresa, como se já o soubesse. E aproveitou para se gabar de que era fiel à sua mulher praticamente desde que se tinham casado. Explicou assim: "É essencial que cometas a pior das infidelidades quanto antes e que o teu remorso te iniba de reincidires, mesmo nas pequenas escapadelas. Ficas condicionado, percebes?” No seu caso, a solução fora enrolar-se com uma das madrinhas entre o copo de água e a primeira noite de núpcias. Desde então, a simples tentação em pensamento angustiava-o e chegou mesmo a dar-lhe vómitos. Paulo ficou tão abalado que nem se lembrou que a madrinha em questão era a sua irmã; perturbava-o mais saber como poderia ele, já casado e tão necessitado de se livrar do adultério, aplicar o ensinamento do amigo. Como que adivinhando a sua angústia, André despediu-se rematando: "E lembra-te que este método, embora concebido originalmente como profilaxia, a julgar pelo que me contam alguns amigos, também é terapêutico". Durante dias, várias ideias desfilaram pela mente de Paulo, sempre lhe escapando a justa medida, porque todas lhe pareceram demasiado inócuas (a colega de trabalho) ou horrendas (a sogra). A oportunidade surgiu com a gravidez da sua mulher. Logo na noite após o parto, Paulo procurou uma antiga amante. Na manhã seguinte, era um saco de remorsos e jurou nunca mais ser infiel à sua mulher. A verdade é que o estratagema não funcionou. Desesperado, pediu o divórcio, sem nunca lhe contar as suas  aventuras. E logo procurou novo casamento, mostrando na escolha das madrinhas um interesse que a noiva interpretou como prova do seu amor. Tamanho apego ao protocolo é raro, inclusive nas profissões mais exigentes.

28
Abr17

Júlio e Patrícia (7)

Eremita

Júlio, 32 anos, julgava que ter estado com oito mulheres a impressionaria, pois faria dele alguém experiente aquém de promíscuo. Mas ao olhar para a perversa beleza angelical dela, teve um momento de hesitação e disse: "Sete". Ela mostrou então algum embaraço, que não era propriamente decepção, mas que também o deixou mais nervoso, brotando da sua axila esquerda uma gota de suor que foi escorrendo muito lentamente, como que esticando ainda mais o tempo psicológico criado pela pausa dela. O número lá saiu, bruscamente, só que, em rigor, era uma estimativa: "60 e tal". Júlio encontrara Patrícia numa festa de amigos comuns e ficara siderado com a beleza dela. Alta e esguia, quase sem peito e ancas, era no rosto que se concentrava todo o seu encanto. Um amigo comentou com ele que ela parecia vinda de um quadro de Botticelli, mas Júlio afastou o amigo com delicadeza e nem procurou que ele o ouvisse enquanto avançava para ela e murmurava: "Botticelli, Botticelli o caralho... desde quando a Vénus de Botticelli dá tesão?". Dois dias depois tomavam café juntos. Júlio era bem-parecido e divertido; ela escolhera-o entre a mão cheia de outros homens desemparelhados que na festa também lhe lançaram olhares.

 

A sua pele era de uma cor indefinível e de uma ausência de textura que tentava o toque. Três sinais na cara, em perfeita constelação, contribuíam para o encanto e quando ele conseguia desviar os olhos dos olhos dela - verdes? Azulados? Cor de mel? A luz atraiçoava-o - era nos sinais que descansava a vista, pois fixar-se na sua boca seria denunciar-se ainda mais. Como se ela não soubesse. Patrícia tinha uma boca conspicuamente imoral, com o lábio inferior humedecido e polpudo, que incitava à mordida e o lábio superior em arcada acolhedora, inclassificável segundo os manuais de arquitectura. A resposta de Patrícia fez com que Júlio soltasse um esgar. "60 e tal?" Ela confirmou. "Mas falamos de pessoas com quem tiveste relações sexuais?" Nova pausa. Ela pensara que se tratava de qualquer pessoa que tivesse beijado na boca. Júlio sentiu então algum alívio, mas nem por isso deixou de fazer o seu cálculo segundo tal critério (foram 19). Patrícia tinha 28 anos e fora beijada na boca por mais de 60 miúdos, rapazes e homens. Naquela boca que tanto o fascinava. Um fascínio universall, Q.E.D.. Acusando alguma tristeza, não deixou de reformular a pergunta. "Bem, respondeu ela, nesse caso não foi ninguém". Disse-o com segurança, mas levantou-se de seguida para ir à casa de banho. Ele ainda procurou interpretar as palavras dela de modo a concluir que não estava na presença de uma virgem, mas em vão. Jamais lhe passaria pela cabeça que uma mulher tão atraente, independente e vivendo numa metrópole pudesse ser virgem aos 28 anos, embora tivesse logo acertado no motivo: a religião. E era seguramente uma vingança de Deus por ele se ter lentamente transformado num ateu. "Ou então foi o Botticelli, rancoroso", lembrou-se, sem esboçar um sorriso, no exacto momento em que ela regressava ao seu convívio.

