Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
Terça-feira, 14 de Fevereiro, 2012

Ourique em discurso directo


 Rita

 

"Ah, o amor. Faz más as pessoas boas e péssimas as pessoas más. Mas admito que seja bom para a arte"  Judeu

 

"Não tenho remorsos. Uma vez falhei a estocada final e foi uma agonia. Olhos nos olhos, apeteceu-me falar-lhe, só que não me lembrei de nada. Havia gente à nossa volta e começaram a reclamar comigo, mas não podia ficar ainda mais triste. Enfim, o touro lá morreu" Ricardo Chibanga

 

"Eu lembro-me dela todos os dias, não preciso de uma data especial" Surfista de Ourique, aka Jaime, aka "rapaz de recados"

 

"Já só me apaixono por actrizes mortas, não tenho tempo a perder"  Gaspar, aka "o rapaz do cineclube"

 

"Entre o amor e o controlo dos meios de produção, o alentejano não pode hesitar" Fausto

 

"Comer mulas em Hollywood foi a minha estrada de Damasco " Confissão de Nuno Salvação Barreto, o censor.

 

"Não é verdade que seja dos circuncidados que elas gostam mais, mas já não culpo o meu pai" Adriano, filho do Judeu

 

"Compadre, não são os peitos, são os olhinhos" Honório (em fantasma), comentando um calendário na antiga taberna do Mira.

 

"Tem 20 cêntimos?" Tatiana, no Pingo Doce.

 

 

 

 



Eremita às 10:26
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Terça-feira, 2 de Agosto de 2011
Terça-feira, 02 de Agosto, 2011

 

 

Tenho conhecido algumas pessoas desde que aqui cheguei de bicicleta.

 

 

PERSONAGENS

 

Tatiana

 

Tatiana, uma ucraniana caixa no Pingo Doce, é uma mulher de anatomia e personalidade imprecisas. A indefinição dos seus contornos físicos e psicológicos é essencial para que seja camaleónica e assim cumpra as funções de passe-partout passional que recolha as características dos objectos passionais do seu criador, reais ou fantasiosos, e de todos os tempos. Mesmo em relação ao seu nariz, que foi já descrito com grande precisão, o leitor atento ficará com dúvidas, pois há uma contradição: Nariz à Rosemarie DeWitt ou "nariz fino, pouco comprido, mas muito nobre? E, afinal, se não há rosto passível de ser amado no local de trabalho de Tatiana, quem era aquela mulher que lhe terá dado um rosto provisório? Não se sabe. 

 

Tatiana vai engravidando em tempo real. Primeiro nasceu "1", depois "2", em breve haverá "3". Os filhos de Tatiana terão um nome, mas aqui são apenas "1", "2", "3"... "n". São sempre de homens diferentes e nunca do narrador, mas "sempre" e "nunca" são aqui menos redundantes do que contraditórios. Ou talvez não. 

 

 

Igor

 

Igor, marido de Tatiana, é uma besta e também um idiota. Por uma vez, a falta de densidade psicológica é da exclusiva responsabilidade da personagem. Igor não chega sequer a representar o contraponto de Tatiana, um passe-partout de todos os ódios, porque em regra acumulamos menos ódios do que paixões e o ódio tolera-se muito mais facilmente, dele podendo até vir algum ânimo. Igor existe apenas para criar alguma tensão e fazer de Tatiana uma mulher inacessível. O plano em construção para assassinar o ucraniano pontua a primeira fase do Ouriquense, se possível no registo de comédia negra. Fisicamente avantajado mas destituído de qualquer brilho ou bondade, o amor de Tatiana por este homem é um dos grandes mistérios desta trama e só a complexidade das mulheres nos livra de termos aqui uma inverosimilhança.

 

Na segunda fase do Ouriquense, Igor é dado como falecido, na sequência de uma série de eventos com final em aberto - sobretudo por preguiça do autor, mas também conveniência - que levam o eremita até Espanha, de onde traz o relato Quem Matou Igor? , o primeiro policial com spoiler warning, que tem publicado muito lentamente. A verdade é que, com base na informação disponibilizada até agora no Ouriquense, o corpo ainda não foi encontrado.

 

Judeu, aka "o inventor"

 

O  inventor da vila é uma mistura do cigano Melquíades (Márquez) com o velho Atílio (telenovela O Casarão) que pretendia fazer ouro a partir do esterco que remexia numa banheira. Este homem julga que a solução para a máquina de movimento perpétuo é um lubrificante feito à base de um azeite por ele muito alterado, obtido a partir de umas oliveiras que só crescem nas redondezas. Noite sim noite não, galga o muro da casa dos meus tios para lubrificar os 3 baloiços de forma distinta, imprimindo-lhes depois exactamente o mesmo movimento. Apressa-se a deixar a casa e é da rua principal que mede o tempo que cada baloiço demora a parar. Noite não noite sim, trabalha até de madrugada com base nas observações feitas na véspera.

Possui uma boa biblioteca e uma qualquer relação com as libertinas de Lisboa, que ficará por desvendar. Exerce uma estranha atracção sobre o autor, que o próprio não consegue explicar.


Em 2011, o Judeu atravessa o monitor e começa a escrever os seus próprios posts, também no Ouriquense.

 

 

Ricardo Chibanga

 

De onde vem Ricardo Chibanga? O Ouriquense é o desenvolvimento possível de um texto fundador, Ourique 1979, que trago para aqui, ligeiramente modificado:

 

Tudo rodopia em torno de um cartaz de touradas, não sei se pelo vermelho tauromáquico, o negro do touro ou o olhar intenso de Ricardo Chibanga. A impossibilidade física de edificar uma vila a partir de um cartaz desaparece dentro da cabeça. No fundo, trata-se de uma reconstrução que tem muito de restauro. Imagine-se no cinema. O cartaz aparece a voar, depois a rebolar amarrotado pelos montados, até parar num descampado com a certeza dos pioneiros, porque pressentiu a frescura de um riacho ou uma futura concentração de caminhos. O cartaz abre então como uma flor e fica a pairar à altura dos olhos, a pedir parede. E logo surge a parede, depois a casa que a justifica, a rua, dez ruas, o reservatório de água, mais ruas, antenas de televisão, a câmara municipal ao cimo da avenida que ainda não nasceu. Os reflexos de luz na pela de Chibanga são animados pela canícula das três da tarde de Agosto, vencem o branco incandescente da cal e permanecem como o centro geométrico da vila, que alastra em todas as direcções. O desabafo do médico da vila-"Ah! Chibanga, o grande Otelo do redondel"- ecoa ainda, primeiro ampliado pela ignorância de quem levou muitos anos a entender tais palavras, e depois renovado, não em eco, antes como se o médico se tivesse cruzado comigo outra vez, ainda com o jornal debaixo do braço e a umas dezenas de metros do café: "Ah! Chibanga, o grande Otelo do redondel". Não fora pelo médico e Ourique podia ser uma vila de surdos, rica apenas nos sons dos animais: o latido do cão, o guincho final do porco a estilhaçar o frio de Dezembro, o chilreio das ninhadas das andorinhas nos beirais. O tempo passava e Chibanga, curtido pelo Verão e ensopado pelas chuvas, parecia agarrar-se ao cartaz com a tenacidade dos náufragos numa jangada à deriva. Mas a vila morreu aos poucos: primeiro os avós, depois a romãzeira, a pocilga sem porcos, a casa a acumular varizes, a distância que não parou de crescer. A morte de Chibanga está ainda envolta em algum mistério: teria sido uma criança a descolar o último farrapo de cartaz? Teria sido o desleixado dono da casa, quando ao fim de vinte anos voltou a caiar as paredes? Ou terão colado um cartaz por cima a publicitar algo alheio à planície (o circo Cardinalle)? Nunca mais voltei a passar naquela rua. Às vezes penso que Chibanga não teve um final inglório. Imagino o matador a morrer de pé, no momento em que a parede ruiu e não me apetece ir ver se tenho razão.

 

Chibanga é a única personagem do Ouriquense animada de algum realismo mágico. Ele aparece na vila como um fantasma condenado para sempre a procurar os pedaços rasgados do seu cartaz. Curiosamente, se todas as outras personagens são inventadas ou estão efectivamente mortas, no mundo real Ricardo Chibanga existe e gere um negócio de arenas desmontáveis. A errância da profissão do Chibanga de carne e osso torna possível o confronto na arena entre um Chibanga sessentão, à paisana, e o seu fantasma trinta anos mais novo, de traje de luzes, naquela que será a única cena do Ouriquense em que, periclitantemente sentadas na bancada da praça montada sobre andaimes, todas as personagens vão interagir, nem que seja por uma simples troca de olhares. A trama desembocará nesta cena e então o Ouriquense repousará em paz.

