Quarta-feira, 8 de Março de 2017
Quarta-feira, 08 de Março, 2017

 

Ontem foi a noite que marca a chegada da segunda gémea ao bipedismo, um momento assinalado pela mana com umas amplas palmas, de pé. Há um vídeo e é grande a tentação de o mostrar, mas no que toca à domesticidade o Ouriquense permanecerá irrevogavelmente iconoclasta. 

 

Continua (antes preciso de estudar um pouco de Anatomia e um clássico de Charles Darwin).

 


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Eremita às 08:55
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Quarta-feira, 1 de Março de 2017
Quarta-feira, 01 de Março, 2017

Desconfio que as minhas gémeas só dão os abracinhos enternecedores quando estão na presença de outros. Mas sei que, sozinhas ou acompanhadas, a chupeta e o brinquedo da outra são sempre os mais cobiçados.


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Eremita às 10:21
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Sábado, 4 de Fevereiro de 2017
Sábado, 04 de Fevereiro, 2017

Até ontem, a interacção física mais polémica que tinha tido com as minhas filhas era o já clássico beijo na boca, uma prática que conto abandonar quando elas começarem a formar memórias para a vida, o que me parece ser uma solução de compromisso sensata. Mas ontem uma das gémeas (não digo nomes) colocou o dedo dela na minha boca. Até aqui, nenhuma novidade. O problema foi a seguir ter colocado o mesmo dedo na boca dela, com um timing em nada distinto do que dois amantes fazem na cama. 


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Eremita às 13:00
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017
Segunda-feira, 30 de Janeiro, 2017

 

 

 

 

Bem sei que o título denuncia a minha idade. Nenhum jovem, a menos que seja um jovem tomado por alguma afectação, escreveria semelhante coisa. Só tenho pena de não me lembrar em que estado fiquei depois de ver The Mosquito Coast, há cerca de 30 anos, quando era adolescente. Do filme, lembrava-me o suficiente para ter estabelecido paralelos óbvios com o recente Captain Fantastic, que vimos ontem. Salta aos olhos que Captain Fanstastic é o The Mosquito Coast da nova geração. Em ambos, um homem invulgarmente inteligente, científico e carismático, crítico do consumismo e das religiões organizadas, tenta romper com a sociedade norte-americana e procura reencontrar-se com a natureza, arrastando com ele toda a família. Em ambos, este homem falha e causa grande infortúnio aos seus. Enfim, os paralelos são de tal forma ululantes que dei por mim a perguntar se uma das crianças de Captain Fantastic não teria sido escolhida por ter o nariz arrebitado como o de River Phoenix, actor que representa uma das crianças de The Mosquito Coast. Naturalmente, há diferenças. Se Harrison Ford, o actor em The Mosquito Coast, é um patriota desiludido com a vulnerabilidade da economia americana ao Japão (eram outros tempos), cuja quimera é dar a conhecer o gelo a uma tribo recôndita, Viggo Mortensen, o captain, é uma espécie de hippie anarco-sindicalista que venera Noam Chomsky e sonha em fazer dos filhos reis filósofos, submetendo-os por isso a um rigoroso treino intelectual e físico, que inclui exercícios como a escalada desportiva de dificuldade elevada, a aprendizagem de seis línguas, entre as quais o Esperanto, um ritual de passagem que consiste em matar à faca uma presa de grande porte e comer-lhe o coração palpitante, e ainda, para cúmulo, a leitura de Os Irmãos Karámasov. O primeiro é mais grandiloquente, trágico e complexo do que o seu algo sucessor, mas os filmes coincidem na mensagem, que é irremediavelmente conservadora: o problema das utopias não é a sua impossibilidade, nem sequer a sua realização aquém do idealizado (a eterna desculpa dos comunistas), mas o seu lado intrinsecamente distópico, nos dois filmes revelado pela teimosia, autoritarismo, irresponsabilidade e até loucura (no caso de Ford) dos pais. Não chega a ser uma revelação, pois basta lembrar que ninguém teria vontade de viver na ilha imaginada por Thomas More. Dito isto, hoje sinto-me mais obrigado a ensinar guitarra às gémeas do que há dois dias. 

 

 

 



Eremita às 10:51
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Sábado, 21 de Janeiro de 2017
Sábado, 21 de Janeiro, 2017

A G. começou a andar e a B. ainda não arrisca os passos, só se aguenta de pé agarrada a algum apoio. Mas não foi preciso atingir este marco de recapitulação da filogenia para perceber que educar gémeas obriga um pai a defletir constantemente os comentários de familiares, amigos, conhecidos e estranhos que só alimentam o germe da competição. Será uma luta a travar até ao fim dos meus dias, um comentário de cada vez.


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Eremita às 19:23
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Sábado, 14 de Janeiro de 2017
Sábado, 14 de Janeiro, 2017

Quando me perguntam como é viver com 5 mulheres, escondo a minha preocupação. Não tenho dúvidas de que é muito melhor do que viver com 5 homens e nem preciso de puxar pela imaginação, bastando recordar a correlação negativa óbvia entre o asseio das cozinhas de corredor e o número de homens por corredor na casa de Portugal da Cité Universitaire (Paris), e ainda, o que será talvez mais significativo, o maior interesse que as mulheres me despertam. Mas apesar de nunca ter desejado um filho homem (a desenvolver), apesar de a chegada das gémeas ter sido um daqueles acidentes que deixam um ateu a dar graças a Deus, por vezes dou comigo a pensar no que seria a dinâmica doméstica se houvesse outro homem em casa.

 

Há minutos, a L. lembrou-se de usar a garrafeira dos vinhos para arrumar os pacotes de leite, a saber: leite gordo Mimosa (para as bebés) e leite meio-gordo Matinal (para os restantes). Entendamo-nos: eu percebo e até sinto o gozo de subverter a natureza da garrafeira, para mais justificado pela necessidade de espaço numa cozinha minúscula e por muito pouco vinho se beber nesta casa, que nos deixa a salvo do mero capricho. Não sinto sequer qualquer embaraço em mostrar uma garrafeira de leite aos meus amigos homens e alinharei nas brincadeiras que se antecipam facilmente. Apenas receio que este episódio seja uma manifestação mais conspícua de uma tendência constante e sub-reptícia que, pela simples força da desproporção (5 contra 1), entre outras forças (a desenvolver), me impedirá de iluminar as minhas amazonas com os aspectos positivos da mundivivência masculina (quais? Bem... a desenvolver).


