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Ouriquense

14
Fev12

São Valentim

Eremita

Ourique em discurso directo


 Rita

 

"Ah, o amor. Faz más as pessoas boas e péssimas as pessoas más. Mas admito que seja bom para a arte"  Judeu

 

"Não tenho remorsos. Uma vez falhei a estocada final e foi uma agonia. Olhos nos olhos, apeteceu-me falar-lhe, só que não me lembrei de nada. Havia gente à nossa volta e começaram a reclamar comigo, mas não podia ficar ainda mais triste. Enfim, o touro lá morreu" Ricardo Chibanga

 

"Eu lembro-me dela todos os dias, não preciso de uma data especial" Surfista de Ourique, aka Jaime, aka "rapaz de recados"

 

"Já só me apaixono por actrizes mortas, não tenho tempo a perder"  Gaspar, aka "o rapaz do cineclube"

 

"Entre o amor e o controlo dos meios de produção, o alentejano não pode hesitar" Fausto

 

"Comer mulas em Hollywood foi a minha estrada de Damasco " Confissão de Nuno Salvação Barreto, o censor.

 

"Não é verdade que seja dos circuncidados que elas gostam mais, mas já não culpo o meu pai" Adriano, filho do Judeu

 

"Compadre, não são os peitos, são os olhinhos" Honório (em fantasma), comentando um calendário na antiga taberna do Mira.

 

"Tem 20 cêntimos?" Tatiana, no Pingo Doce.

 

 

 

 

02
Ago11

Tábua de personagens [actualização]

Eremita

 

 

Tenho conhecido algumas pessoas desde que aqui cheguei de bicicleta.

 

 

PERSONAGENS

 

Tatiana

 

Tatiana, uma ucraniana caixa no Pingo Doce, é uma mulher de anatomia e personalidade imprecisas. A indefinição dos seus contornos físicos e psicológicos é essencial para que seja camaleónica e assim cumpra as funções de passe-partout passional que recolha as características dos objectos passionais do seu criador, reais ou fantasiosos, e de todos os tempos. Mesmo em relação ao seu nariz, que foi já descrito com grande precisão, o leitor atento ficará com dúvidas, pois há uma contradição: Nariz à Rosemarie DeWitt ou "nariz fino, pouco comprido, mas muito nobre? E, afinal, se não há rosto passível de ser amado no local de trabalho de Tatiana, quem era aquela mulher que lhe terá dado um rosto provisório? Não se sabe. 

 

Tatiana vai engravidando em tempo real. Primeiro nasceu "1", depois "2", em breve haverá "3". Os filhos de Tatiana terão um nome, mas aqui são apenas "1", "2", "3"... "n". São sempre de homens diferentes e nunca do narrador, mas "sempre" e "nunca" são aqui menos redundantes do que contraditórios. Ou talvez não. 

 

 

Igor

 

Igor, marido de Tatiana, é uma besta e também um idiota. Por uma vez, a falta de densidade psicológica é da exclusiva responsabilidade da personagem. Igor não chega sequer a representar o contraponto de Tatiana, um passe-partout de todos os ódios, porque em regra acumulamos menos ódios do que paixões e o ódio tolera-se muito mais facilmente, dele podendo até vir algum ânimo. Igor existe apenas para criar alguma tensão e fazer de Tatiana uma mulher inacessível. O plano em construção para assassinar o ucraniano pontua a primeira fase do Ouriquense, se possível no registo de comédia negra. Fisicamente avantajado mas destituído de qualquer brilho ou bondade, o amor de Tatiana por este homem é um dos grandes mistérios desta trama e só a complexidade das mulheres nos livra de termos aqui uma inverosimilhança.

 

Na segunda fase do Ouriquense, Igor é dado como falecido, na sequência de uma série de eventos com final em aberto - sobretudo por preguiça do autor, mas também conveniência - que levam o eremita até Espanha, de onde traz o relato Quem Matou Igor? , o primeiro policial com spoiler warning, que tem publicado muito lentamente. A verdade é que, com base na informação disponibilizada até agora no Ouriquense, o corpo ainda não foi encontrado.

 

Judeu, aka "o inventor"

 

O  inventor da vila é uma mistura do cigano Melquíades (Márquez) com o velho Atílio (telenovela O Casarão) que pretendia fazer ouro a partir do esterco que remexia numa banheira. Este homem julga que a solução para a máquina de movimento perpétuo é um lubrificante feito à base de um azeite por ele muito alterado, obtido a partir de umas oliveiras que só crescem nas redondezas. Noite sim noite não, galga o muro da casa dos meus tios para lubrificar os 3 baloiços de forma distinta, imprimindo-lhes depois exactamente o mesmo movimento. Apressa-se a deixar a casa e é da rua principal que mede o tempo que cada baloiço demora a parar. Noite não noite sim, trabalha até de madrugada com base nas observações feitas na véspera.

Possui uma boa biblioteca e uma qualquer relação com as libertinas de Lisboa, que ficará por desvendar. Exerce uma estranha atracção sobre o autor, que o próprio não consegue explicar.


Em 2011, o Judeu atravessa o monitor e começa a escrever os seus próprios posts, também no Ouriquense.

