Domingo, 22 de Maio de 2016
Domingo, 22 de Maio, 2016

 

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Galata Morente

A privação cultural a que Ourique me submete é atenuada pelas sessões no cineclube, as emissões especiais do meu enviado à capital e a biblioteca do Judeu. Como a minha própria biblioteca tem sido pouco discutida, há um esforço consciente para censurar referências à biblioteca dele, mesmo sendo a comparação desleal, visto que a minha é uma biblioteca em construção, de tendência minimalista, e a dele já senescente, mas tão ambiciosa que provavelmente não há outra biblioteca pessoal a sul do Tejo tão grande, excluindo a de Pacheco Pereira. 

 

Peguei ontem num calhamaço sobre a arte dos romanos. É um daqueles livros que antes se compravam através do Círculo de Leitores, bons para encher as prateleiras da sala, mas nunca propriamente lidos, apenas folheados, e tão iguais a tantos outros que olhamos para eles como obras anónimas, o que agradará por certo aos seus autores, pois há nesses livros todas as indicações de que são meras oportunidades de negócio para académicos remediados. 

 

Fui folheando da frente para trás, que não só é a forma de folhear mais confortável para um canhoto, como a que melhor frisa o desprezo pelo texto. E fazia-o com tal rapidez que, se as estátuas  fossem um pouco mais estereotipadas e tivessem sido fotografadas sempre do mesmo ângulo, a passagem das folhas teria resultado na animação cómica de um tronco másculo estático com  braços em rotinas de break-dance. Mas quando dei com Gala Morente, a dança acabou. 

 

Creio já ter referido o critério de demarcação que distingue a heterossexualidade da homossexualidade. É um critério implicitamente tosco, como todos os critérios que forçam a dicotomia, mas que funciona bem como tought experiment e julgo ter colhido ao longo de vários anos abundante evidência empírica de que funciona, embora seja apenas a minha evidência. Enuncia-se assim: perante um corpo do mesmo sexo atraente, no homossexual predominará  a vontade de conquistar e no heterossexual a de encarnar. 

 

 


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Eremita às 15:39
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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011
Sexta-feira, 21 de Outubro, 2011

 

 

Jonh Coplans

 

2.06.08 A fauna dos ginásios inclui os "flamingos". Aprendi que os "flamingos" são os tipos que trabalham muito a musculatura acima da cintura, ficando com pernas muito menos trabalhadas do que o resto do corpo. São figuras que fazem do caricaturista um hiper-realista e uma manifestação somática do centralismo dos órgãos de decisão, isto é, da cabeça. Ou o corpo como triunfo grotesco da vontade.

 

 

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Decidi não publicar as últimas 5 entradas do período que antecedeu a minha vinda para Ourique e em que frequentei um ginásio. São demasiado urbanas e perturbam o espírito do Ouriquense. Mas continuo esta série sobre o corpo, agora em relato directo, aqui de Ourique. Preciso de o fazer. Ainda há dois dias, quando via um filme com o Clint Eastwood, senti uma vontade irreprimível de escrever sobre os braços e o torso do homem. Enfim, serão fraquezas, mas a superação tem limites. Entretanto aconteceu o seguinte: o peso flutuou uns 6 Kg, ganhei sinais, perdi sinais, fiz uma queimadura com o ferro de engomar no antebraço esquerdo, sofri uma dor de costas na região lombar que se prolongou durante semanas e me incomodou sobremaneira nas idas a Espanha, continuaram as visitas da otite residente no ouvido direito, as gengivas por vezes sangraram, os pés mantiveram-se desgraçadamente secos e deformados e tratei uma cárie. Não havendo sinais de rejuvenescimento, nem por isso envelheci muito nos últimos três anos. 


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Eremita às 10:36
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Sexta-feira, 25 de Março de 2011
Sexta-feira, 25 de Março, 2011

Jonh Coplans

 

25.05.08 Foi com alívio que reparei no meu primeiro cabelo branco. Não custou nada, já passou. Agora podem vir os outros todos. Pensei que fosse acusar a passagem do tempo, mas percebo que apenas reconheço e tolero o acerto de contas que o tempo fez comigo. Porque é verdade que já tenho idade para cabelos brancos. A ilusão de juventude em que vivia, apenas interrompida pela lembrança dos aniversários, termina hoje e ainda bem, pois só me alienou.

Quando dei por ele, penteava-me com as mãos diante do espelho do balneário. Apeteceu-me arrancá-lo para o enclausurar num cubo de acrílico e o guardar por muitos anos com o zelo que um devoto presta a uma relíquia, mas pressenti que se o fizesse poderia ser mais tarde acusado de vaidade pois no museu das excrescências somáticas só toleramos verdadeiramente os exemplares que lá foram parar por iniciativa parental, como um dente em etanol ou o apêndice em formol. Ou melhor, como não consigo imaginar em que circunstância mostraria o cabelo a alguém, talvez tivesse receado que gozassem comigo depois da minha morte quando vasculhassem os meus pertences. Ai a posteridade, sempre a puta da posteridade. 

