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Ouriquense

22
Mai16

XXI

Eremita

 

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Galata Morente

A privação cultural a que Ourique me submete é atenuada pelas sessões no cineclube, as emissões especiais do meu enviado à capital e a biblioteca do Judeu. Como a minha própria biblioteca tem sido pouco discutida, há um esforço consciente para censurar referências à biblioteca dele, mesmo sendo a comparação desleal, visto que a minha é uma biblioteca em construção, de tendência minimalista, e a dele já senescente, mas tão ambiciosa que provavelmente não há outra biblioteca pessoal a sul do Tejo tão grande, excluindo a de Pacheco Pereira. 

 

Peguei ontem num calhamaço sobre a arte dos romanos. É um daqueles livros que antes se compravam através do Círculo de Leitores, bons para encher as prateleiras da sala, mas nunca propriamente lidos, apenas folheados, e tão iguais a tantos outros que olhamos para eles como obras anónimas, o que agradará por certo aos seus autores, pois há nesses livros todas as indicações de que são meras oportunidades de negócio para académicos remediados. 

 

Fui folheando da frente para trás, que não só é a forma de folhear mais confortável para um canhoto, como a que melhor frisa o desprezo pelo texto. E fazia-o com tal rapidez que, se as estátuas  fossem um pouco mais estereotipadas e tivessem sido fotografadas sempre do mesmo ângulo, a passagem das folhas teria resultado na animação cómica de um tronco másculo estático com  braços em rotinas de break-dance. Mas quando dei com Gala Morente, a dança acabou. 

 

Creio já ter referido o critério de demarcação que distingue a heterossexualidade da homossexualidade. É um critério implicitamente tosco, como todos os critérios que forçam a dicotomia, mas que funciona bem como tought experiment e julgo ter colhido ao longo de vários anos abundante evidência empírica de que funciona, embora seja apenas a minha evidência. Enuncia-se assim: perante um corpo do mesmo sexo atraente, no homossexual predominará  a vontade de conquistar e no heterossexual a de encarnar. 

 

 

21
Out11

XX

Eremita

 

 

Jonh Coplans

 

2.06.08 A fauna dos ginásios inclui os "flamingos". Aprendi que os "flamingos" são os tipos que trabalham muito a musculatura acima da cintura, ficando com pernas muito menos trabalhadas do que o resto do corpo. São figuras que fazem do caricaturista um hiper-realista e uma manifestação somática do centralismo dos órgãos de decisão, isto é, da cabeça. Ou o corpo como triunfo grotesco da vontade.

 

 

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Decidi não publicar as últimas 5 entradas do período que antecedeu a minha vinda para Ourique e em que frequentei um ginásio. São demasiado urbanas e perturbam o espírito do Ouriquense. Mas continuo esta série sobre o corpo, agora em relato directo, aqui de Ourique. Preciso de o fazer. Ainda há dois dias, quando via um filme com o Clint Eastwood, senti uma vontade irreprimível de escrever sobre os braços e o torso do homem. Enfim, serão fraquezas, mas a superação tem limites. Entretanto aconteceu o seguinte: o peso flutuou uns 6 Kg, ganhei sinais, perdi sinais, fiz uma queimadura com o ferro de engomar no antebraço esquerdo, sofri uma dor de costas na região lombar que se prolongou durante semanas e me incomodou sobremaneira nas idas a Espanha, continuaram as visitas da otite residente no ouvido direito, as gengivas por vezes sangraram, os pés mantiveram-se desgraçadamente secos e deformados e tratei uma cárie. Não havendo sinais de rejuvenescimento, nem por isso envelheci muito nos últimos três anos. 

25
Mar11

XIX

Eremita

Jonh Coplans

 

25.05.08 Foi com alívio que reparei no meu primeiro cabelo branco. Não custou nada, já passou. Agora podem vir os outros todos. Pensei que fosse acusar a passagem do tempo, mas percebo que apenas reconheço e tolero o acerto de contas que o tempo fez comigo. Porque é verdade que já tenho idade para cabelos brancos. A ilusão de juventude em que vivia, apenas interrompida pela lembrança dos aniversários, termina hoje e ainda bem, pois só me alienou.