 

As libertinas de Lisboa

 

As libertinas de Lisboa existem para manter a pureza da relação com Tatiana. O autor faz com elas tudo aquilo que tem vontade de fazer com Tatiana mas julga adequado censurar. A iminência de um ménage à trois é a cedência do Ouriquense que lhe retira o estatuto de objecto artístico puro, isto é, alheio a propósitos mercantilistas. Mas na verdade, embora sempre descritas como um par, o autor interage  apenas com uma ou a outra e nunca as duas ao mesmo tempo (excepção feita ao primeiro encontro). Tal como o narrador, também o autor as trata como uma única pessoa. Daqui decorrerão algumas situações rocambolescas.

 

As libertinas de Lisboa foram abandonadas sem honras de morte trágica. Desapareceram simplesmente de Ourique, dado o insucesso do folhetim que animavam, os Diálogos Eróticos.

 

 

Jaime, o moço de recados

 

O único surfista vivo de Ourique é o elemento de charneira, embora tenha sido até agora muito poupado. Existe no Ouriquense um desejo de bucolismo, só que assistido por veios capazes de bombear alguma civilização na vila. Esta incapacidade de assumir o interior em toda a sua esplendorosa desolação perdeu entretanto alguma espectacularidade - houve a melhoria dos retransmissores, dos satélites e depois a extensão das redes de televisão por cabo; ainda assim, vem com a lucidez desencantada de quem sabe que a cidade chega hoje à vila com o que tem de bom e também a porcaria que lhe é característica, porque só o correio asseguraria que recebesse em Ourique apenas o tal "génio elegante". Nisso - e no português diminuído - o Ouriquense se distingue de A Cidade e as Serras. Não se acredita aqui que só o campo fosse capaz  de recuperar Jacinto, nem se acredita que Jacinto fosse capaz de viver só do campo.

O moço de recados traz a civilização.  Na era da tecnologia, ele é mais do que um capricho, é uma excentricidade que corporiza a função redentora do estilo. Porque a tecnologia só encanta quando ainda não existe - os cenários futuristas  - ou quando deixou de existir - o "teatrofone" que fazia as delícias de Proust.

 

As capacidades cognitivas de Jaime são um dos mistérios que animam o Ouriquense. É possível que estejamos perante um idiot savant. A partir de 2011, Jaime começa a ganhar alguns dos traços de personalidade do adorável Mario Incandenza, do romance Infinite Jest.

 

Emília

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Emília é a mais importantes das quatro personagens que realmente existiram em Ourique e a que tem já um papel definido na cena final: ela trará uma limonada a Ricardo Chibanga e preferirá saciar a sede ao Chibanga fantasma, deixando o Chibanga real a morrer de sede. Emília aparecerá quase sempre acenando com o afinco daquelas pessoas que imaginamos ficarem ainda a acenar muitos minutos depois de termos saído do seu campo de visão. Este capricho narrativo colocará enormes problemas técnicos ao autor, pois o narrador, ao contrário da criança que foi, quase nunca abandonará Ourique.

 

Honório

 

É a segunda das personagens reais em importância. Bêbado e com lugar cativo na taberna do Mira, Honório é uma das tentações negras do narrador, pois chegará a cúmplice e executor nos planos para a morte de Igor. Mas se a consciência do narrador acusa o fardo de Honório, o único peso que este sente - e que apenas lhe aflora o cachaço - é o do gume da espada de Dâmocles com que um juiz em tempos o sentenciou.

 

Luís

 

A terceira personagem real em importância, Luís é o menino que nunca viu o mar e com quem o narrador percebe os limites da sua capacidade de expressão, em tentativas reiteradas de lhe explicar por palavras e sem outros meios a sensação de fazer carreirinhas, uma cena decaldada do momento de Children of a Lesser God em que William Hurt tenta explicar a uma surda o que é a música.

 

Torpes

 

A quarta personagem real em importância, Torpes, irmão de Emília, é o homem com quem voltamos à pesca na barragem e que manifesta uma notável veia aforística sempre que trespassa um peixei-rei com o anzol. Na edição em livro, muitas das Lições da Planície farão parte das intervenções de Torpes.

 

Gaspar, o cinéfilo, aka "o rapaz do cineclube"

 

O rapaz do cineclube representa o Ourique positivo, embora acuse também uma rebeldia a espaços niilista. O cinéfilo, que gere um cineclube alimentado por cópias de filmes roubadas nos cinemas da capital, está para a oferta cultural em Ourique como Robin Hood estava para o alívio fiscal das populações mais carenciadas de Nottingham.

 

Maik Magic (e Rosy)

 

Maik Magic (e Rosy) marcam um instante fundador no Ouriquense.

 

 

O ladrão de cuecas

 

Trata-se da única personagem resgatada a pedido dos leitores e servirá de pretexto a uma trama policial. Desaparecido durante mais de um ano, o ladrão de cuecas animará em breve um folhetim escrito ao jeito do blogger António Figueira, um especialista no género que traça a bissetriz entre o romance policial e o jornalismo de investigação criminal.

 

Adriano

 

Filho do Judeu. Não sabemos que futuro lhe dar.

 

Fausto

 

Inventando em Janeiro de 2011, para conter a contaminação das outras personagens com o desejo de intervir e reagir à actualidade, Fausto é o responsável pelo braço politicamente armado do Ouriquense, até 2011 um blog de pendor niilista-blasé, ateísta-não-praticante e melancólico-estóico. Fausto é o veículo para expressar ideias que o autor tem por válidas, mas que o envergonham pela ingenuidade, que lhes reconhece , e a possível estupidez, que admite.

 

Nuno Salvação Barreto

 

Ao contrário de Ricardo Chibanga, o fantasma de Nuno Salvação Barreto não tem qualidades mágicas, nem faz parte do enredo. No ecossistema estratificado que compõe o Ouriquense, O eremita está no topo, depois o Judeu, quando escreve na primeira pessoa, depois Salvação Barreto, quando censura o que foi escrito, depois as personagens, que ignoram a existência do Ouriquense.

 

Rita Pinamona

 

O segundo grande amor do Eremita e uma paixão epistolar. Rita Pinamona nasce na Primavera de 2011 e não chega ao Verão desse ano, mas em três meses acumula-se um acervo de cartas que a manterá como personagem até ao fim do Ouriquense.

 

 

LUGARES

 

A vila

 

Um sítio feio e onde não acontece nada.

 

O supermercado

 

Tatiana trabalha num Pingo Doce e é aí que o narrador normalmente se cruza com ela. A descrição já foi feita: "trata-se de um espaço sobredimensionado, à entrada da vila, que reproduz em Ourique a mesma sensação de total insignificância que experimentei nas grandes superfícies comerciais das cidades americanas. Curioso isto de ter sentido pela primeira vez a angústia da pequenez cósmica naqueles enormes supermercados, no IKEA de Nova Jersey, numa farmácia na periferia de algum subúrbio de alguma cidade de um certo estado (Florida?),  e não no planetário nacional onde me levavam quando criança, nem no que depois visitei pelo meu próprio pé, em Nova Iorque; só mesmo no Pingo Doce de Ourique recuperei a escala cósmica. Enfim, de lá trago também os dois litros diários de gaspacho de pacote - vivo a gaspacho e pão, o meu tracto intestinal é como uma viela de Buñol em perpétua última quarta-feira de Agosto (a Tomatina). Mas não trouxe ainda a Tatiana. Das 5 ou 6 empregadas com quem me cruzei, nenhuma tem um rosto passível de ser amado"

 

 

O cineclube

 

Por motivos óbvios, não estou autorizado a revelar a localização do cineclube, local onde se assiste à mais recente oferta cinematográfica, bem como a clássicos e obras entretanto esquecidas, num ambiente de clandestina cumplicidade e em que é permitido fumar. Os filmes são projectados sobre uma parede que é caiada todos os anos pelo rapaz do cineclube.

 

Cotovio

 

É no monte arruinado, à sombra de um plátano, que o narrador lê os grandes clássicos e obras de menor alcance, guardadas em tupperwares. É também no monte que se dedica disparar com uma espingarda de pressão-de-ar sobre comprimidos de composição conhecida e posologia incerta. As alterações no caudal da ribeira do Cotovio, uma espécie de rio Sado incipiente, servem para marcar a passagem do tempo.

 

O cemitério

 

O cemitério de Ourique lembra uma pedreira de mármore graffitada com as típicas inscrições fúnebres. A compilação dos nomes de todos os ouriquenses falecidos é um dos passatempos do narrador, que inspecciona e fotografa todas as campas, mas evitando sempre o confronto com o jazigo da sua família. Será Ricardo Chibanga que o levará pela mão a perfilar-se diante dos seus antepassados, obrigando-o depois a proferir umas quaisquer palavras simpáticas.