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Eremita às 10:40
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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2017
Sexta-feira, 06 de Janeiro, 2017

Fecunde. Fique por perto. Faça o necessário. Vinte a vinte e quatro meses depois, pegue num boneco de pelúcia, de preferência maior do que um coelho, mas sem precisar de atingir o tamanho de uma ovelha. Coloque-se a uns três ou quatro metros do seu bebé, tendo o cuidado de garantir que o percurso que vos separa é acolchoado ou, no mínimo, atapetado. Ponha-se de cócoras ou de joelhos e coloque o boneco rente ao chão, virado para o bebé. Anime o boneco com movimentos frenéticos, mas sem o tirar do lugar, nem lhe descolar o ventre do chão; pode combinar o gesto mecânico com vocalizações, mas não é obrigatório. O bebé aproximar-se-á num gatinhar rápido, sorrindo de antecipação, e afocinhará no boneco de pelúcia, ficando depois imobilizado no chão, abraçando o boneco com a alegria de um guarda-redes que segura a bola após uma defesa apertada nos instantes finais de uma partida quase ganha. Espere que o bebé solte o boneco antes de se afastar três ou quatro metros e repetir a brincadeira. Pode viciar.

 

PS: se tiver gémeos, basta usar dois bonecos ao mesmo tempo, mas procure evitar as cabeçadas quando os bebés afocinham.


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Eremita às 20:46
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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017
Quinta-feira, 05 de Janeiro, 2017

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A entrevista é de 5 de Maio de 2016. Don Delillo fala com Michael Silverblatt sobre o romance K Zero. Discutem a criopreservação, a ambição de escapar à morte e a arrogância do ser humano, temas adequados para ouvir enquanto se muda fraldas e se tenta adormecer duas bebés. De Delillo é um mestre: ambas agora ressonam.


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Eremita às 21:14
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Terça-feira, 8 de Novembro de 2016
Terça-feira, 08 de Novembro, 2016

Houve um período em que as minhas filhas diziam "papá" tantas vezes como "mamã". Durou pouco e talvez tivesse coincidido com uma fase em que o ascendente biológico da mãe já não se notava e ainda não se faziam sentir os efeitos da crescente socialização em que a figura materna é omnipresente. Basta lembrar que na Baby TV há uma canção sobre a mãe, mas não sobre o pai, há uma avó (do macaco "MJ") e mesmo um avô (que faz robôs), mas não há um pai. Para a Baby TV, como nas histórias em que os bebés são trazidos pelas cegonhas, os pais são embaraçosas aberrações da natureza de onde saem espermatozóides. Enfim, este viés, que secundariza o pai nos primeiros anos da parentalidade e se entende como uma compensação para as inúmeras injustiças que as mulheres ainda sofrem, não incomoda assim tanto e chega a ter graça, pelo menos até ao dia em que um juiz pergunta à criança em casa de quem quer ficar a viver. 

 


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Eremita às 11:58
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2016
Quinta-feira, 27 de Outubro, 2016

Ao ler um artigo de divulgação científico muito bom (cujo link perdi), chorei duas ou três vezes. Restauremos a virilidade: chorei perante factos, porque o homem moderno chora, mas nunca após ler uma figura de estilo. A frequência de gémeos verdadeiros é de cerca de 4 por cada 1000 nascimentos e, quando comparados com os outros bebés, os gémeos estão mais em risco durante a gravidez e o primeiro ano, mas depois têm uma maior probabilidade chegar à velhice. Os dois primeiros factos confirmam a enorme sorte que tive e o último reconfortará um pai de gémeos moribundo, o que explica a emoção que senti. Mas a verdade é que, desde o nascimento das gémeas, já me surpreendi a chorar de felicidade por nenhum motivo imediato. Como são poucos os canais disponibilizados pelas convenções sociais para a exteriorização do amor paterno, só nos resta chorar às escondidas. 


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Eremita às 10:11
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2016
Terça-feira, 25 de Outubro, 2016

Sem plagiar cómicos como Bill Cosby ou Louis C.K., será possível escrever sobre os filhos pequenos de um modo que não seja aborrecido? Duvido. Esta dúvida não é metódica, não é retórica (também as há, como as perguntas), não é sequer uma daquelas frequentes dúvidas empáticas vagamente autodepreciativas com que se pretende seduzir o leitor, nem a sua variante descarada que se lança por aí como isco para pescar elogios. Também não será genuína, mesmo ignorando todas as dúvidas falsamente genuínas que corromperam a expressão. É uma dúvida irresolúvel, de quem se conforma com a perplexidade.

 

Posso perguntar vinte vezes às minhas filhas que idade têm, que à vigésima primeira vez o dedinho singular delas no ar ainda me vai alegrar. Mas sei, acreditem que sei como esta rotina prolongada só me diverte a mim, com a possível excepção do avô paterno, um caso preocupante de embevecimento crónico e agudo. O que fazer? Consideremos os limites socialmente aceitáveis do espectro: Doris Lessing referia-se à maternidade como os "Himalayas of tedium"; pelo contrário, Catarina Furtado falava às revistas da sua maternidade com um encantamento a deixar no ar a ideia de que (roubo a expressão a um blogger retirado) não houve outra mãe antes dela. Quem tem razão? Infelizmente, não é a espirituosa Doris, é mesmo Catarina, a menos que estejamos dispostos a abandonar os filhos, como fez a britânica. Eis o paradoxo que faz do baby blog um género condenado, mas sem alternativa. Se somos bons pais, o relato sincero sairá sensaborão, mas ainda assim será mais válido do que desconsiderar os nossos próprios filhos pequenos e a relação que com eles estabelecemos em prosa ácida falsa ou ritualizada pelo humor, escrita para chocar e entreter a burguesia.


