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Ouriquense

24
Abr17

Vocabulário shakespeariano

Eremita

 

Há meses que as bebés dominam um léxico elementar constituído por "mamã", "não" e "papá" (enumerados por ordem decrescente de frequência), mas nos últimos dias a Joana e a Marta vêm revelando uma grande apetecência por palavras novas ("água", "urso", "pé", "rosa", etc.), frases curtas ("já 'tá") e fragmentos de canções ("... eu-[sol] tam-[mi]-bém-[sol]..."), o que nos enche de orgulho. Embora ambas se limitem a fazer o que delas se espera, sem sinais de precocidade, quando hoje de manhã, em resposta a estímulos vocais e visuais meus, a Joana disse "mão", comecei a ouvir os metais da introdução de Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss. A partir de hoje, suspeito que nem concentrando as minhas leituras em Heidegger e Mia Couto, e passando a ouvir apenas rappers angolanos, eu conseguiria aprender palavras novas ao ritmo das nossas bebés. E o que valem os neologismos do alemão, os verbos inventados do moçambicano e a gíria dos rappers angolanos diante de "mão" pronunciada com propriedade e consciência do seu significado pela primeira vez na vida? Deixem-me tomar nota: Ourique, circa 7:45, 24 de Abril de 2017. 

 

Continua

18
Abr17

Sarampo

Eremita

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Os pais que recusam vacinar os filhos são burros, ignorantes e egoístas, embora alguns possam ser apenas burros, ignorantes ou egoístas. 

17
Abr17

Epifanias da paternidade

Eremita

Primeiro quinquénio

[actualização permanente]

 

Uma das poucas virtudes da mediania é a capacidade que nos dá de generalizar com grande grau de certeza a partir da experiência individual – nisto, somos superiores aos génios. Só por isso me parece que não erro ao ter elegido como primeira grande epifania da paternidade a constatação de que o amor por um filho não surge instantaneamente e definitivo no dia em que ele nasce (ou com a primeira ecografia), mas vai crescendo nos primeiros meses de forma tão notória que, se houvesse para as emoções um caderninho equivalente àquele em que vamos registando os valores biométricos do bebé, seria possível distinguir grupos de pais segundo a forma da curva de evolução do amor paterno ao longo do tempo, mas sem se instaurar a opressão do percentil, bastando uma categorização nada normativa:  os pais com amor de tipo sigmóide, exponencial, linear, etc.

 

Não tenho a mesma certeza quanto à segunda grande epifania da paternidade, mas arrisco: é a percepção de que, todos os dias, nos esquecemos da nossa condição de pais. Antes de ser pai, imaginava a paternidade como uma mudança de vida radical, que iria muito além da alteração de estatuto social e rotinas, pois a chegada da responsabilidade maior que um homem normal pode esperar penetraria tão fundo na alma que deixaria no corpo uma marca - não propriamente um estigma, mais algo como um levíssimo zumbido que passaria a acompanhar todos os estados de consciência. Cedo concluí que não é bem assim. Não só não há zumbido nem coisa parecida, como não passo os dias vergado pelo peso da responsabilidade. A creche não me liberta apenas para o trabalho, nem se limita a suspender a responsabilidade parental, parecendo sobretudo enviar-me para o tempo em que não tinha filhas, pois entre as 9 da manhã e as 5 da tarde esqueço que as duas existem, como se para responder bem ao estado de alerta exigido pela presença delas precisasse de recorrer a intervalos retemperadores de descanso absoluto. Este mecanismo é tão eficaz que chega a causar alguns problemas de consciência, pois de manhã, excepto quando as bebés se põem a chorar com os braços esticados a pedir colo, não me custa nada separar-me delas, e ao fim do dia o reencontro não poderia ser mais feliz, o que parece violar a lei da dinâmica das emoções, que as descreve com um saldo nulo. Mas so far, so good

