Quarta-feira, 20 de Julho de 2011
Quarta-feira, 20 de Julho, 2011

Nunca entrei na cave do Judeu. Ele diz-me que é para não ter naquele espaço associações ao quotidiano. Disse-me ainda que as paredes, o tecto e o chão estão revestidos por uma malha metálica, que transforma a cave numa gaiola de Faraday, e que não tem internet lá dentro, nem televisão, nem telefone. A divisão é espaçosa, deve ter mais de 80 m2, e nela existem quatro secretárias, cada uma com a sua própria desarrumação. - uma ideia que roubou ao explorador inglês Richard Francis Burton. Pela noite dentro, ele vai saltando de uma para a outra e avançando os quatro projectos; mais do que distintos, são absolutamente estanques. Nas paredes existem esquemas, fluxogramas e poemas, todos da sua autoria.  Ao fechar-se por dentro na cave por vezes sente que entrou dentro da sua cabeça - isto também me disse, com surpreendente lucidez.


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Eremita às 18:56
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Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
Quinta-feira, 21 de Janeiro, 2010

 

Mas judeu mesmo. Não se limita a ter gotas de sangue judeu. Ou apelido de cristão novo. Ou feições que remetem para. Ou aquela tão difundida judeofilia, esse tropismo alimentado por quatro pulsões fortíssimas: a da identidade histórica, a da vitimização, a do elitismo intelectual e a de querer simplesmente pertencer a um clube de acesso restrito. Nada disso. Os pais chegaram aqui em 1939 e acabaram por não continuar a viagem para os EUA. Mais tarde contarei de onde vinham. Estou muito satisfeito com esta novidade e os comentários anti-semitas serão implacavelmente censurados. 


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Eremita às 15:46
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Domingo, 13 de Dezembro de 2009
Domingo, 13 de Dezembro, 2009

O inventor levantou-se da mesa e gritou:

 

- Sim, gosto de aliterações! Bardamerda, ouviu?

 

Depois  foi logo para a cave, batendo com a porta. Creio que foi a primeira vez que alguém se aborreceu comigo desde que aqui cheguei. 


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Eremita às 17:01
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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
Sexta-feira, 30 de Outubro, 2009

 Monólogo do inventor

 

(pode aparecer a qualquer altura)

 

Resumo do monólogo (baseado em acontecimentos da vida real): o inventor está embriagado, de pé e com a camisa fora das calças - não na modalidade hoje mainstream e ontem négligé-soigné,  mas como resultado de uma exaltada leitura do grande clássico de Luria e Delbruck, de 1943, sobre o aparecimento de bactérias resistentes a bacteriófagos. O artigo tem duas gralhas no texto, que são o ponto de partida para uma reflexão sobre a vida, a morte e as virtudes de uma noite bem dormida.


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Eremita às 08:19
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Sábado, 3 de Outubro de 2009
Sábado, 03 de Outubro, 2009

 

 

Largado sem impulso de um ângulo de 60º, o baloiço demorou 1 minuto e 42 segundos a imobilizar-se. Quando lubrificado com  o óleo do inventor, demorou 4 minutos e 10 segundos. O inventor ficou satisfeito com o resultado e disse-me que conseguirá chegar aos 10 minutos ainda antes do Natal. Entendi não o informar que, na minha cabeça, aquele baloiço ainda não se imobilizou e que entretanto passaram mais de 30 anos. 


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Eremita às 09:06
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Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
Sexta-feira, 02 de Outubro, 2009

 

