Sexta-feira, 15 de Março de 2013
Sexta-feira, 15 de Março, 2013

 

 

 

11. Creio que também gosto de farmácias pela feliz extensão do vocabulário que oferecem. Quase todas as palavras que descrevem esse mundo são belas, a começar por "alquimia" e "boticário". Já não há por lá retortas, nem almofarizes, outras duas belas palavras. Gosto de "drageia" - poucos a utilizam. E a palavra "bula" tranquiliza-me tanto que nunca a digo uma vez sem a repetir logo outras duas vezes, com alguma musicalidade. Mas não vem daí o meu fascínio por farmácias. As farmácias são lugares mágicos porque nelas o tempo desacelera. Nunca a farmácia será palco para série de TV de sucesso. O seriado televisivo prefere a esquadra de polícia, o escritório de detective, os tribunais e as urgências de um hospital, porque é aí que encontra as situações de vida ou morte e os conflitos morais mais agudos, em ritmo sempre apressado. Na farmácia estamos um passo atrás ou um passo adiante desses enredos, caminha-se para lá ou de lá se saiu e tudo acontece então a um ritmo de câmara lenta, acordos tácitos, um don't ask, don't tell público que muito me agrada. Certa noite, numa farmácia de serviço, dois heroinómanos que suavam queriam comprar seringas e fizeram-no sem o menor desespero, esperando na fila, não por mérito deles, que suavam mesmo muito, antes imbuídos da dignidade do espaço envolvente, que absorveram por difusão passiva, apesar do fluxo de suor contrário. Naturalmente, o mercado tem vindo a corromper esse espaço cada vez mais e as farmácias estão hoje pejadas de uma publicidade agressiva. Daí ter desejado, quando ia a caminho, ver o rosto familiar de Inés Sastre nos anúncios dos produtos anti-rugas. Teria a Sastre começado os trabalhos de restauro ainda antes de completar 40 anos?


Descobri Inés Sastre na revista ¡Hola! quando era adolescente e nunca mais me voltarei a cruzar ou serei capaz de imaginar uma mulher mais bonita. Fiquei tão acantonado nesse veredicto que, logo desde então, quanto mais megalómano era o título do concurso de beleza, mais irreprimível era o meu gozo. As tais Miss MundoMiss Intergaláctica, Miss UniversoMiss Homo sapiens sapiens of All Times, enfim, todas essas mulheres eram joguetes ao serviço de interesses comerciais e davam mais pena do que tesão. Não que Inés desse tesão. Inés era tão bela e distinta que impedia qualquer aproveitamento onanista. Contemplava as fotos dela demoradamente e cada piscar de olhos meu fazia-me ver uma mulher com a mesma cara mas uma genealogia diferente. Ela era a figura perfeita para vender produtos para outras mulheres. Roupa, perfumes e cosmética, mas nunca um carro desportivo. A Inés viria a escolher a Sorbonne, não foi para Hollywood. E nessa escolha se percebeu que envelheceria com dignidade. Daí a sua previsível evolução para os cremes anti-rugas e a curiosidade com que franqueei a porta da farmácia. 

 

A farmácia de El Granado pertence ao grupo em que o moderno dialoga com a tradição. Falta-me agora outro tipo de vocabulário, o de um decorador ou arquitecto de interiores - é a classe profissional com o discurso mais interessante, sobretudo ao nível do verbo,  por misturar a tensão cómica de uma forma demasiado elaborada para a previsibilidade do conteúdo, a lembrar a conferência de imprensa de um treinador de futebol. Sem tal instinto e formação, limito-me a indicar o tal diálogo de gerações entre um austero móvel - mogno? - de altas portas envidraçadas e cornija bem trabalhada, que ocupa duas paredes, e as prateleiras amplas e brancas, creio que de contraplacado forrado por umas folhas de um material indescritível, mas branco. Atrás do balcão, a farmacêutica, com um ar credível de dona do estabelecimento, e ao seu lado um rapaz muito menos credível, que terá porventura beneficiado de algum nepotismo. Como clientes, uma velhota muito mirrada à frente de todos, que, viria a perceber mais tarde, era escoltada por uma quarentona de grande caixa torácica e ar de lésbica camionista, talvez sua familiar, e uma outra mulher, também idosa mas não tão mirrada, acompanhada por um homem com ar de medíocre e que ela repreendia com autoridade de mãe, tentando explicar-lhe que se tosse em público trazendo a palma da mão à boca. Não cheguei a perceber o que cada um destes casais comprou, pois passei a maior parte do tempo à procura de Inés Sastre. Não a vi nos grandes painéis publicitários, um que mostrava umas nádegas anónimas salvas da celulite e outro com o rosto de um homem de cabelo grisalho e rosto impecável, uma criatura que sabemos ter ainda menos anos do que os que aparenta a figura que pretende representar, a de um homem rejuvenescido com um qualquer produto desse mercado em expansão que é o da estética masculina. Não a vi depois em nenhuma das embalagens que inspeccionei de longe, na certeza de que o seu rosto simétrico, ainda que minúsculo, se destacaria, nem naquelas em que depois peguei, já sem pudor e talvez acusando a ansiedade de quem quer muito alguma coisa, embora pudesse ser a impaciência de quem está apenas farto de esperar. Muito se demoram as velhas nas farmácias. 