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Eremita às 11:12
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Terça-feira, 4 de Outubro de 2016
Terça-feira, 04 de Outubro, 2016

Será que o preconceito intelectual e o clichê cultural influenciam positivamente a criatividade na Filosofia? Lembrei-me desta questão e da conferência em que Nicolas de Warren a discute quando percebi que ninguém na minha família está verdadeiramente interessado em investir num pequeno pomar. Para a minha mãe, dona das terras, é uma criancice; para o meu irmão, um desperdício de dinheiro; para a minha mulher, um capricho que se deve respeitar apenas por compromisso conjugal; para as miúdas, uma ameaça; para as bebés, um desejo incompreensível. O pomar, cujos elementos essenciais são o moinho de vento que puxaria a água do poço e um conjunto de árvores, provavelmente romãzeiras, tem sido uma ideia persistente. Mas será que a ambição pessoal pode influenciar positivamente a vida familiar?  Continua

 


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Eremita às 09:25
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Sábado, 17 de Setembro de 2016
Sábado, 17 de Setembro, 2016

A R., que começou a terceira classe, disse ontem ao jantar "palavra-passe". O meu comentário saiu em tom de reprimenda, violando todas as boas práticas pedagógicas. Para mais, a miúda não tem culpa, limitava-se a mostrar o que aprendera na escola. E para agravar o meu caso, vi depois que os dicionários já consagraram "palavra-passe". Assumo a condenação pelo tom, mas ensaio a defesa da substância, não sem antes ressalvar que não sou um especialista. Não tenho qualquer aversão a contaminações vindas de outras línguas. Há estrangeirismos úteis e até inevitáveis, bem como neologismos resultantes de traduções literais ou menos ortodoxas que podem funcionar. Não defendo sequer um embargo a importações linguísticas quando já existem termos portugueses equivalentes. O critério que sigo não é proteccionista, é absolutamente meritocrático. Ora, existe na língua portuguesa um termo superior a "palavra-passe" (tradução literal de password): a palavra "senha". Na comparação com "palavra-passe", "senha" vence por três motivos: 1) não é uma palavra composta; 2) é uma palavra mais curta; 3) tem um significado mais preciso, pois muitas senhas não são necessariamente palavras mas sim associações de letras, números e outros símbolos, já para não falar das vezes em que são frases, como sucede com a senha mais conhecida de todos os tempos: "abre-te, sésamo". 


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Eremita às 09:01
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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016
Quarta-feira, 07 de Setembro, 2016

Costumam perguntar às crianças, menos por malícia do que simples provocação, se gostam mais do pai ou da mãe. Verdadeira ou falsa, a resposta, como sabemos, nunca varia. As crianças desconhecem a sorte que têm. Porque aos pais de gémeas não chegam a perguntar nada, tal a vontade de interpretar como prova de preferência qualquer pequena diferença de tratamento, do comentário mais entusiasmado sobre uma à ausência da outra na foto enviada a parentes em que  surge a irmã. Ignoram que num pai existe um fortíssimo mecanismo de vigilância interna que mantém a contabilidade dos beijos dados a uma e a outra, dos minutos passados com elas ao colo, das vezes que cada uma, com um sorriso, uma careta ou um gesto inesperado, lhe deu gozo e da qualidade dessa sensação, medida em graus de prazer. Trata-se de uma vigilância permanente e implacável, servida por uma aritmética cega. Embora seguro de que ama as duas com a mesma intensidade, o pai inexperiente não se autoriza a amar de maneira diferente ou por motivos distintos, preferindo o conforto dos elementos de prova objectivos. Neste contexto, exclusivamente neste contexto,  a identidade genética das bebés deixa de ser uma dádiva de Deus para se revelar um desafio, quase uma tentação demoníaca.  


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Eremita às 13:08
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Sábado, 3 de Setembro de 2016
Sábado, 03 de Setembro, 2016

Lobo Antunes fala e fuma. Já sei tudo o que ele vai dizer, mas não consigo mudar de canal. As bebés brincam na sala, de costas viradas para a TV. 


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Eremita às 19:42
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Sábado, 27 de Agosto de 2016
Sábado, 27 de Agosto, 2016

[Revisto e aumentado a 29.8.16]

Bolinha tende a olhar para cima e desde os primeiros meses revelou grande empatia por candeeiros de tecto. Alterna o sorriso inocente e generoso com birras de grande potência vocal. Tem apetência pelos espaços amplos, que abarca abrindo os braços, o que, ao observador menos experimentado, parecerá uma expressão corporal de desconcerto. Mostrou-se interessada pela sua imagem no espelho antes da irmã. Aos doze meses revelou um espírito de exploradora indomável, que a faz rastejar da sala até ao hall de entrada e enfiar a cabeça no balde dos brinquedos, protagonizando cenas muito eficazes de humor físico involuntário. Gosta de imitar com a boca o barulho de um martelo pneumático, expelindo uma quantidade abundante de perdigotos e, por vezes, também de sopa. Há opiniões divergentes quanto à primeira palavra que terá dito, mas "caca" [cáca] é uma hipótese que, mais por desejo de rigor do que deslumbramento galhofeiro, não se deve descartar. Bebe menos água do que a irmã e parece fazer muito mais chichi do que esta, observação que ninguém ainda conseguiu explicar. Seja como for, é mais uma de tantas outras diferenças inesperadas em gémeas monozigóticas, que levaram o pai à desconfiança - não da sua paternidade, mas da genética enquanto disciplina. Gosta de se espojar em superfícies confortáveis e de adormecer acompanhada.  

 

Grãozinho tende a olhar para o chão e a manter a cabeça ligeiramente inclinada para baixo, não alterando a posição quando encara o interlocutor de frente, o que lhe dá o chamado "olhar Lady Di". As feições mais miudinhas fazem com que pareça muito mais pequena do que a irmã, embora a diferença de peso se cifre hoje nuns meros 3-5%. Tem o sorriso maroto e quando morde o lábio lembra Popeye, embora haja quem diga que herdou a expressão da linhagem patronímica, nomeadamente do avô paterno. Revela grande interesse pelos pormenores, das texturas dos materiais aos dedos de uma mão que lhe seja estendida, podendo passar longos períodos quieta e absorta em actividades de observação. Precedeu a irmã no manuseio da chupeta, que continua a manipular com grande virtuosismo. "Atão", pronunciado em jeito interrogativo, vivamente defendido por alguns como uma corruptela de "então", terá sido a sua primeira palavra. Foi ainda a primeira a responder "píu-píu" quando lhe perguntaram "como faz o passarinho?", mas, não havendo pelo menos duas testemunhas, o episódio jamais será homologado. Gosta de adormecer acompanhada, com a barriga a ser massajada suavemente. 


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Eremita às 09:15
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Quinta-feira, 21 de Julho de 2016
Quinta-feira, 21 de Julho, 2016

 

Se vivesse sozinho numa ilha deserta, desprezar o meu aniversário seria um acto de resistência, mas em sociedade desprezar os aniversários - o meu e os dos outros - passaria sobretudo por falta de educação. A verdade é que, tirando raríssimas excepções, sempre me pareceu que nenhum aniversário merece ser festejado até se ultrapassar a esperança média de vida. Afinal, a sociedade quer-se meritocrática. Mas como convencer as minhas filhas desta tese sem lhes explicar o que é a morte? Têm quase onze meses e já me vejo aos saltos, batendo palmas, atirando serpentinas e cantando os hits da Baby TV na festa do seu primeiro aniversário. Sou um fraco.