Tenho vindo a jantar às quintas em casa do inventor. Ele recebe-me engravatado, mas não espera que eu retribua a cerimónia. "Sabe", dirá ele antes de qualquer uma destas noites acabar, "a rotina de dar o nó na gravata é uma sublimação do suicídio por enforcamento". Ontem revelou-se falador e cáustico. Surpreendeu-me até no modo como se atirou aos artistas que mostram interesse pela ciência. "São uns palermas ou então uns carreiristas. Os primeiros ficam pelo que é acessório e os segundos apenas procuram um nicho de mercado, a identidade de um movimento. É deprimente". Para o inventor só parece haver uma zona de interface entre a arte e a ciência merecedora de atenção. "O intercâmbio entre arte é ciência serviu essencialmente os medíocres e só produziu banalidades. Ambas as áreas são processos criativos com processos de aferição dessa criatividade  diferentes e só o Popper se lembraria de fazer uma conferência com estas trivialidades. Os artistas servirão apenas para que percebamos o papel da estética na ciência. Até que ponto o valor estético de uma teoria é indicativo da probabilidade de essa teoria estar correcta e pode ser usado como princípio orientador, à semelhança do princípio da parcimónia? Não me refiro ao valor estético da teoria como critério para prever a sua popularidade, mas sim a sua longevidade, isto é, a sua adequação aos factos. Enfim, vendo bem, nem sequer para isto precisamos de artistas. Os filósofos são mais capazes e gastam muito menos dinheiro. Mas eu sou inventor. E livre-se de algum dia entender a minha busca da máquina do movimento perpétuo como uma empreitada artística. Pretendo mesmo imortalizar-me no movimento de um pêndulo e inventar uma máquina tão perfeita que se alguém, daqui a 200 anos, interromper o seu movimento iniciado por mim, o momento será sentido por todos como a minha segunda morte ".


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Eremita às 13:54
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Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009
Sexta-feira, 18 de Setembro, 2009

Ontem de tarde, ao fundo da rua, o inventor conversava com Tatiana. Fiquei atónito, pois não sabia que se conheciam. Nessa noite, o inventor revelou-me que Tatiana faz a lide doméstica de sua casa à segunda-feira e experimentei uma súbita vontade de acariciar os talheres. Mas de tarde nada ainda sabia e quando ambos me viram, a metros de distância, o meu impulso foi arrepiar caminho. O inventor ainda acenou e eu retribuí o cumprimento. Nesse momento, Tatiana também me fez adeus. E logo uma parede os retirou do meu campo de visão. Como provar a Tatiana que o meu adeus não era para ela, se não consigo explicar  este esforço por evitá-la misturado com o desejo de esbarrarmos um no outro ao virar de cada esquina? 



Eremita às 08:14
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Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
Quinta-feira, 21 de Maio, 2009

Acordei de um pesadelo estranho ou inventei esta cena em vigília? O cenário era a arena de um coliseu romano onde se encontrava Igor, de tanga e tronco nu. Agora que volto a pensar na imagem, Igor parecia-se muito a Salvação Barreto, o forcado que actuou em Quo Vadis. Seria natural pensar que Tatiana estivesse atada ao poste, mas quem estava atado era o inventor. Aliás, o inventor armou-se em Peter Sellers no sonho, pois fazia também o papel do Imperador, do centurião e ainda de um elemento mais exaltado da plebe. Como interpretar isto? Foi talvez uma manifestação pouco subtil da minha frustração com a incapacidade de desenvolver as personagens ouriquenses. O inventor ainda não ganhou espessura psicológica e já se passaram meses desde a sua entrada em cena. A máquina de movimento perpétuo, que deveria ser o metrónomo para o ritmo desta ficção, nem sequer foi descrita. As madrugadas das duas libertinas de Lisboa são um trunfo que continua por ser usado e faria disparar o número de leitores. Tatiana permanece como o único atractor. Talvez por isso, demorei a dar por ela no meu sonho, vindo só a descobri-la imediatamente antes de acordar. Toda a segunda metade do sonho foi dominada pela actuação de Ricardo Chibanga, que entrou  à super-herói na arena, usando o capote para abrandar a aproximação ao solo, acercando-se depois em passada oblíqua do touro, que media forças com Igor, para espetar um par de bandarilhas no dorso do ucraniano. A besta tombou e o touro enfiou-lhe um corno entre a tanga e o rego do rabo,  arrastando-o de seguida pela areia grossa em círculos de rabejador, até o deixar completamente esfolado, ensanguentado, numa desintegração que quase ameaçava os órgãos internos e remetia para a cena em que Messala está reduzido a bife tártaro falante num outro épico hollywoodesco, o Ben-Hur. Não houve sequer tempo para chorar Igor, pois Chibanga de imediato reciclou as bandarilhas e com ambas vazou os olhos do cristão atado ao poste, projectando-as de seguida, com a técnica de um ninja, de encontro aos outros dois inventores que estavam na tribuna imperial, morrendo um com a bandarilha no coração (o imperador) e o outro com a bandarilha na testa, talvez por ter uma armadura (o centurião). O inventor plebeu escapou a tempo e com alguma sorte não terá sido espezinhado pela multidão em fuga que se afunilava nas portas. Ricardo Chibanga, com um salto verdadeiramente alado, ganhou depois o parapeito da tribuna imperial e, sem nunca desviar o seu olhar dos meus olhos, começou a afagar os seios de uma estátua em tamanho natural. A estátua era Tatiana. Eu viria então a acordar, em grande sobressalto, ao som de uma gargalhada diabólica de Chibanga misturada com um bizarro barulho de seixos rolando sobre seixos ao sabor das ondas que só podia vir dos dentes partidos do matador à solta na sua boca. É que Chibanga não se saciou a apalpar os seios marmóreos e precisou de os morder violentamente. Ignorando a grande crítica literária, creio que algo em mim exige mais realismo mágico no Ouriquense e um papel de revelo para o fantasma de Ricardo Chibanga. Que se lixem os críticos, pois não quero outra noite assim. Enfim, feitas as contas, é verdade que acabámos de assistir à primeira  morte de Igor. Talvez valha a pena fazer uma série com as mortes imaginadas desta criatura. A crise aumentou a minha simptatia pelos desempregados, mas ainda estou dominado pelo delírio do crime passional