 


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Eremita às 12:45
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Sábado, 19 de Março de 2011
Sábado, 19 de Março, 2011

 

Jonh Coplans

 

Dedicado ao Tiago Cavaco

 

 

13.05.08 A História discrimina os magros. Se pesássemos todas as estátuas, com as devidas correcções para o tamanho natural e eliminando a densidade dos materiais, para que um metro cúbico de mármore, cobre ou terracota pesasse o mesmo que idêntico volume preenchido com pedacinhos de um cadáver fresco triturado *(não me ocorreu outra imagem porque não há contorcionismo capaz de expulsar todo o vazio de um cubo), e se às representações bidimensionais da pintura acrescentássemos o volume sugerido pela perspectiva, mesmo desprezando a tendência geral ao longo da história da humanidade para um aumento da altura e a tendência nas sociedades ricas para a obesidade, creio que o peso médio da figura humana na estatuária e nas representações pictóricas ultrapassaria o peso médio da população mundial. É fácil pensar em imagens imortalizadas num qualquer material de corpos ideais (dos gregos a Michelangelo, por exemplo). Mas também é trivial descobrir gordas e gordos mesmo gordos: os símbolos de fertilidade do Neolítico, certas representações de Baco, Buda, as mulheres pintadas por Rubens, as estátuas de Balzac, as baigneuses de Cézanne, as formas redondas de Botero, as camponesas saudáveis de Álvaro Cunhal, etc. A dificuldade está em dar com os muito magros. Talvez Jesus Cristo na cruz, embora parte da magreza lhe venha da postura, que tende a projectar para fora as costelas da caixa torácica; talvez alguns rostos alongados nos quadros de El Greco, mas quase nunca corpos nus. Com absoluta certeza, só me ocorre "o homem que anda", de Alberto Giacometti, e as representações de Don Quijote. Mas as estátuas de Giacometti lembram um homem normal que sofreu uma tortura por estiramento dos pés à cabeça e resistiu, não são representações realistas de um homem magro. E Quijote aparece quase sempre junto do gordo Sancho, pelo que o par se anula. A arte não nos preparou para o confronto com os magros. Nem a vida, apesar das greves de fome e do avô que lentamente vai sendo vencido por um cancro. As fotos dos sobreviventes dos campos de concentração nazis são perturbadoras, mas de algum modo também pioneiras, como se tivesse sido preciso esperar até 1945 para a magreza ser exposta ao mundo.

 

Os muito magros tendem a aparecer nos ginásios. Sei do que falo. Vamos com roupas largas e evitamos olhar para os outros, inclusive os que se parecem connosco, porque não queremos fazer do ginásio uma reunião de magros anónimos - "olá, sou o Carlos [e o coro: "olá, Carlos] e peso 58 kg". O olhar só não resiste aos corpos daqueles que eram como nós e venceram a magreza ("I'll beat this" - nunca se lê nas revistas), porque reconhecemos esses corpos como os ex-presidiários se topam e, não sendo os mais belos, são os únicos com que podemos sonhar. Mas esta lucidez vem acompanhada de uma ocasional tara. No meu caso, é associar a fragilidade física à fragilidade psicológica. Os baixos podem sempre recorrer ao exemplo de Napoleão, apesar da incerteza sobre a real estatura do homem. Os magros podem recorrer a Gandhi. Só que tudo seria mais fácil se não fosse preciso nenhuma figura inspiradora, isto é, se não fosse magro.

 

Ontem, enquanto trabalhava os tríceps, reparei nos ombros de um preto que corria na passadeira rolante de costas voltadas para mim. Eram ombros possantes, amplos e revestidos por músculos harmoniosamente trabalhados. Sucedeu então algo estranho: vesti aqueles ombros e recuei no tempo. Revisitei todos os momentos importantes na minha vida, as encruzilhadas que definiram o meu caminho, perguntando com alguma persistência se aquela armadura de carne que agora envergava influenciaria o meu percurso. Não só se me teria feito um homem diferente, mas sobretudo se me teria feito um homem melhor, mais íntegro, corajoso e bom. Por exemplo, se me teria levantado mais vezes e pedido a palavra nas RGAs. Se teria sido mais ousado nas minhas escolhas profissionais. Se teria sentido menos medo de falhar. E a resposta a todas as perguntas foi "sim". Tenho perfeita noção da falta de fundamento que há em fazer equivaler a fibra moral às fibras da musculatura estriada, mas há um tipo de pensamento para uso individual que tolera alguns saltos lógicos; reformulando, que se estrutura com base nesses saltos lógicos, fazendo disso o seu método, como o ficcionista por vezes provoca uma interferência inverosímil na realidade, corrompendo uma qualquer lei da física, para poder chegar a um determinado lugar e depois recomeçar a escrever sem mais desrespeitar a ordem do mundo, ou como o homem de fé, que parte de uma premissa que não ousa questionar e só se preocupa então com as conclusões lógicas que daí resultam.

 

É por isso que nas inúmeras vezes que ouço "estás mais magro" sinto uma reprimenda vinda de quem provavelmente me estima e se preocupa com a minha saúde ou a minha aparência. Não que a minha admiração pelos corpos insensatamente musculados vá além do mero reconhecimento da disciplina que aquilo implica e se transforme em veneração por um traço de personalidade que estime poder medir a partir do perímetro do antebraço. Não que ao cruzar-me com alguém mais magro do que eu sinta a vil satisfação de ter descoberto que, afinal, não sou o último da classificação por qualidades humanas. É apenas por dar tanta importância a recuperar os 6 kg entretanto perdidos, sobretudo quando tal acontece em momentos de quebra anímica. Talvez porque, apesar da dificuldade, recuperar peso é mais concretizável do que expiar uma culpa. Eis o segredo. Um ritual regenerador a fazer as vezes da redenção impossível. Esta absurda frenologia que criei funciona como estratégia adaptativa.

