Quinta-feira, 4 de Abril de 2013
Quinta-feira, 04 de Abril, 2013

Mais la principale raison, et celle-là applicable à l’humanité en général, était que nos vertus elles-mêmes ne sont pas quelque chose de libre, de flottant, de quoi nous gardions la disponibilité permanente; elles finissent par s’associer si étroitement dans notre esprit avec les actions à l’occasion desquelles nous nous sommes fait un devoir de les exercer, que si surgit pour nous une activité d’un autre ordre, elle nous prend au dépourvu et sans que nous ayons seulement l’idée qu’elle pourrait comporter la mise en uvre de ces mêmes vertus. À l'Ombre des Jeunes Filles en Fleur, volume I.

 

Creio que me enganei no CD. Swann aparece já casado e não me lembro do seu casamento. Há uma descontinuidade famosa - dizem-me - entre Un Amour de Swann e Noms de Pays: Le Nom, mas talvez seja melhor não a exagerar e ir escutar o que ficou por ouvir. 


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Eremita às 10:08
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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012
Segunda-feira, 03 de Setembro, 2012

Swann começa a ficar dominado pelo ciúme, que Proust disseca com grande competência. Mas há um virtuosismo nestas páginas que acaba por funcionar contra a obra. Não percebi ainda se é por a tornar demasiado cerebral ou pouco verosímil, dei-me apenas conta de que a carta de uma obscura violinista ao compositor Edward Elgar, entretanto morto, é incomparavelmente mais penetrante e feliz na avaliação das diferentes pulsões que formam o desejo do que o grosso da Recherche. É possível que tivesse contado o efeito surpresa. Ou ter querido estar no lugar de Elgar como ainda não cheguei a querer estar no lugar de nenhuma das personagens de Proust. Oiçam a maravilha que encontrei por acaso ontem - podem começar no tempo 16''23''.


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Eremita às 07:14
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Quinta-feira, 7 de Junho de 2012
Quinta-feira, 07 de Junho, 2012

Il vit alors que dans sa résolution de ne pas prendre acte, de ne pas avoir été touchée par la nouvelle qui venait de lui être notifiée, de ne pas seulement rester muette, mais d’avoir été sourde comme nous l’affectons, quand un ami fautif essaye de glisser dans la conversation une excuse que ce serait avoir l’air d’admettre que de l’avoir écoutée sans protester, ou quand on prononce devant nous le nom défendu d’un ingrat, Mme Verdurin, pour que son silence n’eût pas l’air d’un consentement, mais du silence ignorant des choses inanimées, avait soudain dépouillé son visage de toute vie, de toute motilité...  Un Amour de Swann

Nas últimas três ou quatro semanas, tenho ouvido o CD de uma secção do Un Amour de Swann incessantemente. Não é a primeira vez que volto a escutar uma passagem, porque oiço e volto a ouvir logo de seguida cada CD antes de avançar para o seguinte, sendo esta a única forma eticamente aceitável de consumir um romance em audiolivro. Porém, a partir da quarta audição a descoberta de novidades cai a pique e, sem exagero, creio que vou na nona. Sem desconsiderar as fontes adicionais de dispersão que nos últimos tempos baixaram a minha capacidade de concentração a níveis históricos, julgo que identifiquei uma armadilha para o ouvinte de romances: ao contrário do que sucede com o livro convencional, em que as passagens aborrecidas são por vezes vencidas com um certo relaxamento da leitura, que tende a tornar-se mais oblíqua e pode traduzir-se até num folhear de página, como única forma do leitor náufrago alcançar em braçadas o capítulo seguinte, quando escutada, a passagem aborrecida é intransponível. Admito que este problema seja mais frequente em ouvintes de livros que também tenham o hábito de voltar atrás para confirmar que o carro está mesmo imobilizado pelo travão de mão ou que revelem qualquer outro gérmen de obsessão. Ou então este episódio prova que, apesar da minha argumentação para equivaler a audição à leitura, no fundo sou ainda vítima do preconceito que procuro vencer, o que me entristece tanto como se viesse a saber que Hitchens se converteu leito de morte e Richard Dawkins ameaçou de morte quem o revelasse. Ainda que tolhido pela possibilidade de uma tão avassaladora derrota, abro agora o livro e começo a ler a passagem aborrecida, contando vencê-la com todos os métodos que uma política de don't ask, don't tell legitimou entre os amantes da literatura. Não reajam, façam como a Mme Verdurin e espelhem no rosto o tal silêncio ignorante dos objetos inanimados. 