 

 

Ricardo Chibanga

 

De onde vem Ricardo Chibanga? O Ouriquense é o desenvolvimento possível de um texto fundador, Ourique 1979, que trago para aqui, ligeiramente modificado:

 

Tudo rodopia em torno de um cartaz de touradas, não sei se pelo vermelho tauromáquico, o negro do touro ou o olhar intenso de Ricardo Chibanga. A impossibilidade física de edificar uma vila a partir de um cartaz desaparece dentro da cabeça. No fundo, trata-se de uma reconstrução que tem muito de restauro. Imagine-se no cinema. O cartaz aparece a voar, depois a rebolar amarrotado pelos montados, até parar num descampado com a certeza dos pioneiros, porque pressentiu a frescura de um riacho ou uma futura concentração de caminhos. O cartaz abre então como uma flor e fica a pairar à altura dos olhos, a pedir parede. E logo surge a parede, depois a casa que a justifica, a rua, dez ruas, o reservatório de água, mais ruas, antenas de televisão, a câmara municipal ao cimo da avenida que ainda não nasceu. Os reflexos de luz na pela de Chibanga são animados pela canícula das três da tarde de Agosto, vencem o branco incandescente da cal e permanecem como o centro geométrico da vila, que alastra em todas as direcções. O desabafo do médico da vila-"Ah! Chibanga, o grande Otelo do redondel"- ecoa ainda, primeiro ampliado pela ignorância de quem levou muitos anos a entender tais palavras, e depois renovado, não em eco, antes como se o médico se tivesse cruzado comigo outra vez, ainda com o jornal debaixo do braço e a umas dezenas de metros do café: "Ah! Chibanga, o grande Otelo do redondel". Não fora pelo médico e Ourique podia ser uma vila de surdos, rica apenas nos sons dos animais: o latido do cão, o guincho final do porco a estilhaçar o frio de Dezembro, o chilreio das ninhadas das andorinhas nos beirais. O tempo passava e Chibanga, curtido pelo Verão e ensopado pelas chuvas, parecia agarrar-se ao cartaz com a tenacidade dos náufragos numa jangada à deriva. Mas a vila morreu aos poucos: primeiro os avós, depois a romãzeira, a pocilga sem porcos, a casa a acumular varizes, a distância que não parou de crescer. A morte de Chibanga está ainda envolta em algum mistério: teria sido uma criança a descolar o último farrapo de cartaz? Teria sido o desleixado dono da casa, quando ao fim de vinte anos voltou a caiar as paredes? Ou terão colado um cartaz por cima a publicitar algo alheio à planície (o circo Cardinalle)? Nunca mais voltei a passar naquela rua. Às vezes penso que Chibanga não teve um final inglório. Imagino o matador a morrer de pé, no momento em que a parede ruiu e não me apetece ir ver se tenho razão.

 

Chibanga é a única personagem do Ouriquense animada de algum realismo mágico. Ele aparece na vila como um fantasma condenado para sempre a procurar os pedaços rasgados do seu cartaz. Curiosamente, se todas as outras personagens são inventadas ou estão efectivamente mortas, no mundo real Ricardo Chibanga existe e gere um negócio de arenas desmontáveis. A errância da profissão do Chibanga de carne e osso torna possível o confronto na arena entre um Chibanga sessentão, à paisana, e o seu fantasma trinta anos mais novo, de traje de luzes, naquela que será a única cena do Ouriquense em que, periclitantemente sentadas na bancada da praça montada sobre andaimes, todas as personagens vão interagir, nem que seja por uma simples troca de olhares. A trama desembocará nesta cena e então o Ouriquense repousará em paz.

 

As libertinas de Lisboa

 

As libertinas de Lisboa existem para manter a pureza da relação com Tatiana. O autor faz com elas tudo aquilo que tem vontade de fazer com Tatiana mas julga adequado censurar. A iminência de um ménage à trois é a cedência do Ouriquense que lhe retira o estatuto de objecto artístico puro, isto é, alheio a propósitos mercantilistas. Mas na verdade, embora sempre descritas como um par, o autor interage  apenas com uma ou a outra e nunca as duas ao mesmo tempo (excepção feita ao primeiro encontro). Tal como o narrador, também o autor as trata como uma única pessoa. Daqui decorrerão algumas situações rocambolescas.

 

As libertinas de Lisboa foram abandonadas sem honras de morte trágica. Desapareceram simplesmente de Ourique, dado o insucesso do folhetim que animavam, os Diálogos Eróticos.

 

 

Jaime, o moço de recados

 

O único surfista vivo de Ourique é o elemento de charneira, embora tenha sido até agora muito poupado. Existe no Ouriquense um desejo de bucolismo, só que assistido por veios capazes de bombear alguma civilização na vila. Esta incapacidade de assumir o interior em toda a sua esplendorosa desolação perdeu entretanto alguma espectacularidade - houve a melhoria dos retransmissores, dos satélites e depois a extensão das redes de televisão por cabo; ainda assim, vem com a lucidez desencantada de quem sabe que a cidade chega hoje à vila com o que tem de bom e também a porcaria que lhe é característica, porque só o correio asseguraria que recebesse em Ourique apenas o tal "génio elegante". Nisso - e no português diminuído - o Ouriquense se distingue de A Cidade e as Serras. Não se acredita aqui que só o campo fosse capaz  de recuperar Jacinto, nem se acredita que Jacinto fosse capaz de viver só do campo.