 

Saí da farmácia com aspirinas efervescentes de 500 g e com o meu emplastro. Ainda vinha a sorrir por ter corado quando o pedi. Creio que o farmacéutico não notou, como teria notado se fosse um rapaz a pedir preservativos. Mas eu senti o rubor na face e gozei depois essa inside joke, ganhando a cada passada vontade de a partilhar com Lucinha e tentando até que o rubor não desaparecesse antes de chegar à pensão, embora evitasse correr, para que fosse o rubor original; ela foi violada e passou a merecer verdades absolutamente verdadeiras. Quando pedi a chave do quarto, fui informado de que Lucinha tinha feito o checkout, deixando-me um envelope. Encontrei lá dentro o dinheiro que lhe dei para que fosse a uma ginecologista. Abandonado pela nobre Lucinha e ignorado pela distinta Inés Sastre, experimentei então uma súbita vontade de acelerar até San Silvestre de Guzmán e, com dinheiro daquele inesperado bónus, alugar a puta da Consuela até não poder mais.

 




 

 



Eremita às 06:44
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Quarta-feira, 13 de Março de 2013
Quarta-feira, 13 de Março, 2013

 

10.


- Para regressar a Belo Horizonte?

 

Fui eu a dizer-lhe que aproveitasse o acidente para abandonar aquela vida. Não houve ponta de misticismo na minha argumentação. Lucinha é uma mulher inteligente e com estudos - "diferenciada", diz-se. Distingue-se das outras prostitutas da raia que tenho conhecido desde que me mudei para Ourique por ser mais magra, cuidada na gramática e com um leque de expressões faciais complexas a acompanhar o cigarro que fuma depois do sexo, o que faz parecendo uma actriz de cinema, olhando-me de igual para igual ou até ligeiramente de cima, mesmo quando fica nua sobre a cama e eu já estou de braços aprumados assentes no parapeito da janela a aliviar a ligeira impressão na regão lombar que tenho vindo a sentir depois do sexo. Lucinha não tem o misticismo das mulheres muito burras, nem o das mulheres muito inteligentes em crise. Ela sabe que a probabilidade de voltar a ser violada daquela forma é baixa e que continua igual à probabilidade que havia de ser violada antes de se encontrar com aquele homem, a menos que o homem tivesse gostado tanto que tentasse voltar, hipótese que descartou. Lucinha sabe que a sua vida pode continuar como antes e nem sequer precisa de enclausurar aquela lembrança. Mesmo depois de violada e apesar do choro e dos espasmos que lhe crispam os dedos, ela usa a emoção como um combustível para pensar e não como um solvente.

 

- Vai lá, vai. É dor de cabeça.

- Estás com dor de cabeça, Lucinha?

- Sim, dor de cabeça.

- Dor de cabeça mesmo?

- Pára. (risos)

- Vou a correr.

- Isso.  Aproveita e compra um emplastro para você. Pode doer mais tarde. Tive umas ideias.

- Umas ideias?

- Anda, vai. Olha que fico contando os minutos. (sorriso)

 

Lucinha cobra à hora uma taxa fixa e extras que variam em função da natureza do acto. Mas fui a correr porque gosto dela.



Eremita às 07:02
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Domingo, 10 de Março de 2013
Domingo, 10 de Março, 2013

 


9. Lucinha foi falando, só que cada vez menos com palavras e mais com o corpo. Chorou apenas no fim do relato, que parecia vir de duas vozes inconfundíveis. Havia alguém que nela se expressava com grande apego aos pormenores e que, quando estava quase a colocar o traço final no retrato-robô do violador, era substituído por outro relator, mais vago e com tendência para a reflexão, que ia fazendo uns apartes sobre a maldade dos homens - aqui entendida como "a maldade dos gajos", para que não haja equívocos sobre o género em questão. A minha maldade foi ter ficado com dúvidas. Não duvidei do relato dela. Os gajos sempre têm dúvidas. Se são dúvidas sobre o seu desempenho sexual ou sobre a sua paternidade, pouca diferença faz, é ainda a dúvida de um corpo desenhado para ser um simples acessório, completamente indefeso na intimidade, apesar da superior força física, e que fica com o papel secundário, por muito que as convenções sociais estejam desenhadas para que roube a cena. Nunca rouba, é sempre da mulher a frase que se recordará durante muitos anos. Ainda hoje, quando bebe, o judeu me fala de uma americana com quem se cruzou novo, durante a sua diáspora, que um dia abriu a porta de casa e terá dito: Oh, what a surprise... Well, listen: I thought about you, but I haven’t missed you”.

 

Lucinha falava de uma violação e eu pensava na história do judeu. Acariciava-a, mantinha um respeitoso silêncio e por fora era um gajo impecável, ou seja, um "cavalheiro", mas por dentro divagava. A impunidade de gajo interior não era total, vigiava-o uma consciência que, tal como a minha consciência criara o gajo original, o recriava, gerando um novo gajo interior dentro do anterior, numa série a tender para o infinito de consciências encapsuladas umas nas outras e respectivos gajos, como matrioskas que nem num grau subatómico de organização da matéria abandonam o mesmo rosto pintado e que, de tão repetido, não deixa de levantar suspeitas. E logo mais uma dúvida: era mesmo o cepticismo de pendor lógico-dedutivo que me movia ou a dúvida de saber até que ponto não teria criado na série infindável de dúvidas uma manobra de diversão que adiava o confronto com uma dúvida vergonhosa: conseguiria eu foder com a violência daquele homem?



Eremita às 08:53
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Sábado, 9 de Março de 2013
Sábado, 09 de Março, 2013

 

Quem matou Igor? é um folhetim rico em ganchos

e o primeiro policial com "spoiler warning".