04
Abr17

Feios, porcos e maus

Eremita

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Quando os polícias da Escola Segura levaram Mónica (nome fictício) para o hospital os exames médicos revelaram um filme de terror que durava há quase quatro anos. Tinha equimoses por todo o corpo, de vários tons e texturas, consoante a altura em que haviam sido feitas. E se algumas eram de quedas que tinha dado, outras indiciavam agressões. Como se tivessem batido com ela contra uma parede, observou uma técnica do gabinete de apoio ao aluno e à família daquela escola. Também tinha cortes nos pés. Apresentava um atraso global no desenvolvimento e a sua magreza excessiva e olhos encovados denunciavam as privações a que havia estado sujeita.

 

Havia de se descobrir que o cenário era ainda pior do que se podia imaginar. Enquanto morou com a mãe, na altura com 28 anos, e com o seu companheiro de 27, operário da recolha do lixo, Mónica vivia por norma enclausurada de castigo no quarto, divisão onde as persianas estavam sempre corridas por se terem estragado, com uma televisão que não funcionava e sem um único brinquedo. Os insultos eram uma constante. A mãe chamava-lhe "mijona, cagona e porca", e mandava-a para o quarto por não controlar os esfíncteres, ou por não querer comer. Não a deixava conviver com outras crianças.

 

(...)

 

No Natal de 2014, Mónica ficou naquela divisão uma semana inteira. Não foi sequer autorizada a descer à sala para abrir as prendas. O casal tinha tido uma filha, mais nova, cujo quarto enchera de brinquedos. A 28 de Dezembro permitiram que Mónica interrompesse o castigo para cantar os parabéns à meia-irmã, que fazia anos nesse dia, mas mandaram-na regressar ao quarto às escuras, sem lhe darem sequer uma fatia do bolo de anos.

 

A menina havia de contar mais tarde a uma educadora social que chegava a ir para as escadas espreitar para ver se a mãe e o padrasto também batiam à meia-irmã. A vizinhança chegou a perguntar por que não vinha Mónica à rua. O cantoneiro respondia o mesmo que aos seus pais, avós emprestados da menina: que não era pai dela, quem mandava era a mãe. Ana Henriques, Público

 

Continua

 

27
Mar17

A imaginação catastrofista

Eremita

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Hoje vesti uma das bebés com um body que tem o "S" do Superman estampado no peito. Não sou grande adepto da roupinha cómica, porque um bebé de fralda - haja pudor - já está plenamente equipado para nos enternecer e fazer sorrir. Se é verdade que me satisfaz mais vesti-las como meninos e roupa descontraída do que abonecá-las, no fundo, por mim, vestia as bebés como se fossem duas velhinhas calvinistas e o assunto ficaria arrumado. Mas quem escolhe a roupa é a mãe e muita da roupa que temos foi oferecida, pelo que as bebés são em grande parte vestidas segundo o gosto de outros. Tem sido assim desde que nasceram e não me incomoda por aí além. O  "S" só é um problema porque há uns tempos um miúdo atirou-se de uma varanda de um prédio vestido de Superman

 

Houve também um pai que se esqueceu do bebé dentro do carro num dia de calor e esta foi uma das notícias mais inesquecíveis de sempre. Enfim, pode nem sequer vir no jornal. Há um pequeníssimo conto de David Foster Wallace, Incarnations of Burned Children, que também se anicha na memória como um vírus crónico. E pode até não ter sido ainda escrito, nem filmado. 

 

Continua

08
Mar17

Giant steps

Eremita

 

Ontem foi a noite que marca a chegada da segunda gémea ao bipedismo, um momento assinalado pela mana com umas amplas palmas, de pé. Há um vídeo e é grande a tentação de o mostrar, mas no que toca à domesticidade o Ouriquense permanecerá irrevogavelmente iconoclasta. 

 

Continua (antes preciso de estudar um pouco de Anatomia e um clássico de Charles Darwin).