 

 

 A revelação não acelerou a corte de Júlio nem o desencorajou. Dias depois beijavam-se pela primeira vez; Júlio* sentiu um êxtase profundo. E passados mais uns dias foi convidado a subir. Aos poucos ele foi percebendo que estar com uma virgem melhorava a sua técnica sexual, por ser um estímulo permanente à imaginação. Júlio habituou-se a dispensar a penetração e viciou-se na sua virgem. Era aquela boca que o fascinava e um simples beijo valia por qualquer das farras sexuais com as parceiras anteriores. A sua nova sexualidade fascinava-o, dava-lhe uma excentricidade que julgara para sempre perdida desde que se formara em gestão. Sexo com restrições, como o desafio à criatividade que é a métrica do soneto. Só que Patrícia começava a ficar irritada... Ela habituara-se a levar os seus parceiros quase ao desespero por recusar a entrega completa. O imperturbável fascínio de Júlio após meses de cama acabara por frustrá-la. E não havendo o gozo do poder, Patrícia viu-se tomada por um desejo incontrolável de ser possuída por ele. Porém, ele recusava-se a penetrá-la, queria preservar a sua virgem a todo o custo. E ela, consumida em excitação naqueles momentos, sentia que perdia o poder a que se habituara. Decidida a agir, uma noite, no pico do entusiasmo, põe Júlio fora de casa às 3 da manhã e bate à porta de um vizinho que vivia sozinho e a devorava com os olhos todas as manhãs. Aquele gesto precipitado passou a ser a sua rotina. Começava as noites com Júlio, pois mais ninguém a levaria ao grau de excitação que precisava para consumar o acto com o vizinho. Júlio contentava-se com aquela boca e suportava a humilhação de ser posto fora de casa a meio da noite. Afinal, morava perto e naquela cidade quase nunca chovia. É claro que Patrícia não lhe contava o que fazia depois. Para Júlio, ela continuava a ser a mulher imaculada da boca promíscua. Muitos anos depois, quando a vida os tinha separado e mantinham apenas um contacto intermitente e amistoso, ele veio a saber do antigo estratagema dela. Sem acusar grande indignação, a sua única preocupação foi saber se ela também beijava o vizinho ou se apenas fornicavam. Patrícia mentiu.

 

* Na primeira versão, escrevi "Mário". 

28
Abr17

Bruno (6)

Eremita

Bruno, 40 anos, professor primário zeloso e curioso compulsivo, acumulava um conhecimento enciclopédico na vastidão mas de supercifialidade amadora, embora se distinguisse dos diletantes pelo genuíno prazer e nenhuma intenção de impressionar. Achava-se gormand, melómano, cinéfilo, literato, desportista, activista, poliglota, viajante e um bom gestor de condomínio. Frequentava agora um curso de introdução ao Direito. Na semana anterior terminara as aulas de desenho e tinha já em mente a arquitectura paisagista, sempre no mesmo instituto, sempre às Quintas. Na sala de aula, Bruno partilhava a mesa com uma senhora da sua idade, que fazia esquissos de vestidos no caderno de apontamentos, dando mostras de grande aborrecimento. Ele rotulou-a logo de ociosa da vida e concluiu que o curso lhe fora sugerido e pago pelo marido. Não era uma mulher deslumbrante e só começou a sentir-se tentado quando as pernas de ambos se tocaram por acaso. Atraía-o o estatuto de amante. Bruno tinha demasiados interesses para manter uma namorada e trocava de esposa alheia com escrupulosa regularidade, apenas para não se criar uma cumplicidade excessiva que pudesse colocar em risco os seus passatempos. Uma sequência de três mulheres era-lhe menos interessante do que o Desenho, o Direito e a Arquitectura Paisagista. A sua colega de carteira aparecera-lhe quando a rendição da amante já tardava e a proximidade que o curso possibilitava tornara tudo muito fácil; Bruno, tão voluntarioso para a vida quase toda, era um conquistador preguiçoso. Ao fim de umas semanas, ela deu o primeiro sinal claro, quando fingindo brincar com a aliança fez do anel um minúsculo aro que rodou equilibrado pelo tampo da mesa até embater no mostrador do relógio dele, com um clique e depois um rufo em decrescendo. Ele teve então uma hesitação breve, mas decidiu-se por dar ares de não ter reparado em nada. Foi ela que com mão a cair pesada sobre a mesa recuperou o anel. Nessa noite não se despediram como já vinha sendo costume.