 

Os aniversários e todas as séries regulares (férias de Verão, campeonatos do mundo de futebol, jogos olímpicos, etc.) são bons para organizar as memórias, mas a sua previsibilidade acaba por neutralizar o seu potencial como catalizadores de nostalgia ou ansiedade. Os verdadeiros marcos que assinalam a passagem do tempo surgem quando menos se espera. Cumpriu-se entretanto uma década, mas ainda me lembro de quão perplexo fiquei por me ter apercebido que chegara à idade que o meu pai tinha nas primeiras recordações que dele guardo - haverá efeméride mais inesperada e íntima? E há uns dias, iniciada a primeira rotina de férias com as bebés, algo esmagado pela logística dos biberões, mudanças de fralda e vigilância permanente, calculei que quando elas já não quiserem passar férias comigo, nos últimos anos da adolescência, terei mais de 60 anos e uma forma física que me incapacitará para fazer o caminho do Inca e outras aventuras sonhadas. Isto dos filhos obedece a uma artimética simples: por uma persistente ilusão de eternidade, aceitamos picos de agudíssima efemeridade. 


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Eremita às 21:15
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Sábado, 9 de Julho de 2016
Sábado, 09 de Julho, 2016
Beijo as bebés nas bochechas, na barriga, no cucuruto, no pescoço, na nuca, nos pés e nas mãos. Também as beijo na boca. Quanto a métrica, fonética e impacto, teria sido melhor abrir o texto com um "beijo as bebés na boca", se não me tivesse censurado, tal como reprimi a vontade pela primeira vez e hesitei antes de concretizar o meu primeiro beijo na boca de uma delas. Agora não hesito, mas tendem a ser beijos furtivos; não me passaria pela cabeça beijá-las na boca na rua, exposto a olhares críticos de transeuntes sedentos de indignação. No dia do meu primeiro beijo na boca, ou logo no dia seguinte, contei o que fizera à L., e se não chegou a ser uma confissão, tinha a expectativa de que ela me autorizasse, me dissesse que era bom para o desenvolvimento psicológico das bebés e o fortalecimento dos laços parentais, nada pensasse sobre a higiene do acto e nem sequer se lembrasse da boca como uma zona erógena. Esta polémica já foi discutida, dividindo a população e a doutrina, mas os exemplos fotográficos documentam apenas casos de pais que beijam filhos pequenos, deixando-me sem saber se beijar bebés é incontroverso ou tão condenável que o Google não apanha o tópico, soterrado algures na deep web.  [continua]

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Eremita às 14:07
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Segunda-feira, 20 de Junho de 2016
Segunda-feira, 20 de Junho, 2016

Nós já sabíamos que as bebés, projectando as costas contra o encosto, repetidas vezes e violentamente, conseguem deslocar para trás a cadeira das refeições. A cada movimento, a cadeira recua um centímetro ou algo assim. Vamos precipitar o evento: o chão da sala de jantar está um degrau acima da sala de estar e do escritório, comunicando todas as divisões em open space, sem portas, e há uns dias, a L., sempre atenta e atarefada, disse-me para olhar pelas bebés (que estavam nas cadeiras e se se aproximassem do degrau poderiam tombar) o que fiz durante alguns minutos, até a L. me pedir também para talhar a melancia na cozinha, que está separada da sala de jantar apenas por uma bancada. Enquanto talhava a melancia, ouviu-se um grande estrondo. A L. percebeu logo e correu para a sala. Eu demorei e só depois veio o calafrio pela espinha. A L. apressou-se a tirar a bebé da cadeira, que estava por terra. A bebé berrava e a outra bebé juntou-se à berraria. As duas miúdas da L. mexiam-se com aflição de um lado para o outro, a L. dava colo à M., inspeccionando-lhe a cabeça, e eu rondava mãe e filha, acariciando qualquer parte do corpo de M. que estivesse à mão, e sentia uma vontade enorme de pegar na minha bebé. Por sorte, pura sorte, bendita sorte, a M. chorava apenas pelo susto e parecia ter saído do acidente imaculada. Já estava mais calma quando lhe pude pegar para que ela me consolasse. 

 

Pensámos imediatamente em formas de prevenir acidentes futuros. O raciocínio ia veloz. Por fazer: anular os desníveis, desmantelar a salamandra, pôr trincos especiais em todas as janelas e esticar umas redes, forrar os vértices e as arestas com borrachas, almofadar todas as superfícies, enfim, transformar a casa numa daquelas salas acolchoadas das alas de psiquiatria. De noite, no escuro, na cama, tentei de cabeça exercícios de física newtoniana que justificassem a ausência de traumatismo craniano e não era para excluir formalmente a possibilidade de um milagre e poder manter uma visão materialista do mundo, era mesmo para adormecer. Concentrei-me no momento do embate no chão, já depois de a cadeira ter descido o degrau e tombado, imaginando as forças de acção e reacção sobre o corpinho da M. e a sua cabecita, e estimando a relevância do encosto almofadado e dos 9 kg da bebé para aquele desfecho feliz. Assim adormeci e depois a vida prosseguiu. Só hoje, vários dias após o acidente, enquanto recordava o episódio para o descrever, reparei que na altura não acusei a culpa, creio que por causa da adrenalina, e que  a L. não fez me nenhum reparo, creio que por piedade. 

 

As famílias tendem a evitar falar da morte trágica de um dos seus, mas nas famílias sem mortes trágicas nas duas ou três últimas gerações são muito populares as histórias que quase terminaram em tragédia. Na minha famíia, por exemplo, conta-se que quando eu era bebé estive quase a cair ao mar quando o marinheiro que me segurava e se preparava para me passar para terra segura foi surpreendido pela ondulação e o barco de repente se afastou de um dos cais de São Jorge, nos Açores. Que a história do tombo na cadeira, talvez com outro nome para garantir o suspense, não seja substituída por nenhuma outra e tenhamos o privilégio de a contar sempre que nos pedirem. 


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Eremita às 16:11
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Sábado, 11 de Junho de 2016
Sábado, 11 de Junho, 2016

 

A história é conhecida: para castigar o filho rebelde, um casal de japoneses em viagem de carro resolveu deixá-lo durante uns instantes na berma da estrada. Correu mal. Antes de os pais voltarem para o meter de novo no carro, o miúdo embrenhou-se na floresta, um lugar que - segundo a imprensa - estava cheio de ursos esfomeados. O final foi feliz: após alguns dias de grande ansiedade, o miúdo foi encontrado. 