 

8. "Confessar" passou a ser dos verbos mais maltratados da nossa língua. É cada vez mais difícil conseguir uma confissão para efeitos legais e há cada vez menos gente nos confessionários, mas abundam as confissões públicas de verdades que nada têm de inconfessáveis. A confissão de Lucinha não entra nesta categoria, pois embora ela nada tivesse feito que seja recriminável, não seria justo descrever o seu desconforto como um simples capricho, nem a sua vergonha como infundada. E quem quiser reduzir o que lhe aconteceu a um acidente de trabalho não tem apenas preconceitos quanto à prostituição, é má pessoa.

 

[Spoiler warning - na edição impressa, o parágrafo seguinte aparecerá invertido]

Violaram Lucinha. Um hipotético advogado de defesa teria argumentado que o comportamento dela foi ambíguo. Os seus gemidos de dor amordaçados na palma de uma mão? Teatro para excitar ainda mais o cliente. As vezes que ela disse "não"? Ainda dúbio, passível de ser interpretado também como um incentivo. As feridas no sexo e no ânus? Nada que pudesse ser imputado ao seu cliente, visto que não foram usados objectos e tudo teria sido resultado de um entusiasmo compreensível durante um confronto de anatomias por infortúnio inconciliáveis. Coisas de advogado, mas até que ponto este indivíduo não habita cada um de nós foi uma pergunta que coloquei enquanto Lucinha ia falando e a outra voz na minha consciência que rebatia esses pensamentos soava irritantemente aguda e feminista.

[fim do aviso]

 

Lucinha possui uma voz bonita, não excessivamente grave. Parte da sua doçura vem das vogais bem pronunciadas e do "tchi" com que remata os advérbios de modo, mas também do rubato e accelerando do seu falar, do modo de crescer e decrescer, suspender uma sílaba tónica e precipitar as restantes como se ouvisse uma harmonia dentro da sua cabeça. Se um músico passasse para o papel o falar de Lucinha, a partitura seria um impromptu. Só naquele dia as palavras foram saindo a custo. Quando se ouve, ajuda já ter algum dia confessado alguma coisa, pois é a única forma de antecipar o que está para vir e evitar cortar a palavra ao interlocutor com um comentário extemporâneo. Se há um fio por onde puxar, é mais prudente deixar que a própria meada se vá desemaranhando.

 

O ritmo do movimento da mão de Lucinha na minha coxa continuou estável. Nos momentos de maior tensão, ela pressionava um pouco mais; a cada achega na sua revelação, encurvava um pouco os dedos e eu voltava a sentir o arado das suas unhas. Lucinha tem umas unhas sobredimensionadas para uma mulher que não deve ultrapassar os 160 cm. Embora carmins, são praticamente uma arma branca que ela sabe usar com destreza durante o coito, chegando a roçá-las nas jugulares do meu pescoço, às vezes numa carícia que acompanha o afluxo de sangue ao cérebro, outras vezes quase como um arranhão em que sinto o poder de seccionar as veias. São artificiais. Lucinha explicou-me um dia que foi a solução encontrada para deixar de roer as unhas e eu fingi que acreditei. Também fingi não reparar na lágrima que ela chorou naquele dia sobre o meu peito. Era já a segunda, mas a primeira tinha ficado suspensa nos pêlos do meu peito e só dei por ela quando discretamente inclinei o olhar para Lucinha, que parecia fixar o candeeiro - em todo o caso, não olhava para mim.

 

O homem enrolou a mão na ponta de um lençol e só depois soltou o tabefe. Fui tudo muito rápido, mas antes de sentir dor já Lucinha tinha percebido que estava na presença de alguém experimentado. Ainda no rés-do-chão, quando se procedia à escolha das raparigas, Lucinha reparara na envergadura do cliente, sem chegar a assustar-se, confiante de que sabia sempre agigantar-se na cama. Nem sequer se assustou quando abriu a porta do quarto e o homem grunhiu; havia inclusive dias em que preferia os estrangeiros que falam línguas estranhas, pois não tinha paciência para fazer conversa de cama com todos e sabia-lhe bem gozar em voz alta com alguns  - isto ela só me viria a contar já depois do fim do relato, no pico de raiva que se lhe seguiu. O tabefe deixou Lucinha impecável por fora e toda amassada por dentro, quase atordoada. Depois de lhe amarrar os pulsos com o seu cinto e de lhe explicar, sobretudo em mímica, que se ela gritasse apanharia mais porrada a punho nu e cerrado, o homem fez dela o que quis.



Eremita às 06:01
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Quinta-feira, 7 de Março de 2013
Quinta-feira, 07 de Março, 2013

 

 


7. Vini, vidi, vici e fui-me depois dando conta do espaço, das imperfeições do verniz da madeira da porta, do tecto falso da antecâmara onde nos encontrávamos e do seu chão de linóleo, a terminar numa tira de metal na transição para o soalho flutuante que cobria a parte ampla do quarto, de pé-direito mais alto. Não via o quarto inteiro. No meu enfiamento estava o tocador, com um daqueles candeeiros de mesa, já sem abat-jour, que mimetizam velas com o detalhe das gotas de cera fundida, e cuja silhueta se destavava quase a contraluz do fundo de cortinados azuis recolhidos e de cortinas de étamine a filtrar a luz da metade da janela com a portada de venezianas aberta; para a direita, a colcha estampada com um rodapé de folhos sobre uma cama que só via pela metade; mais perto, quase tão perto como Lucinha, só que ao nível dos ombros, ainda na parede da antecâmara que não fica escondida quando se abre a porta, reparei pela primeira vez na imagem do Cristo de braços abertos e coração à mostra, como que fotografado de topo quando num bloco operatório é momentaneamente  abandonado pelo cirurgião ao conforto de uma anestesia geral que tornava menos inquisitórios os seus olhos azuis.