 

O circuito de manutenção sempre o ajudara a pensar. O ritmo da passada certa e a respiração controlada disciplinavam-no, ajudado pelo desfilar regular dos troncos das árvores, tão próximas do carreiro por onde seguia que lhe davam uma ilusão de velocidade e a sensação de urgência. A mente ia fazendo pausas retemperadoras à custa das visões rotineiras que o animavam: a rapariga encorpada em roupa lycra (à segunda), o velho em esforço no fato de treino Adidas (terça), o gordo que corria sempre em sentido contrário (quarta), dois amigos a correr lado a lado enquanto discutiam empreendedorismo (quinta), os lobitos muito pouco disciplinados, desequilibrando-se mutuamente na travessia da trave de madeira (sexta). Naquela sexta sentia-se muito agitado. Estava quase ofegante e ainda não conseguira perceber a sua recusa da véspera, na aula de introdução ao Direito. Fora um instinto de sobrevivência, mas que devia obedecer a uma lógica por revelar. Tal mistério obrigá-lo-ia a dar uma volta extra ao circuito. E foi só ao crepúsculo que encontrou um princípio de explicação: a chave do enigma estava nas matérias leccionadas durante o curso, em como lhe causara surpresa o artigo 133. Aprendera que os 8 a 16 anos da pena de prisão por homicídio, agravados nos actos mais perversos ou especialmente censuráveis para 12 a 25 anos, são reduzidos nos casos de homicídio privilegiado. Num feito raro de memória conseguiu resgatar uma versão quase fiel do tal artigo e disse-o em voz alta: “Quem matar outra pessoa dominado por compreensível emoção violenta, compaixão, desespero ou motivo de valor social ou moral, que diminuam sensivelmente a culpa, será punido com pena de prisão de 1 a 5 anos”. Para ele, o artigo 133 era revoltante. Imaginou as cenas de cama com as suas várias amantes, subitamente interrompidas por um homem desvairado que os fulmina a tiro de caçadeira. Um cenário de horror. Ele e ela esvaziando-se em sangue e o assassino livre ao fim de 5 anos. De onde vinha este absurdo? Da ideia de paixão, claro. Sorriu discretamente, como quando alguém se deixa seduzir pelo seu próprio pensamento. A paixão, na lei como na mentira, tem a mesma valoração e semelhante efeito: tanto atenua a pena do criminoso, como a má reputação e os remorsos do mentiroso; comparada com outras desonestidades, a mentira passional é facilmente acomodada pela consciência de quem a comete e pela sociedade que julga. Uma pessoa apaixonada pode matar e pode ser desonesta, quase impunemente. A paixão é um estado de loucura passageira que perdoamos aos outros, para que a seu tempo também a possamos gozar sem hipocrisia. Mas o epíteto “passional”, atenuante para o assassino e o traidor, funciona como uma agravante para as vítimas. Desde logo, porque existindo uma atenuante à partida, aumenta probabilidade de haver dois cadáveres na cama ou um traído. E a seguir porque a indignação e dor dos familiares e amigos das vítimas, vítimas em segundo grau, tal como as do traído, são imensas, em contraponto com a cumplicidade da lei e da sociedade com o assassinto e o traidor, como se houvesse uma qualquer lei geral da conservação da indignação e as atenuantes se alicerçassem no sofrimento acrescido das vítimas. Perante estas conclusões novas, Bruno começou a encarar um desafio que havia até então adiado por manifesta falta de tempo: a construção de uma caravela de fósforos.