O moço de recados traz a civilização.  Na era da tecnologia, ele é mais do que um capricho, é uma excentricidade que corporiza a função redentora do estilo. Porque a tecnologia só encanta quando ainda não existe - os cenários futuristas  - ou quando deixou de existir - o "teatrofone" que fazia as delícias de Proust.

 

As capacidades cognitivas de Jaime são um dos mistérios que animam o Ouriquense. É possível que estejamos perante um idiot savant. A partir de 2011, Jaime começa a ganhar alguns dos traços de personalidade do adorável Mario Incandenza, do romance Infinite Jest.

 

Emília

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Emília é a mais importantes das quatro personagens que realmente existiram em Ourique e a que tem já um papel definido na cena final: ela trará uma limonada a Ricardo Chibanga e preferirá saciar a sede ao Chibanga fantasma, deixando o Chibanga real a morrer de sede. Emília aparecerá quase sempre acenando com o afinco daquelas pessoas que imaginamos ficarem ainda a acenar muitos minutos depois de termos saído do seu campo de visão. Este capricho narrativo colocará enormes problemas técnicos ao autor, pois o narrador, ao contrário da criança que foi, quase nunca abandonará Ourique.

 

Honório

 

É a segunda das personagens reais em importância. Bêbado e com lugar cativo na taberna do Mira, Honório é uma das tentações negras do narrador, pois chegará a cúmplice e executor nos planos para a morte de Igor. Mas se a consciência do narrador acusa o fardo de Honório, o único peso que este sente - e que apenas lhe aflora o cachaço - é o do gume da espada de Dâmocles com que um juiz em tempos o sentenciou.

 

Luís

 

A terceira personagem real em importância, Luís é o menino que nunca viu o mar e com quem o narrador percebe os limites da sua capacidade de expressão, em tentativas reiteradas de lhe explicar por palavras e sem outros meios a sensação de fazer carreirinhas, uma cena decaldada do momento de Children of a Lesser God em que William Hurt tenta explicar a uma surda o que é a música.

 

Torpes

 

A quarta personagem real em importância, Torpes, irmão de Emília, é o homem com quem voltamos à pesca na barragem e que manifesta uma notável veia aforística sempre que trespassa um peixei-rei com o anzol. Na edição em livro, muitas das Lições da Planície farão parte das intervenções de Torpes.

 

Gaspar, o cinéfilo, aka "o rapaz do cineclube"

 

O rapaz do cineclube representa o Ourique positivo, embora acuse também uma rebeldia a espaços niilista. O cinéfilo, que gere um cineclube alimentado por cópias de filmes roubadas nos cinemas da capital, está para a oferta cultural em Ourique como Robin Hood estava para o alívio fiscal das populações mais carenciadas de Nottingham.

 

Maik Magic (e Rosy)

 

Maik Magic (e Rosy) marcam um instante fundador no Ouriquense.

 

 

O ladrão de cuecas

 

Trata-se da única personagem resgatada a pedido dos leitores e servirá de pretexto a uma trama policial. Desaparecido durante mais de um ano, o ladrão de cuecas animará em breve um folhetim escrito ao jeito do blogger António Figueira, um especialista no género que traça a bissetriz entre o romance policial e o jornalismo de investigação criminal.

 

Adriano

 

Filho do Judeu. Não sabemos que futuro lhe dar.

 

Fausto

 

Inventando em Janeiro de 2011, para conter a contaminação das outras personagens com o desejo de intervir e reagir à actualidade, Fausto é o responsável pelo braço politicamente armado do Ouriquense, até 2011 um blog de pendor niilista-blasé, ateísta-não-praticante e melancólico-estóico. Fausto é o veículo para expressar ideias que o autor tem por válidas, mas que o envergonham pela ingenuidade, que lhes reconhece , e a possível estupidez, que admite.

 

Nuno Salvação Barreto

 

Ao contrário de Ricardo Chibanga, o fantasma de Nuno Salvação Barreto não tem qualidades mágicas, nem faz parte do enredo. No ecossistema estratificado que compõe o Ouriquense, O eremita está no topo, depois o Judeu, quando escreve na primeira pessoa, depois Salvação Barreto, quando censura o que foi escrito, depois as personagens, que ignoram a existência do Ouriquense.

 

Rita Pinamona

 

O segundo grande amor do Eremita e uma paixão epistolar. Rita Pinamona nasce na Primavera de 2011 e não chega ao Verão desse ano, mas em três meses acumula-se um acervo de cartas que a manterá como personagem até ao fim do Ouriquense.

 

 

LUGARES

 

A vila

 

Um sítio feio e onde não acontece nada.

 

O supermercado

 

Tatiana trabalha num Pingo Doce e é aí que o narrador normalmente se cruza com ela. A descrição já foi feita: "trata-se de um espaço sobredimensionado, à entrada da vila, que reproduz em Ourique a mesma sensação de total insignificância que experimentei nas grandes superfícies comerciais das cidades americanas. Curioso isto de ter sentido pela primeira vez a angústia da pequenez cósmica naqueles enormes supermercados, no IKEA de Nova Jersey, numa farmácia na periferia de algum subúrbio de alguma cidade de um certo estado (Florida?),  e não no planetário nacional onde me levavam quando criança, nem no que depois visitei pelo meu próprio pé, em Nova Iorque; só mesmo no Pingo Doce de Ourique recuperei a escala cósmica. Enfim, de lá trago também os dois litros diários de gaspacho de pacote - vivo a gaspacho e pão, o meu tracto intestinal é como uma viela de Buñol em perpétua última quarta-feira de Agosto (a Tomatina). Mas não trouxe ainda a Tatiana. Das 5 ou 6 empregadas com quem me cruzei, nenhuma tem um rosto passível de ser amado"

 

 

O cineclube

 

Por motivos óbvios, não estou autorizado a revelar a localização do cineclube, local onde se assiste à mais recente oferta cinematográfica, bem como a clássicos e obras entretanto esquecidas, num ambiente de clandestina cumplicidade e em que é permitido fumar. Os filmes são projectados sobre uma parede que é caiada todos os anos pelo rapaz do cineclube.