 

Ficha Técnica: a série "Recherche" baseia-se na escuta do audiolivro A la Recherche do Temps Perdu: L'Intégrale (111 CD), que conta com André DUSSOLLIER, Lambert WILSON, Denis PODALYDES, Robin RENUCCI, Mickael LONSDALE e Guillaume GALLIENNEAs citações são retiradas da magnífica edição online da eBooks@Adelaide - e viva a Austrália. 


 


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Eremita às 08:58
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Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
Quarta-feira, 16 de Maio, 2012

Et, avec une solennité qui était nouvelle chez lui [Swann]: «Ce sont des êtres magnanimes, et la magnanimité est, au fond, la seule chose qui importe et qui distingue ici-bas. Vois-tu, il n’y a que deux classes d’êtres: les magnanimes et les autres; et je suis arrivé à un âge où il faut prendre parti, décider une fois pour toutes qui on veut aimer et qui on veut dédaigner, se tenir à ceux qu’on aime et, pour réparer le temps qu’on a gâché avec les autres, ne plus les quitter jusqu’à sa mort. Eh bien! ajoutait-il avec cette légère émotion qu’on éprouve quand même sans bien s’en rendre compte, on dit une chose non parce qu’elle est vraie, mais parce qu’on a plaisir à la dire et qu’on l’écoute dans sa propre voix comme si elle venait d’ailleurs que de nous-mêmes *, le sort en est jeté, j’ai choisi d’aimer les seuls cœurs magnanimes et de ne plus vivre que dans la magnanimité. Un Amour de Swann


*Doravante, assinalarei a amarelo as passagens de elevado teor proustiano

É costume dizer-se que o tema mais ingrato de abordar em literatura é o sexo. Tenho dúvidas. Será seguramente a opção mais fácil de parodiar, mas não há nada de misterioso no sexo, que é a mais simples das interacções: surge o desejo, o pénis cresce, a vagina lubrifica-se, vem a cópula, partilha-se um cigarro - a versão homossexual deste enredo ainda é mais simples, por dispensar um substantivo. Difícil é escrever sobre música. Os críticos de música pop resolveram este problema de uma forma engenhosa: a propósito de música, escrevem sobre tudo o resto, da pose ao penteado, da importância de uma letra na adolescência ao choque de egos dentro da banda, só que não escrevem sobre música. E os poucos que  escrevem, fazem-no mal, oscilando entre a apreciação técnica que ignora a melodia, a harmonia e o ritmo, concentrando-se no acessório, das "influências" a aspectos conspícuos, como a versatilidade instrumental de sicrano ou o virtuosismo de fulano no baixo-eléctrico, e o arrebatamento lírico que nos toma por cúmplices passivos; há apenas uma corporação que desprezo mais do que a dos críticos de música pop, só que não vou perder agora tempo com os criativos da publicidade. Quanto aos críticos de outros géneros musicais, não sendo tão grave, a situação está longe de ser satisfatória. Parte do problema resulta da desadequação do meio ao tema. Enfim, isto tem tanto de trivial -  a escrita comunica-se em silêncio e a música faz-se de interrupções do silêncio -, como de tosco - a gastronomia funciona muito bem na forma escrita, sem que precisemos de trazer o papel ao paladar. Parte do problema, a parte do leão (for disambiguation, see Leão* Tolstói), resultará então do mistério da própria música, mas seria estúpido tentar explicá-lo aqui e agora. 

 

Creio que uma das grandes ideias de Proust foi escrever um ensaio sobre estética em forma de romance, o que ele concretiza com um equilíbrio feliz de enredo e teoria. As passagens sobre a sonata de Vinteuil criam tanta ou mais tensão dramática do que o romance entre Odette e Swann, e tal como na personagem interpretada por Moretti crescia a vontade de ver o candidato D'Alema dizer alguma coisa de esquerda à medida que o debate avançava, também em mim cresce a vontade de ver Proust escrever qualcosa sobre Wagner.