Eremita às 22:14
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Sábado, 4 de Abril de 2009
Sábado, 04 de Abril, 2009

Há uns dias, o jantar em casa do inventor trouxe uma surpresa: uma das cosmopolitas de Ourique. Esta coincidência não é de espantar numa terra com tão poucos habitantes, mas deixou-me atrapalhado, inclusive antes de ela me ter tocado com o pé descalço, debaixo da mesa, pormenor que me lembrou uma cena de uma pornochanchada reprimida em que Arielle Dombasle, neste caso sobre a mesa mas também com a consequência de ter  excitado um dos convivas, grava o relevo do seu mamilo desperto num pacotinho de manteiga. Na verdade, a associação é pouco rigorosa, porque feita antes de ter respondido à questão que de imediato surgiu: havia ali intenção ou casualidade? Tratou-se de uma daquelas situações em que o Lucílio Baptista que existe dentro de nós mais prontamente se manifesta. O jantar decorreu sem mais incidentes, mas depois o inventor ausentou-se e eu fiquei a sós com ela.

 

- Não pode gostar de viver em Ourique.

- Gosto muito. Encontro aqui tudo aquilo de que necessito.

- Mas isso é sobreviver. Não tem falta do supérfulo?

- Tenho pena de estar longe do mar.

- E de Lisboa?

- Lisboa é um esterco.

- Sim, as ruas estão muito sujas.

- Não me referia à limpeza. Sufoco com a atmosfera de Lisboa.

- Mas há vida cultural, não acha?

- Não há tranquilidade. Os lisboetas estão sempre a comparar-se com as outras capitais. Não conheço outro lugar assim.

- Os estrangeiros gostam de Lisboa.

- Também não conheço outro lugar em que se dê tanta importância ao que os estrangeiros pensam.

- Ainda pensei que me fosse falar da decadência da cidade. Dos prédios devolutos, da prostituição nas ruas, da pobreza...

- Disso gostava.

- Por amor de Deus. Também acha que já só os pobres têm nobreza?

- Não. Mas gostava de ver os transexuais do Conde Redondo.

- Credo...

- São figuras fascinantes, não acha?

- Está a provocar-me.

- Não, digo-lhe o que penso. São casos únicos.

- Como assim?

- Por me atraírem muito quando estão longe e me assustarem tanto quando estão perto.

- Acha isso raro?

- Muito.

- Ora. Sinto que também eu o atraio à distância e o assusto agora.

- Engano seu. São só mesmo os transexuais e o Cristo-Rei.

-  ... Fale-me mais dos meus enganos.