Quando dei por ele, penteava-me com as mãos diante do espelho do balneário. Apeteceu-me arrancá-lo para o enclausurar num cubo de acrílico e o guardar por muitos anos com o zelo que um devoto presta a uma relíquia, mas pressenti que se o fizesse poderia ser mais tarde acusado de vaidade pois no museu das excrescências somáticas só toleramos verdadeiramente os exemplares que lá foram parar por iniciativa parental, como um dente em etanol ou o apêndice em formol. Ou melhor, como não consigo imaginar em que circunstância mostraria o cabelo a alguém, talvez tivesse receado que gozassem comigo depois da minha morte quando vasculhassem os meus pertences. Ai a posteridade, sempre a puta da posteridade. 

 

19
Mar11

XVIII

Eremita

 

Jonh Coplans

 

Dedicado ao Tiago Cavaco

 

 

13.05.08 A História discrimina os magros. Se pesássemos todas as estátuas, com as devidas correcções para o tamanho natural e eliminando a densidade dos materiais, para que um metro cúbico de mármore, cobre ou terracota pesasse o mesmo que idêntico volume preenchido com pedacinhos de um cadáver fresco triturado *(não me ocorreu outra imagem porque não há contorcionismo capaz de expulsar todo o vazio de um cubo), e se às representações bidimensionais da pintura acrescentássemos o volume sugerido pela perspectiva, mesmo desprezando a tendência geral ao longo da história da humanidade para um aumento da altura e a tendência nas sociedades ricas para a obesidade, creio que o peso médio da figura humana na estatuária e nas representações pictóricas ultrapassaria o peso médio da população mundial. É fácil pensar em imagens imortalizadas num qualquer material de corpos ideais (dos gregos a Michelangelo, por exemplo). Mas também é trivial descobrir gordas e gordos mesmo gordos: os símbolos de fertilidade do Neolítico, certas representações de Baco, Buda, as mulheres pintadas por Rubens, as estátuas de Balzac, as baigneuses de Cézanne, as formas redondas de Botero, as camponesas saudáveis de Álvaro Cunhal, etc. A dificuldade está em dar com os muito magros. Talvez Jesus Cristo na cruz, embora parte da magreza lhe venha da postura, que tende a projectar para fora as costelas da caixa torácica; talvez alguns rostos alongados nos quadros de El Greco, mas quase nunca corpos nus. Com absoluta certeza, só me ocorre "o homem que anda", de Alberto Giacometti, e as representações de Don Quijote. Mas as estátuas de Giacometti lembram um homem normal que sofreu uma tortura por estiramento dos pés à cabeça e resistiu, não são representações realistas de um homem magro. E Quijote aparece quase sempre junto do gordo Sancho, pelo que o par se anula. A arte não nos preparou para o confronto com os magros. Nem a vida, apesar das greves de fome e do avô que lentamente vai sendo vencido por um cancro. As fotos dos sobreviventes dos campos de concentração nazis são perturbadoras, mas de algum modo também pioneiras, como se tivesse sido preciso esperar até 1945 para a magreza ser exposta ao mundo.

 

Os muito magros tendem a aparecer nos ginásios. Sei do que falo. Vamos com roupas largas e evitamos olhar para os outros, inclusive os que se parecem connosco, porque não queremos fazer do ginásio uma reunião de magros anónimos - "olá, sou o Carlos [e o coro: "olá, Carlos] e peso 58 kg". O olhar só não resiste aos corpos daqueles que eram como nós e venceram a magreza ("I'll beat this" - nunca se lê nas revistas), porque reconhecemos esses corpos como os ex-presidiários se topam e, não sendo os mais belos, são os únicos com que podemos sonhar. Mas esta lucidez vem acompanhada de uma ocasional tara. No meu caso, é associar a fragilidade física à fragilidade psicológica. Os baixos podem sempre recorrer ao exemplo de Napoleão, apesar da incerteza sobre a real estatura do homem. Os magros podem recorrer a Gandhi. Só que tudo seria mais fácil se não fosse preciso nenhuma figura inspiradora, isto é, se não fosse magro.