27
Abr17

Sónia e Artur (5)

Eremita

Artur estava tão fora de si que mais parecia ter surpreendido a mulher no quarto em intimidades com dois vizinhos. Afinal, limitara-se a abrir uma das gavetas da mesa-de-cabeceira. Se para Sónia já era bizarro que Artur mostrasse ciúmes de um objecto, a acusação de traição parecia-lhe inconcebível. Como sucede com tantos ex-seminaristas, Artur não era uma criatura normal. Para mais, ele sentira o apelo da fé e não o da elevada empregabilidade. Abandonou o seminário quando Sónia engravidou e ainda se penitenciava pelo pecado cometido e a vocação perdida. Ela fizera-se uma mulher despachada e lia as revistas femininas. Amava Artur mas o que ele lhe dava pontualmente nas manhãs de sábado não chegava. O dildo foi uma revelação, que chegou pelo correio. Vinha com livrinho de instruções e os esquemas eram muito didácticos. Sónia  iniciou-se em segredo e com grande satisfação no onanismo assistido. Com o correr dos anos, foi-se tornando menos cuidadosa e passou a não fechar a gaveta da mesa-de-cabeceira à chave. Naquele dia, Artur procurava aspirina para uma dor de cabeça.

 

Primeiro tentou ver-se livre do seu inimigo pela retrete, mas de cada vez que descarregava o autoclismo, o pénis reemergia lentamente, ora pelos testículos, a lembrar o focinho de um enorme rato de água, ora pela cabeça, como uma moreia que sai do buraco. Seguiu-se uma sessão de Judo culminando na imobilização do pénis no colchão da cama, com um testículo a parecer espapar sob o lombo de Artur e a cabeça do pénis sufocando numa chave de braços improvisada, enquanto Artur lançava para o ar perguntas num crescendo de ansiedade, pouco faltando para  dizer as falas do pénis e criar um número de ventríloquo. Chegou depois à sala, perseguindo o pénis que atirava violentamente contra o chão e fazia ricochetes caprichosos, e o espaço mais amplo da divisão despertou nele um deslocado reflexo lúdico, que o surpreendeu a tentar atirar o pénis contra a parede para depois o tentar recuperar sem que caísse ao chão. E veio, por fim, a trágica sessão na cozinha, transformada em sala de tortura, com o objecto a revelar uma resistência notável. Só ao ver o bico de gás aceso Sónia resolveu intervir. Cada um puxou então o pénis para seu lado, que ficou ligeiramente mais delgado e comprido, com uns quase imperceptíveis veios esbranquiçados, mas logo retomando a cor e forma originais quando Sónia cedeu. A resiliência do material estava a par da obsessão de Artur. Legitimado pela força, ele encheu-se de coragem e quis atirar o maldito objecto do nono andar para a rua, não reparando que a janela estava fechada. O pénis fez embate e rachou o vidro, ficando imóvel no axadrezado dos ladrilhos da cozinha. Artur ainda se aproximou embalado pela raiva, mas depois estacou: subitamente, o bicho movia-se e emitia um zumbido! Perante tão inesperada manifestação de animismo, Artur cedeu aos nervos, as suas pernas fraquejaram e também ele se deixou ficar pelo chão, chorando como um menino. Sónia não hesitou em quem socorrer; foi com habilidade que esticou a perna e usando os dedos do pé desligou o dildo, sem folgar o abraço com que consolava o seu homem.

 

Nunca chegaram a aprofundar as causas últimas, mas Sónia tratou de resolver o problema. A solução viria também pelo correio e as instruções eram explícitas, excepto para Artur. Ele não percebia nem a lógica de funcionamento da boneca, nem a lógica da sua mulher. Ela explicou-lhe então que se ele também gozasse o seu brinquedo sexual, talvez viesse a tolerar o brinquedo dela. Foi tal o alívio de Sónia ao reparar na reacção de Artur que não se apercebeu da natureza do seu súbito entusiasmo. Sabendo-o pudico, Sónia saíu do quarto, para que ele explorasse o brinquedo sem inibições. A vida dos dois restaurou-se. Continuaram a fazer amor apenas ao sábado, sem que ela tivesse notado qualquer acrescento de fantasia ou motivação da parte de Artur, mas ele não mais a incomodou por causa do pénis de borracha, que ela continuou a usar. Também Sónia não lhe fazia perguntas sobre a boneca, mas sabia que ele mexia nela. Nunca veio foi a perceber a razão da paz de Artur. Quando se trancava no quarto para brincar com a boneca, Artur usava apenas o brinquedo de Sónia. Aquele exercício restaurava a harmonia doméstica, por lhe dar a estranha sensação de ser ele o único homem da casa que era fiel à sua mulher.