 

Veio a seguir o tempo, primeiro pontuado pelo barulho da rua, e depois pelas vozes das mulheres que andavam a limpar os quartos e dominavam o corredor. Mas só regressei ao quotidiano com as sensações tácteis: o frio do puxador da porta trespassando a camisa, a tocar-me entre o lombo e as nádegas, as unhas de Lucinha pousadas na barriga das minhas pernas, os meus dedos brincando com a argola no lóbulo superior da sua orelha direita, o seu traço distintivo mais óbvio entre as mulheres do bordel. Foi então que ela disse: “desculpa”.

 

Já deitados sem desmanchar a colcha, com ela descansando no meu peito como se estivesse cansada e fazendo festas ao longo do meu braço que seguiam um ritmo constante, alheio às hesitações do seu discurso, Lucinha contou-me, após um demorado preâmbulo e várias digressões, parecendo querer evitar o fim do relato, o motivo que a levara a violar a nossa regra.


 

 




Eremita às 09:00
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Quinta-feira, 07 de Março, 2013

 


6. O primeiro incidente do dia em que me daria conta de que Igor estava morto foi uma felação. Subimos para o quarto como sempre e só agora, mas trazendo para a análise retrospectiva impressões que vão sobretudo no embalo da história emergente, me convenço de que houve na saudação um tempo desasjustado ou uma expressão errada. Uma vez trancados, Lucinha não se dirigiu para o tocador, logo me encostou contra a porta, pressionando as suas magras coxas contra as minhas pernas, para depois desapertar as minhas calças, sentir-me sem sorrir e pela primeira vez descer sobre mim.

 

Lucinha sempre me beijou sem inibições. A ideia de que as prostitutas de algum modo se reservam para quem amam não pode ser absolutamente verdadeira e, pela minha experiência em Espanha, diria tratar-se de marketing que serviu para inflacionar o beijo na boca. Para Lucinha não há interditos, há um tarifário. Quem impôs restrições fui eu. O sexo oral sempre estivera fora de questão e não apenas por causa da higiene. Ao contrário do que os jovens pensam, a felação é a mais íntima das práticas sexuais, por ser a menos anónima. Em nenhuma outra circunstância, sexual ou não, contemplar um rosto contribui mais para o prazer. A imagem potencia a sensação de que, por uns instantes, se ocupa o centro do Universo. Por um feliz acaso, o pénis encontra-se também a uma distância dos olhos que torna a sua observação confortável e de grande acuidade, sendo possível reparar em todos os pormenores sem qualquer necessidade de abrir apenas o melhor olho, semicerrar os dois ou tentar qualquer outro movimento muscular inútil mas que traduza um impulso para mexer no plano de focagem ou tentar um zoom. É como se em cada corpo existisse o estaminé de um grande pornógrafo.

 

Evitar ser exposto ao rosto de Lucinha sobre mim era fundamental para não causar grande alvoroço numa memória em que essas imagens coabitam ignorando-se mutuamente, com um autismo tácito que só é igualado por jornais concorrentes e outro tipo de imprensa congénere que lute pelo mesmo público.  A entrada de Lucinha, um rosto belíssimo e uma mulher seguramente capaz por formação profissional, iria abrir uma brecha, justamente por a experiência resultar de uma transacção comercial, onde esta omertà alimentada por dois difusos sentimentos – a minha honra e o respeito por terceiros – deixa de fazer sentido, passando a contar mais a banal apreciação de desempenho. Receava então que, tentando salvar ainda a honra e o respeito, viesse a fazer comparações aos pares, fulana com Lucinha, sicrana com Lucinha, beltrana com Lucinha, talvez já não muito respeituosas embora ainda toleráveis,  mas que a partir daí, caindo no abismo cognitivo da transitividade lógica, fosse levado a comparar sicrana com beltrana e fulana, bem como beltrana com fulana, por ter em Lucinha um padrão.

 

Como a disciplina a que me imponho em Ourique havia sido cumprida naquela semana, chegara incapaz de negar uma tentação e não opus qualquer resistência, apenas lhe fiz festas na cabeça e desviei as suas madeixas. Só no fim comecei a lembrar-me do que agora relato. O que se sente por alguém emerge depois do sexo, que nos vai progressivamente prendendo à nossa condição animal enquanto dura, para de repente nos libertar num vazio que o – digamos – amor ajuda a planar. Este fenómeno transforma o sexo com prostitutas num desporto de risco. Por isso, temi que a felação de Lucinha me batesse muito mal e só a tristeza dela me salvou da ressaca violenta, que só recuperaria já dentro do carro, pois diante da infelicidade dos outros qualquer um se supera.



Eremita às 07:02
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Terça-feira, 5 de Março de 2013
Terça-feira, 05 de Março, 2013

 

 