 

Vem isto a propósito da compra de um livrinho que recolhe as reflexões de Eduardo Lourenço sobre música. Estou com um enorme receio de avançar. Não só a autora da recolha, no texto de abertura, deixa a impressão de que os abutres se lançaram sobre a arca de Lourenço com uma precipitação que atraiçoa a sua condição necrófaga, como não cheguei ainda aos anos da magnanimidade a que Proust se refere na passagem supracitada e que me permitirão assumir um dia o amor incondicional pela obra de Eduardo Lourenço, sem que entretanto tivesse chegado o desprezo por Lourenço que alimenta alguns jovens turcos da intelectualidade lusa. 

 

* Ver comentário de Pirata Vermelho.

 

Ficha Técnica: a série "Recherche" baseia-se na escuta do audiolivro A la Recherche do Temps Perdu: L'Intégrale (111 CD), que conta com André DUSSOLLIER, Lambert WILSON, Denis PODALYDES, Robin RENUCCI, Mickael LONSDALE e Guillaume GALLIENNEAs citações são retiradas da magnífica edição online da eBooks@Adelaide - e viva a Austrália.


 


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Eremita às 06:14
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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
Sexta-feira, 10 de Fevereiro, 2012

 

Madeleine Lemaire ('Madame Verdurin') - foi o que se arranjou, mas espero que compreendam que não podia meter aqui a Rachel Weisz.

Swann enamorou-se de Odette e associou-a a uma frase musical que ouviu na sonata de Vinteuil, num serão em casa dos Verdurin. Parece-me inverosímil. Swann é já um mulherengo experiente e só os jovens namorados têm tendência a associar o namoro a uma melodia. Em todo o caso, Proust faz serviço público, pois lembra-nos que esta tradição precede o aparecimento da MTV e do videoclip. Mas insisto na inverosimilhança, embora mais não possa do que partilhar a minha experiência pessoal e dela fazer regra. Só associo dois namoros a músicas e foram o primeiro e o segundo. Não digo quantos tive, mas asseguro que a probabilidade deste padrão surgir por acaso é extremamente baixa. A primeira música, que tocava na cave onde nos beijámos pela primeira vez, fazia parte da banda sonora do filme Karate Kid. Era o The Glory of Love.


 

Pouco tempo depois, já em pleno segundo namoro, veio a Pavane pour une infante défunte

 

 

A transição Peter Cetera-Maurice Ravel ilustra bem a profunda revolução operada por esta segunda mulher na minha vida, que no fundo radica numa única epifania: a descoberta do gozo do gosto adquirido. Enfim, retomando o tema, nunca mais voltei a associar músicas a namoros ou, o que é mais rigoroso, nunca mais tive prazer em alimentar esse tipo de memória, pois sem esforço poderia recuperar uma música de cama, uma canção para umas férias de Verão, temas para ouvir com o volume muito alto enquanto se aspira a casa em trajes menores e harmoniosa conjugalidade, e até duas canções que escrevi, uma das quais ainda sei de cor, entre outros possíveis recuerdos musicais associados a mulheres. Sucede que não me interessa essa catalogação. Se são vários os motivos para ter desistido, creio que a palavra "catalogação" faz uma síntese feliz, acrescentando apenas que a tralha passional da outra pessoa e a pobreza musical da pop geram a desconfiança insanável de que a associação não é absolutamente exclusiva, mas uma reciclagem, um pouco como a desconfiança que surge quando, pela manhã, na casa onde vive sozinha, ela desaprova que voltemos a vestir as mesmas cuecas e retira da gaveta uns boxers lavados que não nos pertencem. Ao menos o Cetera teve a pureza das coisas instintivas - vá, inconscientes. E o Ravel foi já programado, sim, mas de uma forma que me parece insuperável e que nem sequer resulta de um exercício desonesto de presciência retroactiva que me levasse a retirar sentenças do título da Pavane ou da sua melancólica harmonia, pois o que conta mesmo é a imagem da jovem pianista que amei, de costas, tocando no piano vertical do quarto. Agora o Proust, com aqueles rodriguinhos à Proust:

 