26
Abr17

Mário (5)

Eremita

Ah, as mamas fartas ou juvenis, marmóreas ou acolchoadas, em ninho de andorinha ou geotrópicas, de mamilos indolentes ou voluntariosos, com suas auréolas rosadas ou escuras, quando não indistintas, as mamas que aprisionam odores velhos junto ao tronco ou sempre frescas e asseadas, as mamas em soutiens pensados por engenheiros ou então soltas no trote de alcova, as mamas que são seios para boca e tetas para as mãos, as mamas fartas ou juvenis. Mário apreciava tanto mamas que lhe dava vergonha. Diz-se que gostar de mamas é de homem, mas temia que o seu caso fosse distúrbio. Queria as suas namoradas inteligentes, cultas, dinâmicas, carinhosas, íntegras, simpáticas, e com boas mamas. Queria-as com sentido de humor, diligentes, sensuais, corajosas, e com boas mamas. Ele sabia que a única condição necessária, embora não suficiente, era o par de mamas. Envergonhava-se da inclinação, que interpretava como um atavismo do cérebro primitivo e um resquício do impulso do recém-nascido. Jovem quadro superior vindo de boas famílias e com os contactos certo no partido, maxilar viril e têmporas que daí a três décadas ficariam perfeitas de tom grisalho, receava que tamanha obsessão por mamas comprometesse o seu futuro político promissor. Como manter um casamento? Como evitar um escândalo sexual divulgado em todos os jornais? Como contratar uma secretária segundo os critérios de meritocracia e exigência tão essenciais à imagem de um governante, ao desenvolvimento do país e à convergência europeia? Ainda longe dos holofotes, na intimidade do quarto já ele fazia de paparazzo de si próprio, dispondo sobre a colcha da cama, como cartas de uma paciência, as fotos de todas as namoradas antigas, e compondo na cabeça os títulos boçais com que as revistas de mexericos fariam alusão à característica partilhada por todas aquelas mulheres. Passava o tempo a imaginar cenários, denunciando uma certa megalomania. Pressentia-se ministro. Perdido em tais pensamentos, Mário ia nas nuvens, na verdade, sobre as nuvens, cadeira 23A do voo Lisboa-Nova Iorque-Los Angeles. A viagem surgira na pior altura. Julgava-se apaixonado pela primeira vez e custava-lhe ausentar-se. A sua namorada despertava-lhe uma imensa ternura, um alvoroço tranquilo que para ele era novidade. Sabia que estava perante a mulher da sua vida, a sua companheira. Sabia-a uma preciosidade, uma mulher de aguda consciência social e com um sublime par de mamas. Talvez por isso, preferiu omitir o destino final da sua viagem. Ia para Las Vegas, a uma despedida de solteiro de um amigo norte-americano que conhecera na adolescência durante um curso de Verão. A mentira por omissão não lhe causava grande transtorno e era até um bom treino para a sua vida profissional. Não conseguia era deixar de pensar na ida ao clube de striptease que fazia parte das festividades. Como seria capaz de resistir a tais encantos? E se houvesse por ali portugueses que o viessem a reconhecer numa campanha futura? Uma lap dance é sexo? Sentia-se atraiçoado pelas próprias questões que colocava, derrotado moralmente, indigno de ser uma figura de proa da democracia representativa. E então o amor? Não o deveria preocupar mais o respeito que a sua namorada merecia? Era também uma questão, talvez não a prioritária. Entristecia-o chegar a tal conclusão. Mas talvez a amasse de verdade, um amor só ultrapassado pelo seu patriotismo. Como se esta explicação nem o próprio convencesse, adiou o problema com dois comprimidos para dormir.

