Quarta-feira, 31 de Outubro de 2012
Quarta-feira, 31 de Outubro, 2012

Cansaço

De quem lava o suor suando uma vez mais



Eremita às 07:40
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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2012
Quarta-feira, 24 de Outubro, 2012

A cada trinta gasto um

Não sei que lastro se acumula dia a dia
É como a erosão das noites nas manhãs
A poeira que à tarde se acrescenta ao chão
Veio hoje um desses dias, a prumo no fulcro

Chegam mais pontuais que as regras à mulher

 

A cada trinta paro e nada, nada faço
Não chega a ser conserto, é só uma afinação
Um modo de ajustar o sonhado ao possível
Bem a salvo do inverso que dá em loucura

Mas nada, nada, nada faço para que fique
O valor corrigido, este saldo aprovado

Ajuste que me anima logo pela manhã



Eremita às 07:09
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Quarta-feira, 17 de Outubro de 2012
Quarta-feira, 17 de Outubro, 2012

Não valia a pena prolongar uma zanga com o rapaz do cineclube. Cruzámo-nos na rua, murmurámos qualquer coisa ininteligível e  demos um abraço. Depois entrámos no café e foi já sentados que ele prometeu que não voltaria a plagiar-me. Bastou-me, na medida em que consegui imaginar-me a perdoá-lo se me a plagiar outra vez. Ainda ouvi o poema que ele escreveu no momento sobre o nosso reencontro.

Amigos destes não podem partir à chuva

Amigos destes não podem partir à chuva
Abusar das promessas, esboçar encontros
Futuros na reserva em que nunca se toca

As palavras não saem, só o abraço assim 
Um segundo mais curto e dois fora de tempo




Eremita às 12:54
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Quarta-feira, 17 de Outubro, 2012

 O poema que o rapaz recitou esta tarde é meu. A princípio, ele não deu o braço a torcer; mais tarde, chorou. Não foi difícil fazer prova e até usei o telefone celular, muito adequado para convencer os jovens. O cabrãozinho mudou o nome ao poema, saiu-lhe curto o rasgo criativo. Quando acabou de chorar, perguntei-lhe se alguma vez o foram esperar a uma estação ferroviária. Então ele disse-me que jamais tinha andado de comboio. Fiquei a pensar no empobrecimento de biografia que foi ir, em apenas três gerações, da experiência do Ultramar à da internet, passando pelo InterRail. Pobres miúdos. O título é dele, relembro, mas o poema é meu. 

 

Gare

Na Gare de L´Est regressei ao útero
Não o das arcadas, dos espaços resguardados
E princípio de um fim ou não, carris são carris
Regressei ao útero, pontualmente
O que se espera da ferrovia gaulesa
Mas não de todas as mães. 



Eremita às 05:56
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Terça-feira, 16 de Outubro de 2012
Terça-feira, 16 de Outubro, 2012

Desta vez foi ao almoço. O Judeu diz que a culpa é minha, diz que o incentivei. Discutimos depois se é legítimo reciclar a prosa de amor. O Judeu é a favor, porque, tal como o estado febril pode ter muitas causas, mas é bem descrito pelo aumento da temperatura do corpo, também o enamoramento é um estado que podemos descrever independentemente do amante. A tese não me pareceu má, mas o Judeu pareceu-me demasiado radical quando disse que o autor do poema não está obrigado a revelar ao seu novo amor que o poema foi escrito para outra pessoa. O rapaz seguiu a nossa conversa com um rosto de grande perplexidade. Creio que só amou uma vez na vida. 

 

Azul

Porto onde se chega 
A gritar mar à vista 
Imagem partilhada 
Com o escultor anónimo 
A figura de proa 
O mármore à chuva no jardim 
As texturas inventadas 
Há uma gota a escorrer 
Mas é de carne 
O rego por onde vai 
E este corpo já não é meu 
Se há uma cor que te diga 
Eu digo azul 
No reflexo de um corvo 
Que depois das tangentes 
Foge a sete asas 
E semeia o Douro 
Por caminhos inadiáveis 
Voa sem os segredos 
Que largou como lastro 
Vai com confidências 
Que aceita como um destino 
Muito além da razão 
Foi o meu corpo 
Traiu-se sem traidor 
Furta-se agora ao rio 
Ganha o mar e o deserto 
O horizonte em círculo 
Esse truque fácil 
De não sair do lugar 
A patriótica vocação 
O abandono existencialista 
E a vida corre ao lado 
Não se pára o curso de um rio 
Com as palmas da mão 
Não se troca de foz 
Com as voltas na cama 
Não cabe um oceano 
Nas palavras de um conto 
Há algo de trágico 
Neste mergulho em apneia 
Descubro-te em braçadas 
Acima é à tona d’água 
E ainda digo azul.

 

 



Eremita às 12:19
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Terça-feira, 16 de Outubro, 2012

Esta madrugada vimos Sol Enganador. Depois o rapaz partilhou alguns dos seus trabalhos sobre o Alentejo e disse-lhe que ele abusa das virtudes fonéticas de "ceifeira-debulhadora". Retive um outro poema, sobre o tempo. Tempo, mulheres e ceifeiras-debulhadoras, eis o universo poético do rapaz.

  

 

Do tempo suspenso

Um ponteiro das horas ao abandono
Sem roda dentada 
Os minutos em ferrugem 
Um peso que não se toca 
Um segundo vai 
E o segundo volta 
Sabes, 
Via sempre a mesma sombra 
No corpo em movimento 
Uma sombra parada 
Que não se parecia com nada 
O céu dava ares de fotografia 
Uma imagem sem retoques 
A eterna alvorada, 
E vinha o padeiro 
Depois o carteiro 
Mas sobrava sempre a mesma sombra 
No corpo em movimento 
Era como se o tempo trespassasse 
Sem deixar ferida 
Um qualquer truque de ilusionismo 
Sem verbo, nem nada 



Eremita às 04:19
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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2012
Segunda-feira, 15 de Outubro, 2012

O rapaz do cineclube ainda não tem idade para desistir de escrever poesia. Quando o filme não é de acção, improvisamos umas tertúlias que começam ainda com o genérico final a correr. Por vezes, acompanho-o à guitarra. Mas o mais frequente é o rapaz declamar a cappella e de cor. Da noite de ontem, só gostei deste poema. Nunca pensei que o puto escrevesse assim e fiz questão de partilhar a minha surpresa. Também pensei que ele ainda seria virgem, mas nada disse. 

A pernoita

Emendamos os corpos nas sombras do quarto
Troco órgãos por sentidos e ouves ao ouvido
Síncrono o peito não nega só que não cede
Não te tenho na mão, decoro-te nos dedos
Mas o tremor que se converte em riso, o que é?
Perfeitos na metade de quem não se entrega
Será noite outra vez e aqui estarei de novo
No quarto nu está mal corrida a persiana



Eremita às 14:13
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