 

Cotovio

 

É no monte arruinado, à sombra de um plátano, que o narrador lê os grandes clássicos e obras de menor alcance, guardadas em tupperwares. É também no monte que se dedica disparar com uma espingarda de pressão-de-ar sobre comprimidos de composição conhecida e posologia incerta. As alterações no caudal da ribeira do Cotovio, uma espécie de rio Sado incipiente, servem para marcar a passagem do tempo.

 

O cemitério

 

O cemitério de Ourique lembra uma pedreira de mármore graffitada com as típicas inscrições fúnebres. A compilação dos nomes de todos os ouriquenses falecidos é um dos passatempos do narrador, que inspecciona e fotografa todas as campas, mas evitando sempre o confronto com o jazigo da sua família. Será Ricardo Chibanga que o levará pela mão a perfilar-se diante dos seus antepassados, obrigando-o depois a proferir umas quaisquer palavras simpáticas.

 

A taberna do Mira

 

Com mulheres nuas  nas paredes e copos de vinho ao balcão, na taberna do Mira todas as dimensões do espaço eram preenchidas por tentações masculinas, vigiadas por uma enorme cabeça de touro. A luz escasseava e entrava sobretudo pelas portas, criando uma atmosfera muito difícil de reproduzir num estúdio de cinema. A luz rasteira acentuava o escavado dos rostos e o contraste do vidro translúcido sobre o mármore opaco. A memória desta taberna, hoje encerrada e nas mãos de uma imobiliária, é imprecisa - não é seguro que o balcão fosse de mármore. O primeiro encontro com o fantasma de Ricardo Chibanga terá lugar diante da porta fechada da taberna e o narrador fará uso de todos os seus recursos para provar que lá dentro se encontra a prova perdida de que Ourique foi vila tauromáquica.

 

A casa dos avós

 

Um casarão a apodrecer no centro da vila e onde o autor passou férias na infância. 

 


 

Castro Verde

 

É a vila rival, o instrumento a que o autor recorre para limitar a simpatia que os nativos poderão sentir pelo Ouriquense.

 

A romãzeira

 

É a única árvore do quintal dos avós que resiste à reconquista do quintal abandonado pela natureza. 

 

LINHAS DIRECTRIZES

 

O amor a Tatiana

 

O amor a Tatiana é a grande força motriz do Ouriquense, na sua primeira fase. Mas a cada sucessiva gravidez da ucraniana esse amor vai esmorecendo e há até razões para pensar que o ódio a Igor é uma sensação mais completa e fundamentada. 

 

Actividade remunerada


O narrador não trabalha desde Julho de 2008 e a sua conta bancária vai minguando a olhos vistos. Essa pressão leva-o a tentar encontrar uma fonte de rendimento, mas sempre sem sucesso.

 

Vasco Graça Moura

 

Um dos poucos traços comuns a BW, o projecto ultra-secreto, e o Ouriquense é o fascínio por Vasco Graça Moura, o tradutor, poeta, romancista, intelectual do cavaquismo e defensor da língua e do património. A partir de 2011, o narrador fica obcecado com os métodos de trabalho do prolífico autor e pretende saber se ele fez efectivamente todos aqueles versos decassílabos ou se tem uma equipa que trabalha na obscuridade. 

 

Carreira de Tiro

 

A carreira de tiro, em rigor, mais não é que uma zona no monte com uma azinheira de ramos cansados, bons para suportar garrafas e outros alvos, nomeadamente comprimidos e drageias. Simboliza a tensão latente com o universo dos psicofármacos.

 

OFICINA LITERÁRIA

 

O projecto ultra-secreto de código "BW"

 

O Making of de um grande romance luso, que também tem a sua tábua de personagens

 

Um tributo a John Coplans


Uma autobiografia do corpo, entre a puerilidade do ginásio e a dificuldade de domar a Apercepção de si e Corpo em Maine de Biran.

 

O livro de todos os desportos

 

Uma colecção de histórias de desporto, a lançar em volumes de quatro em quatro anos, coincidindo com os jogos olímpicos: "Ases, para que vos quero?" (ténis), "O benjamim dos Rasmussen" (tobogan),"Uma namorada para Kim Myong-Guk" (halterofilismo), "A revolta dos fiscais de linha" (futebol), "A décima primeira maratona de Samuel Makau"(atletismo), "O nosso antídoto é o teu veneno" (futebol)...

 

Viagens

 

Relatos de viagens inventadas: Mustang (um coast to coast), uma visita ao Gana  e Machu Picchu y nada más. Ainda não as consegui vender. 

 

Lições da Planície

 

Aforismos e afins, com ligação a uma qualquer experiência que não está a mais de 48 do acto da escrita. Periodicamente, é feita uma selecção em séries de 10, os Decálogos da planície.