 

Mário entra decidido no clube. A sua primeira impressão é de desilusão e alívio. Nada do deboche que imaginara,: salão amplo e moderno, asseado, a meia-luz, muitos neónes, alguns espelhos, sofás espaçosos, muitos obesos e carecas isolados, raparigas seminuas ao balcão, dois gorilas de tuxedo em pontos estratégicos. Não havia música, mas logo percebeu que tinham chegado entre dois actos. Instalam-se todos, começa a tocar Madonna e uma rapariga sobe ao palco para iniciar o seu número. Mário resolve testar-se olhando de imediato para ela. Nada. Nenhuma excitação incontrolável. Seios perfeitos, sim, mas o que lhe chama a atenção é o extremo enfado com que ela dança. “Uma última réstia de orgulho”, pensa Mário. Em vez de excitação, ele sente empatia, compõe-lhe uma biografia trágica e apetece-lhe salvá-la. A noite começou bem, mas as mulheres circulam agora pelos sofás, metendo conversa. Uma preta de olhos verdes e seios hirtos pergunta-lhe de onde ele é. Mário responde a medo e ela afasta-se sem insistir, talvez à espera que a bebida faça efeito, ignorando que ele beberica uma gasosa. Alguns dos seus companheiros não perdem tempo e Mário observa com detalhe uma lap dance. Um dos seus companheiros de farra requisitara os serviços de duas mulheres ao mesmo tempo. Mário via-as de costas, debruçando-se sobre o homem que parecia agrilhoado, pois nem perante os movimentos mais insinuantes delas levantava as palmas das mãos do sofá. Apesar das nádegas proeminentes e das costas nuas das profissionais, a Mário a cena evocava sobretudo um episódio de necrofagia em que duas criaturas debicam um cadáver. Só mesmo ao seu lado não pôde deixar de reparar que o joelho de uma rapariga friccionava o escroto de um outro companheiro. “Lap dance é sexo”, apressou-se a concluir, no preciso momento em que cruzava as pernas. A noite foi avançando, as raparigas viam-no defensivo e deixavam-no em paz. Aos poucos vai dando conta de que ao excesso de oferta não correspondia um estímulo proporcional, antes pelo contrário. Tanta mama à solta desmotivava-o. Mário volta inclusive a pensar na primeira rapariga, que lhe apetecera salvar e não mais voltou a ver. Os seus valores cívicos levavam a melhor sobre os instintos. Nem a pressão dos outros homens o levaria a ceder – não que alguém se preocupasse com ele. E quando a preta dos olhos verdes veio de novo em sua direcção, Mário engoliu a seco mas sentia-se preparado. A sua preocupação não é resistir-lhe, antes não a magoar. Ele sente o seu instinto politico a emergir, preocupa-se em agradar, mesmo diante das franjas excluídas da sociedade. A mulher senta-se com languidez no braço do sofá. Mário toma a iniciativa e apenas lhe diz, quase segredando: és muito bonita, mas eu sou… sou gay, percebes? Só estou aqui por causa dos meus amigos". Ela agradece-lhe o elogio, mas foi a explicação que lhe restaurou o brio. Uma desculpa perfeita. Mário olha para os lados, procurando alguém a quem contar o seu triunfo, mas todos estão ocupados, inclusive o noivo. Opta então por comemorar sozinho, vai até ao bar e pede um Jack Daniels. Finalmente descontraído, protegido pelo seu estatuto forjado e pela língua materna, ao terceiro copo começa a comentar em voz alta as raparigas que sobem ao palco - “sublimes”, “um pouco exageradas”, “boas, mas falsas” – e acaba por ser o último a sair do clube. Adormece dentro do táxi e só acorda com o embate do trem de aterragem na pista. Acabara de aterrar.