 

Não me interessa fazer de pedagogo de sofá. O que sei eu e que autoridade tenho, se poucas semanas bastaram para ter dado uma palmada no rabo de uma das minhas bebés após um período de berraria e choro? O que me fascinou foi o vídeo que mostro, seguramente pelo acréscimo de empatia vindo da minha condição de pai. Mais universal do que a linguagem musical é a linguagem corporal com que um japonês se expressa durante um acto de contrição público, apesar da complexidade dos pedidos de desculpa que a cultura japonesa produziu.

 

Após a Segunda Grande Guerra, um livro popularizou a ideia de que no Japão existiria uma cultura da vergonha, por oposição a uma cultura da culpa, que seria característica dos EUA. Esta dicotomia sempre me pareceu enganadora. Sendo fácil imaginar situações que provocam vergonha sem culpa, como escorregar numa casca de banana perante o olhar de outros, em sociedade é difícil conceber a situação inversa, pois a culpa causará sempre vergonha. Naturalmente, à vergonha associamos a esfera pública e o sentimento de culpa tem uma vivência sobretudo íntima. Lembremos então o confessionário, a engenhosa peça de mobiliário inventada pelos católicos para lidar com a vergonha sem a trazer a público, e aceite-se que no Japão as manifestações públicas de vergonha são mais exuberantes do que no Ocidente (1, 2), mas sem tomar as consciências dos japoneses como menos escrupulosas e libertas de culpa; o grau de exteriorização da vergonha pode resultar apenas de diferenças culturais na definição dos espaços público e privado. Por outras palavras, a dicotomia mais rigorosa seria entre cultura da vergonha versus cultura sem vergonha (no espaço público, entenda-se). Porque se algum antropólogo já se deu ao trabalho de elaborar a geografia da culpa sem um viés eurocentrista ou outro, talvez tenha chegado à conclusão de que a culpa faz parte intrínseca da natureza humana e alicerça as mais elementares e intuitivas noções de justiça, como a ética de reciprocidade. É um sentimento que não teve inventor e precede Abraão, sendo depois trabalhado e instrumentalizado pela cultura, nomeadamente as religiões e a psiquiatria. De onde virá então o fascínio (ocidental) por esta separação entre as culturas da vergonha e da culpa? Muito possivelmente, da vontade de que a tradição judaico-cristã mantenha o monopólio da culpa. A vergonha resulta apenas de uma ferida no orgulho, ou seja, é um sentimento pouco nobre, por ser autocentrado, enquanto a culpa, por implicar empatia com os outros (vítimas dos nossos actos), é um sentimento estimável, que nos humaniza.

 

Bibliografia

Shame and Guilt: A Psychocultural View of the Japanese Self Takie Sugiyama Lebra Ethos Vol. 11, No. 3, Self and Emotion (Autumn, 1983), pp. 192-209

 


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Eremita às 15:58
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2016
Quarta-feira, 01 de Junho, 2016

(...) Are you sure you want to live like common people
You want to see whatever common people see
You want to sleep with common people,
you want to sleep with common people like me.
But she didn't understand, she just smiled and held my hand.
Rent a flat above a shop, cut your hair and get a job.
Smoke some fags and play some pool, pretend you never went to school.
But still you'll never get it right
'cos when you're laid in bed at night watching roaches climb the wall
If you call your Dad he could stop it all (...)

Common People, Pulp

Há várias boas razões para seguir o blog Em Nome do Pai (grande título), de Rui Brasil. Como sucede na série Tribo do Ouriquense, Rui Brasil escreve sobre paternidade e conjugalidade, embora com uma generosidade e pragmatismo que eu não procuro; ninguém lerá o Ouriquense para saber quais são as melhores creches do Baixo-Alentejo. Num post recente, ele sugere que falemos do divórcio com o nosso parceiro e descreve a sua conversa. O aparente bom senso e as boas intenções de Rui Brasil tornam a proposta ainda mais trágica. Tal como a rapariga com o pai rico na canção dos Pulp não pode realmente saber como vivem e o que sentem as pessoas remediadas, é absurdo pensar-se que aquilo que se decide quando o casamento corre bem será ainda válido quando o divórcio se torna inadiável. Mas o mais trágico não é sequer o plano de Rui Brasil nada valer, e sim o simples facto de ter sido concebido. 

 

Quem, no século XXI, num país ocidental, se casa, inicia uma luta contra a estatística da percentagem  crescente de divórcios e do declínio dos números do casamento, contra a erotização crescente do espaço público, isto é,  contra os outdoors mostrando mulheres em êxtase orgásmico, gelados que nunca são gelados, séries que glorificam ou branqueiam a infidelidade, podcasts e publicações progressistas que promovem o "poli-amor" e o casamento com isenção de monogamia, e luta contra a simplificação burocrática e legal do divórcio, contra a tolerância generalizada em relação à infidelidade, contra o culto da felicidade permanente e da gratificação imediata, contra a novidade do amigo próximo que se divorciou, contra uma sogra, um genro ou por vezes ambos, porque certas tradições são perenes, contra  a memória da vida paralela que imagina para si se não tivesse casado, enfim, contra a realidade e as fantasias. É verdade que não foi ontem que se tentou conjugar o amor romântico, que emana da irracionalidade, com o casamento, que implica sensatez, mas nunca esta quadratura do círculo foi tão evidente. O que fazer? Ninguém sabe. Não casar é capitular, casar é arriscar. Porém, tomemos por certo isto: discutir o divórcio quando o casamento corre bem mata o amor romântico e não garante a salvação do casamento; aqueles casais que pretendem trocam o amor por uma segurança temporária, no fundo não merecem nem o amor, nem a segurança 1. Decidimos casar, hoje, e cumprir os constrangimentos do matrimónio, não por serem fáceis, mas por serem um desafio 2. Entre outros, tais constrangimentos incluem tabus, que uma vez quebrados ensombram a relação, num crescendo de dúvidas que pode até resultar do nada, mas que uma vez iniciado é imparável e deixa o casal numa armadilha de contornos kafkianos em que o pedido de esclarecimentos de dúvidas de um alimenta as dúvidas do outro e vice-versa. Não. Podemos discutir Deus e a virtude; discutir a pátria e a sua história; discutir a autoridade e o seu prestígio; discutir a família e a sua moral; discutir a glória do trabalho e o seu dever 3. Mas não discutiremos o divórcio.

