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Ouriquense

21
Out17

Win-win situation

Eremita

Os bonecos animados da série Pokoyo (devidamente silenciados) com banda sonora de Arvo Pärt. 

28
Set17

Schopenhauer não chegou a saber

Eremita

Não é o Facebook, não são as carreiras, não são as relações passadas, nem as cuecas deixadas na casa de banho. Um bebé a chorar o dia todo é o verdadeiro teste de stress de um casamento. 

27
Set17

Um piano

Eremita

piano chegou há uns dias. Um piano a sério, isto é, alemão e centenário, que pertenceu à avó da L. e resolvemos restaurar e afinar. Um piano vertical e modesto, diga-se, para prevenir eventuais injúrias classistas. Muito mais do que a compra de um carro ou ir de férias para o estrangeiro com toda a família, é a chegada do piano que consolida o nosso projecto de família burguesa. Na casa onde cresci, nunca se ligou muito à música. Creio até que, apesar de terem pago as aulas que tive na Academia de Amadores de Música, os meus pais temiam que o meu interesse pela guitarra me desviasse dos estudos. Connosco será diferente. O meu conceito de educação é medieval com uma pitada greco-romana. Interessa a formação moral, o trívio, o quadrívio e a actividade física. Ora, o quadrívio compreende a aritmética, a geometria, a astronomia e a música. Há estudos que demonstram os benefícios da formação musical no desenvolvimento de outras competências, mas que se lixem os estudos. Não quero que as miúdas aprendam Bach para as exibir como macaquinhos habilidosos ou para que se façam boas gestoras, seguindo um plano de optimização de competências; quero que construam uma verdadeira cultural musical, que saibam resistir à horrenda oferta musical com que a sociedade de consumo corrompe as crianças - o Bieber, a Violeta, a Luna, os Coldplay, etc. - e na adolescência não reduzam a música a veículo identitário - que apreciem os The Smiths do seu tempo, mas percebendo o que o novo Johnny Marr faz com a guitarra, e que, como o passar dos anos, identifiquem o jornalista de música pop como uma personagem trágica que envelhece mal. Ainda isto: que não passem pela frustração traumática de uma carreira de concertista falhada, mas se façam melómanas para a vida. 

 

23
Set17

Fart jokes

Eremita

Por volta das seis da manhã, estava eu a ler um belo texto de João Constâncio sobre o pessimismo e niilismo em Nietzsche, precisamente na passagem de contornos schopenhauerianos sobre o conflito entre o nosso papel enquanto membros de uma espécie e indivíduos, uma das gémeas soltou, sem acordar, uma prolongada, sonora e percussiva bufa, mesmo ao meu lado, pois esta noite adormeci no quarto delas, entre as duas caminhas, com a cabeça apoiada numa enorme toupeira de pelúcia. Fiquei então a pensar por que motivo uma bufa minha teria sido menos engraçada e nesta diferença julgo ter encontrado algum conforto existencial. 

21
Set17

Uma recusa cognitiva

Eremita

São cada vez mais evidentes as diferenças de personalidade das nossas gémeas. Uma é mimosa e inocente, a outra arisca e desconfiada. Podia continuar a descrição, mas não o farei. Há um exercício, entre a ficção e a História, que consiste em imaginar o que teria acontecido se um determinado evento histórico não tivesse ocorrido - por exemplo, The Plot Against America é um desses exercícios de história virtual, pois Philip Roth imagina uns EUA em que Roosevelt perde as eleições presidenciais para Charles Lindbergh, o herói da travessia aérea do Atlântico (Norte) que simpatiza com Adolft Hitler (factual). Enquanto ciência, estes exercícios valem muito pouco, pois nunca são conclusivos, valendo talvez como ferramentas para levantar hipóteses, mas o seu apelo é irresistível. Ora, o crescimento de duas gémeas verdadeiras, que tem semelhanças óbvias com uma experiência controlada (duas réplicas saídas da mesma célula), é sobretudo visto como uma espécie de história virtual em tempo real, pois a tentação de extrair conclusões é demasiado grande para chegar a ser ciência. Um pai, apercebendo-se dessa atmosfera assertiva e sentenciosa em redor das filhas, tem vontade de pegar nelas ao colo e fugir como quem abandona uma casa em chamas. Mas o mais insidioso é que o próprio pai não resiste a categorizar, distinguir, notar e correlacionar o comportamento e a personalidade delas. Ele sabe que a presença de duas gémeas aguça a capacidade de observação. Uma nunca é apenas ela mesma, mas também o que a outra não é. Nesse sentido, a experiência está longe de ser controlada. Não há uma gémea padrão com a qual as duas gémeas possam ser comparadas; cada gémea é simultaneamente o controlo e amostra, o que gera dinâmicas complexas. Um pai, ciente de tudo isto, tenta contrariar os seus sentidos e força-se a abandonar linhas de raciocínio, como se o simples facto de descobrir uma diferença fosse indiciador de uma preferência. Ele sabe que se comporta como a feminista que desvaloriza as diferenças entre os sexos e gostaria era de se parecer com aquele demógrafo famosíssimo que explicou a evidência das diferenças raciais como uma ilusão devida ao enorme desenvolvimento da visão nos primatas e no homem em particular. Que bom seria poder culpar os sentidos. 