5. O pouco que julgo saber sobre Lucinha foi sendo aprendido entre dois orgasmos. Este balizamento descreve bem a minha rotina com a brasileira. Subimos para o quarto com um cumprimento de circunstância, ela fecha a porta, começa a despir-se e olha para mim através do espelho do tocador, oferecendo-me depois o rabo e logo o cu. O primeiro acto costuma ser muito rápido, pois deixei de me masturbar em Ourique, e não há dúvida de que sou o único a ter prazer genuíno. Só por isso, comecei a respeitar Lucinha logo à primeira penetração. Consuela, a colombiana de Villanueva de los Castillejos, não é a antítese de Lucinha porque a vida ultrapassa a literatura, mas sei que jamais poderei acreditar no espalhafato da sua litania de coito, quando invoca o Senhor e diversos santos num crescendo demasiado sincronizado com o meu para que seja verdadeiro. Se Consuela não tivesse boas mamas, boa peida e boas coxas, jamais perderia tempo em San Silvestre de Guzmán  - e acresce que é feia. Já Lucinha - aliás, Luciana – tem o encanto da discreta mestiçagem entre estirpes europeias: um amendoado nos olhos que não vem da Amazónia, antes é herança das estepes russas, num rosto que mistura ainda sangue alemão e italiano sem parecer suíço. Praticamente destituída de peito, Lucinha aplica ao segundo acto sexual uma inteligência sexual surpreendente num prostíbulo de terceira categoria e até rara de encontrar entre as classes média e média-alta, tanto quanto me posso recordar. É no intervalo que separa esses dois actos, enquanto eu recupero a competência, que falamos longamente sobre ela: a sua infância, a sua chegada a El Granado e a sua condição laboral.



Eremita às 06:43
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Segunda-feira, 4 de Março de 2013
Segunda-feira, 04 de Março, 2013

 

 

 

4. O desconforto que sinto por frequentar prostitutas não será original, mas julgo ter chegado a uma solução minimamente satisfatória, que pelo menos me permite dar o dinheiro por bem gasto. Se nada disto se faz sem um preço, passei a conseguir antecipar todas as mudanças de humor durante esta viagem, quase ao ponto de saber a que quilómetro me vou sentir melhor e a que quilómetro regressa a melancolia. O truque que uso é criar um dilema, não verdadeiramente do tipo moral, mas capaz de funcionar como uma manobra de diversão para a consciência, pois a seguir excluo-me do processo de decisão, ficando à mercê da sorte. Nunca uso moedas, embora a moeda fosse indicada para uma decisão dicotómica, porque gosto de juntar à desresponsabilização de uma escolha aleatória um rosto capaz de ser culpabilizado. Esta combinação de efeitos é muito poderosa e tendo ainda a variar o protocolo, o que me ocupa a cabeça em raciocínios e me faz gozar a amoralidade que se experimenta na perseguição de um estilo. Por exemplo, na semana passada, se a primeira pessoa a dobrar a esquina fosse uma mulher, iria para a esquerda; se fosse homem, para a direita. A este esquema básico por vezes associo algum risco: se a primeira pessoa a dobrar a esquina empurrasse um carrinho de bebé, regressaria a Ourique. Num desses jogos, há já uns meses, arrisquei, perdi e voltei mesmo para trás, apesar de possuído pelo desejo; nessa noite, jantei com o Judeu e conversei como um vencedor.

Desta última vez, parei numa praça junto da igreja, diante de um chafariz que beneficia da sombra de uma das duas palmeiras, decidido a ir para El Granado se a primeira mulher que fosse ali beber vestisse saias e para Villanueva de los Castillejos se viesse de calças, desprezando mulheres de calções, jardineiras e toalhas ou lenços a camuflar o rabo. A estrada para El Granado é pior, mas a brasileira compensa em ternura quando comparada com a colombiana.



Eremita às 02:04
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2013
Domingo, 24 de Fevereiro, 2013

 

3. Começou como todas as manhãs dos dias em que vou até aos prostíbulos. Combinei de véspera com o Judeu, que me deu as chaves do Citroën para que eu pudesse visitar um amigo. Não creio que o Judeu acredite nesta mentira, mas este é um assunto que não faz parte das nossas discussões. E não adianta tentar reconhecer neste pudor uma consciência judaico-cristã, nem sequer uma repartida em duas cabeças, é mesmo desinteresse da parte dele, que em alguma altura resolveu o problema da libido. Saí em direcção a Castro Verde. Depois iria passar por Mértola, entrar em Espanha e, diante de uma encruzilhada,  escolher um dos dois prostíbulos que frequento, demorando-me sempre com requintes de ritual: a colombiana ou a brasileira? Encontro nesta multiplicação geo-cultural da distância algum conforto. What happens in Vegas stays in Vegas e um pecado para lá da fronteira com uma imigrante é ainda menos pecaminoso - o que antes valia para o roubo de uma bisnaga de leite condensado, vale hoje para apaziguar a minha traição.

 

Como na semana anterior, voltei a cruzar-me com um pequeno bando de abetardas. Foi já depois de passar Castro Verde, numa seara aberta. Se não sou de ver mensagens na simples repetição de um evento raro, desta vez o meu sorriso foi mais tranquilo e quase uma recordação do sorriso da semana anterior. Quem nunca presenciou o voo da abetarda não pode fazer ideia e não há uma metáfora certa que capte tal instante, embora me lembre recorrentemente de "bombardeiros bêbados" e, por vezes, de “bêbados bombardeiros”, que é ligeiramente mais musical. Enfim, não me vou fazer passar por Félix Rodríguez de la Fuente num dia em que fui às putas. A verdade é que nada mais houve a assinalar até chegar perto de Mértola.

 

Não é o caminho mais rápido para chegar a Espanha, mas se Castro Verde me desperta pela irritação, gostaria de morrer sem alguma vez ter pisado Almodôvar, apenas por capricho, como se houvesse duas formas de integrar um lugar na nossa existência: a convencional, que passa por visitá-lo, e a menos ortodoxa, que passaria por conhecê-lo pela sua silhueta, isto é, visitando tudo em seu redor sem nunca lá entrar. Só por isso passo por Mértola, lugar que já conheço e onde comi a minha primeira sopa de cação, sempre com o curiosidade de saber como teria o peixe chegado do mar até ali. Mértola é uma vila sobrevalorizada, sem a nobreza da banalidade de Ourique, que nunca teve pretensões, apesar da ambição compreensível dos seus autarcas, e que – segundo consta – só figurou no livro As Mais Belas Vilas e Aldeias de Portugal por especial favor.