Or, quelques minutes à peine après que le petit pianiste avait commencé de jouer chez Mme Verdurin, tout d’un coup après une note haute longuement tenue pendant deux mesures, il vit approcher, s’échappant de sous cette sonorité prolongée et tendue comme un rideau sonore pour cacher le mystère de son incubation, il reconnut, secrète, bruissante et divisée, la phrase aérienne et odorante qu’il aimait. Et elle était si particulière, elle avait un charme si individuel et qu’aucun autre n’aurait pu remplacer, que ce fut pour Swann comme s’il eût rencontré dans un salon ami une personne qu’il avait admirée dans la rue et désespérait de jamais retrouver. A la fin, elle s’éloigna, indicatrice, diligente, parmi les ramifications de son parfum, laissant sur le visage de Swann le reflet de son sourire. Mais maintenant il pouvait demander le nom de son inconnue (on lui dit que c’était l’andante de la sonate pour piano et violon de Vinteuil), il la tenait, il pourrait l’avoir chez lui aussi souvent qu’il voudrait, essayer d’apprendre son langage et son secret. (...)

 

A son entrée, tandis que Mme Verdurin montrant des roses qu’il avait envoyées le matin lui disait: «Je vous gronde» et lui indiquait une place à côté d’Odette, le pianiste jouait pour eux deux, la petite phrase de Vinteuil qui était comme l’air national de leur amour. Il commençait par la tenue des trémolos de violon que pendant quelques mesures on entend seuls, occupant tout le premier plan, puis tout d’un coup ils semblaient s’écarter et comme dans ces tableaux de Pieter De Hooch, qu’approfondit le cadre étroit d’une porte entr’ouverte, tout au loin, d’une couleur autre, dans le velouté d’une lumière interposée, la petite phrase apparaissait, dansante, pastorale, intercalée, épisodique, appartenant à un autre monde. (...)

 

Il trouvait ouverts sur son piano quelques-uns des morceaux qu’elle préférait: la Valse des Roses ou Pauvre fou de Tagliafico (qu’on devait, selon sa volonté écrite, faire exécuter à son enterrement), il lui demandait de jouer à la place la petite phrase de la sonate de Vinteuil, bien qu’Odette jouât fort mal, mais la vision la plus belle qui nous reste d’une œuvre est souvent celle qui s’éleva au-dessus des sons faux tirés par des doigts malhabiles, d’un piano désaccordé. La petite phrase continuait à s’associer pour Swann à l’amour qu’il avait pour Odette. Il sentait bien que cet amour, c’était quelque chose qui ne correspondait à rien d’extérieur, de constatable par d’autres que lui; il se rendait compte que les qualités d’Odette ne justifiaient pas qu’il attachât tant de prix aux moments passés auprès d’elle. Un Amour de Swann

 


 

Ficha Técnica: a série "Recherche" baseia-se na escuta do audiolivro A la Recherche do Temps Perdu: L'Intégrale (111 CD), que conta com André DUSSOLLIER, Lambert WILSON, Denis PODALYDES, Robin RENUCCI, Mickael LONSDALE e Guillaume GALLIENNEAs citações são retiradas da magnífica edição online da eBooks@Adelaide - e viva a Austrália. 


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Eremita às 08:12
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
Segunda-feira, 30 de Janeiro, 2012

A cette époque de la vie, on a déjà été atteint plusieurs fois par l’amour; il n’évolue plus seul suivant ses propres lois inconnues et fatales, devant notre cœur étonné et passif. Nous venons à son aide, nous le faussons par la mémoire, par la suggestion. En reconnaissant un de ses symptômes, nous nous rappelons, nous faisons renaître les autres. Comme nous possédons sa chanson, gravée en nous tout entière, nous n’avons pas besoin qu’une femme nous en dise le début — rempli par l’admiration qu’inspire la beauté—, pour en trouver la suite. Et si elle commence au milieu,— là où les cœurs se rapprochent, où l’on parle de n’exister plus que l’un pour l’autre —, nous avons assez l’habitude de cette musique pour rejoindre tout de suite notre partenaire au passage où elle nous attend. Un Amour de Swann 

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Eremita às 05:57
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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
Quarta-feira, 11 de Janeiro, 2012

 

 

Há excesso de detalhe na Recherche? Há, mas não é defeito, é feitio. Esse excesso na atenção dada aos objectos materiais faz parte do programa estético do livro. É mesmo no fim de Combray que Proust explica:

 