 

01
Mar17

Da natureza humana

Eremita

Desconfio que as minhas gémeas só dão os abracinhos enternecedores quando estão na presença de outros. Mas sei que, sozinhas ou acompanhadas, a chupeta e o brinquedo da outra são sempre os mais cobiçados.

04
Fev17

Do incestuoso acidental

Eremita

Até ontem, a interacção física mais polémica que tinha tido com as minhas filhas era o já clássico beijo na boca, uma prática que conto abandonar quando elas começarem a formar memórias para a vida, o que me parece ser uma solução de compromisso sensata. Mas ontem uma das gémeas (não digo nomes) colocou o dedo dela na minha boca. Até aqui, nenhuma novidade. O problema foi a seguir ter colocado o mesmo dedo na boca dela, com um timing em nada distinto do que dois amantes fazem na cama. 

30
Jan17

O problema das utopias

Eremita

 

 

 

 

Bem sei que o título denuncia a minha idade. Nenhum jovem, a menos que seja um jovem tomado por alguma afectação, escreveria semelhante coisa. Só tenho pena de não me lembrar em que estado fiquei depois de ver The Mosquito Coast, há cerca de 30 anos, quando era adolescente. Do filme, lembrava-me o suficiente para ter estabelecido paralelos óbvios com o recente Captain Fantastic, que vimos ontem. Salta aos olhos que Captain Fanstastic é o The Mosquito Coast da nova geração. Em ambos, um homem invulgarmente inteligente, científico e carismático, crítico do consumismo e das religiões organizadas, tenta romper com a sociedade norte-americana e procura reencontrar-se com a natureza, arrastando com ele toda a família. Em ambos, este homem falha e causa grande infortúnio aos seus. Enfim, os paralelos são de tal forma ululantes que dei por mim a perguntar se uma das crianças de Captain Fantastic não teria sido escolhida por ter o nariz arrebitado como o de River Phoenix, actor que representa uma das crianças de The Mosquito Coast. Naturalmente, há diferenças. Se Harrison Ford, o actor em The Mosquito Coast, é um patriota desiludido com a vulnerabilidade da economia americana ao Japão (eram outros tempos), cuja quimera é dar a conhecer o gelo a uma tribo recôndita, Viggo Mortensen, o captain, é uma espécie de hippie anarco-sindicalista que venera Noam Chomsky e sonha em fazer dos filhos reis filósofos, submetendo-os por isso a um rigoroso treino intelectual e físico, que inclui exercícios como a escalada desportiva de dificuldade elevada, a aprendizagem de seis línguas, entre as quais o Esperanto, um ritual de passagem que consiste em matar à faca uma presa de grande porte e comer-lhe o coração palpitante, e ainda, para cúmulo, a leitura de Os Irmãos Karámasov. O primeiro é mais grandiloquente, trágico e complexo do que o seu algo sucessor, mas os filmes coincidem na mensagem, que é irremediavelmente conservadora: o problema das utopias não é a sua impossibilidade, nem sequer a sua realização aquém do idealizado (a eterna desculpa dos comunistas), mas o seu lado intrinsecamente distópico, nos dois filmes revelado pela teimosia, autoritarismo, irresponsabilidade e até loucura (no caso de Ford) dos pais. Não chega a ser uma revelação, pois basta lembrar que ninguém teria vontade de viver na ilha imaginada por Thomas More. Dito isto, hoje sinto-me mais obrigado a ensinar guitarra às gémeas do que há dois dias. 

 

 

 

21
Jan17

Baby steps

Eremita

A G. começou a andar e a B. ainda não arrisca os passos, só se aguenta de pé agarrada a algum apoio. Mas não foi preciso atingir este marco de recapitulação da filogenia para perceber que educar gémeas obriga um pai a defletir constantemente os comentários de familiares, amigos, conhecidos e estranhos que só alimentam o germe da competição. Será uma luta a travar até ao fim dos meus dias, um comentário de cada vez.

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