 

1 Paráfrase de Ben Franklin.

2 Paráfrase de JFK.

3 Paráfrase de Salazar.

 

 

 

 

 

 


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Eremita às 21:22
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Domingo, 29 de Maio de 2016
Domingo, 29 de Maio, 2016

Ontem, pela primeira vez, aos nove meses e quatro dias de idade, a M. preteriu-me. Aproximei-me já de careta armada, mas com as suas mãozinhas resolutas ela afastou a minha cabeça para libertar o campo de visão e poder continuar a ver a bonecada na TV. É claro que as bebés já tinham revelado tropismos por comida, brinquedos e teclados, sorrisos empáticos, movimentos ritmados em resposta a músicas e outros sinais de contentamento, bem como berrarias de protesto ou desconforto, mas este gesto, por simultanemente manifestar uma opção fora do campo das necessidades fisiológicas e um desejo de emancipação, marca o nascimento de uma personalidade. 


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Eremita às 14:29
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2016
Quarta-feira, 25 de Maio, 2016

Mesmo um pai tardio não passou por experiências que o informem sobre o amor que terá pelos filhos, pois - se tiver tido sorte -  conhecerá apenas o amor romântico, o amor dos seus pais e a amizade profunda. Entre outras diferenças, o amor pelos filhos distingue-se do primeiro por ser menos volátil,  do segundo pelo sentido de responsabilidade e da amizade pela desigualdade que não existe entre pares. As artes tendem a secundarizar o amor filial face ao amor romântico e, como se não bastasse, os exemplos mais famosos são horrendos, como o de Abraão, esse fanático obediente, e o de Cronos, o antropófago filicida em série. Naturalmente, também no número de referências e na boa imprensa o amor paterno  perde quando comparado ao amor materno. Não existindo substrato cultural, sobram as referências pessoais, em particular o amor paterno que se sentiu e se procura emular ou cuja falta se notou e se promete evitar, mas tais recordações não incluem a fase em que o filho era um recém-nascido, pelo que o período crucial constitui uma estreia sem ensaio geral.

 

O amor incondicional é instantâneo? Se não for instantâneo, só pode depender de um mecanismo que é posto em marcha pelo simples facto de o bebé existir ou vir a existir e, tal como certas infecções resultam sempre em doença ao fim de um período de incubação, não pode depender, por exemplo, de um primeiro sorriso, pois então não seria incondicional. Mas se é instantâneo, em que momento devemos senti-lo? Quando a futura mãe nos comunica que está grávida? No momento da primeira ecografia? Quando nasce o bebé? Sei hoje a resposta, mas passei praticamente toda a vida sem imaginar a pergunta. 


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Eremita às 21:13
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Quarta-feira, 25 de Maio, 2016

 

Captura de ecrã 2016-05-25, às 09.25.02.png

 

Salvo erro, ouvir falar em Karl Ove Knausgård num podcast da BBC. O escritor, que escrevia uma série monumental de livros autobiográficos e tinha um sucesso sem precedentes na Noruega, havia já sido traduzido para inglês e começava a ser elogiado pelos colegas de profissão por não fazer concessões na forma como expunha a sua intimidade e a da sua família; seria um caso raro de um escritor de escritores com sucesso comercial. Decorei o seu nome, mas não cheguei a comprar um dos seus livros. Alguns anos mais tarde, era a barriga já indisfarçável. L. começou a ler Knausgård com grande disciplina, depois de terminar a tradução que os Guerra fizeram dos Karamásov. Todas as noites, na cama, ela lia o nórdico. E nas tardes  de Julho e Agosto, estando eu a trabalhar, no escritório ou fora de casa, fosse no monte ou na oficina do Judeu, ela, obrigada a descansar por recomendação médica e a resguardar-se do calor, alternava entre o quarto e a sala sem largar o raio do viking. Eu já jantara sem qualquer desconforto com L. e um antigo amante dela. Reconheço que a reduzida estatura do indivíduo facilitou a minha urbanidade, ao ponto de L. ter até denunciado alguma frustração pela minha falta de ciúmes, naquela e ainda noutras alturas, como quando numa rara ocasião ela comentou a beleza de um estrangeiro com pinta de intelectual alemão consciencioso que connosco se cruzou em Ourique. Sendo eu muito competitivo, a falta de ciúmes que sempre me acompanhou é algo surpreendente, sobretudo nos quatro casos teoricamente trágicos em que fui trocado por outro. Mas naquele Verão senti ciúmes de Knausgaard. Muitos ciúmes. Seria por L. estar grávida? Por ela ser uma boa leitora, ele um escritor famoso e eu um simples blogger? A leitura precedente dos Karamásov permite descartar hipóteses. Dostoiévski é um escritor incomparavelmente mais consagrado do que Knausgård e não me despertou ciúmes. Duvido que  o ar enfermo do russo seja relevante. A grande diferença é o perigo de L. um dia largar tudo em busca de Knausgård ou, de algum outro modo mais verosímil e menos radical, começar a interagir com ele. Generalizando o modo como John Updike foi descrito, na sua essência um escritor é um "penis with a thesaurus". A conclusão pareceu-me então óbvia e inevitável: daí em diante, oferecer a L. apenas livros escritos por mulheres ou então de escritores mortos, de preferência em avançado estado de decomposição. 

 

 


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Eremita às 08:10
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Sábado, 21 de Maio de 2016
Sábado, 21 de Maio, 2016

Captura de ecrã 2016-05-14, às 11.17.12.png                                                                                              Foto de Johan Bävman

 

Sabe-se que o homem, tradicionalmente essencial no momento da concepção, é uma personagem secundaríssima no momento em que a mulher dá à luz e, em circunstâncias normais, muito tempo passará até que o pai se equipare em relevância à mãe, sendo incluse muitos os casos em que isso nunca chega a acontecer. Trivial. Sucede que as conquistas do feminismo criaram alguma confusão na cabeça de quem se estreia como pai. Enfim, talvez esta seja uma generalização abusiva e a confusão apenas minha, tratando-se de algo inconfessável e por isso ausente do espaço público, menos por vergonha de quem contaria do que por dificuldade em encontrar alguém com paciência para ouvir. Feita a ressalva, avancemos. 