 

De Mértola a Castro Marim levo uma hora de viagem, para sul. Castro Marim é a vila de onde vem metade do património genético do guitarrista Paco de Lucia (de Lúcia) e sinto sempre uma emoção especial quando por lá passo, que no caminho é quase uma vergonha e no regresso é já uma redenção.

 

Entro depois em Espanha e ganho latitude até à San Silvestre de Guzmán. É sempre aí que decido que caminho tomar e quase sempre deixo a sorte decidir, embora me recuse a atirar uma moeda ao ar.

 



Eremita às 07:02
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Sábado, 23 de Fevereiro de 2013
Sábado, 23 de Fevereiro, 2013

 

 

2. Igor [junte o apelido que melhor funcionar como auxiliar de leitura] nasceu na Ucrânia e chegou a Ourique em Julho de 2008, na companhia de Tatiana, uma empregada no Pingo Doce da vila; tudo o que se disser sobre a sua infância e adolescência é pura invenção. Foi também por essa altura que me instalei aqui e me apaixonei por Tatiana, apesar de ela apenas me ter dado troco em moedas. Matar Igor foi um desejo repentino mas persistente, que assegurou parte da tensão criativa do Ouriquense. A corpulência de Igor, homem para 95 Kg e pelo menos 1,93 (eu tenho 76 Kg e 1,81 m), desaconselhava qualquer plano que implicasse coragem física, mas sentia-me estirado pelo instinto de sobrevivência e a obrigação de honrar a deontologia não escrita do crime premeditado. Como Igor era também pouco inteligente e feio, além de alcoólico, temia descobrir algum eugenismo, ou xenofobia, ou simples desprezo, associado ao móbil do seu assassínio. E seria o amor por Tatiana, a causa última da pulsão assassina, suficiente para resistir ao remorso, tendo em conta a volatilidade das paixões? Este multifacetado dilema moral, de resto formalmente irresolúvel, remonta a Agosto de 2008, pouco tempo depois de o ter visto no espectáculo itinerante de magia de Maik e Rosy, e não me impediu de ter ideias, embora a imaginação tivesse ficado praticamente tolhida com o nascimento de Anatolyi, filho de Tatiana e Igor.

 

 



Eremita às 07:43
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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013
Quarta-feira, 20 de Fevereiro, 2013

 

 

 

Folhetim rico em ganchos, sexo explícito e xenofobia

 

[parental advisory]

 

[Spoiler warning - o primeiro policial com "spoiler warning"]

 

1. Um cidadão ilegal vem com uma mais-valia: a verosimilhança do relato da sua morte, na ausência de um corpo. É uma vantagem que não beneficia apenas os escritores; o Estado também ganha, porque entende o enigma da morte de um ilegal como uma solução para um problema que nunca chegou a formular. Isto, se não tem expressão nos indicadores de melhoria de desempenho, sempre se traduz num difuso e subtil aumento do bem-estar que alastra vertical e horizontalmente a toda a hierarquia e ramificações do funcionalismo público. "Morreu um ilegal? Não digas mais nada, deixemo-lo*. Morreu como viveu". Assim foi com Igor.

 

A morte de Igor não chegou sequer a ser sentida pela população da vila de Ourique. Se perguntarem por lá quem foi Igor, não obterão reposta. Os ouriquenses não são mais xenófobos do que a restante população portuguesa, só que em cada cidadão mora um burocrata. Uma morte trágica reabilita qualquer patife, que passa a ser recordado com alguma saudade, mas só acentua a condição de ilegalidade do ilegal, que pode ser definitivamente esquecido. Ou, para lembrar um desabafo de Chibanga, que chegou a partilhar pacotes de alcagoitas com Igor em algumas tardes de tédio, "faz-se hoje mais barulho por um touro do que por um ilegal". Serve então este relato para recuperar alguma desta honra de que desistimos colectivamente. Não pretendo prestar uma homenagem póstuma a Igor, que continuo a ver como uma besta e um idiota. Alás, eu queria matar Igor e continuaria a alimentar esse desejo se ele ainda estivesse vivo, embora agora pense sobretudo em matar quem matou Igor; temo até transformar-me no primeiro serial killer em pensamento, caso venha a descobrir o assassino de Igor e outro assassino por identificar se antecipe a mim, forçando-me a transferir o meu desejo de matança - e assim sucessivamente.

 


 



Eremita às 11:06
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Terça-feira, 10 de Maio de 2011
Terça-feira, 10 de Maio, 2011

 

Quem matou Igor? é um Folhetim rico em ganchos

e o primeiro policial com "spoiler warning

 

13. Não sei que impacto nos sansilvestreros terá tido o baloiçar de ancas em público de Consuela. O prostítulo não fica na periferia do ayuntamiento, está inclusive muito perto da igreja. Por fora parece uma casa normal, só que numa povoação com aquelas dimensões seria impossível não se reparar no afluxo de clientes e nas seis colombianas. Consuela não é a mais procurada pelos locais, talvez por ser a mais espalhafatosa e os homens temerem que ela os desmascare no supermercado com um comentário brejeiro. Quanto ao impacto de Consuela na economia local, creio que não deve ser desprezível - lembrei-me disso enquanto almoçava sozinho num restaurante da vila. Ela atrai turismo a um lugarejo que o ninho de cegonhas no campanário não consegue tornar distintivamente pitoresco. Mas com estas perturbações sociais não vale a pena perder tempo, pois todos nos lembramos de Asa Branca e das mães de Bragança.