 

Quem matou Igor?

 

Um policial com spoiler warning e um pretexto para visitar Espanha.

 

Geodésicas

 

Uma tentativa de dar ao impulso inicial as condições necessárias para mais nada ser preciso, atribuindo a um lugar propriedades sobrenaturais:

 

"Só que no outro dia, quando descia do monte encimado pelo marco geodésico e caminhava ladeado de arbustos que se enchem de flores brancas na Primavera, flores grandes, capazes de atrair abelhas e até apicultores, senti ali, ali mesmo, não uma promessa de Primavera mas algo que, à falta de outro termo, eu diria, sem mais demoras, poder ser descrito como "inspiração". Se sempre pensara que a inspiração descia sobre os homens vinda dos céus, experimentei algo distinto: a minha inspiração subiu-me pelas pernas e vinha tão carregada do cheiro aos actinomicetos da terra molhada que, em rigor, também me entrou pelas narinas. Estaquei logo, como se fosse um  descobridor de água por radiestesia que, de súbito, sente vibrações no seu graveto em forquilha. Sentei-me num pequeno afloramento xistoso, senti a pedra quente, etc., tirei o bloco de notas e comecei a escrevinhar impacientemente, freneticamente e depois obsessivamente (...). Nunca nada assim me havia acontecido. Há homens que têm dias triunfais; eu tive umas boas 3 horas triunfais. E materializou-se uma história no fim. Uma história em que não havia sequer pensado até então, nem mesmo quando estava junto do marco geodésico, mas que não é filha da escrita automática. A história não tem qualidade para se apresentar ao público e só a sua génese importava contar".

 

A verdade é que só ainda foram paridas duas geodésicas: A Educação Pornográfica de Inácio Ramalho e Ainda há Tubarões na Ponta do Sol.

 

Leituras sob o plátano

 

Moby Dick, Cartuxa de Parma, Guerra e Paz, Infinite Jest, Quijote, Recherche, Pais e Filhos.

 

28
Dez10

Heartbreaking news

Eremita

Tatiana está novamente grávida. Sobre este evento, first things first, para dizer que não se sabe o sexo. Mas devo ainda contar em que circunstâncias me inteirei desta novidade, porque é algo que necessita de uma explicação e me lançou depois num turbilhão de emoções de onde só viria a sair pela mão do Judeu - creio mesmo que foi a primeira vez que ele funcionou como um amigo.

 

Cometi já a indiscrição de anunciar que Tatiana tem um namorado e planeei uma reacção primária a tal novidade. Mas como o carro do Judeu engripou nesse dia e, por algum insondável motivo ou então por tique roubado à alta burguesia de que não me orgulho nada, ir às putas de camioneta me parece insuportavelmente degradante, acabei por ficar aqui e libertar a raiva disparando contra lâmpadas incandescentes que comprei no supermercado e empinei sobre um tronco quase horizontal de oliveira com a ajuda de plasticina. Aproveito para recomendar este método a qualquer pessoa com necessidade de vazar uma frustração, pois tem aquela qualidade da sequência de sons discretos, que é indefinível mas se sente como libertadora - também não fica muito caro, embora funcione pior com lâmpadas fundidas.

 

 

Não cheguei a ver o namorado de Tatiana, nem sequer o vi de costas beijando-a, abraçando-a, de mãos dadas, ou oferecendo-lhe uma flor paga pelo município. Imaginei-o atraente e, como quase não há homens atraentes em Ourique, deduzi que fosse de fora. Na verdade, alimentava ainda a dúvida de que a súbita e conspícua alegria com que Tatiana passou a atender os clientes fosse a manifestação à superfície do enorme iceberg que para mim são os  laços de Tatiana à Ucrânia, o seu passado, que apenas posso inventar, e o seu mundo interior, pois se é verdade que lhe descrevi o nariz, não há vestígios da sua personalidade além de um breve episódio observado de longe e de um refrão de um esboço de letra, forma em que, por falta de talento do autor, até o carácter se verga à métrica.

 

Nas últimas semanas, tentei recolher provas no supermercado e cheguei a seguir Tatiana a uma distância segura, mas nas aldeias e vilas essa é uma distância infinita. Nunca a segui até casa. Nunca me instalei do outro lado da rua vigiando as entradas e saídas. Tenho pânico que Tatiana e a vila saibam desta obsessão, pois os celibatários estão sempre sob suspeita, a menos que sejam excêntricos, como o Judeu. Daí que o encontro seguinte tivesse sido ainda mais inesperado do que se pensa quando temos presente que em mais de dois anos nesta vila  devo ter trocado com Tatiana uma mão cheia de perguntas e ainda menos dedos de respostas. Era uma hora morta e ela acabava de retomar o comando da única caixa registadora a funcionar. Vinha de sorriso perene, eu era o único cliente à espera, e o seu sorriso foi crescendo tanto que só uma daquelas caixas antigas capazes de fazer um sonoro "plim" lhe daria um reset facial, pelo que não sobrou outra solução que não desabafar comigo, embora esta seja apenas a explicação a que cheguei algumas horas depois:

 

- Vou ter um filho!

 

Diz a convenção que se dê os parabéns, embora a única sugestão das convenções para as surpresas é que não nos mostremos surpreendidos, um conselho pouco sério. De maneira que retorqui o que pensei:

 

- E o pai?