Combien depuis ce jour, dans mes promenades du côté de Guermantes, il me parut plus affligeant encore qu’auparavant de n’avoir pas de dispositions pour les lettres, et de devoir renoncer à être jamais un écrivain célèbre. Les regrets que j’en éprouvais, tandis que je restais seul à rêver un peu à l’écart, me faisaient tant souffrir, que pour ne plus les ressentir, de lui-même par une sorte d’inhibition devant la douleur, mon esprit s’arrêtait entièrement de penser aux vers, aux romans, à un avenir poétique sur lequel mon manque de talent m’interdisait de compter. Alors, bien en dehors de toutes ces préoccupations littéraires et ne s’y rattachant en rien, tout d’un coup un toit, un reflet de soleil sur une pierre, l’odeur d’un chemin me faisaient arrêter par un plaisir particulier qu’ils me donnaient, et aussi parce qu’ils avaient l’air de cacher au delà de ce que je voyais, quelque chose qu’ils invitaient à venir prendre et que malgré mes efforts je n’arrivais pas à découvrir. Comme je sentais que cela se trouvait en eux, je restais là, immobile, à regarder, à respirer, à tâcher d’aller avec ma pensée au delà de l’image ou de l’odeur. Et s’il me fallait rattraper mon grand-père, poursuivre ma route, je cherchais à les retrouver, en fermant les yeux; je m’attachais à me rappeler exactement la ligne du toit, la nuance de la pierre qui, sans que je pusse comprendre pourquoi, m’avaient semblé pleines, prêtes à s’entr’ouvrir, à me livrer ce dont elles n’étaient qu’un couvercle. Certes ce n’était pas des impressions de ce genre qui pouvaient me rendre l’espérance que j’avais perdue de pouvoir être un jour écrivain et poète, car elles étaient toujours liées à un objet particulier dépourvu de valeur intellectuelle et ne se rapportant à aucune vérité abstraite. Mais du moins elles me donnaient un plaisir irraisonné, l’illusion d’une sorte de fécondité et par là me distrayaient de l’ennui, du sentiment de mon impuissance que j’avais éprouvés chaque fois que j’avais cherché un sujet philosophique pour une grande œuvre littéraire. Combray II

 

Como o percebo. A felicidade que retiro dos meus pensamentos, talvez não a única, pois também já deduzi coisas, mas seguramente a mais frequente e intensa, vem dessa tal ilusão de ideia fecunda, mais impressionista que lógica, como quando associo ao meu último namoro de anos uma dimensão cósmica, ou profética, ou até sobrenatural, só porque o nosso quarto estava virado a nascente e abria sem a protecção de persianas, venezianas, estores, cortinados ou blackouts para uma paisagem cheia de verticais, a definir uma nesga de céu, como é típico de Nova Iorque, levando-me a pensar em Stonehenge todas as manhãs, quando o primeiro raio chegava e a sua fronteira de sombra e luz ia progredindo pelo acidentado dos lençóis até lhe inundar o rosto, que depois me inundava a mim com o último sorriso a trazer a chamada promessa de futuro. Desde então, nunca mais reencontrei o meu Stonehenge urbano. Podia rematar com uma certa espectacularidade lacónica, dizendo que aos novos quartos faltou sempre a orientação solar certa ou a mulher certa, mas - em rigor - as persianas corridas também foram parte do problema.

 

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Eremita às 10:37
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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
Quarta-feira, 04 de Janeiro, 2012

Há uma altura da vida em que o Leonard Cohen começa a soar falso, mais falso do que um robalo de aquacultura, mais falso do que uma Lacoste de feirante, mais falso do que um sorriso de delegado de propaganda médica, um orgasmo de prostituta, o olhar alheado de quem ao nosso lado se peidou no elevador. Um falso com a consciência de que é falso, como a Mle Vinteuil do Prou*st, mas em versão de artesão da fraude.