 

Ontem, enquanto trabalhava os tríceps, reparei nos ombros de um preto que corria na passadeira rolante de costas voltadas para mim. Eram ombros possantes, amplos e revestidos por músculos harmoniosamente trabalhados. Sucedeu então algo estranho: vesti aqueles ombros e recuei no tempo. Revisitei todos os momentos importantes na minha vida, as encruzilhadas que definiram o meu caminho, perguntando com alguma persistência se aquela armadura de carne que agora envergava influenciaria o meu percurso. Não só se me teria feito um homem diferente, mas sobretudo se me teria feito um homem melhor, mais íntegro, corajoso e bom. Por exemplo, se me teria levantado mais vezes e pedido a palavra nas RGAs. Se teria sido mais ousado nas minhas escolhas profissionais. Se teria sentido menos medo de falhar. E a resposta a todas as perguntas foi "sim". Tenho perfeita noção da falta de fundamento que há em fazer equivaler a fibra moral às fibras da musculatura estriada, mas há um tipo de pensamento para uso individual que tolera alguns saltos lógicos; reformulando, que se estrutura com base nesses saltos lógicos, fazendo disso o seu método, como o ficcionista por vezes provoca uma interferência inverosímil na realidade, corrompendo uma qualquer lei da física, para poder chegar a um determinado lugar e depois recomeçar a escrever sem mais desrespeitar a ordem do mundo, ou como o homem de fé, que parte de uma premissa que não ousa questionar e só se preocupa então com as conclusões lógicas que daí resultam.

 

É por isso que nas inúmeras vezes que ouço "estás mais magro" sinto uma reprimenda vinda de quem provavelmente me estima e se preocupa com a minha saúde ou a minha aparência. Não que a minha admiração pelos corpos insensatamente musculados vá além do mero reconhecimento da disciplina que aquilo implica e se transforme em veneração por um traço de personalidade que estime poder medir a partir do perímetro do antebraço. Não que ao cruzar-me com alguém mais magro do que eu sinta a vil satisfação de ter descoberto que, afinal, não sou o último da classificação por qualidades humanas. É apenas por dar tanta importância a recuperar os 6 kg entretanto perdidos, sobretudo quando tal acontece em momentos de quebra anímica. Talvez porque, apesar da dificuldade, recuperar peso é mais concretizável do que expiar uma culpa. Eis o segredo. Um ritual regenerador a fazer as vezes da redenção impossível. Esta absurda frenologia que criei funciona como estratégia adaptativa.

 

* De um ponto de vista científico, esta imagem falha, porque o corpo humano tem cavidades essencialmente ocas, mas teria sido inoportuno discutir este detalhe.

 

 
22
Fev11

XVII

Eremita

 

 

Jonh Coplans

 