 

A taberna do Mira

 

Com mulheres nuas  nas paredes e copos de vinho ao balcão, na taberna do Mira todas as dimensões do espaço eram preenchidas por tentações masculinas, vigiadas por uma enorme cabeça de touro. A luz escasseava e entrava sobretudo pelas portas, criando uma atmosfera muito difícil de reproduzir num estúdio de cinema. A luz rasteira acentuava o escavado dos rostos e o contraste do vidro translúcido sobre o mármore opaco. A memória desta taberna, hoje encerrada e nas mãos de uma imobiliária, é imprecisa - não é seguro que o balcão fosse de mármore. O primeiro encontro com o fantasma de Ricardo Chibanga terá lugar diante da porta fechada da taberna e o narrador fará uso de todos os seus recursos para provar que lá dentro se encontra a prova perdida de que Ourique foi vila tauromáquica.

 

A casa dos avós

 

Um casarão a apodrecer no centro da vila e onde o autor passou férias na infância. 

 


 

Castro Verde

 

É a vila rival, o instrumento a que o autor recorre para limitar a simpatia que os nativos poderão sentir pelo Ouriquense.

 

A romãzeira

 

É a única árvore do quintal dos avós que resiste à reconquista do quintal abandonado pela natureza. 

 

LINHAS DIRECTRIZES

 

O amor a Tatiana

 

O amor a Tatiana é a grande força motriz do Ouriquense, na sua primeira fase. Mas a cada sucessiva gravidez da ucraniana esse amor vai esmorecendo e há até razões para pensar que o ódio a Igor é uma sensação mais completa e fundamentada. 

 

Actividade remunerada


O narrador não trabalha desde Julho de 2008 e a sua conta bancária vai minguando a olhos vistos. Essa pressão leva-o a tentar encontrar uma fonte de rendimento, mas sempre sem sucesso.

 

Vasco Graça Moura

 

Um dos poucos traços comuns a BW, o projecto ultra-secreto, e o Ouriquense é o fascínio por Vasco Graça Moura, o tradutor, poeta, romancista, intelectual do cavaquismo e defensor da língua e do património. A partir de 2011, o narrador fica obcecado com os métodos de trabalho do prolífico autor e pretende saber se ele fez efectivamente todos aqueles versos decassílabos ou se tem uma equipa que trabalha na obscuridade. 

 

Carreira de Tiro

 

A carreira de tiro, em rigor, mais não é que uma zona no monte com uma azinheira de ramos cansados, bons para suportar garrafas e outros alvos, nomeadamente comprimidos e drageias. Simboliza a tensão latente com o universo dos psicofármacos.

 

OFICINA LITERÁRIA

 

O projecto ultra-secreto de código "BW"

 

O Making of de um grande romance luso, que também tem a sua tábua de personagens

 

Um tributo a John Coplans


Uma autobiografia do corpo, entre a puerilidade do ginásio e a dificuldade de domar a Apercepção de si e Corpo em Maine de Biran.

 

O livro de todos os desportos

 

Uma colecção de histórias de desporto, a lançar em volumes de quatro em quatro anos, coincidindo com os jogos olímpicos: "Ases, para que vos quero?" (ténis), "O benjamim dos Rasmussen" (tobogan),"Uma namorada para Kim Myong-Guk" (halterofilismo), "A revolta dos fiscais de linha" (futebol), "A décima primeira maratona de Samuel Makau"(atletismo), "O nosso antídoto é o teu veneno" (futebol)...

 

Viagens

 

Relatos de viagens inventadas: Mustang (um coast to coast), uma visita ao Gana  e Machu Picchu y nada más. Ainda não as consegui vender. 

 

Lições da Planície

 

Aforismos e afins, com ligação a uma qualquer experiência que não está a mais de 48 do acto da escrita. Periodicamente, é feita uma selecção em séries de 10, os Decálogos da planície.

 

Quem matou Igor?

 

Um policial com spoiler warning e um pretexto para visitar Espanha.

 

Geodésicas

 

Uma tentativa de dar ao impulso inicial as condições necessárias para mais nada ser preciso, atribuindo a um lugar propriedades sobrenaturais:

 

"Só que no outro dia, quando descia do monte encimado pelo marco geodésico e caminhava ladeado de arbustos que se enchem de flores brancas na Primavera, flores grandes, capazes de atrair abelhas e até apicultores, senti ali, ali mesmo, não uma promessa de Primavera mas algo que, à falta de outro termo, eu diria, sem mais demoras, poder ser descrito como "inspiração". Se sempre pensara que a inspiração descia sobre os homens vinda dos céus, experimentei algo distinto: a minha inspiração subiu-me pelas pernas e vinha tão carregada do cheiro aos actinomicetos da terra molhada que, em rigor, também me entrou pelas narinas. Estaquei logo, como se fosse um  descobridor de água por radiestesia que, de súbito, sente vibrações no seu graveto em forquilha. Sentei-me num pequeno afloramento xistoso, senti a pedra quente, etc., tirei o bloco de notas e comecei a escrevinhar impacientemente, freneticamente e depois obsessivamente (...). Nunca nada assim me havia acontecido. Há homens que têm dias triunfais; eu tive umas boas 3 horas triunfais. E materializou-se uma história no fim. Uma história em que não havia sequer pensado até então, nem mesmo quando estava junto do marco geodésico, mas que não é filha da escrita automática. A história não tem qualidade para se apresentar ao público e só a sua génese importava contar".

 

A verdade é que só ainda foram paridas duas geodésicas: A Educação Pornográfica de Inácio Ramalho e Ainda há Tubarões na Ponta do Sol.

 

Leituras sob o plátano

 

Moby Dick, Cartuxa de Parma, Guerra e Paz, Infinite Jest, Quijote, Recherche, Pais e Filhos.

 



Eremita às 10:00
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Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010
Terça-feira, 28 de Dezembro, 2010

Tatiana está novamente grávida. Sobre este evento, first things first, para dizer que não se sabe o sexo. Mas devo ainda contar em que circunstâncias me inteirei desta novidade, porque é algo que necessita de uma explicação e me lançou depois num turbilhão de emoções de onde só viria a sair pela mão do Judeu - creio mesmo que foi a primeira vez que ele funcionou como um amigo.

 

Cometi já a indiscrição de anunciar que Tatiana tem um namorado e planeei uma reacção primária a tal novidade. Mas como o carro do Judeu engripou nesse dia e, por algum insondável motivo ou então por tique roubado à alta burguesia de que não me orgulho nada, ir às putas de camioneta me parece insuportavelmente degradante, acabei por ficar aqui e libertar a raiva disparando contra lâmpadas incandescentes que comprei no supermercado e empinei sobre um tronco quase horizontal de oliveira com a ajuda de plasticina. Aproveito para recomendar este método a qualquer pessoa com necessidade de vazar uma frustração, pois tem aquela qualidade da sequência de sons discretos, que é indefinível mas se sente como libertadora - também não fica muito caro, embora funcione pior com lâmpadas fundidas.

 

 

Não cheguei a ver o namorado de Tatiana, nem sequer o vi de costas beijando-a, abraçando-a, de mãos dadas, ou oferecendo-lhe uma flor paga pelo município. Imaginei-o atraente e, como quase não há homens atraentes em Ourique, deduzi que fosse de fora. Na verdade, alimentava ainda a dúvida de que a súbita e conspícua alegria com que Tatiana passou a atender os clientes fosse a manifestação à superfície do enorme iceberg que para mim são os  laços de Tatiana à Ucrânia, o seu passado, que apenas posso inventar, e o seu mundo interior, pois se é verdade que lhe descrevi o nariz, não há vestígios da sua personalidade além de um breve episódio observado de longe e de um refrão de um esboço de letra, forma em que, por falta de talento do autor, até o carácter se verga à métrica.

 

Nas últimas semanas, tentei recolher provas no supermercado e cheguei a seguir Tatiana a uma distância segura, mas nas aldeias e vilas essa é uma distância infinita. Nunca a segui até casa. Nunca me instalei do outro lado da rua vigiando as entradas e saídas. Tenho pânico que Tatiana e a vila saibam desta obsessão, pois os celibatários estão sempre sob suspeita, a menos que sejam excêntricos, como o Judeu. Daí que o encontro seguinte tivesse sido ainda mais inesperado do que se pensa quando temos presente que em mais de dois anos nesta vila  devo ter trocado com Tatiana uma mão cheia de perguntas e ainda menos dedos de respostas. Era uma hora morta e ela acabava de retomar o comando da única caixa registadora a funcionar. Vinha de sorriso perene, eu era o único cliente à espera, e o seu sorriso foi crescendo tanto que só uma daquelas caixas antigas capazes de fazer um sonoro "plim" lhe daria um reset facial, pelo que não sobrou outra solução que não desabafar comigo, embora esta seja apenas a explicação a que cheguei algumas horas depois:

 

- Vou ter um filho!

 

Diz a convenção que se dê os parabéns, embora a única sugestão das convenções para as surpresas é que não nos mostremos surpreendidos, um conselho pouco sério. De maneira que retorqui o que pensei:

 

- E o pai?

 

À ambiguidade intrínseca desta pergunta devemos acrescentar as limitações de Tatiana no português e a conversão do seu anúncio numa pergunta minha, que terá funcionado como um ricochete da surpresa. Em todo o caso, pareceu mesmo surpreendê-la.