Dans la réalité, en dehors des cas de sadisme, une fille aurait peut-être des manquements aussi cruels que ceux de Mlle Vinteuil envers la mémoire et les volontés de son père mort, mais elle ne les résumerait pas expressément en un acte d’un symbolisme aussi rudimentaire et aussi naïf [cuspir no retrato do pai morto]; ce que sa conduite aurait de criminel serait plus voilé aux yeux des autres et même à ses yeux à elle qui ferait le mal sans se l’avouer. Mais, au-delà de l’apparence, dans le cœur de Mlle Vinteuil, le mal, au début du moins, ne fut sans doute pas sans mélange. Une sadique comme elle est l’artiste du mal, ce qu’une créature entièrement mauvaise ne pourrait être car le mal ne lui serait pas extérieur, il lui semblerait tout naturel, ne se distinguerait même pas d’elle; et la vertu, la mémoire des morts, la tendresse filiale, comme elle n’en aurait pas le culte, elle ne trouverait pas un plaisir sacrilège à les profaner. Les sadiques de l’espèce de Mlle Vinteuil sont des être si purement sentimentaux, si naturellement vertueux que même le plaisir sensuel leur paraît quelque chose de mauvais, le privilège des méchants. Et quand ils se concèdent à eux-mêmes de s’y livrer un moment, c’est dans la peau des méchants qu’ils tâchent d’entrer et de faire entrer leur complice, de façon à avoir eu un moment l’illusion de s’être évadés de leur âme scrupuleuse et tendre, dans le monde inhumain du plaisir. Et je comprenais combien elle l’eût désiré en voyant combien il lui était impossible d’y réussir. Au moment où elle se voulait si différente de son père, ce qu’elle me rappelait c’était les façons de penser, de dire, du vieux professeur de piano. Bien plus que sa photographie, ce qu’elle profanait, ce qu’elle faisait servir à ses plaisirs mais qui restait entre eux et elle et l’empêchait de les goûter directement, c’était la ressemblance de son visage, les yeux bleus de sa mère à lui qu’il lui avait transmis comme un bijou de famille, ces gestes d’amabilité qui interposaient entre le vice de Mlle Vinteuil et elle une phraséologie, une mentalité qui n’était pas faite pour lui et l’empêchait de le connaître comme quelque chose de très différent des nombreux devoirs de politesse auxquels elle se consacrait d’habitude. Ce n’est pas le mal qui lui donnait l’idée du plaisir, qui lui semblait agréable; c’est le plaisir qui lui semblait malin.Combray II

*Merci bien.

 

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Eremita às 09:02
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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011
Sexta-feira, 30 de Dezembro, 2011

 

 

Cada vez mais, toma-se conhecimento da boutade de Proust sobre a falta de imaginação dos homens que amam as mulheres bonitas como a primeira parte de uma piada recorrente, sempre contada com o entusiasmo de uma trouvaille, em que no remate se lembra que só um homossexual poderia pensar assim. Em tempos idos, esta foi uma boa piada, mas já então a lógica do encadeamento era fraca - e neste pormenor se percebe que o humor não chega para sustentar um pensamento crítico credível, apenas servirá para o decorar. Ora, quem percebe de literatura queer é o Eduardo Pitta, mas arriscaria dizer que, num observador hiperbólico, a orientação homossexual o torna mais capaz de descrever o comportamento amoroso entre homens e mulheres, ainda que o inverso não seja necessariamente verdadeiro. Parte da vantagem não resulta de nunca se vir a ser vítima daquele amor a uma mulher que tende a produzir prosa má, repetitiva e - quando falham as amizades - por vezes até má e repetitiva, porque o homossexual também não está a salvo do desgosto de amor, mas de um efeito de depuração do sentimento de amor no momento da projecção da experiência homossexual no enredo heterossexual. Isto é mais ou menos trivial. A questão é outra: na passagem seguinte, a substituição da tensão sexual  por uma intensa curiosidade, que confere à prosa uma objectividade nos antípodas da norma, é um relato rigoroso das sensações do miúdo na voz do narrador ou, pelo contrário, resulta ainda da sua condição homossexual? Inclino-me para esta possibilidade, como se a homossexualidade associada a uma extraordinária capacidade de dissecar sensações produzisse, na descrição do amor heterossexual, um curioso efeito castrato, isto é, uma combinação da pureza juvenil retida - neste caso, a curiosidade sem mágoa - com o raciocínio de um homem maduro invulgarmente inteligente e perspicaz. E tudo isto com a vantagem de não se cometer qualquer violação da integridade física de inocentes. Viva a literatura. 