 

Quando entrei no prostíbulo, ainda estava frustrado com Lucinha, zangado com o Judeu e admirado por ter feito o caminho para San Silvestre de Gúzman desabafando com o Citroën. O carro do Judeu pertenceu ao meu avô. Não sei por quantos outros donos terá passado. O avô morreu nos anos oitenta e eu conheci o Judeu em 2008. Preferi nunca lhe dizer nada pois haveria o risco de ele me interpretar mal. Um negócio é um negócio e eu nem tive grande contacto com o carro ou sequer com o meu avô. Mas é verdade que experimento uma vaga sensação de posse. Não sei se há um termo para isto, é como que o equivalente da usucapião para os assuntos da memória. O Citroën  entrou na minha cabeça antes de chegar à do judeu, o que estabelece uma precedência, e terei depois recordado o carro as vezes suficientes para poder dizer que fiz uso dessa memória. Atendendo aos preços baixos que se praticam no mercado dos automóveis e ciclomotores em terceiríssima mão, e ainda à travessia do deserto que precede o vintage, é natural que a altercação com o judeu tivesse aguçado a minha sensação de posse.

 

Consuela saltou do sofá com um entusiasmo infantil, embora seja maior de idade. Na nossa primeira noite, escrevi-lhe um poema enquanto ela dormia. A inibição para a poesia costuma chegar na mesma altura em que chega a descrença em certas emoções. Daí eu ter guardado os meus versos para a menor das musas, como um ourives em crise que já só aceita trabalhar o latão. Seria incapaz de escrever um poema a Lucinha, porque ela é muito inteligente, e seria incapaz de escrever a Tatiana, porque estou apaixonado por ela.

 

Sinto nas tuas coxas, Consuela

Um conforto que é quase de poltrona

 

(excerto)

 

A grande diferença entre Consuela e Lucinha acontece no pós-coito. Enquanto a colombiana é carinhosa e pede que me encoste a ela pelas costas, em spooning, a brasileira não me toca e levanta-se quase de imediato. Só que Consuela foge com o rosto e Lucinha desafia-me com um olhar que acusa alguma superioridade. Ou então os seus olhos espelham a minha inferioridade.

 

Continua

 

Continua

 




Eremita às 09:23
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Domingo, 5 de Setembro de 2010
Domingo, 05 de Setembro, 2010


 

Tenho usado diferentes manchas de sangue para ilustrar cada entrada desta série, mas doravante a imagem será esta, em versão miniaturizada:

 

 


A acreditar na fonte, trata-se de uma mancha de sangue de um empresário, mas aqui representa o sangue de um outro indivíduo. As imagens anteriores são demasiado estilizadas e a recorrente busca nos minutos que antecedem a escrita do texto obriga-me a percorrer sites de cultos satânicos, páginas de fãs de séries de vampiros e outros lugares invariavelmente anglo-saxónicos, distraindo-me do iberismo que deve guiar Quem Matou Igor? Num momento de alguma loucura, cheguei a pensar em degolar uma galinha e andar a fazer de Pollock nas paredes em ruína do monte, para produzir manchas de sangue originais, mas lembrei-me depois que a honestidade na literatura não passa pelos gestos de grande espectacularidade da arte conceptual. Voltemos pois a Espanha.



Eremita às 10:28
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Sábado, 4 de Setembro de 2010
Sábado, 04 de Setembro, 2010

 

 

 