18
Ago17

Um caiaque

Eremita

O meu caiaque chegou e fui ontem testá-lo na barragem. Na véspera enchi e esvaziei o brinquedo na sala, para no dia seguinte não passar por nenhum embaraço público. Foi excesso de zelo, pois às 7 da manhã não há ninguém na barragem, excepto o surfista, que convidei para me acompanhar e não é pessoa de fazer pouco dos outros. Diga-se que a motivação para comprar um caiaque é algo embaraçosa. Há muitos anos, a magreza parecia-me incompatível com uma vida sexual realizada. Depois passou, porque - surpreendentemente - há mulheres que gostam de homens magros. Mas a chegada das minhas filhas trouxe de volta este desconforto com o corpo, agora transfigurado em complexo de pai insuficientemente protector. Se, num instante, podemos cair numa distopia, como sucedeu recentemente em cidades do Brasil que se viram sem polícia e obrigaram um amigo a barricar-se em casa com a mulher e a filha bebé, vou precisar de um torso e braços mais fortes para impor respeito e proteger a minha família pelo simples efeito dissuasor da minha envergadura e do vigor dos meus bíceps. O problema, a juntar a uma genética que me parece pouco predisposta a fazer músculo, é que qualquer actividade tem a sua técnica, uma curva de aprendizagem, dificuldades impensáveis. Até para aprender a remar, uma acção aparentemente tão simples e intuitiva, há inúmeros vídeos explicativos no Youtube. Devia ter começado por ver um, porque regressei da barragem com uma ligeira dor no ombro e não sei quando lá voltarei. Frise-se que o surfista não fez nenhum comentário depreciativo ou jocoso e nem sequer se ofereceu para levar o caiaque de volta, porque é um homem com um fino entendimento da condição humana

23
Jul17

A desconfiança que merecemos

Eremita

Foi apenas a um mês de completarem dois anos que as minhas filhas, no mesmo dia, resolveram aceder aos meus pedidos insistentes e beijar o pai. Foram cruéis, mas espero que continuem a tratar todos os homens com a desconfiança que merecemos.

09
Jun17

Boys will be boys

Eremita

Há uns dias, um rapaz que frequentava a mesma escola da mais velha da L. foi apanhado por um comboio. Parece que, a altas horas da madrugada, resolvera caminhar entre os carris de headphones nos ouvidos. Duvido que estivesse a apreciar a suave voz de João Gilberto quando o comboio o colheu. O álcool ou alguma outra droga terão contribuído para este comportamento, mas não ignoremos o óbvio: a morte estúpida, a morte violenta e a morte estúpida e violenta são coisas de homem - estatisticamente falando, claro. A natureza, precavendo-se contra a apetência dos meninos e rapazes para o risco, fez com que nasçam mais bebés do sexo masculino do que do sexo feminino, talvez uns 105 para 100, respectivamente, pois a teoria das estratégias evolutivas estáveis diz-nos que na idade reprodutiva devemos ter o mesmo número de fêmeas e machos*.

 

Nunca tinha pensado na queda para o risco como uma explicação para o meu velho desejo de ter filhas em vez de filhos, que justificava por ser o cenário que melhor contraria a tentação latente e trágica de ver a criança como um prolongamento no tempo da minha existência, um estafeta a quem se entrega um testemunho pesado de ansiedades e frustrações. Mas agora que elas existem, anima-me também o relativo alívio de saber que provavelmente não grafitarão em locais de difícil acesso, nem tirarão selfies à beira de precipícios, nem serão vítimas de uma facada ou tiro, a culminar uma qualquer escalada de orgulhos de peito feito ou até um acto de heroísmo. Mas isto não é para se dizer a uma mesa.

 

* Sendo incontestável que algumas sociedades exacerbam este viés pela prática do infanticídio de bebés do sexo feminino, o desequilíbrio começa por ser natural.

02
Mai17

Desejo mimético

Eremita

Uma das ideias mais populares do intelectual francês René Girard é o "desejo mimético". Segundo Girard, desejamos o que os outros desejam. O francês desenvolveu o conceito nos anos 60 do século passado a partir da análise de personagens da grande literatura e mais recentemente a Neurobiologia, a Primatologia e - suspeito - o Marketing e a Publicidade validaram o desejo mimético, que é hoje referido por pessoas de áreas muito diferentes. Nada mau como percurso, para uma ideia. Por outro lado, aos olhos de um pai de gémeas, habituado quotidianamente a ver uma passar a reclamar o fruto antes desprezado, após reparar que a mana o quis comer, o que surprende no conceito de desejo mimético é a sua banalidade. Sobra uma suspeita: o livro de Girard que introduz a ideia deve ser muito superior à ideia que a cultura popular destilou, tal como certas peças de música não valem pela melodia que assobiamos mas pela harmonia subjacente.  

24
Abr17

Vocabulário shakespeariano

Eremita

 

Há meses que as bebés dominam um léxico elementar constituído por "mamã", "não" e "papá" (enumerados por ordem decrescente de frequência), mas nos últimos dias a Joana e a Marta vêm revelando uma grande apetecência por palavras novas ("água", "urso", "pé", "rosa", etc.), frases curtas ("já 'tá") e fragmentos de canções ("... eu-[sol] tam-[mi]-bém-[sol]..."), o que nos enche de orgulho. Embora ambas se limitem a fazer o que delas se espera, sem sinais de precocidade, quando hoje de manhã, em resposta a estímulos vocais e visuais meus, a Joana disse "mão", comecei a ouvir os metais da introdução de Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss. A partir de hoje, suspeito que nem concentrando as minhas leituras em Heidegger e Mia Couto, e passando a ouvir apenas rappers angolanos, eu conseguiria aprender palavras novas ao ritmo das nossas bebés. E o que valem os neologismos do alemão, os verbos inventados do moçambicano e a gíria dos rappers angolanos diante de "mão" pronunciada com propriedade e consciência do seu significado pela primeira vez na vida? Deixem-me tomar nota: Ourique, circa 7:45, 24 de Abril de 2017. 

 

Continua

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