 

* De um ponto de vista científico, esta imagem falha, porque o corpo humano tem cavidades essencialmente ocas, mas teria sido inoportuno discutir este detalhe.

 

 

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Eremita às 12:54
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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011
Terça-feira, 22 de Fevereiro, 2011

 

 

Jonh Coplans

 

10.05.08 Se é verdade que a assimetria muscular traduz sempre um desvio ao plano do criador, que nos fez tendencialmente simétricos, quando não é imposta pelos azares da genética tenderá sobretudo a expressar uma convicção. Tanto o lançador de dardo, em Astérix aux Jeux Olympiques, como os rapazes da academia de ténis de Infinite Jest têm um braço mais hipertrofiado do que o outro. Mas Astérix são bonecos e a observação atenta dos tenistas que aparecem na televisão a trocar de camisa não revela grandes assimetrias. Parece haver um princípio de vasos comunicantes rege os músculos simétricos, mas não os músculos de grupos distintos. Tal simetria, que rege também a minha parca musculatura, de algum modo me entristece, pois parece indicar que não fui capaz de fazer com o corpo nada que não estivesse absolutamente previsto pela natureza. Como máquina, limitei-me a cumprir o que se esperava de mim. Ando, corro, agarro em objectos, reajo a estímulos musicais, etc. O único conforto que ainda vou tendo, creio que um segredo que ainda não partilhei, é quando junto as mãos, palma com palma, como se rezasse, mas apenas para comparar o volume do músculo adutor do polegar das mãos esquerda e direita. Ainda se nota uma diferença de volume. Pode já ser só a tal memória dos músculos de que alguém me falava ou a impressão de imagens passadas, que se confundem com a actual, à custa de repetir este gesto tantas vezes e tão próximo dos olhos que o fundo fica sempre desfocado, mas ainda me parece que o músculo da mão direita é ligeiramente mais forte do que o outro e isso enche-me de uma alegria absolutamente intransmissível (e se fosse sensato, até inconfessável), que mistura o regresso à adolescência e ao estudo da guitarra, no meu quarto, com a garantia de que, afinal, construí uma idiossincrasia que me afastou do plano do criador.



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Eremita às 11:10
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Domingo, 12 de Dezembro de 2010
Domingo, 12 de Dezembro, 2010

Jonh Coplans

 

 

7.05.08 Não há mulheres no balneário masculino que frequento. Também ainda não vi fotos de calendário  de garagem a forrar a parte interna das portas dos cacifos, que é como os balneários de esquadras, bombeiros e desportistas são imaginados pelos guionistas. É até provável que se passem meses sem que uma mulher entre naquele espaço, pois quem se ocupa da limpeza é um rapaz. Só me dei conta deste absoluto vácuo  hoje, quando saía do chuveiro e deparei com o nome "Catarina" tatuado de omoplata a omoplata nas costas de quem presumo ser o seu namorado. O nome transcendeu-se naquele instante, como se aquele homem tivesse olhos nas costas mas quem olhasse fosse Catarina. 


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Eremita às 22:24
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Terça-feira, 26 de Outubro de 2010
Terça-feira, 26 de Outubro, 2010

John Coplans

 

 

5.05.08 Um escritor conhecido disse que o seu velho pai tirava os óculos para fazer a barba. Eu uso a condensação do vapor, o lusco-fusco ou a máquina de barbear eléctrica, que detesto. Um cronómetro também não me parece uma má ideia, em teoria. Chego até a cometer o atentado ecológico de abrir a torneira de água quente da banheira antes de me barbear, para beneficiar de um duplo efeito: o vapor e a urgência. O objectivo é sempre o mesmo: evitar o confronto com o espelho. Má sorte a minha não ter nascido míope. Como podem certos homens passar tanto tempo diante do espelho, para mais em sítios públicos como o balneário de um ginásio? Como podem não se aborrecer diante dos seus rostos? O índice quantitativo da vaidade  absoluto só não é o tempo máximo que conseguimos aguentar contemplando o nosso rosto porque não são de excluir os efeitos do peso na consciência.



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Eremita às 01:11
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Domingo, 17 de Outubro de 2010
Domingo, 17 de Outubro, 2010

 

John Coplans

 

1.05.08 Por vezes também nado. Nadar tem aquela coisa meio mística do regresso ao útero, quando se entra, e do renascimento, quando se sai. É mesmo assim, sobretudo se se nada a meio do dia. Socialmente, nadar também é muito menos penalizado do que o exercício nas máquinas ou com pesos livres, que levanta sempre a suspeita de vaidade.



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Eremita às 09:53
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Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010
Sexta-feira, 01 de Outubro, 2010

John Coplans


29.04.08 Acredito na verdade absoluta, mas as medidas do corpo são sempre relativas. As mamas crescem na razão inversa do diâmetro da cintura; a altura esmaga-nos quando não é superior à altura de quem consideramos baixo; e o pénis, na cabeça de um homem que se deite com uma mulher sexualmente experiente, só admite dois tamanhos: maior ou menor do que o pénis do antigo companheiro dela. Existe pois em cada confronto com o espelho um exercício de cubismo, em que as dimensões do espaço são redimensionadas em função dos nossos anseios, numa espécie de quadratura da vaidade de que a bulimia, a anorexia e outras patologias do corpo são apenas os extremos de um espectro contínuo. Consideremos a barriga.