 

As ideias de Freud já viveram dias melhores e a noção de "inveja do pénis" soa hoje a folclore intelectual datado, mas a progressiva igualdade de género, por vezes feita à custa de uma desvalorização absurda de diferenças biológicas óbvias, está a forjar o complexo simétrico: a "inveja do útero" - note-se que a passagem só é contraditória se o conceito for interpretado de forma literal, o que seria um erro. Uma manifestação deste complexo veio da Escandinávia, essa espécie de paraíso possível na Terra que nos diz como deveríamos todos viver em sociedade. Para promover a igualdade de género, um fotógrafo decidiu documentar a rotina de pais que gozam de uma licensa parental extensa. Descontando o cuidado exagerado na composição de muitas cenas, que assim perdem espontaneidade, qualquer pai recente se reconheceria naquele papel e as fotografias são enternecedoras; não aparecem pais com barrigas artificiais ou em qualquer outro exercício de empatia ridículo. O único problema é que este apelo à igualdade de género acaba por frisar a desigualdade. Os homens estão hoje numa posição em que lhes é pedida a prova de que serão pais mais presentes e cooperantes do que os da geração anterior. À mulher, pelo contrário, aplaudimos as manifestações públicas de estados de alma sobre o seu papel de mãe. O exemplo famoso mais recente, que anda a fascinar todas as intelectuais e me foi dado a conhecer pela minha mulher, é o da escritora Elena Ferrante (1 e 2), embora nem sequer se trate de uma pioneira. Doris Lessing, sem a armadura do anonimato e muitos anos antes da italiana, ganhou fama de ter preterido a maternidade em favor da carreira, “committing the unforgivable”. “There is nothing more boring for an intelligent woman,” terá dito, “than to spend endless amounts of time with small children.” Proferidas por uma mulher, herdeira de uma tradição que a sobrecarregou, estas são palavras corajosas e rebeldes. Se um homem disser o mesmo, ou até se fizer uma alusão mais subtil às contradições da paternidade, será acusado de negligência, frieza, irresponsabilidade e canalhice. Que margem de subversão resta então aos homens? Nenhuma. Mas podemos esperar que em casa todos adormeçam e, em segredo, abrir um livro de Ferrante. 

 

 

 

 


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Eremita às 18:44
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Domingo, 13 de Março de 2016
Domingo, 13 de Março, 2016

No passado 24 de Agosto, levantei-me ainda mais cedo do que é costume. Queria chegar ao monte antes da alvorada, para poder fotografar a ribeira e algumas das azinheiras velhas com boa luz e melhores ângulos. Impelia-me, como quase sempre desde que L. engravidara, um ímpeto empreendedor. Nunca a necessidade de ganhar dinheiro fora tão urgente e forte. Passei a interessar-me por tudo o que me parecesse uma boa oportunidade de negócio, embora ainda guardasse alguma lucidez para concluir que andava a perder demasiado tempo com tais pensamentos. O novo projecto, a conjugar com as traduções e actividade de ghost writer, seria o turismo rural. É claro que precisava de dinheiro para recuperar o monte, precisava de know how, e talvez precisasse de dinamitar toda a oferta turística similar num raio de 100 km, mas resolvi começar pelas fotos para o futuro portal: "Cotovio, ao Reencontro do Silêncio" (nome provisório). 

 

Tirei boas fotos. Passarada em contraluz com fundo de céu rosado, umas macros de tronco de azinheira colonizado por líquenes amarelos e esverdeados, o magríssimo caudal da ribeira no Verão transformado com alguma mestria em veio de prata. Entretido nestes afazeres que tanto prazer me dão, só pelas nove da manhã reparei que tinha chamadas por atender e uma sms enviada pela M. por volta das oito: "Rebentaram as águas!" Atarantado, telefonei à L. Disse-me que estava bem e já a caminho de Beja, de táxi. Não me repreendeu, procurou acalmar-me; parecia animada e tranquila, creio que por se tratar da sua terceira vez. Meti-me no Citroën fazendo contas. Concluí que deviam estar às portas de Beja (são apenas 60 km), mas convenci-me de que os iria apanhar e resgatar a minha família daquele taxista. Pelo caminho, telefonei ao meu pai, ao meu irmão, à P. e ao Judeu. Todos acusaram a importância do acontecimento, embora o Judeu me tivesse sobretudo advertido para não puxar muito pela viatura. Naturalmente, fiz a maior parte do percurso acima do limite de velocidade. Ainda antes de Castro Verde, conformei-me com a ideia de ser um prestador de serviços profissional que raramente voltaríamos a ver a assumir o papel que devia ser meu; não iria suportar se tivesse sido o Judeu a levá-las.

 

Encontrei-as na sala de espera da maternidade e se tivesse chegado um punhado de minutos depois já não teria visto o sorriso de L., que desapareceu atrás de uma porta automática. Ficámos então os três e mal a minha mãe se levantou para ir tomar um café, a M., sem sequer me fitar com os seus olhos avassaladores, sentenciou: "este é o dia mais feliz da tua vida". Não havia qualquer vestígio de incerteza naquela afirmação. Nos meses precedentes, M. perguntara-me com frequência: "estás feliz?" Eu dizia-lhe que sim, mas creio que sem a convencer, porque não sou de grandes histrionismos, nem de exuberância afectivas, e ainda porque, ignorando como eu era antes de começar a namorar a sua mãe, M. não poderia saber que eu era agora menos infeliz e até - o que não é a mesma coisa - mais feliz. A partir do momento em que M. me comunicou qual era o meu humor, passei a funcionar como um actor que interpreta em palco o dia mais feliz da sua vida. Instantes depois, no bar, lembro-me perfeitamente de me perguntar que salgadinho escolher no dia mais feliz da minha vida. Obviamente, pedi um pastel de massa tenra.

 

Foi pouco depois da uma tarde que nos chamaram. Subi apenas com a M. e lembro-me de lhe ter tocado nos ombros; foi apenas por um instante, mas significativo, tendo em conta a falta de empatia entre uma adolescente e um padrasto recente, se me é permitida esta generalização reconfortante. Ao entrarmos na sala, o cubículo de L. era o primeiro da esquerda. As bebés estavam à direita da cama nuns suportes de acrílico feios e funcionais, a lembrar mobília doméstica de filme de ficção científica com baixo orçamento. Não sei para quem olhei primeiro, se para elas ou para ela; era um olhar que queria abarcar as três. Chorei de emoção, mas com aquela dúvida de não saber se chorava o suficiente e já a certeza de que passara a vigiar todos os meus actos dominado por uma hiperconsciência extracorpórea, como se, no preciso momento em que L. deu à luz as nossas gémeas, por um qualquer orifício o meu superego tivesse saído de mim na forma de um bicho agil que passou a seguir-me agarrado aos tectos da maternidade sem que pudesse ser visto.