Eremita às 21:56
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Domingo, 15 de Março de 2009
Domingo, 15 de Março, 2009

Antes de me mudar para Ourique, os dois "géneros" que mais gostava de cultivar em blogues eram a máxima e a série de textos curtos sobre um mesmo tema. São dois géneros intrinsecamente errados. Quando mostrei as máximas ao meu único amigo intelectual, ele disse-me que eram "péssimas" e que a máxima - na altura empregámos o termo "aforismo"  - é um registo muito difícil, só ao alcance dos grandes escritores. A crítica foi dura, ainda que vaga. O meu problema com a máxima é outro, talvez por não ser um intelectual. Para mim, a máxima é o cúmulo da exposição do autor. É mais cruel do que a autobiografia e talvez tão cruel como uma biografia não autorizada inadvertidamente autobiográfica. Isto porque a máxima é o único caso em que o original coincide com a autocitação, o que é demasiado revelador. Revela a inteligência do autor, como qualquer texto, mas na revelação da consideração que o autor tem pela sua própria inteligência ultrapassa todos os outros géneros. Se continuo é por vício, mas tenho noção do ridículo.

 

O problema que a série coloca é distinto. Na série o diferencial entre o gozo do autor ao escrever e o gozo do leitor ao ler o que foi escrito é superior ao de praticamente todos os géneros, a menos que  autor e o escritor se conheçam e esse conhecimento tenha impacto sobre a fruição da escrita e/ou da leitura - penso numa carta de amor escrita por um amante perdidamente apaixonado por alguém que se quer ver livre dele e tem escrúpulos.  Sentia esta suspeita, mas ontem confirmei-a em casa do inventor. Depois do jantar o meu anfitrião ausentou-se de repente, como costuma fazer, e fiquei a bisbilhotar a sua biblioteca. Descobri então um volume delgado: La Cuisine Cannibale, de Roland Topor. Trata-se de uma série de textos que começam por ser chocantes, depois desconcertantes, depois divertidos, a seguir previsíveis e por fim profundamente aborrecidos. Topor teve uma boa ideia: imaginar receitas de culinária em que os ingredientes são seres humanos.  O tom é propositadamente amoral. Eis um pastiche:

 

Pretinho com laranja: o pretinho deve ter menos de 12 anos e procure surpreendê-lo com um golpe rápido de cutelo, caso contrário ele ficará muito agitado e acumulará ácido láctico na carne. Retire as miudezas pelo ventre. Golpeie depois a carne, preenchendo os cortes profundos com louro e malaguetas;  massaje o corpo com 4 mãos cheias de sal grosso, antes de o deixar a marinar de véspera em vinha de alhos. No dia seguinte, unte o pretinho com  manteiga e leve ao forno, pré-aquecido a 220 graus. Quando o corpo começar a dourar, regue-o abundantemente com sumo de laranja e cubra-o com papel de alumínio. Continue a assar durante duas horas. Retire o prato do forno, decore a gosto com rodelas de laranja antes de servir. Acompanhe com batatas a murro e tinto alentejano. 

 

Topor repete esta receita uma série de vezes. Com bebés, com barbudos, etc. A ideia depressa deixa de resultar, inclusive os suíços de fricassé. Se a série não tem uma estrutura que faça o todo superior à soma das partes, depressa se entra na subtracção. Também aqui, se continuo é por vício; sei que é uma aposta perdida, a menos que encontre uma estrutura. 


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Eremita às 17:51
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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009
Quinta-feira, 05 de Fevereiro, 2009

Mas nunca mais a viu?

Nunca mais.

E sem explicação?

Nem uma.

Nem um sms?

Naquela altura não havia.

Nem um bilhete?

Nada, nem sequer um escrito no espelho embaciado.

Ficou de rastos, imagino.

Não. Só a tinha visto duas vezes.

Ah, mesmo assim é estranho.

"Mesmo"? Não. Sobretudo. Sobretudo por isso é estranho.

De facto. Tentou encontrá-la?

Não. Só a tinha visto duas vezes.

Claro. Mas deve ter sentido algum vazio.

Ela morreu.

Foi como se tivesse morrido para si, percebo-o bem.

Não.

Então?