10.05.08 Se é verdade que a assimetria muscular traduz sempre um desvio ao plano do criador, que nos fez tendencialmente simétricos, quando não é imposta pelos azares da genética tenderá sobretudo a expressar uma convicção. Tanto o lançador de dardo, em Astérix aux Jeux Olympiques, como os rapazes da academia de ténis de Infinite Jest têm um braço mais hipertrofiado do que o outro. Mas Astérix são bonecos e a observação atenta dos tenistas que aparecem na televisão a trocar de camisa não revela grandes assimetrias. Parece haver um princípio de vasos comunicantes rege os músculos simétricos, mas não os músculos de grupos distintos. Tal simetria, que rege também a minha parca musculatura, de algum modo me entristece, pois parece indicar que não fui capaz de fazer com o corpo nada que não estivesse absolutamente previsto pela natureza. Como máquina, limitei-me a cumprir o que se esperava de mim. Ando, corro, agarro em objectos, reajo a estímulos musicais, etc. O único conforto que ainda vou tendo, creio que um segredo que ainda não partilhei, é quando junto as mãos, palma com palma, como se rezasse, mas apenas para comparar o volume do músculo adutor do polegar das mãos esquerda e direita. Ainda se nota uma diferença de volume. Pode já ser só a tal memória dos músculos de que alguém me falava ou a impressão de imagens passadas, que se confundem com a actual, à custa de repetir este gesto tantas vezes e tão próximo dos olhos que o fundo fica sempre desfocado, mas ainda me parece que o músculo da mão direita é ligeiramente mais forte do que o outro e isso enche-me de uma alegria absolutamente intransmissível (e se fosse sensato, até inconfessável), que mistura o regresso à adolescência e ao estudo da guitarra, no meu quarto, com a garantia de que, afinal, construí uma idiossincrasia que me afastou do plano do criador.


12
Dez10

XVI

Eremita

Jonh Coplans

 

 

7.05.08 Não há mulheres no balneário masculino que frequento. Também ainda não vi fotos de calendário  de garagem a forrar a parte interna das portas dos cacifos, que é como os balneários de esquadras, bombeiros e desportistas são imaginados pelos guionistas. É até provável que se passem meses sem que uma mulher entre naquele espaço, pois quem se ocupa da limpeza é um rapaz. Só me dei conta deste absoluto vácuo  hoje, quando saía do chuveiro e deparei com o nome "Catarina" tatuado de omoplata a omoplata nas costas de quem presumo ser o seu namorado. O nome transcendeu-se naquele instante, como se aquele homem tivesse olhos nas costas mas quem olhasse fosse Catarina. 

26
Out10

XV

Eremita

John Coplans

 

 

5.05.08 Um escritor conhecido disse que o seu velho pai tirava os óculos para fazer a barba. Eu uso a condensação do vapor, o lusco-fusco ou a máquina de barbear eléctrica, que detesto. Um cronómetro também não me parece uma má ideia, em teoria. Chego até a cometer o atentado ecológico de abrir a torneira de água quente da banheira antes de me barbear, para beneficiar de um duplo efeito: o vapor e a urgência. O objectivo é sempre o mesmo: evitar o confronto com o espelho. Má sorte a minha não ter nascido míope. Como podem certos homens passar tanto tempo diante do espelho, para mais em sítios públicos como o balneário de um ginásio? Como podem não se aborrecer diante dos seus rostos? O índice quantitativo da vaidade  absoluto só não é o tempo máximo que conseguimos aguentar contemplando o nosso rosto porque não são de excluir os efeitos do peso na consciência.


17
Out10

XIV

Eremita

 

John Coplans

 

1.05.08 Por vezes também nado. Nadar tem aquela coisa meio mística do regresso ao útero, quando se entra, e do renascimento, quando se sai. É mesmo assim, sobretudo se se nada a meio do dia. Socialmente, nadar também é muito menos penalizado do que o exercício nas máquinas ou com pesos livres, que levanta sempre a suspeita de vaidade.


01
Out10

XIII

Eremita

John Coplans


29.04.08 Acredito na verdade absoluta, mas as medidas do corpo são sempre relativas. As mamas crescem na razão inversa do diâmetro da cintura; a altura esmaga-nos quando não é superior à altura de quem consideramos baixo; e o pénis, na cabeça de um homem que se deite com uma mulher sexualmente experiente, só admite dois tamanhos: maior ou menor do que o pénis do antigo companheiro dela. Existe pois em cada confronto com o espelho um exercício de cubismo, em que as dimensões do espaço são redimensionadas em função dos nossos anseios, numa espécie de quadratura da vaidade de que a bulimia, a anorexia e outras patologias do corpo são apenas os extremos de um espectro contínuo. Consideremos a barriga.