25
Abr17

Sandra (4)

Eremita

Sandra lê com irreprimível gozo que na Malásia, ao abrigo da Sharia, um homem pode divorciar-se da mulher por SMS, desde que a mensagem seja clara. Comenta a notícia com a mãe, que se indigna com a reacção da filha e aproveita para lhe dar um sermão sobre a violação dos direitos das mulheres “nesses países”. A resposta sai-lhe lacónica - "Mas têm telemóvel, mãe..." – antes de sair porta fora. Sandra crescera com as novas tecnologias e via no SMS uma forma de comunicação única. SMS enviado era SMS recebido e lido naquele preciso momento, nisso se distinguindo da carta, do postal, do bilhete escrito e até do correio electrónico. Nem extravio, nem tempos de espera. Uma certeza instantânea. Por mais voltas que o destinatário desse, a mensagem chegaria ao seu bolso ou à mala e, para Sandra, era natural partir do princípio de que seria lida de imediato, mesmo na ausência de resposta. Tal entendimento pode gerar ansiedade, mas para Sandra trazia uma vantagem. Ela namorava um homem mais velho, divorciado, com muitas responsabilidades profissionais e que gostava de se deitar cedo. Sandra tinha ternura pelo seu homem, apreciava o conforto emocional e material, bem como o que ele lhe ensinava. Ele amava-a, pelas razões que levam um homem a amar uma mulher. Pernoitavam amiúde, embora com irregularidade, e muitas vezes ela enfiava-se na cama sem o acordar. Sandra apreciava a noite e sabia-se cortejada. Rara era a semana em que na escuridão de um bar ou numa pista de dança não se sentia tentada a ceder à tentação. E raro era o mês em que não concretizava esse desejo.

 

Na cronologia fina do desejo, há um derradeiro lampejo de lucidez que precede o momento em que o impulso vence. Sandra aprendera a reconhecer esse instante e a certificar-se de que, onde quer que estivesse, não lhe faltaria rede. Enviava então uma SMS ao seu namorado, sempre a mesma mensagem, em que pensara aturadamente: "É melhor estarmos afastados por uns tempos. Adoro-te. Beijo". Parecia-lhe a fórmula ideal, que interrompia o namoro sem fechar portas e demonstrava respeito pelo companheiro, por ser redigida sem abreviaturas. Enviada a mensagem, entregava-se livremente aos prazeres que antecipara. Ainda de madrugada, regressava a casa do namorado, abria a porta com cuidado, descalçava-se, entrava no quarto, procurava o telemóvel dele, certificava-se com alívio de que a mensagem não havia sido lida e apagava-a. Deitava-se então sem a habitual carícia terna e suave no namorado, guardando algum lençol de distância. Assim se passaram vários meses e só uma noite de insónia do seu namorado quase deitou tudo a perder. Ao chegar a casa, ele tinha os olhos inchados de tanto chorar, mas parecia já recomposto e envergando a armadura do orgulho. Percebendo tudo, cabisbaixa, a rapariga pediu que ele a aceitasse de volta. Foi quanto bastou para que a armadura caísse por terra sem interrogatório. Só já cama ele acusou receio: "estavas a brincar, não estavas?", ao que ela respondeu: "não, querido, mas hoje de madrugada já tinha mudado de ideias. Foi uma precipitação minha". Havendo na sua frase duas verdades a flanquear uma omissão, o saldo na consciência de Sandra era positivo. Com saldo positivo e o anúncio nessa semana de cobertura de rede total para o país, o futuro dos dois parecia ainda mais promissor.

24
Abr17

Sara (3)

Eremita

Como todas as mulheres, Sara aprendera a higiene íntima na adolescência, rotina que não se alterou durante décadas e realizava maquinalmente. Só a sua outra higiene a levava a constantes mudanças. No acto de se lavar entre o momento passado com os amantes e o regresso à cama com o marido, Sara começou por acusar um afinco maníaco que lhe deixava as coxas em carne viva, o sexo dorido e a boca numa confusão de elixires, pastas medicinais, dentífricos que prometem brancura e pastilhas para o mau hálito. Dias mais desaustinados houve em que Sara experimentou o sabão azul, os detergentes da cozinha, esfregões e uma única vez com a palha-de-aço. Aos poucos acalmou, sem que chegasse a dispensar o demorado banho de chuveiro e um olhar para o ralo da banheira que pedia demasiada carga metafórica da água que se escoava. Certo dia, percebeu que envolver o marido a ajudava. Fez com que ele lhe lavasse as costas, depois o corpo todo, mas desencorajando o menor sinal de entusiasmo da parte dele, que nada percebia. O ritual de Sara completava-se com uma exposição prolongada da cara à água do chuveiro. Foi há pouco tempo que o gesto deixou de fazer o efeito pretendido e ela passou a tomar banhos de imersão, de novo sozinha, renovando várias vezes a água da banheira, para executar no fim uma imersão total naquela água já sem o menor vestígio de impureza, e emergir com a cabeça inclinada para trás, como um cristão renascido. A conta da água aumentou. 