Não morreu para mim. Morreu. Imaginei que tinha morrido para toda a gente, inclusive para mim. 

Percebo a diferença.

Percebe mesmo?

...Não. E se morreu mesmo? E se a mataram?

Eu teria sido o principal suspeito, a polícia daria comigo.

E ninguém o contactou?

Ninguém.

Imagino que isso seja reconfortante.

Sim, sobra só a hipótese da morte natural.

Acreditando  que era uma pessoa decente, bem entendido.

Lembre-se que eu chego até a acreditar na competência da polícia. 

Sobra ainda a hipótese de lhe ter feito alguma.

É uma hipótese meramente académica.

Não se lembra de nada?

De coisa alguma.

E se foi tão terrível que se forçou a esquecer?

Como quer que rebata esse argumento?

Justamente.

Em todo o caso parece-me inverosímil.

E ela reaparecer?

Ainda mais inverosímil.

Mas e se reaparecer...

O melhor será não fazer perguntas.

Receia a verdade?

Não, receio a mentira. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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Eremita às 16:56
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Quinta-feira, 05 de Fevereiro, 2009

Este filistino tem a forte convicção de que se aprende e se goza mais a ler a primeira página de quaisquer 400 romances que da leitura de um qualquer romance de 400 páginas.  É esse o valor intrínseco de uma grande biblioteca. Pois bem, descobri que o inventor tem uma bibioteca que, não sendo grande é - vá lá - bem catita. Tenho andado a deliciar-me com as suas estantes, quando ele se fecha no atelier. Hoje descobri um magnífico começo. É no Maria Alelaide (1938), de Teixeira-Gomes. 

 

Maria adelaide completara dezasseis anos quando lhe colhi as primícias, e, à semelhança do que sucede com frequência na terra onde habitávamos, os pais, que eram pobres, consentiam em que mantivéssemos relações coram populo, indo eu todas as noites dormir na sua companhia. Podia tê-la tirado logo à família, montado-lhe casa à parte, mas nem eu nem os pais sentíamos grande desejo de efectuar a separação: eles porque tendo-a em sua companhia melhor lhe exploravam os proventos da mancebia; eu para não dar mais solidez à ligação, esperando vagamente que fosse passageira...


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Eremita às 11:26
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Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009
Quarta-feira, 21 de Janeiro, 2009

 

Esta noite, em casa do inventor, deu-se uma daquelas coincidências órfãs de plateia, isto é, que dizem algo apenas à pessoa que as experimenta, sem que adiante estar a fornecer ao outro todos os elementos que julgamos necessários e suficientes para partilhar o espanto. Naturalmente, poupar-vos-ei aqui a tal proselitismo e o que se segue apenas me serve. Há uns dias coloquei no Ouriquense um vídeo com o Locus iste, de Bruckner. Trata-se de um peça para coro, muito simples, muito bela, muito popular entre os coros amadores e totalmente desconhecida do resto da população, inclusive dos melómanos. A peça diz-me muito porque em tempos cantei num coro e aqueles foram anos felizes. Há poucas experiências musicais superiores a estar dentro de um acorde e para mim o prazer de cantar no coro vinha exclusivamente da harmonia. Gozo superior só tive quando um solo de guitarra sobre uma outra guitarra me saía bem, o que não aconteceu muitas vezes. Cantar num coro é também uma experiência que, a posteriori, beneficia muito do estereótipo do "menino do coro". Pode ser que o estereótipo seja válido para meninos propriamente ditos, mas entrar para um coro aos 18 ou 19 anos é sobretudo ser posto perante a angústia de uma decisão: contralto ou soprano? Se há coristas que seguem o Ouriquense, abdico momentaneamente  da suspensão do proselitismo e o conselho é inequívoco: apaixonem-se por uma contralto. Se não se conseguirem apaixonar por uma contralto, mudem de coro ou de orientação sexual, mas não cedam nunca às sopranos. Uma soprano  é uma mulher má com uma voz boa e não há cá serpente, não há mais mistério. Bernard-Henry Lévy casou com uma soprano. Parece-vos um homem feliz? Justamente. Trata-se da excepção que confirma a regra.

