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Ouriquense

23
Jul17

A desconfiança que merecemos

Eremita

Foi apenas a um mês de completarem dois anos que as minhas filhas, no mesmo dia, resolveram aceder aos meus pedidos insistentes e beijar o pai. Foram cruéis, mas espero que continuem a tratar todos os homens com a desconfiança que merecemos.

09
Jun17

Boys will be boys

Eremita

Há uns dias, um rapaz que frequentava a mesma escola da mais velha da L. foi apanhado por um comboio. Parece que, a altas horas da madrugada, resolvera caminhar entre os carris de headphones nos ouvidos. Duvido que estivesse a apreciar a suave voz de João Gilberto quando o comboio o colheu. O álcool ou alguma outra droga terão contribuído para este comportamento, mas não ignoremos o óbvio: a morte estúpida, a morte violenta e a morte estúpida e violenta são coisas de homem - estatisticamente falando, claro. A natureza, precavendo-se contra a apetência dos meninos e rapazes para o risco, fez com que nasçam mais bebés do sexo masculino do que do sexo feminino, talvez uns 105 para 100, respectivamente, pois a teoria das estratégias evolutivas estáveis diz-nos que na idade reprodutiva devemos ter o mesmo número de fêmeas e machos*.

 

Nunca tinha pensado na queda para o risco como uma explicação para o meu velho desejo de ter filhas em vez de filhos, que justificava por ser o cenário que melhor contraria a tentação latente e trágica de ver a criança como um prolongamento no tempo da minha existência, um estafeta a quem se entrega um testemunho pesado de ansiedades e frustrações. Mas agora que elas existem, anima-me também o relativo alívio de saber que provavelmente não grafitarão em locais de difícil acesso, nem tirarão selfies à beira de precipícios, nem serão vítimas de uma facada ou tiro, a culminar uma qualquer escalada de orgulhos de peito feito ou até um acto de heroísmo. Mas isto não é para se dizer a uma mesa.

 

* Sendo incontestável que algumas sociedades exacerbam este viés pela prática do infanticídio de bebés do sexo feminino, o desequilíbrio começa por ser natural.

02
Mai17

Desejo mimético

Eremita

Uma das ideias mais populares do intelectual francês René Girard é o "desejo mimético". Segundo Girard, desejamos o que os outros desejam. O francês desenvolveu o conceito nos anos 60 do século passado a partir da análise de personagens da grande literatura e mais recentemente a Neurobiologia, a Primatologia e - suspeito - o Marketing e a Publicidade validaram o desejo mimético, que é hoje referido por pessoas de áreas muito diferentes. Nada mau como percurso, para uma ideia. Por outro lado, aos olhos de um pai de gémeas, habituado quotidianamente a ver uma passar a reclamar o fruto antes desprezado, após reparar que a mana o quis comer, o que surprende no conceito de desejo mimético é a sua banalidade. Sobra uma suspeita: o livro de Girard que introduz a ideia deve ser muito superior à ideia que a cultura popular destilou, tal como certas peças de música não valem pela melodia que assobiamos mas pela harmonia subjacente.  

24
Abr17

Vocabulário shakespeariano

Eremita

 

Há meses que as bebés dominam um léxico elementar constituído por "mamã", "não" e "papá" (enumerados por ordem decrescente de frequência), mas nos últimos dias a Joana e a Marta vêm revelando uma grande apetecência por palavras novas ("água", "urso", "pé", "rosa", etc.), frases curtas ("já 'tá") e fragmentos de canções ("... eu-[sol] tam-[mi]-bém-[sol]..."), o que nos enche de orgulho. Embora ambas se limitem a fazer o que delas se espera, sem sinais de precocidade, quando hoje de manhã, em resposta a estímulos vocais e visuais meus, a Joana disse "mão", comecei a ouvir os metais da introdução de Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss. A partir de hoje, suspeito que nem concentrando as minhas leituras em Heidegger e Mia Couto, e passando a ouvir apenas rappers angolanos, eu conseguiria aprender palavras novas ao ritmo das nossas bebés. E o que valem os neologismos do alemão, os verbos inventados do moçambicano e a gíria dos rappers angolanos diante de "mão" pronunciada com propriedade e consciência do seu significado pela primeira vez na vida? Deixem-me tomar nota: Ourique, circa 7:45, 24 de Abril de 2017. 

 

Continua

18
Abr17

Sarampo

Eremita

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Os pais que recusam vacinar os filhos são burros, ignorantes e egoístas, embora alguns possam ser apenas burros, ignorantes ou egoístas. 

17
Abr17

Epifanias da paternidade

Eremita

Primeiro quinquénio

[actualização permanente]

 

Uma das poucas virtudes da mediania é a capacidade que nos dá de generalizar com grande grau de certeza a partir da experiência individual – nisto, somos superiores aos génios. Só por isso me parece que não erro ao ter elegido como primeira grande epifania da paternidade a constatação de que o amor por um filho não surge instantaneamente e definitivo no dia em que ele nasce (ou com a primeira ecografia), mas vai crescendo nos primeiros meses de forma tão notória que, se houvesse para as emoções um caderninho equivalente àquele em que vamos registando os valores biométricos do bebé, seria possível distinguir grupos de pais segundo a forma da curva de evolução do amor paterno ao longo do tempo, mas sem se instaurar a opressão do percentil, bastando uma categorização nada normativa:  os pais com amor de tipo sigmóide, exponencial, linear, etc.