 

À ambiguidade intrínseca desta pergunta devemos acrescentar as limitações de Tatiana no português e a conversão do seu anúncio numa pergunta minha, que terá funcionado como um ricochete da surpresa. Em todo o caso, pareceu mesmo surpreendê-la.

 

- Ainda não sabe.  Não sabe! Vou telefonar agora, obrigada.

 

A minha pergunta era outra, só que nem tentei ver que número ela marcava, apressei-me a olhar para o visor da caixa registadora e deixar o montante certo. Quando já estava quase fora do Pingo Doce, ainda ouvi a voz animada dela. Falava ucraniano.

 

- Isso nada quer dizer. Tatiana poderia estar sob o efeito da emoção depois de ter visto o resultado do teste - disse-me o Judeu, pois fui logo a correr para casa dele.

 

- Achas que é português?

 

- Preferias que fosse?

 

- Não comeces a responder com perguntas, por favor.

 

Se o Judeu inventou o que me disse a seguir, ainda não o apanhei em falso.

 

- Percebo a tua agitação, mas ouve-me. Um escritor famoso [o UpDike, conheço a citação, só não me lembro da fonte] dizia que quando alguém encontra uma namorada antiga que já não quer dormir com ele a experiência equivale a uma pequena morte. É uma imagem má, se me permites, pois trata-se de uma morte pequena apenas por ser efémera. A verdadeira pequena morte só acontece quando a namorada antiga engravida de outro homem. Essa é uma pequena morte eterna. Só que tu nem sequer tens obrigação de a sentir. Tatiana nunca foi tua, vê se tiras daí algum consolo. E lembra-te que é a segunda vez, certo? Se bem percebi, quando ela engravidou do Igor tu já estavas enamorado ela. Não podes reagir da mesma maneira perante um mesmo acontecimento. Da única vez em que estive apaixonado, a separação custou-me muito. Vê-la depois com outro homem custou-me muito e saber que ela tinha engravidado custou-me muito, também. Custou-me sempre o mesmo na intensidade e dir-me-ás que te estou a pedir o que não consegui praticar. Sucede porém que aqueles três momentos foram diferentes. Ao desespero, seguiu-se a raiva e depois uma percepção, tão aguda quanto anacrónica, do fim. A intensidade não mudou porque a cada momento sucessivamente mais grave, o amor, pelo efeito do tempo, foi sendo progressivamente mais fraco. Percebes?

 

- Quando te separaste dessa mulher já tinhas o Adriano?

 

- Não. Também te poderia contar uma história com outra mulher, já depois do nascimento do Adriano, mas creio que sei escolher os exemplos mais adequados.

 

- Foste mais pela empatia, o que é a segunda supresa do dia. Não percebo em que medida o teu exemplo me desautoriza a sofrer. Apenas me quiseste dizer que já passaste pelo mesmo. E que amaste mais outra mulher do que a mãe do teu filho. Quanto a essa lei da conservação da intensidade à custa de variações na qualidade, lamento, mas soa-me a charlatanice e não retiro dela conforto algum.

 

- Preferias antes que te confirmasse que o pai é ucraniano?

 

- Sim.

 

18
Set09

Aceno transviado

Eremita

Ontem de tarde, ao fundo da rua, o inventor conversava com Tatiana. Fiquei atónito, pois não sabia que se conheciam. Nessa noite, o inventor revelou-me que Tatiana faz a lide doméstica de sua casa à segunda-feira e experimentei uma súbita vontade de acariciar os talheres. Mas de tarde nada ainda sabia e quando ambos me viram, a metros de distância, o meu impulso foi arrepiar caminho. O inventor ainda acenou e eu retribuí o cumprimento. Nesse momento, Tatiana também me fez adeus. E logo uma parede os retirou do meu campo de visão. Como provar a Tatiana que o meu adeus não era para ela, se não consigo explicar  este esforço por evitá-la misturado com o desejo de esbarrarmos um no outro ao virar de cada esquina? 

08
Set09

Fuck them

Eremita

Notas soltas sobre uma gravidez

 

A paixão segura acontece com uma mulher que dobrou a menopausa. Chego a esta conclusão em relativo alvoroço, depois de ver a barriga de Tatiana.

 

No exercício da solidão, o eremita é um misógino ou então um cobarde. Só exclui as mulheres da sua vida quem não as suporta ou quem as teme. Mas estas hipóteses não são mutuamente exclusivas. Aliás, fazer regra do mutuamente exclusivo é provavelmente a maior concessão que a lógica fez ao estilo. As consequências deste capricho são incomensuráveis, mas sempre graves.

 

A partir de certa altura, dexei de detestar uma mulher em particular e passei a usá-la como pretexto para detestar o género. Se uma mulher me fazia mal, dava comigo a insultá-la no plural. "Fuck them", disse-o eu também e muitas vezes, embora longe dos microfones.

 

O derradeiro teste à urbanidade de um homem é a gravidez de uma antiga namorada de quem ficou amigo. Quanto mais antiga a namorada e maior a amizade, mais duro é o teste.