 

- Ainda não sabe.  Não sabe! Vou telefonar agora, obrigada.

 

A minha pergunta era outra, só que nem tentei ver que número ela marcava, apressei-me a olhar para o visor da caixa registadora e deixar o montante certo. Quando já estava quase fora do Pingo Doce, ainda ouvi a voz animada dela. Falava ucraniano.

 

- Isso nada quer dizer. Tatiana poderia estar sob o efeito da emoção depois de ter visto o resultado do teste - disse-me o Judeu, pois fui logo a correr para casa dele.

 

- Achas que é português?

 

- Preferias que fosse?

 

- Não comeces a responder com perguntas, por favor.

 

Se o Judeu inventou o que me disse a seguir, ainda não o apanhei em falso.

 

- Percebo a tua agitação, mas ouve-me. Um escritor famoso [o UpDike, conheço a citação, só não me lembro da fonte] dizia que quando alguém encontra uma namorada antiga que já não quer dormir com ele a experiência equivale a uma pequena morte. É uma imagem má, se me permites, pois trata-se de uma morte pequena apenas por ser efémera. A verdadeira pequena morte só acontece quando a namorada antiga engravida de outro homem. Essa é uma pequena morte eterna. Só que tu nem sequer tens obrigação de a sentir. Tatiana nunca foi tua, vê se tiras daí algum consolo. E lembra-te que é a segunda vez, certo? Se bem percebi, quando ela engravidou do Igor tu já estavas enamorado ela. Não podes reagir da mesma maneira perante um mesmo acontecimento. Da única vez em que estive apaixonado, a separação custou-me muito. Vê-la depois com outro homem custou-me muito e saber que ela tinha engravidado custou-me muito, também. Custou-me sempre o mesmo na intensidade e dir-me-ás que te estou a pedir o que não consegui praticar. Sucede porém que aqueles três momentos foram diferentes. Ao desespero, seguiu-se a raiva e depois uma percepção, tão aguda quanto anacrónica, do fim. A intensidade não mudou porque a cada momento sucessivamente mais grave, o amor, pelo efeito do tempo, foi sendo progressivamente mais fraco. Percebes?

 

- Quando te separaste dessa mulher já tinhas o Adriano?

 

- Não. Também te poderia contar uma história com outra mulher, já depois do nascimento do Adriano, mas creio que sei escolher os exemplos mais adequados.

 

- Foste mais pela empatia, o que é a segunda supresa do dia. Não percebo em que medida o teu exemplo me desautoriza a sofrer. Apenas me quiseste dizer que já passaste pelo mesmo. E que amaste mais outra mulher do que a mãe do teu filho. Quanto a essa lei da conservação da intensidade à custa de variações na qualidade, lamento, mas soa-me a charlatanice e não retiro dela conforto algum.

 

- Preferias antes que te confirmasse que o pai é ucraniano?

 

- Sim.

 



Eremita às 01:01
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Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009
Sexta-feira, 18 de Setembro, 2009

Ontem de tarde, ao fundo da rua, o inventor conversava com Tatiana. Fiquei atónito, pois não sabia que se conheciam. Nessa noite, o inventor revelou-me que Tatiana faz a lide doméstica de sua casa à segunda-feira e experimentei uma súbita vontade de acariciar os talheres. Mas de tarde nada ainda sabia e quando ambos me viram, a metros de distância, o meu impulso foi arrepiar caminho. O inventor ainda acenou e eu retribuí o cumprimento. Nesse momento, Tatiana também me fez adeus. E logo uma parede os retirou do meu campo de visão. Como provar a Tatiana que o meu adeus não era para ela, se não consigo explicar  este esforço por evitá-la misturado com o desejo de esbarrarmos um no outro ao virar de cada esquina? 



Eremita às 08:14
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Terça-feira, 8 de Setembro de 2009
Terça-feira, 08 de Setembro, 2009

Notas soltas sobre uma gravidez

 

A paixão segura acontece com uma mulher que dobrou a menopausa. Chego a esta conclusão em relativo alvoroço, depois de ver a barriga de Tatiana.

 

No exercício da solidão, o eremita é um misógino ou então um cobarde. Só exclui as mulheres da sua vida quem não as suporta ou quem as teme. Mas estas hipóteses não são mutuamente exclusivas. Aliás, fazer regra do mutuamente exclusivo é provavelmente a maior concessão que a lógica fez ao estilo. As consequências deste capricho são incomensuráveis, mas sempre graves.

 

A partir de certa altura, dexei de detestar uma mulher em particular e passei a usá-la como pretexto para detestar o género. Se uma mulher me fazia mal, dava comigo a insultá-la no plural. "Fuck them", disse-o eu também e muitas vezes, embora longe dos microfones.

 

O derradeiro teste à urbanidade de um homem é a gravidez de uma antiga namorada de quem ficou amigo. Quanto mais antiga a namorada e maior a amizade, mais duro é o teste.

 


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Eremita às 08:31
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Domingo, 30 de Agosto de 2009
Domingo, 30 de Agosto, 2009

 Considerandos metodológicos

 

Acordei a assobiar o refrão de Tatiana. Espontaneamente. Está cumprido um dos critérios de selecção. Na revisão de um texto, a noite dormida é essencial para recuperar a capacidade de detectar erros, perdida ao fim da terceira leitura.  Dorme-se para esquecer. Mas na feitura de uma canção, o seu potencial de contaminação da memória avalia-se na manhã seguinte. A canção é tratada como um agente infeccioso acústico, otovérmico - na feliz formulação de Miguel Esteves Cardoso. Dorme-se para recordar. 

 

* Doravante, para contrariar no Ouriquense uma descabida anglofilia, o título desta série  passa a ser apenas "o álbum".


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Eremita às 11:49
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Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
Quinta-feira, 27 de Agosto, 2009

O refrão de "Tatiana" acaba de sofrer umas alterações. Creio que esta é a versão definitiva. 

 

 Ai,Tatiana

Eu só quero atenção

Não me toques na mão

Se não passas cartão

Nem pedes perdão

Ao dar o troco em moedas


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Eremita às 22:00
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Terça-feira, 25 de Agosto de 2009
Terça-feira, 25 de Agosto, 2009

 

A minha existência de caçador-recolector com assistência durou menos do que o previsto. Planeava ficar pelas margens da barragem até meados de Agosto e a verdade é que regressei há mais de duas semanas. Gostaria de frisar que nenhuma dependência na civilização me vergou - não dependo de pessoas e ainda menos de apetrechos. Enfim, percebi que o canivete suíço goza de uma reputação exagerada e teria dado jeito dispor de outras soluções, mas após quatro dias consegui adaptar-me ao montado e a perdiz que matei com a flaubert deu-me um ânimo que sobreviveu ao repasto cinegético. Se voltei à vila foi porque incubei um medo às noites ao relento que se tornou insuportável de gerir.

 

À partida, o montado é uma paisagem que tranquiliza. Uma vez, a caminho do cimo do Pico, nos Açores, quando passava sozinho por uma área de floresta, a cabeça disparou uma série de imagens aterrorizadoras de selvagens dissimulados nas copas, prontos a cair sobre mim. Vieram depois imagens ainda mais assustadoras, não já com o cunho National Geographic, mas sim da cinematografia americana do subgénero "terror de bosque" - especímenes que eram variações do Bigfoot e psicopatas vários que levavam vidas saudáveis, isto é, no campo. Estive quase para arrepiar caminho, mas consegui controlar-me o suficiente antes que qualquer som real - o vasculhar de uma galinha por entre os arbustos - materializasse os produtos da minha imaginação. Porém, só recuperei a tranquilidade quando rompi a cintura de floresta que abraça o vulcão e entrei nas pastagens das terras altas. Podemos teorizar: o medo irracional é inversamente proporcional à distância a que se encontra o horizonte. Por isso a noite assusta mais do que o dia, a floresta mais do que a planície, os corredores da casa assombrada mais do que o caminho para tal morada. Por isso, o clímax em The Shining acontece num apertado labirinto e Jaws é tão assustador - no mar o horizonte pode estar a milhas, mas o que conta é o horizonte vertical do plano de água, que está sempre à beira. Havia pois motivos para confiar no montado, que é paisagem ampla e em que dificilmente se arma uma cilada.