 

Não tenho a mesma certeza quanto à segunda grande epifania da paternidade, mas arrisco: é a percepção de que, todos os dias, nos esquecemos da nossa condição de pais. Antes de ser pai, imaginava a paternidade como uma mudança de vida radical, que iria muito além da alteração de estatuto social e rotinas, pois a chegada da responsabilidade maior que um homem normal pode esperar penetraria tão fundo na alma que deixaria no corpo uma marca - não propriamente um estigma, mais algo como um levíssimo zumbido que passaria a acompanhar todos os estados de consciência. Cedo concluí que não é bem assim. Não só não há zumbido nem coisa parecida, como não passo os dias vergado pelo peso da responsabilidade. A creche não me liberta apenas para o trabalho, nem se limita a suspender a responsabilidade parental, parecendo sobretudo enviar-me para o tempo em que não tinha filhas, pois entre as 9 da manhã e as 5 da tarde esqueço que as duas existem, como se para responder bem ao estado de alerta exigido pela presença delas precisasse de recorrer a intervalos retemperadores de descanso absoluto. Este mecanismo é tão eficaz que chega a causar alguns problemas de consciência, pois de manhã, excepto quando as bebés se põem a chorar com os braços esticados a pedir colo, não me custa nada separar-me delas, e ao fim do dia o reencontro não poderia ser mais feliz, o que parece violar a lei da dinâmica das emoções, que as descreve com um saldo nulo. Mas so far, so good

04
Abr17

Feios, porcos e maus

Eremita

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Quando os polícias da Escola Segura levaram Mónica (nome fictício) para o hospital os exames médicos revelaram um filme de terror que durava há quase quatro anos. Tinha equimoses por todo o corpo, de vários tons e texturas, consoante a altura em que haviam sido feitas. E se algumas eram de quedas que tinha dado, outras indiciavam agressões. Como se tivessem batido com ela contra uma parede, observou uma técnica do gabinete de apoio ao aluno e à família daquela escola. Também tinha cortes nos pés. Apresentava um atraso global no desenvolvimento e a sua magreza excessiva e olhos encovados denunciavam as privações a que havia estado sujeita.

 

Havia de se descobrir que o cenário era ainda pior do que se podia imaginar. Enquanto morou com a mãe, na altura com 28 anos, e com o seu companheiro de 27, operário da recolha do lixo, Mónica vivia por norma enclausurada de castigo no quarto, divisão onde as persianas estavam sempre corridas por se terem estragado, com uma televisão que não funcionava e sem um único brinquedo. Os insultos eram uma constante. A mãe chamava-lhe "mijona, cagona e porca", e mandava-a para o quarto por não controlar os esfíncteres, ou por não querer comer. Não a deixava conviver com outras crianças.

 

(...)

 

No Natal de 2014, Mónica ficou naquela divisão uma semana inteira. Não foi sequer autorizada a descer à sala para abrir as prendas. O casal tinha tido uma filha, mais nova, cujo quarto enchera de brinquedos. A 28 de Dezembro permitiram que Mónica interrompesse o castigo para cantar os parabéns à meia-irmã, que fazia anos nesse dia, mas mandaram-na regressar ao quarto às escuras, sem lhe darem sequer uma fatia do bolo de anos.

 

A menina havia de contar mais tarde a uma educadora social que chegava a ir para as escadas espreitar para ver se a mãe e o padrasto também batiam à meia-irmã. A vizinhança chegou a perguntar por que não vinha Mónica à rua. O cantoneiro respondia o mesmo que aos seus pais, avós emprestados da menina: que não era pai dela, quem mandava era a mãe. Ana Henriques, Público

 

Continua

 

27
Mar17

A imaginação catastrofista

Eremita

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Hoje vesti uma das bebés com um body que tem o "S" do Superman estampado no peito. Não sou grande adepto da roupinha cómica, porque um bebé de fralda - haja pudor - já está plenamente equipado para nos enternecer e fazer sorrir. Se é verdade que me satisfaz mais vesti-las como meninos e roupa descontraída do que abonecá-las, no fundo, por mim, vestia as bebés como se fossem duas velhinhas calvinistas e o assunto ficaria arrumado. Mas quem escolhe a roupa é a mãe e muita da roupa que temos foi oferecida, pelo que as bebés são em grande parte vestidas segundo o gosto de outros. Tem sido assim desde que nasceram e não me incomoda por aí além. O  "S" só é um problema porque há uns tempos um miúdo atirou-se de uma varanda de um prédio vestido de Superman

 

Houve também um pai que se esqueceu do bebé dentro do carro num dia de calor e esta foi uma das notícias mais inesquecíveis de sempre. Enfim, pode nem sequer vir no jornal. Há um pequeníssimo conto de David Foster Wallace, Incarnations of Burned Children, que também se anicha na memória como um vírus crónico. E pode até não ter sido ainda escrito, nem filmado. 

 

Continua

08
Mar17

Giant steps

Eremita

 

Ontem foi a noite que marca a chegada da segunda gémea ao bipedismo, um momento assinalado pela mana com umas amplas palmas, de pé. Há um vídeo e é grande a tentação de o mostrar, mas no que toca à domesticidade o Ouriquense permanecerá irrevogavelmente iconoclasta. 

 

Continua (antes preciso de estudar um pouco de Anatomia e um clássico de Charles Darwin).

 

01
Mar17

Da natureza humana

Eremita

Desconfio que as minhas gémeas só dão os abracinhos enternecedores quando estão na presença de outros. Mas sei que, sozinhas ou acompanhadas, a chupeta e o brinquedo da outra são sempre os mais cobiçados.

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