23
Abr17

Andrade (2)

Eremita

Todos previam para o aluno Andrade uma ascensão fulgurante, capaz de o fazer catedrático antes dos 35 anos, mas uma melancolia crescente foi-se instalando nele ao longo do curso, culminando num desinteresse pela carreira. Esta é a explicação oficial, boa para as instituições (a academia e a família). Eis a verdade: Andrade foi um caso exemplar daqueles que são vítimas de uma pulsão e um princípio irreconciliáveis. Casado desde os 18 anos com a namoradinha da adolescência, precocidade emancipadora que na altura os pais toleraram como sinal do seu génio, ao entrar na universidade Andrade soube que chegara ao seu destino; jamais iria querer dali sair e em poucos anos confirmou-se o que ele pressentiu no primeiro dia de aulas: viciou-se em sexo no local de trabalho. Mas desde o primeiro acto sexual transgressor (num anfiteatro, fora de horas) teve a certeza de que nunca recorreria ao ascendente hierárquico para seduzir, prática com grandes tradições na academia, por ele considerada abjecta. A consequência era óbvia: quanto mais alto Andrade subisse na carreira, menores seriam as suas opções de parceiras sexuais e ainda mais dramática a diminuição de oportunidades com parceiras apetecíveis. Só lhe restava recusar a glória académica e consolidar uma posição de assistente para a vida. Para tal, foi adiando a defesa da tese sem nunca a abandonar. O seu trabalho todos os anos crescia umas boas 300 páginas e essa demonstração de labor junto dos superiores chegou para que lhe tolerassem o capricho, pois durante décadas manteve o estatuto de génio excêntrico. Doce solução. Com a tese nas 1200 páginas, entre as recém-contratadas professoras auxiliares apenas uma ou duas lhe eram apetecíveis; com a tese nas 6600 páginas, todas as recém-contratadas professoras auxiliares lhe pareciam sublimes. Andrade foi um caso único de realização pessoal pela estagnação académica. Às 12000 páginas, um incêndio na universidade consumiu a tese. Consta que ninguém chegou alguma vez a saber o que ele escreveu a vida toda. Envelhecido e sem obra, a sua posição acabaria por se tornar indefensável e foi forçado a reformar-se, o que ele aceitou sem reclamar; aos 63 anos já era difícil seduzir na universidade. No seu último dia, enquanto descia a escadaria avaliando se a sua condição de reformado não seria razão para abdicar da sua regra,  Andrade viu uma contínua de grande beleza, perdendo o controlo pela primeira vez na vida. Muito tempo depois de o traumatismo provocado pelo cabo da esfregona ter sarado, ainda se debatia com a questão de ter ou não violado o seu princípio e discutia incessantemente o caso com a mulher a partir de cenários hipotéticos, pois não deixara de ser um intelecto superior.

23
Abr17

João, Maria e Sofia (1)

Eremita

João amava Maria e amava Sofia. Maria preferia as cuecas apertadas e Sofia as mais folgadas. João tinha o mesmo número de umas e outras, o que o reconfortava, como se fosse uma prova de que amava uma tanto como a outra. Como vivia sozinho e nunca sabia se e com qual delas se encontraria de noite, levava umas cuecas vestidas e umas do outro tipo muito bem dobradas e enfiadas num dos bolsos das calças; havendo encontro e necessidade de trocar as cuecas, a mudança era feita na casa-de-banho do escritório. João sentia-se mais confortável nas cuecas folgadas e por isso as vestia sempre de manhã, escolha que tinha ainda a vantagem de reduzir o volume a transportar no bolso e nunca foi por ele interpretada como prova de uma maior empatia com Sofia - de resto, ela, ao contrário dele e de Maria, dizia "boxers" e nunca "cuecas". Curiosamente, João encontrava-se mais vezes com Maria, mas disciplinava-se a pensar que, ao acordar, a probabilidade de nessa noite se deitar com Maria ou Sofia era idêntica. Ao privilegiar o critério do conforto, João sentia-se justo.

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