 

Quem durante um ataques de pânico retém alguma lucidez, sabe que o medo alastra pelo corpo com frentes cujo epicentro é impossível de definir e que há uma altura a partir da qual não se pode reverter a tendência. Se penso em vampiros no montado, apenas inicio este processo, podendo sempre abortá-lo. Sucede que pensei em escorpiões, nomeadamente no nosso lacrau, o Buthus occitanus. O bicho é pouco venenoso, só que imaginar este predador nocturno-crepuscular a entrar no saco-cama deu-me uma noite de insónia e um cansaço no dia seguinte que me desmoralizou. O moço de recados ainda tentou animar-me, mas nessa tarde apenas recolhi as forças para poder pedalar de volta à vila. O caminho de volta custou, porque sabia que não escapava de uma morte estúpida, o que seria redentor. É importante distinguir entre a morte estúpida e a morte azarada. Francisco Lázaro, que se untou de sebo para correr a maratona, teve uma morte estúpida. David Carradine, que  - tanto quanto se pôde apurar - gastou a vida numa brincadeira sexual, teve uma morte igualmente estúpida. Diferente é a morte azarada. Ser colhido por um carro que desrespeitou um sinal vermelho é uma morte azarada, tal como ser apanhado entre um tiroteio, sobretudo se for no restaurante. Por definição, a morte azarada não se evita. Logo, não se pode fugir de uma morte azarada. Mas se não desejamos a morte, temos a obrigação de evitar uma morte estúpida.  Ainda senti a tentação de fazer do lacrau um bicho com veneno mortal, para simular que evitava uma morte estúpida, só que não podemos abdicar do rigor. O regresso à vila foi inglório, fruto de uma fraqueza só ligeiramente menos vergonhosa do que a fobia a baratas.

 

Os poucos dias de vida ao relento fizeram-me perceber que Tatiana só me complicou a vida. Que paixão é esta por uma mulher casada, que mais não será do que uma allumeuse pudica, incapaz de atraiçoar Igor e também de retrair o dedo caprichoso que roça nos meus quando me dá o recibo? Se ninguém escapa à intrínseca falta de originalidade na paixão, é imperativo exigir o máximo do ser desejado. Convenhamos que Tatiana é analfabeta em português e que amar sem uma língua comum é sobretudo um caso de iliteracia.  Nada do que esta mulher fez é merecedor de devoção. O que vale eu ter sobreposto o seu corpo, quando ela caminhava, com imagens do meu arquivo? Fosse outro o ângulo com que a observava e não haveria hoje amor. Há algum sentido nisto? Se Tatiana nem beleza tem? Aquele nariz?  Pertence-lhe o osso, a pele e a cartilagem, mas é meu o culto. E não detecto nela as tais redeeming features; é possível que as tenha, mas não se pode fundar um amor em tal esperança. É tempo de lhe dizer que guarde o troco. Foi embalado nestas vontades que retomei o grande desígnio adiado do Ouriquense, isto é,  a leitura do cânone ocidental. 

 

Devorar o The Great Gatsby restaurou a minha urbanidade, mas agravou o mal de amor. O livrro tem momentos libertadores: I’d been writing letters once a week and signing them: “Love, Nick,” and all I could think of was how, when that certain girl played tennis, a faint mustache of perspiration appeared on her upper lip. E a voz de Fitzgerald quase conseguiu chegar próximo, no impacto sobre o leitor, da voz de Heller nesse milagre que é o Catch-22. Mas aquela teia de relações não veio nada a calhar. E fiquei indeciso quanto à morte de Gatsby, sem saber se foi azarada ou simplesmente estúpida. Decididamente, só a literatura para rapazes me pode hoje salvar. Quero livros sobre a coragem, a camaradagem e as miragens da ambição. Lancei pois a mão aos grandes livros do género entretanto catapultados para o cânone, mas que, na sua essência, não deixam de pertencer ao género de literatura que melhor subalterniza o amor. Refiro-me a Robinson Crusoe, de Defoe,  Heart of Darkness, de Conrad, e a Moby-Dick, de Melville. O primeiro é o livro da minha vida e uma nova leitura viria com o perigo de me reenviar vinte anos atrás. O segundo está num tupperware delgado de afiambrados e não me pareceu ter dimensão (física) capaz de me assegurar a purga de que necessito. Moby-dick é o calhamaço ideal e destrona o Quijote. A culpa é de Dulcineia, obviamente. Quando se remonta a uma causa esbarra-se sempre com uma mulher. 

 

 



Eremita às 10:42
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Domingo, 23 de Agosto de 2009
Domingo, 23 de Agosto, 2009

A falta de um conjunto de temas originais é o calcanhar de Aquiles que tem impedido a concretização do Ouriquense como projecto multimédia. Obviamente, o Ouriquense não se queria um musical e jamais teve o Politeama no horizonte, mas tem condições para se impor como projecto de conceito, que seria: um homem sem grande voz, uma velha guitarra, a interioridade rural e psicológica num conjunto de canções que não pretendem homenagear Rui Reininho. Enfim, hoje foi um dia bom porque compus o refrão da primeira canção, intitulada "Tatiana". O refrão, que no meu método de composição costuma ser a primeira pedra da letra, descreve a única interacção física entre um homem e Tatiana, que tem lugar durante o pagamento das compras do supermercado. Creio que testemunhamos a génese de umas das primeiras canções portuguesas com uma referência à nossa segunda maior comunidade de imigrantes. Espero que a Associação dos Ucranianos em Portugal se lembre deste facto e venha a funcionar como caixa de ressonância, caso consiga terminar o álbum e reunir depois artistas que o levem para a estrada (um eremita não anda em tournée). O refrão começa com uma nota alta, mas nada que exija a voz de um Chris Isaak. Há depois uma transição da melodia da voz para a linha de baixo, que reenvia a canção para a alternância obsessiva dos dois acordes iniciais. Estou satisfeito com o resultado e a dúvida que me consome é saber se incluo ou não uma referência explícita a Ourique, na linha de um Ó Elvas, ó Elvas (A minha cidade) do grande melodista que é Paco Bandeira; no fim do post, submeto este problema à apreciação dos leitores. Mas vamos ao refrão:

 

 

Ai,Tatiana

Eu só quero atenção

Não me toques na mão

Se não passas cartão

E dás o troco em moedas

 

Logo que consiga resolver certos problemas logísticos, fazer o resto da canção e contornar alguns desajustes de métrica que parecem não preocupar o inspirado  Samuel Úria, conto deixar uma versão acústica deste tema e a respectiva cifra, para quem o quiser tocar em festas ou no recato do quarto. Faço notar que não é uma canção apropriada para serenatas. Se houver por aí alguém com talento para as congas que queira juntar uma percussão à maqueta, terei todo o prazer em enviar o original e incluir o  nome do colaborador na ficha técnica, caso haja satisfação mútua com o resultado final. 

 

 


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Eremita às 21:50
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Sexta-feira, 10 de Julho de 2009
Sexta-feira, 10 de Julho, 2009

Passei o serão de ontem na companhia de uns ciganos que acampam perto da minha tenda. Chegaram há dois dias e não me disseram quanto tempo vão ficar. Uma das ciganas pediu-me para ler a mão. Acedi. Agora que penso no episódio, foi a primeira vez que uma mulher me tocou intencionalmente desde que cheguei aqui, há quase um ano (excluo as vezes em que Tatiana me tocou nos dedos ao receber dinheiro e entregar o troco). Talvez por isso, tratou-se sobretudo de uma experiência erótica ou de empatia, mais do que uma experiência mística. Pegou-me na mão com enorme cuidado, como se fosse de porcelana. Observou-a com atenção, como se não houvesse outra. E nisto senti-me querido, como se não fosse preciso dizê-lo. Retive um comentário. Parece que a forma do meu polegar  - magro apenas na base - indica que sou "criativo". Enquanto me afastava dela e regressava à minha tenda, fui contemplando o meu polegar direito, como se fosse a cana com que  Nanni Moretti, montado na vespa, avaliou o tempo de vida que lhe resta. 


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Eremita às 09:36
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Segunda-feira, 6 de Julho de 2009
Segunda-feira, 06 de Julho, 2009

Pedi ao moço de recados que indagasse e ele indagou para lá do que lhe havia pedido. Tatiana está de 4 meses.

 

Dizem  que as maternidades se enchem nas noites de lua cheia. Hoje é noite de lua cheia e só me resta pedir um céu nublado. Que estranha reclusão isto de não poder olhar  o céu, por nos recordar algo que queremos esquecer.


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Eremita às 11:25
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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009
Segunda-feira, 29 de Junho, 2009

 

A gravidez de Tatiana põe em causa o plano para matar Igor. O crime com consequências transgeracionais é uma péssima ideia. Preciso de repensar a minha existência em Ourique e resolvi ir acampar uma semana nas margens da barragem do Monte da Rocha. Levo uma caçadeira, a cana de pesca, o camaroeiro para o peixe-rei, um canivete suíço e o Quixote. Viverei como caçador-recolector. Perdizes extraviadas das reservas cinegéticas, passarada, achigãs sacados das águas lodosas da barragem - tudo isto polvilhado com ervas aromáticas. Eremita a sério. Como não tenho wireless, só voltarei aqui quando encontrar uma solução, pelo menos enquanto me sobrarem os cartuchos.