 

Os magros envelhecem melhor do que os outros. Magríssimos na adolescência, tendem sem esforço para uma elegância feita do natural acumular de quilos que vem com os anos. Nos outros, aqueles que eram atléticos ou já algo roliços, o mesmo fenómeno faz deles pessoas gordas. Mas o gordo de raiz tem uma vantagem sobre os magros e sobre os gordos por progressão na vida: nele, nunca a barriga é um sinal de decadência física, enquanto nos outros pode chegar inclusive a ser um sinal de decadência moral. A nossa barriga mede-se sempre em relação à fase em que não a tínhamos. Se essa fase não consta da biografia, a barriga deixa de existir, por mais imensa que seja. Em certa medida, a barriga mais presente é a que está ausente. Enfim, a juntar a este relativismo, temos um dado absolutamente objectivo: não há silhueta mais repugnante que o de um homem magro com uma barriga proeminente. Tudo isto é trivial.

 

Menos documentada é a relação que as mães estabelecem com o despontar da barriga nos filhos adultos. Eu diria que tal evento, aos 30 ou aos 40 anos, desperta na progenitora um instinto atávico, que a transporta de volta ao tempo da infância do seu filho. Por isso, a mãe revela um espírito quase lúdico que choca com o pudor, o embaraço, por vezes até a atitude de negação do seu filho. Esta novidade foi-me revelada ontem por um colega de ginásio que insiste com particular fervor nos exercícios para a região abdominal. Ele não se exercita para despertar comentários elogiosos entre o mulherio. Não. A sua principal motivação em perder a barriga é que a sua mãe deixe de brincar com ela como se fosse a de um menino no momento do banho. Nunca li nada de parecido a este relato, mas aceito-o como verdadeiro.


Adenda efémera: esta é a melhor série do Ouriquense e também a menos apreciada. Creio que induz um certo desconforto e o autor revela uma dimensão - digamos - pouco nobre. Manuel Alegre não mora aqui. Entretanto, resolvi apagar o título ("somatização existencialista"), que era francamente mau, e promover o subtítulo a título propriamente dito. Assim nasce "Um tributo a John Coplans", de petit nom "Tributo".

 

 


Nuno Salvação Barreto defende que um corpo deve levar uma marrada ou uma bala, se a ideia é fazer dele assunto.

 



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Eremita às 14:44
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Sexta-feira, 25 de Junho de 2010
Sexta-feira, 25 de Junho, 2010

John Coplans

 

25.04.08 Acompanhar as alterações no rosto de um homem que surgem com o envelhecimento é insuficiente para descrever a sua decadência física. O rosto está sempre presente e sempre exposto, pelo que só com os amigos que reaparecem ao fim de muitos anos podemos notar as mudanças. Também as pernas e os braços preservam uma relativa juventude e até a essência do corpo juvenil, apesar dos ginásios. É entre o pescoço e o baixo-ventre, sob a roupa, que têm lugar as alterações  mais fiáveis. As mais óbvias são o aumento geral da volumetria, a mudança na qualidade da carne e da pele, os peitorais que se fazem mamas e o adeus dos abdominais que a barriga soterrou. Dêem-me um cadáver decapitado e de membros decepados e acertarei na idade do morto com um erro 3 anos. Mas feita a orografia do tronco, sempre sobra algo difícil de cartografar, que nenhuma lipoaspiração, nenhuma dieta, nenhum treino é capaz de retardar, talvez por estar tão fundo, não no corpo, antes na escala de complexidade. Um corpo é um conjunto de sistemas, que são um conjunto de órgãos, que são tecidos, que são células, que são organelos, que são moléculas, que são átomos, que são partículas. Vamos morrendo algures entre as células e as moléculas, e o tronco é o monitor que disso nos vai dando conta, como se Deus tivesse equipado cada homem com um poderoso microspópio electrónico e todas as manhãs o confrontasse com o seu destino final. Perto disto, as rugas do rosto são uma consolação.

 

 

 


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Eremita às 01:29
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Domingo, 7 de Fevereiro de 2010
Domingo, 07 de Fevereiro, 2010


John Coplans


 

20.04.08 Uma colega de faculdade que não via há mais de 25 anos cruzou-se hoje comigo no ginásio. Não teria sido capaz de a reconhecer e comportei-me com o cuidado necessário para quem não se lembra do nome do interlocutor. Houve conversa de circunstância, ela disse-me que tinha engordado e eu respondi que também engordara - não sendo mentira, tentei sobretudo ser solidário. "Mas tu eras esquelético", respondeu-me - sendo verdade, soou-me sobretudo cruel.


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Eremita às 20:33
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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010
Terça-feira, 26 de Janeiro, 2010

John Coplans

 

 

12.04.08 Sou canhoto. Dos pés à cabeça, a parte esquerda do meu corpo parece levar décadas de avanço sobre a parte direita. Há um cansaço que se aloja à esquerda, mas também experiência e destreza. A parte direita está mais fresca, e é mais ingénua e canhestra. A direita só acompanha a esquerda no crescimento e na aquisição de força - é sempre com surpresa que confirmo poder levantar com o braço direito o mesmo haltere que o braço esquerdo ergueu. Mas sinto as duas partes como corpos de siameses que se tocam um no outro ao longo de todo o plano sagital. Sorte minha não haver contencioso entre as partes sobre a quem pertence o umbigo.