 

Os magros envelhecem melhor do que os outros. Magríssimos na adolescência, tendem sem esforço para uma elegância feita do natural acumular de quilos que vem com os anos. Nos outros, aqueles que eram atléticos ou já algo roliços, o mesmo fenómeno faz deles pessoas gordas. Mas o gordo de raiz tem uma vantagem sobre os magros e sobre os gordos por progressão na vida: nele, nunca a barriga é um sinal de decadência física, enquanto nos outros pode chegar inclusive a ser um sinal de decadência moral. A nossa barriga mede-se sempre em relação à fase em que não a tínhamos. Se essa fase não consta da biografia, a barriga deixa de existir, por mais imensa que seja. Em certa medida, a barriga mais presente é a que está ausente. Enfim, a juntar a este relativismo, temos um dado absolutamente objectivo: não há silhueta mais repugnante que o de um homem magro com uma barriga proeminente. Tudo isto é trivial.

 

Menos documentada é a relação que as mães estabelecem com o despontar da barriga nos filhos adultos. Eu diria que tal evento, aos 30 ou aos 40 anos, desperta na progenitora um instinto atávico, que a transporta de volta ao tempo da infância do seu filho. Por isso, a mãe revela um espírito quase lúdico que choca com o pudor, o embaraço, por vezes até a atitude de negação do seu filho. Esta novidade foi-me revelada ontem por um colega de ginásio que insiste com particular fervor nos exercícios para a região abdominal. Ele não se exercita para despertar comentários elogiosos entre o mulherio. Não. A sua principal motivação em perder a barriga é que a sua mãe deixe de brincar com ela como se fosse a de um menino no momento do banho. Nunca li nada de parecido a este relato, mas aceito-o como verdadeiro.


Adenda efémera: esta é a melhor série do Ouriquense e também a menos apreciada. Creio que induz um certo desconforto e o autor revela uma dimensão - digamos - pouco nobre. Manuel Alegre não mora aqui. Entretanto, resolvi apagar o título ("somatização existencialista"), que era francamente mau, e promover o subtítulo a título propriamente dito. Assim nasce "Um tributo a John Coplans", de petit nom "Tributo".

 

 


Nuno Salvação Barreto defende que um corpo deve levar uma marrada ou uma bala, se a ideia é fazer dele assunto.

 


25
Jun10

XII

Eremita

John Coplans

 

25.04.08 Acompanhar as alterações no rosto de um homem que surgem com o envelhecimento é insuficiente para descrever a sua decadência física. O rosto está sempre presente e sempre exposto, pelo que só com os amigos que reaparecem ao fim de muitos anos podemos notar as mudanças. Também as pernas e os braços preservam uma relativa juventude e até a essência do corpo juvenil, apesar dos ginásios. É entre o pescoço e o baixo-ventre, sob a roupa, que têm lugar as alterações  mais fiáveis. As mais óbvias são o aumento geral da volumetria, a mudança na qualidade da carne e da pele, os peitorais que se fazem mamas e o adeus dos abdominais que a barriga soterrou. Dêem-me um cadáver decapitado e de membros decepados e acertarei na idade do morto com um erro 3 anos. Mas feita a orografia do tronco, sempre sobra algo difícil de cartografar, que nenhuma lipoaspiração, nenhuma dieta, nenhum treino é capaz de retardar, talvez por estar tão fundo, não no corpo, antes na escala de complexidade. Um corpo é um conjunto de sistemas, que são um conjunto de órgãos, que são tecidos, que são células, que são organelos, que são moléculas, que são átomos, que são partículas. Vamos morrendo algures entre as células e as moléculas, e o tronco é o monitor que disso nos vai dando conta, como se Deus tivesse equipado cada homem com um poderoso microspópio electrónico e todas as manhãs o confrontasse com o seu destino final. Perto disto, as rugas do rosto são uma consolação.

 

 

 

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