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Eremita às 08:08
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Sábado, 20 de Junho de 2009
Sábado, 20 de Junho, 2009

 

 

Defendo a tese de que a generalidade das dosagens nos produtos de supermercado embalados ainda estão desajustadas do tecido social. As famílias desagregam-se e o pai divorciado é hoje uma criatura desprezada pela indústria alimentar e órfã de organização que defenda os seus interesses. Urge corrigir esta injustiça. Um pequeno passo nesse sentido, grandioso no simbolismo, parece ter sido dado pela Mimosa. Trata-se da embalagem de manteiga de 125 g, um produto desenhado para o ritmo de consumo do solteiro, divorciado ou eremita. No mercado dos derivados lácteos convivem diversas marcas. Quase todas têm as opções manteiga magra e manteiga sem sal, mas creio que apenas a Mimosa conseguiu lançar um produto abaixo dos 250 grama. A marca é pioneira na tentativa de evitar uma chicotada psicológica existencialista no consumidor, pois se a solidão tiver um sabor, será certamente o travo da manteiga rançosa a uma segunda-feira de manhã. Disso a Mimosa me salvou. E como bónus tive o sorriso terno de Tatiana, no preciso momento em que ela alinhava o código de barras da embalagem com o leitor óptico. As meninas das caixas registadoras devem vencer o tédio imaginando a vida dos clientes pela composição do que cada um compra e Tatiana pressentiu a minha vulnerabilidade, podendo por isso demorar o seu olhar no meu e até sorrir. 


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Eremita às 22:29
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Quinta-feira, 28 de Maio de 2009
Quinta-feira, 28 de Maio, 2009

Ainda não aprendi a retirar consolo da precedência. Ontem imaginei-me a conhecer os pais de Tatiana e fiz todo um inventário de incompatibilidades culturais, que de algum modo eram atenuadas pela barreira da língua. Que imagem terá uma família tradicional ucraniana de um português? Não faço ideia. Ouvi dizer que na Bulgária se oscila a cabeça na horizontal para transmitir concordância e na vertical para a negação, e testemunhei que os indianos oscilam a cabeça em todas as direcções do espaço para transmitir algo que talvez não se encaixe no nosso entendimento dicotómico da realidade. Como será o oscilar de cabeça ucraniano? O bidé chegou à Ucrânia? Chegou e também está hoje em declínio? Não preguei olho a imaginar a minha audição impossível diante dos pais da minha adorada, mas sei que é fraqueza de espírito. Esta mania de convocar todos os problemas não é mais do que uma desculpa para não lidar com o problema mais urgente. Há sempre uma precedência. Igor deve morrer primeiro e depois logo penso nos modos de seduzir a mãe de Tatiana e de discutir política com o seu pai.

 


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Eremita às 12:50
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Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
Quinta-feira, 21 de Maio, 2009

Acordei de um pesadelo estranho ou inventei esta cena em vigília? O cenário era a arena de um coliseu romano onde se encontrava Igor, de tanga e tronco nu. Agora que volto a pensar na imagem, Igor parecia-se muito a Salvação Barreto, o forcado que actuou em Quo Vadis. Seria natural pensar que Tatiana estivesse atada ao poste, mas quem estava atado era o inventor. Aliás, o inventor armou-se em Peter Sellers no sonho, pois fazia também o papel do Imperador, do centurião e ainda de um elemento mais exaltado da plebe. Como interpretar isto? Foi talvez uma manifestação pouco subtil da minha frustração com a incapacidade de desenvolver as personagens ouriquenses. O inventor ainda não ganhou espessura psicológica e já se passaram meses desde a sua entrada em cena. A máquina de movimento perpétuo, que deveria ser o metrónomo para o ritmo desta ficção, nem sequer foi descrita. As madrugadas das duas libertinas de Lisboa são um trunfo que continua por ser usado e faria disparar o número de leitores. Tatiana permanece como o único atractor. Talvez por isso, demorei a dar por ela no meu sonho, vindo só a descobri-la imediatamente antes de acordar. Toda a segunda metade do sonho foi dominada pela actuação de Ricardo Chibanga, que entrou  à super-herói na arena, usando o capote para abrandar a aproximação ao solo, acercando-se depois em passada oblíqua do touro, que media forças com Igor, para espetar um par de bandarilhas no dorso do ucraniano. A besta tombou e o touro enfiou-lhe um corno entre a tanga e o rego do rabo,  arrastando-o de seguida pela areia grossa em círculos de rabejador, até o deixar completamente esfolado, ensanguentado, numa desintegração que quase ameaçava os órgãos internos e remetia para a cena em que Messala está reduzido a bife tártaro falante num outro épico hollywoodesco, o Ben-Hur. Não houve sequer tempo para chorar Igor, pois Chibanga de imediato reciclou as bandarilhas e com ambas vazou os olhos do cristão atado ao poste, projectando-as de seguida, com a técnica de um ninja, de encontro aos outros dois inventores que estavam na tribuna imperial, morrendo um com a bandarilha no coração (o imperador) e o outro com a bandarilha na testa, talvez por ter uma armadura (o centurião). O inventor plebeu escapou a tempo e com alguma sorte não terá sido espezinhado pela multidão em fuga que se afunilava nas portas. Ricardo Chibanga, com um salto verdadeiramente alado, ganhou depois o parapeito da tribuna imperial e, sem nunca desviar o seu olhar dos meus olhos, começou a afagar os seios de uma estátua em tamanho natural. A estátua era Tatiana. Eu viria então a acordar, em grande sobressalto, ao som de uma gargalhada diabólica de Chibanga misturada com um bizarro barulho de seixos rolando sobre seixos ao sabor das ondas que só podia vir dos dentes partidos do matador à solta na sua boca. É que Chibanga não se saciou a apalpar os seios marmóreos e precisou de os morder violentamente. Ignorando a grande crítica literária, creio que algo em mim exige mais realismo mágico no Ouriquense e um papel de revelo para o fantasma de Ricardo Chibanga. Que se lixem os críticos, pois não quero outra noite assim. Enfim, feitas as contas, é verdade que acabámos de assistir à primeira  morte de Igor. Talvez valha a pena fazer uma série com as mortes imaginadas desta criatura. A crise aumentou a minha simptatia pelos desempregados, mas ainda estou dominado pelo delírio do crime passional



Eremita às 22:14
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Sexta-feira, 15 de Maio de 2009
Sexta-feira, 15 de Maio, 2009

Hoje, logo pela manhã, houve grande excitação no Pingo Doce. Pelas conversas das colegas de Tatiana, ela vai deixar o supermercado. Parece que será empregada doméstica na casa de campo de uma actriz "famosa" de novelas e cuidará dos bebés do jovem casal. "É uma casa de sonho", disse uma delas, que provavelmente acompanha a imprensa dos mexericos. Deve ser um daqueles montes alentejanos que ficaram na moda entre os lisboetas, há já uns anos. Espero que não seja muito longe de Ourique e que Tatiana não fique interna. Mas depois de ter visto na net a cara da actriz "famosa" fiquei desesperado. É uma mulher linda, uma jovem mãe e uma sex symbol cobiçada por metade do país. É inevitável que o seu marido se tente aliviar com Tatiana. Urge actuar.


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Eremita às 09:14
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Sexta-feira, 15 de Maio, 2009

Era inevitável seguir Tatiana até casa. Mora a 5 minutos do Pingo Doce, numa zona de casas geminadas que podemos considerar como fazendo parte dos subúrbios da vila. Segui-a sempre a grande distância e sem cruzar a estrada para o passeio em que caminhava. Por algum motivo, não cruzar a estrada pareceu-me equivalente a não cruzar a linha que separa o admirador do stalker. Mas depois de identificar a sua casa e de estudar os seus horários, não resisti a espreitar para dentro do quarto dela, num dia em que sabia que ela e o seu homem estariam fora até à hora de almoço. Creio que não há hábitos de leitura naquela casa, pois apenas uma das mesas-de-cabeceira tem candeeiro. Mas o que mais me surpreendeu foi a cama desfeita e uma mancha de sangue ao centro, como se Tatiana tivesse perdido a virgindade ontem ou uma Tatiana menstruada não demovesse Igor. Qualquer destes cenários me deprimiu. Aliás, a simples imagem da cama desfeita foi uma desilusão, porque Tatiana tem cara de dona de casa prendada.


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Eremita às 09:11
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Quarta-feira, 13 de Maio de 2009
Quarta-feira, 13 de Maio, 2009

 

 

Esta noite sonhei que era perseguido por um tupperware em que a base e a tampa se articulavam como as mandíbulas de um crocodilo. A interpretação parece-me óbvia: Tatiana anda a tomar conta de mim e a leitura tem ficado esquecida. Acordei a instantes de uma mordidela que me teria roubado a masculinidade. Suava. 