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Eremita às 00:01
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Domingo, 24 de Janeiro de 2010
Domingo, 24 de Janeiro, 2010

John Coplans

 

10.04.08 Enquanto me secava, lembrei-me que os ecologistas classificam as relações entre indivíduos de espécies diferentes segundo uma lógica de custo e benefício. Na simbiose, o benefício é mútuo. No comensalismo, um é beneficiado e o outro não é muito incomodado. No parasitismo, um perde para que o outro possa ganhar. Não se podia ser mais claro. Mas consideremos o líquen. É o paradigma da simbiose, metade alga, outra metade fungo. Este recebe alimento daquela e retribui em protecção e humidade. Parece uma relação doméstica à moda antiga, em que o fungo é a mulher e a alga, a breadwinner, o homem. Os dois estão até condenados a viver um com o outro e os naturalistas, para não agitarem o sempre efervescente mundo da botânica, decidiram que esta seria uma "relação feliz". Só alguns, no estilo pica-na-merda, falam de hilotismo. O termo remete para os hilotas, o mais baixo estrato social da cidade soberana de Esparta, que eram propriedade do Estado e seriam - enfim - mais felizes do que escravos propriedade de cidadãos. Como se percebe, a matéria é menos consensual do que julga, mas ainda mais quando se pode saber a opinião dos intervenientes.

 

O pé de atleta é uma dermatofitose provocada por um fungo que se alimenta de células mortas queratinizadas e provoca lesões vesiculosas nos espaços interdigitais dos pés. O fungo estabelece uma relação física íntima com o homem e, para muitos, esta será a relação mais íntima e duradoura das suas vidas. Existe tratamento, mas é prolongado; o fungo pode manter-se para sempre entre os dedos, como um amor mal resolvido. Por vezes há sangue e quem vê as feridas não tem dúvidas em dizer que se trata de parasitismo, mas quantos homens, que as têm, não reconheceriam, sob anonimato, viver uma simbiose? O fungo come, o homem coça-se, o prazer nasce.

 


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Eremita às 23:32
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Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010
Segunda-feira, 04 de Janeiro, 2010

John Coplans

 


9.04.08 Há quem não se reconheça no sexo que lhe coube em sorte e quem se estranhe ao espelho. Nunca experimentei tais aflições, mas há décadas que um centímetro quadrado parece não me pertencer. Fica na parte interna do cotovelo direito e sinto-o como um enxerto de pele de alguém com nervoso miudinho.


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Eremita às 15:59
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Domingo, 27 de Dezembro de 2009
Domingo, 27 de Dezembro, 2009


John Coplans

 


7.04.08 Nos magros, a gordura chega sempre de repente. Explicando melhor: a progressiva e lenta acumulação de gordura não impede que a sua percepção seja uma surpresa. Uns homens entendem-na como a somatização de um trejeito feminino e outros aceitam-na como um sinal da inexorável marcha do tempo. Mas em ambos há um fascínio juvenil pelas qualidades deste novo tecido, que lhes era tão estranho. A forma como a gordura reage ao toque, propagando à superfície o impacto que os tecidos ricos em colagénio logo absorvem, é novidade. A película de gordura no peito e sobre os ombros sente-me como um casaco que se sabe vestir mas não se comprou, sobretudo nas poses pouco usuais ou maneiristas. Há um certo fascínio nesta capacidade de o corpo mudar a forma, que restaura a esperança em mudar o feitio. Naturalmente, este ânimo só dura uns quilos.

 

Do princípio de papada falarei mais tarde e termino com a gordura localizada na barriga. É a mais feminina de todas, pelo menos ao tacto. Chega a parecer gordura de matrona ou de jovem menstruada que ganhou celulite. Tudo depende do ângulo de incidência da luz. No couro cabeludo, a luz não deve incidir de topo, para que um homem mantenha a ilusão de cabeleira farta. Na barriga, a luz nunca deve incidir obliquamente, para que as pregas não ganhem o volume da sombra e, sobretudo, para que aquela superfície imperfeitamente lisa não pareça ainda mais acidentada. Envelhecer bem não é apenas a arte de saber comer e fazer exercício. Envelhecer bem só se consegue com uma boa luminotecnia. E quando tudo falha, apaga-se a luz.



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Eremita às 10:29
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Quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
Quinta-feira, 08 de Outubro, 2009

John Coplans

 

2.04.08 A melhor comédia humana acontece todos os dias diante do espelho dos ginásios. Há a versão para todas as idades, diante do espelho da sala das máquinas, e a versão para maiores de 16 anos, diante do espelho do balneário.  


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Eremita às 09:45
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Domingo, 20 de Setembro de 2009
Domingo, 20 de Setembro, 2009


John Coplans



30.03.08
Se um autocarro com membros de uma orquestra sinfónica se despenhasse, por mais minuciosa que fosse a inspecção aos cadáveres seria impossível identificar quem tocava o quê. O exercício também é válido para uma orquestra filarmónica, para um grupo de música barroca e uma big band. Mas se no autocarro em que viajava a orquestra estivesse também o concertista que com eles acabara de interpretar a Fantasia para un Gentilhombre, não seria preciso um detective para o identificar; bastaria olhar para as mãos de todos eles.

 

Não há na civilização ocidental registo de um tocador de tuba enfezado, mas também os talhantes podem ser robustos. As bochechas de Dizzy Gillespie eram idiossincrasia e não traço distintivo da classe dos trompetistas. Maria João Pires tem umas mãos pequenas. Com a ressalva de me escapar outro, só conheço um instrumentista que molda o seu corpo ao instrumento. É o guitarrista.