Cette fille que je ne voyais que criblée de feuillages, elle était elle-même pour moi comme une plante locale d’une espèce plus élevée seulement que les autres et dont la structure permet d’approcher de plus près qu’en elles, la saveur profonde du pays. Je pouvais d’autant plus facilement le croire (et que les caresses par lesquelles elle m’y ferait parvenir, seraient aussi d’une sorte particulière et dont je n’aurais pas pu connaître le plaisir par une autre qu’elle), que j’étais pour longtemps encore à l’âge où on ne l’a pas encore abstrait ce plaisir de la possession des femmes différentes avec lesquelles on l’a goûté, où on ne l’a pas réduit à une notion générale qui les fait considérer dès lors comme les instruments interchangeables d’un plaisir toujours identique. Il n’existe même pas, isolé, séparé et formulé dans l’esprit, comme le but qu’on poursuit en s’approchant d’une femme, comme la cause du trouble préalable qu’on ressent. A peine y songe-t-on comme à un plaisir qu’on aura; plutôt, on l’appelle son charme à elle; car on ne pense pas à soi, on ne pense qu’à sortir de soi. Obscurément attendu, immanent et caché, il porte seulement à un tel paroxysme au moment où il s’accomplit, les autres plaisirs que nous causent les doux regards, les baisers de celle qui est auprès de nous, qu’il nous apparaît surtout à nous-même comme une sorte de transport de notre reconnaissance pour la bonté de cœur de notre compagne et pour sa touchante prédilection à notre égard que nous mesurons aux bienfaits, au bonheur dont elle nous comble. Combray II

 

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Eremita às 16:20
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Terça-feira, 15 de Novembro de 2011
Terça-feira, 15 de Novembro, 2011

 

Sei que os superiores conhecimentos de Proust sobre música vão aparecer a qualquer momento e até já houve umas ameaças, mas não estava à espera que a sua cultura abarcasse a Zoologia. Convencido de que "myriades de protozoaires" tinha sido um esporádico devaneio, deparei-me ontem com: 

Et comme cet hyménoptère observé par Fabre, la guêpe fouisseuse, qui pour que ses petits après sa mort aient de la viande fraîche à manger, appelle l’anatomie au secours de sa cruauté et, ayant capturé des charançons et des araignées, leur perce avec un savoir et une adresse merveilleux le centre nerveux d’où dépend le mouvement des pattes, mais non les autres fonctions de la vie, de façon que l’insecte paralysé près duquel elle dépose ses oeufs, fournisse aux larves, quand elles écloront un gibier docile, inoffensif, incapable de fuite ou de résistance, mais nullement faisandé, Françoise trouvait pour servir sa volonté permanente de rendre la maison intenable à tout domestique, des ruses si savantes et si impitoyables que, bien des années plus tard, nous apprîmes que si cet été-là nous avions mangé presque tous les jours des asperges, c’était parce que leur odeur donnait à la pauvre fille de cuisine chargée de les éplucher des crises d’asthme d’une telle violence qu’elle fut obligée de finir par s’en aller. Combray II

 

Não consigo imaginar uma forma melhor de escrever esta passagem.

 

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Eremita às 08:56
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Quarta-feira, 27 de Julho de 2011
Quarta-feira, 27 de Julho, 2011

Proust é imensamente aborrecido quando se põe a escrever sobre a tia dependente da pepsina. Por outro lado, as tias colocam desafios insuperáveis ao artista. Veja-se Vargas Llosa, que precisou de se casar com uma antes de escrever o livro.


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Eremita às 11:25
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Domingo, 26 de Junho de 2011
Domingo, 26 de Junho, 2011

 

 

 

J’appuyais tendrement mes joues contre les belles joues de l’oreiller qui,

pleines et fraîches, sont comme les joues de notre enfance.

Du Cotê de Chez Swann

 

Já não é segredo para os leitores do Ouriquense que aderi ao audiolivro, que vejo no audiolivro a única possibilidade de recuperar o tempo perdido, que encontro na escuta -  e sobretudo na escuta obsessivamente reiterada - quase todas as dimensões da leitura e ainda outras, que Lolita lido por Jeremy Irons foi um festival para a mente e os sentidos, que a audição de The Scarlet Letter está a revelar-se uma experiência exasperante e faz já de excepção que confirma, e que fiz uma defesa deste expediente. Em todo o caso, não estava preparado para o que aconteceu enquanto escutava o primeiro CD da Recherche

 

Continua

 

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Eremita às 12:51
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