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Eremita às 13:07
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Terça-feira, 5 de Maio de 2009
Terça-feira, 05 de Maio, 2009

Num fim de tarde de um dia lento no supermercado, dei comigo a espreitar Tatiana furtivamente. Em minha defesa só posso argumentar que cheguei ali por acidente, pois conferia a composição de uma caixa de cereais. Como as caixas se empilham na esquina que faz a transição para os enlatados, ao retirar uma criou-se uma fresta que abriu uma vista para a zona das frutas e hortaliças e por onde podia espreitar sem ser visto, como se estivesse num posto de observação de aves. Tatiana e duas colegas gozavam uma pausa sentadas no parapeito de um dos expositores refrigerados, de costas voltadas para o alho-porro, os nabos e a alface frisada. Em frente delas tinham as caixas de fruta. Estavam muito divertidas e à distância a que me encontrava não consegui perceber de que falavam. Mas a dada altura, parecendo intuir que alguém mais a observava, Tatiana levantou-se, pegou em duas laranjas, enfiou-as dentro da bata, pelo decote, colocando-as ao nível do peito, uma de cada lado. Com destreza, deslizou depois as mãos  pelo corpo abaixo, mantendo sempre a bata sob tensão, para que as laranjas não descaíssem. As mãos acabaram por lhe ficar à altura da cintura, numa posição natural, mas sempre mantendo a bata tensa. O resultado final foi uma silhueta de pin-up, que Tatiana se apressou a animar, com uma passada lenta, um abanar de ancas exagerado e trejeitos de estrela de cinema. As colegas quebraram-se em gargalhadas e eu fui forçado a retirar com cuidado mais uma caixa de cereais, para abrir o ângulo de visão. Tatiana tem graça, o que é raro numa mulher. E tem um jeito teatral, talvez até alguma loucura, o que é essencial. 

 

 

 


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Eremita às 08:45
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Sábado, 2 de Maio de 2009
Sábado, 02 de Maio, 2009


 

A invenção de Tatiana sempre foi um risco assumido. Na ausência de um amor real consequente, temia uma materialização da ucraniana - Tatiana como o Hobbes, eu como o Calvin. Na presença de um amor real e consequente, o risco seria o oposto: que esse amor a possuísse  - Tatiana como personagem de uma ficção de cariz autobiográfico. Seriam duas situações patéticas. No primeiro caso, é inventada uma mulher que salta da página para a vida real. No segundo, uma mulher real reencarna Tatiana, que perde vida própria. É preciso ir navegando entre os baixios da tolice e da falta de imaginação.

 


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Eremita às 20:51
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Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
Quarta-feira, 29 de Abril, 2009

Sem troca de dinheiro não teria uma relação física com Tatiana. Pago-lhe sempre em espécie e nunca o preço certo. Despedimo-nos cordialmente, sem intimidades. Há meses que esta rotina se repete e só tenho um capricho: obrigo-a sempre a devolver-me o troco em moedas. Com uma nota é possível guardar alguma distância, basta pegar-lhe por uma das pontas, dobrá-la ligeiramente na orientação longitudinal, para que não se quebre e se projecte o máximo possível. Quem recebe a nota saberá então que deve pegar nela pela outra ponta. Mas com uma moeda os dedos tocam nos dedos, ou na palma aberta, ou a moeda cai e no mergulho das mãos dei comigo a sentir o pulso de Tatiana, um pulso tão fino que senti pela primeira vez a sua magreza e, como um cego, logo reconstruí aquele corpo até então escondido por uma bata e uma profissão mais compatível com a robustez física das operárias. Tatiana é tão frágil que as recorrentes imagens de cenas íntimas dela com Igor parecem-se agora com spots contra a violência doméstica. Mas nasceu também o desejo de eliminar as banais raparigas pulpeuses das fantasias sexuais. Uma fantasia menos banal. Uma paixão menos banal. Ainda bem que o francês não está morto, pois nenhuma outra língua faz justiça às filles minces

 


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Eremita às 12:44
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Terça-feira, 21 de Abril de 2009
Terça-feira, 21 de Abril, 2009

Confesso que foi uma surpresa. Não resisti a esperar pela hora de saída de Tatiana e a primeira coisa que ela fez foi acender um cigarro. Tem um jeito fabril de fumar, a fazer lembrar o das empregadas da minha velha cantina. Tem também um jeito refinado de segurar o cigarro entre os dedos e é civilizada: deitou a beata num caixote do lixo, depois de se certificar que estava bem apagada (segui-a durante uns minutos, à distância).

 

Um homem de bom gosto só pode gostar de ver uma mulher fumar, mas um homem de bom gosto não pode suportar que uma mulher fume. É este o problema. Não se trata de uma preocupação com a saúde da mulher mas sim de um conflito entre gostar de ver e não gostar de sentir. Coisas demasiado subtis para as colunas de opinião. Tatiana fuma. Quem diria? 


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Eremita às 08:04
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Sábado, 4 de Abril de 2009
Sábado, 04 de Abril, 2009

Diz-se que as mulheres, assim genericamente, sentem-se atraídas pelo poder por interposta pessoa, ou seja, sentem-se atraídas por homens poderosos. Diz-se também que se pode conquistar uma mulher apelando ao seu instinto maternal. Estas duas pulsões têm, em regra, objectos diferentes, isto é, um homem poderoso não apela ao instinto maternal e um homem que desperte tal instinto está afastado do poder. Certas circunstâncias podem fazer com que no mesmo homem coincidam as duas pulsões; por outras palavras, uma mulher pode desejar um homem por causa do seu poder e uma outra mulher pode desejar o mesmo homem por este lhe despertar o instinto maternal. A situação em que as duas pulsões emanam da mesma mulher e convergem no mesmo homem é mais rara, mas invencível. 

 

Igor foi despedido e por isso ontem armou desacatos. O álcool foi um mero catalisador. É sabido que as noites de sexta, na Escandinávia como no Alentejo, são sondas que perscrutam a alma de um povo.  Só Tatiana conseguiu domá-lo e a sua intervenção salvou a besta embriagada de um serão com a GNR. Findo o incidente, a imagem do corpanzil quebrado de Igor afastando-se de nós até dobrar a esquina fez-me perceber que esta mulher nunca será minha. Tatiana acompanhava-o e tinha o seu braço nas suas costas, mas a envergadura daquele homem é tal que o braço da minha ucraniana não o abarcava e ficava a meio caminho, com a palma da mão aberta sobre a coluna vertebral dele. Ela ensaiva a forma de caminhar dos namorados, mas o efeito resultante era o de alguém que ajudava uma velhinha a atravessar uma rua ou subir umas escadas. Aquela palma da mão aberta parecia aliviar a dor de um homem vergado - sobretudo metaforicamente, o que é ainda mais terrível. O poder físico de Igor pode ter atraído esta mulher, mas é a sua fraqueza moral que reforça a relação deles. Não se pode lutar contra isto com total honestidade. Tatiana precisa de ser salva. 


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Eremita às 08:52
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Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Quarta-feira, 01 de Abril, 2009

 

 

Há meses que Tatiana não toma forma. O que temos, feitas as contas, é um nariz. Como explicar esta falta de empreendedorismo? Não excluindo que se trate de preguiça, creio que há duas pressões para adiar a materialização de Tatiana. A primeira: é um modo de evitar um compromisso. A segunda: é a única forma de não contaminar Tatiana com imagens do passado pouco neutras. De algum modo, esta segunda pressão acentuou-se em Ourique. É verdade que uns meses de isolamento bastam para se regressar a um estado livre de qualquer paixão, mas a vivência na vila é também muito pobre nos estímulos quotidianos que teriam ajudado a reconstruir a matéria-prima de imagens necessária para compor Tatiana e um novo imaginário erótico. A ideia de que no interior do país se encontram belas moças de fartos seios à janela é uma falsidade alimentada pelos estereótipos das fantasias sexuais sulistas (a loira espojada sobre fardos de palha, receptiva e expectante) e esmagada por uma pirâmide etária que há muito se inverteu. A Jovovich que por aqui passou há uns meses foi provavelmente uma alucinação. Perante este quadro, ainda há umas fugas do passado, que se insinuam quando menos esperava ou então quando seria inevitável. Estes episódios rareiam e procuro recorrer a tais imagens segundo um sistema de rotatividade que impede qualquer primazia. Ainda assim, Tatiana não precisa de ficar com marcas no corpo destes vícios esporádicos. Frankenstein, por mais monstruoso que fosse, usou cadáveres anónimos para a sua composição. Daí a importância dos estímulos ocasionais, tão raros em Ourique. Sobra o cinema claro, mas isso seria construir Tatiana a partir de materiais pré-fabricados. É preciso paciência. O nariz já está, o resto aparecerá um dia, com a simplicidade do escultor que apenas disse ter tirado do bloco de mármore tudo o que estava a mais. 

 


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Eremita às 15:31
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Terça-feira, 31 de Março de 2009
Terça-feira, 31 de Março, 2009

[imagem autocensurada de uma mulata sublime]

 

Tatiana não merece isto. É preciso resistir, por todos os meios,  aos pólens que as flores libertam e aos perfumes que pairam no ar, aos umbigos descobertos e à ilusória promessa de uma noite eterna quando começamos a sair do emprego antes do pôr do Sol (não me esqueci). O amor por Tatiana pode não ser ainda correspondido, mas nem por isso deve deixar de ser disciplinado e puro. Que raio, não estamos na América Central e o clima do Alentejo, apesar de tudo, é temperado. Mas seria bom que as ervas aromáticas se manifestassem e me orientassem os sentidos para a gastronomia.