 

Em rigor, as unhas de um guitarrista são mais instrumento do que corpo. É como se parte da guitarra ficasse agarrada às mãos. Por crescerem continuamente, as unhas precisam de ser limadas, mas também o instrumento requer tratamento. Sendo as unhas a menos orgânica das estruturas externas do corpo e sendo a madeira o mais vivo dos materiais inertes, o dedilhado restaura a ordem natural das coisas.

 

Quando me perguntam se toco guitarra, procuram apenas uma confirmação. Mais perspicaz foi a rapariga que descobriu vergonha no meu hábito de ter os dedos recolhidos num perpétuo punho frouxo, para assim esconder as unhas. Estava era equivocada. O problema não é a imagem horripilante das mãos de um homem com unhas compridas, antes o desconforto de quem sabe que não é um guitarrista de verdade e que, por isso, não merece exibir as unhas que tem. É vergonha, sim. Mas não é a vaidade, são os remorsos.

 


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Eremita às 10:00
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Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009
Quinta-feira, 17 de Setembro, 2009


John Coplans

 


23.03.08 Lesionei o gémeo da perna direita no tapete rolante, há umas semanas. Foi inglório e também estúpido, pois acelerei bruscamente e não havia aquecido. Ainda não passou. Coxeio agora com alguma subtileza e estou em tirocínio intensificado para a velhice. O corpo vai dando de si. Dois molares destruídos pela ondotologia francesa, o rádio e o cúbito do braço direito tortos, um eczema persistente sobre o esterno, joanetes indomáveis e uma densidade capilar que já não resiste à iluminação a pique são as manifestações exteriores do passar dos anos. Internamente, só uma otite crónica me dá problemas. Em termos comportamentais, a libido dos 20 anos já só pode ser testemunhada - sejamos positivos - por mulheres que perdi de vista. Podia ser pior, mas sinto que comecei a apodrecer.

 

Mas esta dor é a de um privilegiado. Só volta se esforço a perna e é tão pouco intensa que não me limita. Fruto de um azar e de alguma displicência, também não compromete como a autoflagelação.Vai pois cumprindo o seu papel, distraindo-me de outras preocupações e sem grande ónus. Oxalá demore a passar. Nada como uma suave dor crónica para nos recordar em permanência as coisas essenciais.

 

 

* Explicação para esta série, que foi escrita antes de chegar a Ourique e agora me limito a rever.


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Eremita às 18:25
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Quinta-feira, 2 de Abril de 2009
Quinta-feira, 02 de Abril, 2009

John Coplans

 

 


23.03.08 No leg press, reparei que tenho uma zona de pele despigmentada perto do joelho direito. Trata-se de uma área muito pequena e com uma forma que se afasta da de uma vulgar cicatriz e se parece mais com um país de velhas fronteiras. Fiquei a série inteira a olhar para a pequena mancha, que a cada repetição se  afastava e de novo se aproximava. Não sei há quanto tempo ali está, talvez há anos, nem como apareceu. Como não sou hipocondríaco, não farei desta observação pretexto para um longo texto sobre todos os tipos de despigmentação de pele, as suas causas, tratamentos e prevenções. Digo-o com pena. A tara do hipocondríaco, como a o paranóico, pode potenciar-lhe o talento literário.

 


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Eremita às 19:28
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Sexta-feira, 20 de Março de 2009
Sexta-feira, 20 de Março, 2009

 

 

 

 


John Coplans


 

 

25.03.08 De todos os tipos que se passeiam pelos ginásios, tenho especial ternura pelos homens baixos entroncados e pelos homens velhos de corpo atlético. As mulheres não me despertam particular interesse, excepto as elegantes - o que é um interesse banal. Faz sentido que seja assim: vai-se para um ginásio por narcisismo e os homens que por lá se passeiam têm algo de sobrenatural. Não são espectros, são espelhos das nossas fobias ou dos nossos desejos. As mulheres são criaturas absolutamente irrelevantes. Às vezes imagino Alexandre Herculano numa máquina de chest press, gritando como terá gritado no leito de morte: "levem daqui as mulheres!" Mas nem seria preciso: as mulheres dos ginásios são praticamente invisíveis para mim. Sei que algumas até se vestem com cores garridas, mas ficam registadas na memória como uns vultos à Noronha da Costa, embora em fatos de lycra e sem sombrinhas, ou então apenas como manchas desfocadas e sem género aparente.

 

Os homens baixos entroncados lutam contra o espaço e os homens velhos de corpo atlético lutam contra o tempo. Por isso balizam todos os outros homens. Estes dois tipos remetem-nos também para duas questões centrais em Biologia -  o que controla o tamanho do corpo? O que determina a longevidade? Embora não tenha feito um teste estatístico,  é curioso haver tão poucos homens velhos baixos e entroncados no ginásios, talvez por ser difícil lutar contra o espaço e o tempo em simultâneo. 