 

Mas retomando: em casa do inventor, não tendo eu abandonado a janela de onde contemplávamos os baloiços da casa do meu tio, o meu anfitrião afastou-se de mim, sem que tivesse perdido o fio ao seu raciocínio (apenas subiu o volume de voz em conformidade com o afastamento), para logo voltar. Instantes depois, dir-se-ia mais atrás que detrás dele, ouviu-se uma orquestra. Era o começo do Ave verum corpus, de Mozart, uma peça muito  simples, muito bela, muito popular entre os habitantes do planeta minimamente educados. 

 

(cont)


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Eremita às 01:54
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008
Quinta-feira, 11 de Dezembro, 2008

 

 

Tenho passado os serões em casa do inventor. Adio confrontá-lo com o facto de que a máquina de movimento perpétuo é uma invenção que as leis da física não permitem. Não percebi ainda se esta sua quimera é um modo de vida ou uma penitência. Não parece resultar da ignorância, pois ele tem uma biblioteca bem fornecida e pela forma como se expressa pareceu-me muito inteligente. Diria mesmo que é excessivamente lógico, o que cria um novo paradoxo. Em regra estas pessoas induzem-me uma sensação de profunda desolação, mas ele consegue atrair-me e até deixar-me naquele torpor com que reconheço de imediato quem me faz sentir bem. Quando era adolescente cheguei a tomar esta sensação por atracção sexual, o que me trouxe grandes angústias. É verdade que se trata de uma sensação com uma expressão muito física  - chega a subir pela espinha e parece que alguém nos deu uma massagem - mas fiquei em paz quando a experimentei também diante de uma paisagem. Foi como se as acusações de incesto, homossexualidade e bestialismo que me vergavam tivessem de repente sido apagadas. Mas insisto: não percebo mesmo o que me atrai no inventor. 


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Eremita às 09:52
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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008
Quarta-feira, 10 de Dezembro, 2008

 

A entrada do inventor que persegue a máquina de movimento perpétuo coloca uma série de problemas cuja resolução tenho vindo a adiar. Que nome lhe dar? É pouco prático continuar a tratá-lo por "aquele que persegue a máquina de movimento perpétuo". Admito optar por "inventor" e deixá-lo sem nome próprio, para continuar a centrar a trama em Tatiana - e em Igor, por quem começo a sentir alguma simpatia. Que idade tem este homem? Sinto-me tentado a afastá-lo de mim uma geração -  duas começaria a soar pouco verosímil, pois o homem deve ter ainda algum vigor físico. Que vida passional para ele? Nenhuma. O inventor vive obcecado com um único desafio - e seria interessante fazer-lhe uma biografia sem trauma amoroso ou excentricidade que o explique. Que interesse então lhe desperto eu? Um interesse que nasça de uma mentira minha para o cativar. Mas como justificar o meu investimento nessa mentira? 



Eremita às 16:39
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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008
Terça-feira, 02 de Dezembro, 2008

Os encontros com Tatiana fora do  Pingo Doce escasseiam, mas na sexta passada encontrei-a ao serão no café. Quando entrei estava sozinha à mesa e desviou o olhar, mas antes que me pudesse aproximar vi que Igor saía da casa de banho, ainda a ajeitar a braguilha. "O Igor não lava as mãos", pensei. Sentei-me a duas mesas de distância, diante de Tatiana, mas com as imensas costas de Igor entre nós. 

 