 

A partir de uma altura que não consigo precisar, comecei a associar a paternidade à imagem de um torpedo a ser disparado de um submarino. Sem me orgulhar da associação bélica e fálica, a imagem ainda me intriga. Não duvido de que resulta das muitas tardes a consumir cinema de Hollywood sobre a Segunda Grande Guerra Mundial, mas qual o seu significado? Uma interpretação: a paternidade é vista como um trunfo derradeiro que se usa numa situação extrema e no qual se deposita grande esperança, a mesma com que os marinheiros enclausurados num submarino maltratado por cargas de profundidade seguem a trajectória do seu último torpedo. Talvez por não ser possível representar o futuro, na minha imagem não aparece um casco de contratorpedeiro a abater, nem nenhum outro alvo. E o fim fica em aberto, porque o torpedo não chega a rebentar.

 

Não pensei em submarinos no dia mais feliz da minha vida. Antecipara uma experiência quase mística, arrebatadora, de uma felicidade pura e experimentava algo muito diferente: uma alegria sem a energia dos triunfos nem a tranquilidade das revelações apaziguadoras; uma felicidade impura, não só por poder distinguir os seus diferentes elementos (a cumplicidade com L., o alívio por tudo ter corrido sem incidentes, a concretização de um desejo antigo e persistente), mas por se misturar também com outras sensações, como a inquietude e um pudor que me impedia de agarrar nas bebés, cobri-las de beijos, atirá-as ao ar e inventar-lhes logo ali uma enxurrada de nomes ternurentos. Para todos os efeitos, tratava-se de um primeiro encontro, a cerimónia fazia algum sentido. G. estava embrulhada num pano com um axadrezado miúdo laranja sobre fundo branco e o de B. tinha o mesmo padrão, mas era verde - devo um agradecimento a quem se lembrou de não as vestir de igual mal chegaram ao mundo. Embrulhadinhas, pareciam duas matrioscas irredutíveis, de olhos fechados e rosto engelhado. Há uma foto desse dia em que a L. vigia as bebés da cama, com um olhar doce e cansado. Se algum dia for obrigado a escolher apenas uma e queimar todas as outras, será essa a foto que salvarei.

 

As regras da maternidade abreviaram o encontro com as bebés e L. Despedi-me beijando as três e fiz-me de imediato à estrada. Ainda falei com alguém ao telefone, mas o bicho ágil espreitava com olhar reprovador do lado de fora do pára-brisas e não repeti a infracção. Concentrei-me na paisagem e lembrei-me da passagem ...butcher grass, invaginate volunteer beans, all heads gently nodding in a morning breeze line a mother's soft hand on your cheek, apesar de nada bater certo com o que via, pois era outra a vegetação, o sol já tombava e nos campos ceifados só sobrava restolho, que não se deixa acariciar pelo vento. Pouco importava o desacerto entre o Midwest e o Alentejo, se era na mão da minha mãe sobre a minha bochecha que pensava, naquele que foi o primeiro curto-circuito geracional de muitos provocados pela nova condição de filho e pai.

 

Cheguei a casa do Judeu no momento em que a iluminação pública foi ligada. Ele estava à porta e gritou, teatral: "Ourique também deu à luz!" Abraçámo-nos, comemos enlatados e depois fui com ele fazer mais uma experiência com lubrificantes no baloiço da casa do meu tio. Largámos o baloiço por volta das 11 da noite e enquanto acompanhávamos o seu movimento pendular, o Judeu foi-me falando do filho dele, como nunca antes o ouvira. A dada altura, pôs-me o braço sobre os ombros, apertou-me com se procurasse com os dedos a minha clavícula esquerda e disse: "Hoje é o dia mais feliz da tua vida".


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Eremita às 19:59
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Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2015
Sexta-feira, 11 de Dezembro, 2015

O início de Comunidade, o famoso texto de Luiz Pacheco, aqui num magnífico pdf gratuito com ilustrações de Cruzeiro Seixas, deixa uma impressão forte e duradoura. Não tenho pachorra para o culto das frases de abertura, por faltar a uma frase a complexidade necessária que elimine a dúvida de que a alegada qualidade não seja fruto de acasos ou caprichos, de quem a escreveu ou de quem a propagandeia, e também me parecer que serve sobretudo para alimentar vaidades de salão entre gente sem capacidades de memorização extraordinárias. "Todas as famílias feliz...", poupem-me. "Chamem-me Ism...", basta! Mas um arranque memorável, feito de umas quantas primeiras páginas, apenas a primeira página ou até simplesmente um gordo parágrafo inicial, nenhuma infinidade de macacos a martelar teclados conseguiria reproduzir e a dificuldade de memorização de tais trechos de prosa para o leitor comum protege-os da citação fácil e ilegítima. Vivas ainda para os arranques de Para Sempre, de Vergílio Ferreira, O Que Diz Molero, de Dinis Machado, A Jangada de Pedra, de Saramago ou O Homem sem Qualidades, de Musil, cadências e imagens que ficaram comigo, impossíveis de reproduzir num exercício de memória, mas reconhecíveis como os cheiros das nossas vidas. Poderia lembrar outras e cada um terá as suas, naturalmente.

 

Da frase, "Eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme" (Comunidade), retiro apenas a palavra "tribo". Não me debaterei contra a morte, seria de uma presunção ridícula, embora alimente a esperança narcísica de que as minhas filhas lerão o que escrevi sobre elas já depois de as ter deixado.  Debato-me - e muito - com o tom a empregar, as regras que devo anunciar de antemão para evitar aborrecimentos e preservar a liberdade na escrita. Mas não tenho ilusões. Não serei o Karl Ove Knausgård do Baixo-Alentejo, pois farei as concessões necessárias para não expor a intimidade da minha família. Ainda assim, preciso de regras explícitas:

 

1. Não haverá fotografias, nem sequer aquelas que apenas mostram pezinhos.  

2. Não haverá caixa de comentários, nem responderei a qualquer pergunta que conhecidos (incluindo a família) ou estranhos me coloquem sobre o que vou escrevendo nesta série. 

3. A série obedece ao princípio da trasladação que rege o Ouriquense, a saber, a família vive em Ourique, apesar de vivermos noutro lugar. 

 

O risco é grande, mas acumulo demasiados posts na cabeça. 

 


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Eremita às 22:19
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