 

 

 


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Eremita às 16:08
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Domingo, 21 de Setembro de 2008
Domingo, 21 de Setembro, 2008

 

John Coplans

 

 

 

 

23.03.08 Houve um tempo ainda não tomado pela imagem de uma região lombar já suada e intermitentemente iluminada pelos relâmpagos de uma trovoada. Nesse tempo, do cimo das nádegas à base do pescoço, as costas ainda não trocavam tantas vezes de rosto, não amava  vaga e genericamente, e ainda me dominavam as lembranças de estar sentado costas com costas com um amigo, o quadro  doméstico que era a mãe a espremer as borbulhas do pai e a imagem de um Robinson Crusoé nu e satisfeito, deitado de barriga para baixo na mancha de flores sobre a bissectriz definida pelos dois montes do prado, mais ao fundo, a cena mais erótica que alguma vez terá passado na RTP - e quem mais se lembrará?

 

Um tipo que trabalhava o músculo latíssimo do dorso ficou ontem uns minutos no meu enfiamento, de costas para mim  - eu dava aos músculos exteriores do antebraço, uma prioridade para quem gosta de andar de mangas arregaçadas. Gera-se um efeito quase hipnótico quando se vê a musculatura das costas de outra pessoa, que passa a ser uma engrenagem, sobretudo se for alguém muito musculado que tenha um ritmo regular e não se exercite no limite do esforço, pois aí os guinchos e a respiração ofegante não deixam dúvidas de que se trata de um animal. O tipo de ontem tinha uma cadência muito constante e não fazia barulho que se sobrepusesse ao da música ambiente. Era um homem enorme, com uma envergadura de albatroz, mas nem ele tinha o tamanho necessário para que, deitado, fosse um monte que apetecesse conquistar.

 

Não sei se cheguei a fazer de filhote de morsa com o meu pai. Teria de ser minúsculo para lhe escalar as costas e me deitar sobre elas ao sol como se fossem uma praia sobre a praia, tão pequeno que a minha memória não pode repescar esses momentos. De onde virá então a impressão das minhas mãos sobre as suas costas? Havia uma tensão entre as peles que poderia ser a do meu corpo erguendo-se e rastejando sobre ele, indo do lombo para a região cervical com uma urgência de segredar algo ao ouvido que dispensa até o domínio da fala. Mas nem a memória chega tão atrás, nem a carne de que me lembro era a de um homem forçosamente novo. Tacteava a brandura da fina camada adiposa que aos quarenta anos já se instalou.

 

De onde vinha aquela experiência? Enquanto o albatroz prosseguia as suas séries, regular como um relógio de parede, perdi-me em raciocínios, abusando da exclusão de partes para chegar depressa a um lugar que sumariamente transformei em certeza: as águas do cais da Ponta do Sol. Era aí que o pai ia às jacas (caranguejos) e às lapas de apneia, levando os filhos miúdos como ajudantes. Fazer o perímetro do cais assustava-me, porque ao fim da tarde o lado este está à sombra e num mar à sombra só se espera que um tubarão irrompa do azul profundo. Havia o relato de um ataque na costa norte, que ficava logo ao virar da ilha, e havia o Cousteau, a cujos mares longínquos a água do meu mar chegava. De vez em quando, depois de olhar com a viseira a 360 graus, certificando-me de que nenhum tubarão teria tempo de me apanhar, aproximava-me do meu pai e tocava-lhe nas costas. A tal tensão, aquele atrito de pele na pele, poderia vir da ponta dos dedos encarquilhados pelos mergulhos mais longos e de uma mão crispada de medo, embora tentasse sempre dar a impressão de um toque casual. Só pela proximidade, o dorso esbranquiçado do meu pai à tona de um mar ensombrado reconfortava-me. Mas sobrava uma impressão de taxidermia, talvez por ter tão presentes os grandes espécimes do museu de história natural do Funchal; afinal, o meu pai era o maior animal que eu via naquele oceano. Tentava por isso demorar o toque nas suas costas, certificar-me de que ele não seria carne para tubarão e que estava vivo para me proteger, apesar de o ver a mexer-se - também as grandes algas oscilam com as correntes e não têm movimento próprio. Sem que me denunciasse, chegava então a sentir o calor do seu corpo. Não há nada mais reconfortante do que a exotermia de um corpo endotérmico dentro de água, a menos que se trate de uma orca, claro. O meu pai nunca percebeu aquela minha rotina ou então percebeu tudo, porque o passado é mais fácil de gerir quando não há meio termo.  


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Eremita às 08:15
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Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008
Sexta-feira, 19 de Setembro, 2008

John Coplans

 

O mano passou por aqui ontem e trazia uma supresa: uma resma de rascunhos, poesia de juventude, várias provas da minha intensa actividade de desmanchadeira de diários, cópias em papel químico de cartas de amor e muitas folhas escritas à máquina. Passei a noite a reler aquele material e ainda não preguei o olho. Vai tudo para o ecoponto, menos umas folhas agrafadas e dactilografadas com a estupidez de quem imita o escritor nos aspectos mais acessórios, mas também o cuidado e a modéstia de quem pressente ter nas mãos tanto o primeiro rascunho como uma última edição de autor. Daí a mancha gráfica cuidada, as margens tão generosas.


Trata-se de um conjunto de umas cinco ou seis dezenas de textos (não estão numerados) que escrevi durante os meses que frequentei o tal novo ginásio, de Janeiro a Julho deste ano. Terminei-os antes de vir para aqui e foi o último projecto literário, pois em Ourique deixei de escrever e não faço absolutamente nada, tirando ler e outros passatempos, como o tiro aos comprimidos  -agora também racho lenha, mas veremos quanto tempo dura este novo capricho. Conto começar a transcrevê-los para o Ouriquense. E se houver scanner na vila, talvez até deixe umas fotografias do original dactilografado, por causa daquele efeito legitimizador do making of.