 

30
Ago09

Making of Ouriquense - o álbum (V)*

Eremita

 Considerandos metodológicos

 

Acordei a assobiar o refrão de Tatiana. Espontaneamente. Está cumprido um dos critérios de selecção. Na revisão de um texto, a noite dormida é essencial para recuperar a capacidade de detectar erros, perdida ao fim da terceira leitura.  Dorme-se para esquecer. Mas na feitura de uma canção, o seu potencial de contaminação da memória avalia-se na manhã seguinte. A canção é tratada como um agente infeccioso acústico, otovérmico - na feliz formulação de Miguel Esteves Cardoso. Dorme-se para recordar. 

 

* Doravante, para contrariar no Ouriquense uma descabida anglofilia, o título desta série  passa a ser apenas "o álbum".

25
Ago09

Moby-Dick

Eremita

 

A minha existência de caçador-recolector com assistência durou menos do que o previsto. Planeava ficar pelas margens da barragem até meados de Agosto e a verdade é que regressei há mais de duas semanas. Gostaria de frisar que nenhuma dependência na civilização me vergou - não dependo de pessoas e ainda menos de apetrechos. Enfim, percebi que o canivete suíço goza de uma reputação exagerada e teria dado jeito dispor de outras soluções, mas após quatro dias consegui adaptar-me ao montado e a perdiz que matei com a flaubert deu-me um ânimo que sobreviveu ao repasto cinegético. Se voltei à vila foi porque incubei um medo às noites ao relento que se tornou insuportável de gerir.

 

À partida, o montado é uma paisagem que tranquiliza. Uma vez, a caminho do cimo do Pico, nos Açores, quando passava sozinho por uma área de floresta, a cabeça disparou uma série de imagens aterrorizadoras de selvagens dissimulados nas copas, prontos a cair sobre mim. Vieram depois imagens ainda mais assustadoras, não já com o cunho National Geographic, mas sim da cinematografia americana do subgénero "terror de bosque" - especímenes que eram variações do Bigfoot e psicopatas vários que levavam vidas saudáveis, isto é, no campo. Estive quase para arrepiar caminho, mas consegui controlar-me o suficiente antes que qualquer som real - o vasculhar de uma galinha por entre os arbustos - materializasse os produtos da minha imaginação. Porém, só recuperei a tranquilidade quando rompi a cintura de floresta que abraça o vulcão e entrei nas pastagens das terras altas. Podemos teorizar: o medo irracional é inversamente proporcional à distância a que se encontra o horizonte. Por isso a noite assusta mais do que o dia, a floresta mais do que a planície, os corredores da casa assombrada mais do que o caminho para tal morada. Por isso, o clímax em The Shining acontece num apertado labirinto e Jaws é tão assustador - no mar o horizonte pode estar a milhas, mas o que conta é o horizonte vertical do plano de água, que está sempre à beira. Havia pois motivos para confiar no montado, que é paisagem ampla e em que dificilmente se arma uma cilada.

 

Quem durante um ataques de pânico retém alguma lucidez, sabe que o medo alastra pelo corpo com frentes cujo epicentro é impossível de definir e que há uma altura a partir da qual não se pode reverter a tendência. Se penso em vampiros no montado, apenas inicio este processo, podendo sempre abortá-lo. Sucede que pensei em escorpiões, nomeadamente no nosso lacrau, o Buthus occitanus. O bicho é pouco venenoso, só que imaginar este predador nocturno-crepuscular a entrar no saco-cama deu-me uma noite de insónia e um cansaço no dia seguinte que me desmoralizou. O moço de recados ainda tentou animar-me, mas nessa tarde apenas recolhi as forças para poder pedalar de volta à vila. O caminho de volta custou, porque sabia que não escapava de uma morte estúpida, o que seria redentor. É importante distinguir entre a morte estúpida e a morte azarada. Francisco Lázaro, que se untou de sebo para correr a maratona, teve uma morte estúpida. David Carradine, que  - tanto quanto se pôde apurar - gastou a vida numa brincadeira sexual, teve uma morte igualmente estúpida. Diferente é a morte azarada. Ser colhido por um carro que desrespeitou um sinal vermelho é uma morte azarada, tal como ser apanhado entre um tiroteio, sobretudo se for no restaurante. Por definição, a morte azarada não se evita. Logo, não se pode fugir de uma morte azarada. Mas se não desejamos a morte, temos a obrigação de evitar uma morte estúpida.  Ainda senti a tentação de fazer do lacrau um bicho com veneno mortal, para simular que evitava uma morte estúpida, só que não podemos abdicar do rigor. O regresso à vila foi inglório, fruto de uma fraqueza só ligeiramente menos vergonhosa do que a fobia a baratas.

 

Os poucos dias de vida ao relento fizeram-me perceber que Tatiana só me complicou a vida. Que paixão é esta por uma mulher casada, que mais não será do que uma allumeuse pudica, incapaz de atraiçoar Igor e também de retrair o dedo caprichoso que roça nos meus quando me dá o recibo? Se ninguém escapa à intrínseca falta de originalidade na paixão, é imperativo exigir o máximo do ser desejado. Convenhamos que Tatiana é analfabeta em português e que amar sem uma língua comum é sobretudo um caso de iliteracia.  Nada do que esta mulher fez é merecedor de devoção. O que vale eu ter sobreposto o seu corpo, quando ela caminhava, com imagens do meu arquivo? Fosse outro o ângulo com que a observava e não haveria hoje amor. Há algum sentido nisto? Se Tatiana nem beleza tem? Aquele nariz?  Pertence-lhe o osso, a pele e a cartilagem, mas é meu o culto. E não detecto nela as tais redeeming features; é possível que as tenha, mas não se pode fundar um amor em tal esperança. É tempo de lhe dizer que guarde o troco. Foi embalado nestas vontades que retomei o grande desígnio adiado do Ouriquense, isto é,  a leitura do cânone ocidental. 