Quem matou Igor? é um Folhetim rico em ganchos

e o primeiro policial com "spoiler warning


12. Na encruzilhada para San Silvestre de Guzmán resolvi telefonar ao Judeu, pois daí em diante a quilometragem a que sujeitaria o Citroën iria disparar - se é estereótipo não tenho culpa, o Judeu aponta mesmo os quilómetros antes e depois de eu lhe entregar o carro. Nunca me cobrou por isso, mas tal hábito causa-me algum desconforto.
- ´Tou, Judeu?
-  Com quem quer falar? O Judeu é meio surdo
- Judeu?! Sou eu.
- Ah, tiveste um acidente?
- Não.
- É que nunca telefonaste antes. Estás em Ourique?
- Ando por aí. Olha, preciso de um favor teu.
- Diz lá.
- Posso ficar com o carro até amanhã? Surgiram uns imprevistos.
- Mas o que é que se passa?
- Precisas do carro hoje?
- Nunca se sabe. Talvez. Mas o que é que se passa?
- Não é nada de grave. Não fazes um favor ao teu amigo?
- A quem?
- A mim, Judeu.
- ...
- Não somos amigos?
- ...
- Judeu?
- Não sei.
- Não sabes? Se me emprestas o carro até amanhã?
- Não, isso sei que não empresto. Mas o que é que se passa?
- Não somos amigos? Eu sou teu amigo, Judeu.
- Não sei se somos, não há critério.
- Não há o quê?
- Critério. Ou melhor, não posso saber se sou teu amigo. Não tens nada que me interesse.
- Tiveste maus resultados com o baloiço e por isso está assim, não?
- Não, tive até o melhor tempo de sempre. Entro devagar na eternidade...
- Eu faço vigílias a olhar para a merda do baloiço a oscilar e não me consideras teu amigo?
- Não sei. Tu não tens vida. Não te acontece nada, como saber se sou teu amigo?
- Bebeste?
- Só há uma forma de saber se alguém é meu amigo.
- Queres uma prova de amizade? Ao telefone?
- Não tens de fazer nada por mim. Seria melhor que fizesses algo por ti.
- Porra, Judeu, deixa de falar por enigmas. Pergunta o que quiseres, anda.
- Não é fazendo perguntas que saberei se sou teu amigo.
- Eu nunca te menti, Judeu.
- Mas desde quando a honestidade é esclarecedora?
- Estou a ficar sem bateria, despacha-te.
- Traz o carro. Onde é que estás?
- Só até amanhã. Eu sou teu amigo, Judeu.
- Provavelmente nunca pensaste nisso. Qual é o teu critério para me veres como um amigo?
- Temos empatia, não?
- É isso? A amizade é a empatia?
- Judeu, diz que sim. Deixa-me ficar com o carro até amanhã. Encho-te o depósito.
- Já ca faltava o anti-semitismo.
- Encho o depósito porque te respeito.
- E sou Judeu.
- Porra, não faças isso.
- Está bem.
- Posso então ficar com o carro?
- Não. Deixo apenas de fazer de judeu.
- Vai acabar a chamada.
- Mas já conversámos tudo...
- Diz-me que és meu amigo.
- Não posso. Falta o teste.
- Que teste?
- É preciso que conquistes algo que eu também deseje.
- Para quê?
- Para eu saber se senti mais alegria do que inveja. Desses serei amigo. Dos outros, não.
- Aprendeste isso sozinho?
- Sim, é da minha experiência.
- Mas queres o quê? Que eu invente uma máquina de movimento perpétuo melhor do que a tua?
- Por exemplo, mas deves pensar num exemplo exequível. Até ver, traz o carro, sim?
- Não sou teu amigo. Não sou teu amigo.
- Não aceitas a dúvida? Tens de saber viver na incerteza. Anda, falamos mais logo. Traz o carro.
- Está mesmo a acabar.
- Trazes o carro?
- A incerteza, meu cabrão. Tens de aprender a viver na incert...
Acelerei para San Silvestre de Guzmán disposto a passar o serão e a manhã seguinte com Consuela. Lembrei-me até de rebater os assentos dianteiros e de a trazer para dentro do Citroën, que tem a manete das mudanças junto ao guiador... Critério para a amizade. Ninguém atura aquele homem.



Eremita às 21:15
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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010
Sexta-feira, 03 de Setembro, 2010

 




 

Prometo não abusar destes making of de Quem matou Igor?, mas a enorme dificuldade que tenho sinto em descrever espaços deve ser assinalada. A culpa só pode ser da televisão. Antes da televisão, o texto precisava de transmitir tudo e dessa necessidade nasceram as grandes descrições - Os Maias, etc. Isso eu já sabia e provavelmente todos sabemos. O que eu não sabia, apesar do ditado, é que essa necessidade nem sempre cria esse engenho. Primeiro, porque necessidades genuínas há poucas; depois, porque é cada vez mais difícil adquirir aptidões novas, pois  geralmente vamos apenas apurando o que se salvou da infância e adolescência.  Quem matou Igor? será também a aprendizagem possível do acto de descrever - não é um disclaimer, é só um aviso (para os quatro fiéis leitores que acompanham as minhas aventuras por Espanha).

 

Vamos em 11 entradas (os making of não contam). Depois de Inés Sastre, creio que será inevitável esbarrar com Emilio Butragueño, Felipe González, Tomatito, Lluís Llach, Carmen Maura e Victoria April, entre outros*. Evitarei o Verano Azul enquanto me for fisicamente possível. Falar do Verano Azul é um truque fácil, quase pornográfico, o que não deve ser confundido com fantasias envolvendo a personagem Bea e remete antes para a ideia de que "a nostalgia é a nova pornografia".

 

* Eduardo Pitta é grande adepto de organizar nomes por ordem de nascimento. Eu prefiro a organização pela ordem de chegada à memória, que só os menos atentos interpretarão como preguiça. Este método  - é um método, que passo a designar por enumeração automática - cria um gradiente de importância decrescente, o que é uma opinião que não se enuncia explicitamente.

 




Eremita às 08:48
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Sábado, 28 de Agosto de 2010
Sábado, 28 de Agosto, 2010

 

A série Quem Matou Igor? cumpriu o período de estágio com aproveitamento e chegará às 115 entradas antes de Julho de 2011. Até lá teremos visitado (não necessariamente por esta ordem): El Granado, Villanueva de los Castillejos, Madrid, Barcelona, San Sebastián, Burgos, Córdoba e Sevilla, entre outras cidades e pueblos do país vizinho. O Ouriquense assume-se como um espaço ibérico, apesar da xenofobia e ódio que se encontrará em Quem matou Igor?, folhetim que não perderá uma oportunidade para denegrir a indústria espanhola de panificação.

 

Haverá flamenco, touros, Gonzalo Torrente Ballester, mulheres narigudas, Camilo José Cela, uma mulher louca que jura ter dormido com Juan Carlos e guarda um pêlo púbico que diz pertencer ao monarca, fantasias oníricas com bisnagas de leite condensado, e um rasto de sangue que ninguém sabe muito bem a quem pertence mas que podemos entender como a materialização de um fio condutor.

 

É claro que assim se prova que minha ética de trabalho e ética como artista são incentivos muito menos seguros do que o desejo primário de não perder uma aposta. Se perder, farei um donativo de 2000 euros à Sociedade Protectora dos Animais*. Se ganhar, ficarei muito feliz. Ninguém sai a perder, é uma win-win situation para a humanidade.

* A aposta não me obriga a visitar todas as cidades que referi. Cada entrada terá pelo menos 300 palavras.



Eremita às 16:53
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