 


Os primeiros textos estão praticamente todos riscados a tinta vermelha ou então têm frases metralhadas com a tecla "x". Ainda se consegue perceber as razões deste fuzilamento: tinham sido falsas partidas. Eu chegava a casa vindo do ginásio e sentia-me refém das impressões mais imediatas. Tudo o que escrevia girava em torno do sexo. Como não é um material fácil, só destilava banalidades. Este fragmento, por exemplo: "no balneário dos homens, há quem oculte sempre o sexo com uma toalha, quem com ele se passeie ostensivamente e quem o trate com a indiferença que damos ao calcanhar, destapando-se umas vezes e outras não, de acordo com critérios práticos ou de simples higiene. Eu sou deste terceiro tipo, mas só por educação,  pois não me sai naturalmente. E fico sempre a pensar que as pilas maiores não estão à mostra. Imagino por lá uns tipos que ocultam as suas para não despertar a inveja, o medo e a tristeza nos outros.(frase ilegível) ... pois, em todo o caso, só pode ser um pensamento de esquerda." Enfim, depois vem uma reflexão sobre a impossibilidade de um homem ter uma ideia do percentil do seu próprio pénis, pois ainda que uma régua e a distribuição populacional lhe sejam acessíveis, os números não batem certo com as imagens, que não batem certo com o que lhe dizem, e o que lhe dizem, de não bater certo com nada, por mero acaso pode até acabar por não ser uma mentira. Mas mesmo naquele texto se percebe alguma inibição e os típicos temores que só se afastam de um registo de adolescente pela segurança algo conformada de uma rotina sexual.Se era para usar o corpo e os corpos do ginásio para escrever assim, mais valia ter ficado em casa.

 

Se fosse de forjar epifanias, diria que o entendimento - digamos - profundo de um ginásio ocorreu no dia em que trabalhava os deltóides numa máquina e, mesmo à minha frente, uma rapariga corria de costas voltadas para mim. Tinha uma roupa - um top de licra? - que lhe descobria uns ombros muito harmoniosos, umas omoplatas bem revestidas, a região lombar com uma suave curvatura que fazia a transição concâvo-convexo no lugar perfeito... enfim, um corpo cinzelado com o bom senso de quem sabe que não deve perder toda a gordura nem crescer demasiado músculo. Eu tentava disfarçar o olhar fixado nas suas nádegas com uma máscara de esforço que me levava a semicerrar os olhos, mas aquele rabo não saía do campo de visão, apenas ficava ligeiramente desfocado, também por causa do suor nas pestanas. Só que em algum momento o rabo sublime e enxuto passou a ser visto como um símbolo de fertilidade e sem ponta de lascívia. À minha frente, a Vénus de Willendorf corria sobre a treadmill. Não estava a alucinar, limitei-me a fazer uma associação, mas como há um fascínio generalizado por aqueles seios pesados e coxas poderosas, e quase nenhuma imagem do traseiro da Willendorf, tê-lo imaginado a partir de um rabo pós-moderno fez-me dar descanso aos deltóides e pensar por momentos se não haveria ali um princípio de deserotização algo redentor, que talvez me reabilitasse ainda a escrita. Descair no extremo oposto e tornar aquele espaço num ringue em que se boxeia desesperadamente contra a efemeridade, pela tonificação do corpo (a defesa alta) e pela reprodução (o uppercut que dá a vitória por knockout) também me pareceu algo forçado. E como tudo me parecia bastante plácido, a sugerir que a tensão sexual era na verdade neutralizada pela concentração de narcisos, não via ali a malha social dos ginásios onde se pratica desporto de competição, algo capaz de me levar a um pastiche do conto de Ruben Fonseca que acabara de ler, só sobrava mesmo fazer do corpo pretexto e manifesto: se o que está ao alcance de um homem normal é escrever sobre si próprio e se o homem só tem poder sobre o seu corpo, embora nada o force a circunscrever-se à escrita sobre o corpo, não causará surpresa que em alguma altura inscreva o seu corpo na escrita.

 

Lembrei-me então de uma exposição do fotógrafo John Coplans, que vira na adolescência, na Fundação Calouste Gulbenkian. Eram auto-retratos enormes de um corpo nu e envelhecido. Como nunca se via o rosto, havia ali o mesmo efeito de apropriação que se explora nas sequências pornográficas de felação, em que o homem é excluído da imagem de tal forma que o ângulo do seu corpo se funde com o do espectador, que lhe toma de empréstimo a imagem do pénis. Também Coplans fazia com que um rapaz se apropriasse dele, mas para estender a sua vida e não o corpo - afinal, gostamos de comprar antiguidades. O corpo de Coplans ainda hoje me surge como o mais almejável dos desejos, embora lutasse contra ele todos os dias naquele ginásio. Era como se aceitasse que iria passar a vida atrás dos corpos de Mapplethorpe, num esforço inglório, mas a partir de então com a tranquilidade de quem na juventude passou revista ao lar onde sabe que teminará os seus dias e não desgostou da decoração. Por isso concluía sempre os exercícios com um sorriso, logo a seguir a desfazer a máscara de esforço. Isto criou vários e deliciosos equívocos. Por exemplo, a tal rapariga, quando se virou e me viu, sorriu de volta. Devo muito a John Coplans.


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Eremita às 05:30
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