 

Devorar o The Great Gatsby restaurou a minha urbanidade, mas agravou o mal de amor. O livrro tem momentos libertadores: I’d been writing letters once a week and signing them: “Love, Nick,” and all I could think of was how, when that certain girl played tennis, a faint mustache of perspiration appeared on her upper lip. E a voz de Fitzgerald quase conseguiu chegar próximo, no impacto sobre o leitor, da voz de Heller nesse milagre que é o Catch-22. Mas aquela teia de relações não veio nada a calhar. E fiquei indeciso quanto à morte de Gatsby, sem saber se foi azarada ou simplesmente estúpida. Decididamente, só a literatura para rapazes me pode hoje salvar. Quero livros sobre a coragem, a camaradagem e as miragens da ambição. Lancei pois a mão aos grandes livros do género entretanto catapultados para o cânone, mas que, na sua essência, não deixam de pertencer ao género de literatura que melhor subalterniza o amor. Refiro-me a Robinson Crusoe, de Defoe,  Heart of Darkness, de Conrad, e a Moby-Dick, de Melville. O primeiro é o livro da minha vida e uma nova leitura viria com o perigo de me reenviar vinte anos atrás. O segundo está num tupperware delgado de afiambrados e não me pareceu ter dimensão (física) capaz de me assegurar a purga de que necessito. Moby-dick é o calhamaço ideal e destrona o Quijote. A culpa é de Dulcineia, obviamente. Quando se remonta a uma causa esbarra-se sempre com uma mulher. 

 

 

23
Ago09

Making of Ouriquense - o álbum (I)

Eremita

A falta de um conjunto de temas originais é o calcanhar de Aquiles que tem impedido a concretização do Ouriquense como projecto multimédia. Obviamente, o Ouriquense não se queria um musical e jamais teve o Politeama no horizonte, mas tem condições para se impor como projecto de conceito, que seria: um homem sem grande voz, uma velha guitarra, a interioridade rural e psicológica num conjunto de canções que não pretendem homenagear Rui Reininho. Enfim, hoje foi um dia bom porque compus o refrão da primeira canção, intitulada "Tatiana". O refrão, que no meu método de composição costuma ser a primeira pedra da letra, descreve a única interacção física entre um homem e Tatiana, que tem lugar durante o pagamento das compras do supermercado. Creio que testemunhamos a génese de umas das primeiras canções portuguesas com uma referência à nossa segunda maior comunidade de imigrantes. Espero que a Associação dos Ucranianos em Portugal se lembre deste facto e venha a funcionar como caixa de ressonância, caso consiga terminar o álbum e reunir depois artistas que o levem para a estrada (um eremita não anda em tournée). O refrão começa com uma nota alta, mas nada que exija a voz de um Chris Isaak. Há depois uma transição da melodia da voz para a linha de baixo, que reenvia a canção para a alternância obsessiva dos dois acordes iniciais. Estou satisfeito com o resultado e a dúvida que me consome é saber se incluo ou não uma referência explícita a Ourique, na linha de um Ó Elvas, ó Elvas (A minha cidade) do grande melodista que é Paco Bandeira; no fim do post, submeto este problema à apreciação dos leitores. Mas vamos ao refrão:

 

 

Ai,Tatiana

Eu só quero atenção

Não me toques na mão

Se não passas cartão

E dás o troco em moedas

 

Logo que consiga resolver certos problemas logísticos, fazer o resto da canção e contornar alguns desajustes de métrica que parecem não preocupar o inspirado  Samuel Úria, conto deixar uma versão acústica deste tema e a respectiva cifra, para quem o quiser tocar em festas ou no recato do quarto. Faço notar que não é uma canção apropriada para serenatas. Se houver por aí alguém com talento para as congas que queira juntar uma percussão à maqueta, terei todo o prazer em enviar o original e incluir o  nome do colaborador na ficha técnica, caso haja satisfação mútua com o resultado final. 

 

 

10
Jul09

Polegar oponível

Eremita

Passei o serão de ontem na companhia de uns ciganos que acampam perto da minha tenda. Chegaram há dois dias e não me disseram quanto tempo vão ficar. Uma das ciganas pediu-me para ler a mão. Acedi. Agora que penso no episódio, foi a primeira vez que uma mulher me tocou intencionalmente desde que cheguei aqui, há quase um ano (excluo as vezes em que Tatiana me tocou nos dedos ao receber dinheiro e entregar o troco). Talvez por isso, tratou-se sobretudo de uma experiência erótica ou de empatia, mais do que uma experiência mística. Pegou-me na mão com enorme cuidado, como se fosse de porcelana. Observou-a com atenção, como se não houvesse outra. E nisto senti-me querido, como se não fosse preciso dizê-lo. Retive um comentário. Parece que a forma do meu polegar  - magro apenas na base - indica que sou "criativo". Enquanto me afastava dela e regressava à minha tenda, fui contemplando o meu polegar direito, como se fosse a cana com que  Nanni Moretti, montado na vespa, avaliou o tempo de vida que lhe resta. 

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