Os serões no café são dominados pela televisão, que Tatiana e Igor acompanham sem reagir ao zapping. Igor passou a noite a descascar pevides e a beber aguardente. Visto pelas costas, com aquele excesso de corpulência que lhe faz uma prega no pescoço grosso, o cabelo rapado a pente de tamanho 5 e os cotovelos ligeiramente afastados do corpo e simétricos  - uma tentativa de concentrar a destria na ponta dos dedos, mas que não evitava um chavascal de cascas a seus pés -, Igor parecia um símio. Talvez por isso, quando por momentos se espreguiçou, esticando os braços para trás com os os punhos cerrados, a sua mão direita ficou tão perto de mim e exactamente no enfiamento de Tatiana que se gerou um trompe d'oeil: vi nele um King Kong de loira presa no abraço dos seus dedos crispados. Tive uma reacção instintiva, levantei-me da cadeira e gritei: "Igor!". O símio virou-se então para mim, com os olhos pequeninos e brilhantes, a tez das bochechas vermelha  como as nádegas de um mandril  e um sorriso de anestesia. Atrás dele, Tatiana olhava-me  com um esgar de horror, quem sabe se por se lembrar daqueles que Igor  despachou nas pancadarias de bar. Só me ocorreu rematar a exclamação com "... Stravinsky! Estão a tocar Stravinsky na televisão... Um homónimo seu, Igor". Igor abriu o sorriso numa gargalhada, creio que sem ter percebido o que eu dissera, ofereceu-me a mão e depois do cumprimento voltou à sua pose prostrada de macho dominante. Tatiana baixou e levantou os olhos para mim, com um misto de condescendência e de cumplicidade. Eu mantive o braço direito pendido, e a mão abaixo do nível do assento, afastada do resto do corpo. A noite decorreu sem mais incidentes. Só à saída um homem de porte enxuto que devia ter uns 60 anos me pegou pelo braço, para me sussurrar: "então o amigo confunde Smetana com Stravinsky? Fixe o que eu lhe digo: sempre que estiver a passar um daqueles separadores na televisão com lagos e cisnes, é provável que se trate da Die Moldau". Foi assim que conheci o inventor que persegue a máquina de movimento perpétuo. Ofereci-lhe a mão esquerda e ele nem reparou - pode ser que seja canhoto como eu.

 



Eremita às 22:59
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Terça-feira, 19 de Agosto de 2008
Terça-feira, 19 de Agosto, 2008

 

 

Dois elementos a usar recorrentemente: os estendais de roupa e o baloiço da casa do tio. Não me convém a fama de tarado por roupa interior - até porque seria injusta - e delegar a missão numa personagem que ninguém conhece e que actua pela calada é uma solução. A tara desta criatura não é por roupa interior feminina, o que seria aborrecido, mas sim por boxers e outras cuecas. Acompanhar-se-á depois a génese de um mito na vila, de dinâmica comparável ao mito urbano, apenas diferente na escala: o homem roubaria as cuecas para curar um desgosto de amor, agravado por ter  respondido à convocação para que fosse buscar as suas cuecas a casa da namorada. Impossibilitado de corrigir esse erro diplomático, vergado pela imagem das cuecas lavadas, dobradas e  entregues com a solenidade de quem devolve um estandarte que deixou fazer sentido hastear naquelas paragens, só resta a esta desequilibrada criatura roubar todas as cuecas nos estendais da roupa enquanto rosna baixinho: "sou um frouxo, o Chamberlain da cueca". Trata-se de um gesto vingativo, de quem pretende perturbar a harmonia doméstica que lhe foi negada, mas também profundamente idiota, de quem confunde causa com efeito, algo que em antropologia se designa por cargo cult  - passo o academicismo.


Quanto ao baloiço da casa do tio, o melhor é fazer dele um objecto com propriedades hipnóticas ou então um mero artifício para a analepse. Explorar também a possibilidade de o baloiço ser usado por um inventor da vila, mistura do cigano Melquíades (Márquez) com o velho Atílio (telenovela O Casarão) que pretendia fazer ouro a partir do esterco que remexia numa banheira. Este inventor julga que a solução para a máquina de movimento perpétuo é um lubrificante feito à base de um azeite por ele muito alterado, obtido a partir de umas oliveiras que só crescem nas redondezas. O homem actua também pela calada, embora os seus propósitos sejam mais nobres e aparentemente menos idiotas. Noite sim noite não, galga o muro da casa dos meus tios para lubrificar os 3 baloiços de forma distinta, imprimindo-lhe depois exactamente o mesmo movimento. Apressa-se a deixar a casa e é da rua principal que mede o tempo que cada baloiço demora a parar. Noite não noite sim, trabalha até de madrugada com base nas observações feitas na véspera. Evitar ao máximo falar da rapariga que muitos anos depois se suicidou e com quem baloucei tantas vezes.


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Eremita às 19:38
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