 

 


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Eremita às 11:25
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Terça-feira, 24 de Março de 2009
Terça-feira, 24 de Março, 2009

 

No Sábado passado noite assistimos a Man on Wire, um documentário sobre o funâmbulo que caminhou entre as duas torres gémeas, a centenas de metros do chão. Philippe Petit, o funâmbulo, fala sobre si próprio com um entusiasmo tal que as suas proezas são menos uma demonstração de coragem do que uma prova de egocentrismo. É essa a grande pecha do filme. Preferíamos ter visto um poeta, um louco ou um sonhador. 

 

No fim do documentário discutiu-se a possibilidade de piratearmos o filme Che, que acaba de estrear em Lisboa. Pela primeira vez, ouviram-se insultos na sala. Não há "lei Barreto" que suture a ferida profunda da reforma agrária. Mas tinha razão a ala reaccionária, representada por duas raparigas ouriquenses muito bem apessoadas, que só aparecem por aqui aos fins-de-semana e transportam a aura irresistível da aristocracia decadente, o que transforma a tensão erótica que por elas sinto numa dupla traição - à minha paixão por Tatiana e à sua condição operária. Diziam estas jovens mulheres que Che foi um assassino, responsável por fuzilamentos sumários. É verdade. Aliás, Che continua a assassinar pessoas, de que é exemplo o  recente  fuzilamento de Benecio del Toro. O meu argumento, que colheu algum apoio, foi o de que é importante avaliar o grau de hagiografia do filme de Soderbergh em primeira mão. Ainda assim, uma das belas ouriquenses cosmopolitas lançou-me um esgar à Isabel Moreira e rematou entre dentes (disseram-me depois): "ainda bem que seu avô não o pode ouvir..."  Pelos vistos sabe quem sou, embora eu não reconheça estas mulheres no meu passado. Esta curiosidade  deixa-me levemente deprimido. E a subtil excitação ainda mais. Queria-me imune a qualquer outra mulher que não a Tatiana e estas duas têm um evidente potencial caprino. Concluo que já devia ter tombado Tatiana numa seara.


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Eremita às 13:56
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Domingo, 22 de Março de 2009
Domingo, 22 de Março, 2009

P. apareceu subitamente em Ourique. E eu que pensava que a primeira mulher a entrar na minha casa daqui seria Tatiana. [modificado]

 

 

 

 


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Eremita às 20:30
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Sexta-feira, 13 de Março de 2009
Sexta-feira, 13 de Março, 2009

 

 

É ponto assente que Igor deve morrer. Mas é preciso que este seja um crime perfeito. Um crime perfeito tem de cumprir duas condições, a saber: 1) não pode incriminar o autor perante os outros; 2) não pode incriminar o autor perante si próprio. Cumprir a primeira condição é um problema essencialmente técnico. Cumprir a segunda condição é um problema essencialmente bicudo, para não dizer insolúvel. Como pensar em contra-medidas para apaziguar uma consciência se tal exercício é o cúmulo da premeditação de um crime? Matar Igor será, na melhor das hipóteses, um crime quase perfeito. 

 

Uma estratégia para quase cumprir a segunda condição é convencer-me de que a morte de Igor salvará Tatiana. Os sinais da infelicidade conjugal de Tatiana são, por agora, apenas sugestivos de que talvez ela apanhe do embriagado Igor. Vou todas as segundas de manhã ao Pingo Doce e invento desculpas para poder demorar o olhar em Tatiana. Busco sinais de um olho pisado, camuflado a maquilhagem, mas até agora só me deparei com o rosto perfeito e a pele imaculada de Tatiana, sem rímel, sem base, sem sequer um risco, sem um beliscão. Fico a pensar que talvez Igor a açoite no lombo com a lista telefónica da região sul  para não deixar marcas visíveis, mas é especulação minha. Porém, não desisto. Volto todas as segundas e no fundo penso: "Make my monday, Igor. Go ahead, punk, make my monday".

 

Uma vez identificada em Tatiana uma marca de violência doméstica, é preciso definir em que moldes decorrerá o crime. Como me conheço, sei que uma justificação para o acto não é suficiente. O próprio acto precisa de uma dimensão redentora. Está excluída a morte por envenenamento, que é coisa de mulheres. Está excluída a morte pelas costas, que é coisa de cobardes. O ideal seria desafiar Igor para um duelo, mas aqui ficaria dependente da vontade deste e, muito sinceramente, não imagino Igor a alinhar nisto, a menos que esteja embriagado - o que seria inadmissível porque faria o duelo injusto. É mesmo possível que um crime digno exija alguma dignidade não só do criminoso mas também da vítima. Em todo o caso, não encontro outra saída. Desafiarei pois Igor para um duelo com armas de fogo. Não pode ser uma simples luta com as mãos nuas, pois Igor (mais de 95 Kg e por volta 1.93 m) daria cabo de mim  (76  Kg, 1.81 m) - é ténue a fronteira entre o crime quase perfeito premeditado e um acidental suicídio auxiliado. 

 

Resta saber se sou capaz de seguir um plano que implica coragem física, já que os meus actos de coragem física tendem a ser fruto de impulsos. Mas admitindo que serei capaz de o fazer, é possível que o treino de tiro aos comprimidos se transforme num imprevisível tirocínio para a vida, passo o trocadilho. Acerto já 60% das vezes num comprimido de 75 mg a 15 metros. Ora, para Igor ficar reduzido à dimensão de um comprimido de 75 mg teria de estar fora do alcance de tiro e isso não seria sério. É claro que agora não poderei mais treinar. Uma coisa é beneficiar acidentalmente de uma rotina que iniciei sem ter em conta o duelo e outra, bem diferente, seria agora preparar-me de propósito para o duelo antes de avisar Igor. Se antes sonhava com a morte de Igor por capricho, agora faço-o como método. Imaginar-me como o assassino de Igor (ainda que num duelo) traz para o presente o pensamento retrospectivo futuro, algo que poderia dar cabo de mim se já tivesse dado cabo de Igor, mas que com Igor ainda vivo pode ser corrigido. Não é nada fácil conceber um crime quase perfeito. 

 

Foi com estes pensamentos que cheguei a uma comparação pertinente: será que o duelo tem vantagem sobre uma legítima defesa forjada? Se for bem forjada, a legítima defesa tem um valor social superior ao do duelo, mas para a consciência o duelo é uma solução preferível. A questão está em saber se a vantagem social é suficiente para se tolerar o peso acrescido para a consciência. Trata-se obviamente de um problema quotidiano, mas que aqui se agudiza.

 

cont.


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Eremita às 10:01
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Segunda-feira, 9 de Março de 2009
Segunda-feira, 09 de Março, 2009

 

 

ais de uma década separa a prenda que mais gozo me deu oferecer da que nunca deveria ter dado. A primeira foi uma canção, ideia que só pelas amigas dela foi recebida com algum espanto - "ele deu-te uma canção?". A segunda um jogo de efeitos visuais à antiga, que ela - outra, bem entendido - recusou, com um "para que é que isto serve?". Agora que comparo os momentos, teria sido bem pior se me tivessem recusado a canção, embora saiba hoje que era uma canção merdosa. E sei que um jogo de efeitos visuais à antiga não é prenda romântica, nem cara, nem gadget tecnológico, que é algo que as mulheres aprenderam a apreciar, copiando os adolescentes. A verdade é que desde a recusa nunca mais ofereci prendas sem acusar alguma ansiedade, até quando decido prendar a minha afilhada ou os seus irmãos. Não se faz uma putaria destas, sobretudo vindo de quem não consegue manter constantes tão altos padrões de honestidade. Daí o meu cuidado na escolha da prenda de Tatiana. Perdi até um bom pretexto, que teria sido o Dia da Mulher. É provável que opte por uma série de poemas, talvez até uns sonetos, aproximadamente decassilábicos. É uma opção cobarde, bem sei. Tatiana é praticamente analfabeta em português e tão cedo por aqui não deixará de ser iletrada, mesmo que já tenha lido os Russos.


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Eremita às 09:43
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Sexta-feira, 6 de Março de 2009
Sexta-feira, 06 de Março, 2009

No Verão tudo se anima, mas o Inverno em Ourique é muito casto. Creio que as gentes do norte se divertem mais. Por outro lado, o sexo no Alentejo deve ter uma qualidade superior, embora por aqui haja menos trovoadas e seja sabido que umas costas suadas e iluminadas por relâmpagos é dos poucos instantâneos da vida real capaz de se imiscuir no top ten das grandes imagens sexuais, invariavelmente dominado por fotogramas do cinema. Enfim, reservo-me o direito de explicar a minha posição quando tombar Tatiana numa seara. 


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Eremita às 07:35
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