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Ouriquense

20
Jul11

Gaiola de Faraday

Eremita

Nunca entrei na cave do Judeu. Ele diz-me que é para não ter naquele espaço associações ao quotidiano. Disse-me ainda que as paredes, o tecto e o chão estão revestidos por uma malha metálica, que transforma a cave numa gaiola de Faraday, e que não tem internet lá dentro, nem televisão, nem telefone. A divisão é espaçosa, deve ter mais de 80 m2, e nela existem quatro secretárias, cada uma com a sua própria desarrumação. - uma ideia que roubou ao explorador inglês Richard Francis Burton. Pela noite dentro, ele vai saltando de uma para a outra e avançando os quatro projectos; mais do que distintos, são absolutamente estanques. Nas paredes existem esquemas, fluxogramas e poemas, todos da sua autoria.  Ao fechar-se por dentro na cave por vezes sente que entrou dentro da sua cabeça - isto também me disse, com surpreendente lucidez.

21
Jan10

Breaking news: o inventor é judeu

Eremita

 

Mas judeu mesmo. Não se limita a ter gotas de sangue judeu. Ou apelido de cristão novo. Ou feições que remetem para. Ou aquela tão difundida judeofilia, esse tropismo alimentado por quatro pulsões fortíssimas: a da identidade histórica, a da vitimização, a do elitismo intelectual e a de querer simplesmente pertencer a um clube de acesso restrito. Nada disso. Os pais chegaram aqui em 1939 e acabaram por não continuar a viagem para os EUA. Mais tarde contarei de onde vinham. Estou muito satisfeito com esta novidade e os comentários anti-semitas serão implacavelmente censurados. 

13
Dez09

O inventor bateu com a porta

Eremita

O inventor levantou-se da mesa e gritou:

 

- Sim, gosto de aliterações! Bardamerda, ouviu?

 

Depois  foi logo para a cave, batendo com a porta. Creio que foi a primeira vez que alguém se aborreceu comigo desde que aqui cheguei. 

30
Out09

Saudades de Luria

Eremita

 Monólogo do inventor

 

(pode aparecer a qualquer altura)

 

Resumo do monólogo (baseado em acontecimentos da vida real): o inventor está embriagado, de pé e com a camisa fora das calças - não na modalidade hoje mainstream e ontem négligé-soigné,  mas como resultado de uma exaltada leitura do grande clássico de Luria e Delbruck, de 1943, sobre o aparecimento de bactérias resistentes a bacteriófagos. O artigo tem duas gralhas no texto, que são o ponto de partida para uma reflexão sobre a vida, a morte e as virtudes de uma noite bem dormida.

03
Out09

Movimento pendular

Eremita

 

 

Largado sem impulso de um ângulo de 60º, o baloiço demorou 1 minuto e 42 segundos a imobilizar-se. Quando lubrificado com  o óleo do inventor, demorou 4 minutos e 10 segundos. O inventor ficou satisfeito com o resultado e disse-me que conseguirá chegar aos 10 minutos ainda antes do Natal. Entendi não o informar que, na minha cabeça, aquele baloiço ainda não se imobilizou e que entretanto passaram mais de 30 anos. 

02
Out09

O inventor

Eremita

 

Tenho vindo a jantar às quintas em casa do inventor. Ele recebe-me engravatado, mas não espera que eu retribua a cerimónia. "Sabe", dirá ele antes de qualquer uma destas noites acabar, "a rotina de dar o nó na gravata é uma sublimação do suicídio por enforcamento". Ontem revelou-se falador e cáustico. Surpreendeu-me até no modo como se atirou aos artistas que mostram interesse pela ciência. "São uns palermas ou então uns carreiristas. Os primeiros ficam pelo que é acessório e os segundos apenas procuram um nicho de mercado, a identidade de um movimento. É deprimente". Para o inventor só parece haver uma zona de interface entre a arte e a ciência merecedora de atenção. "O intercâmbio entre arte é ciência serviu essencialmente os medíocres e só produziu banalidades. Ambas as áreas são processos criativos com processos de aferição dessa criatividade  diferentes e só o Popper se lembraria de fazer uma conferência com estas trivialidades. Os artistas servirão apenas para que percebamos o papel da estética na ciência. Até que ponto o valor estético de uma teoria é indicativo da probabilidade de essa teoria estar correcta e pode ser usado como princípio orientador, à semelhança do princípio da parcimónia? Não me refiro ao valor estético da teoria como critério para prever a sua popularidade, mas sim a sua longevidade, isto é, a sua adequação aos factos. Enfim, vendo bem, nem sequer para isto precisamos de artistas. Os filósofos são mais capazes e gastam muito menos dinheiro. Mas eu sou inventor. E livre-se de algum dia entender a minha busca da máquina do movimento perpétuo como uma empreitada artística. Pretendo mesmo imortalizar-me no movimento de um pêndulo e inventar uma máquina tão perfeita que se alguém, daqui a 200 anos, interromper o seu movimento iniciado por mim, o momento será sentido por todos como a minha segunda morte ".

18
Set09

Aceno transviado

Eremita

Ontem de tarde, ao fundo da rua, o inventor conversava com Tatiana. Fiquei atónito, pois não sabia que se conheciam. Nessa noite, o inventor revelou-me que Tatiana faz a lide doméstica de sua casa à segunda-feira e experimentei uma súbita vontade de acariciar os talheres. Mas de tarde nada ainda sabia e quando ambos me viram, a metros de distância, o meu impulso foi arrepiar caminho. O inventor ainda acenou e eu retribuí o cumprimento. Nesse momento, Tatiana também me fez adeus. E logo uma parede os retirou do meu campo de visão. Como provar a Tatiana que o meu adeus não era para ela, se não consigo explicar  este esforço por evitá-la misturado com o desejo de esbarrarmos um no outro ao virar de cada esquina? 

21
Mai09

Quo Vadis?

Eremita

Acordei de um pesadelo estranho ou inventei esta cena em vigília? O cenário era a arena de um coliseu romano onde se encontrava Igor, de tanga e tronco nu. Agora que volto a pensar na imagem, Igor parecia-se muito a Salvação Barreto, o forcado que actuou em Quo Vadis. Seria natural pensar que Tatiana estivesse atada ao poste, mas quem estava atado era o inventor. Aliás, o inventor armou-se em Peter Sellers no sonho, pois fazia também o papel do Imperador, do centurião e ainda de um elemento mais exaltado da plebe. Como interpretar isto? Foi talvez uma manifestação pouco subtil da minha frustração com a incapacidade de desenvolver as personagens ouriquenses. O inventor ainda não ganhou espessura psicológica e já se passaram meses desde a sua entrada em cena. A máquina de movimento perpétuo, que deveria ser o metrónomo para o ritmo desta ficção, nem sequer foi descrita. As madrugadas das duas libertinas de Lisboa são um trunfo que continua por ser usado e faria disparar o número de leitores. Tatiana permanece como o único atractor. Talvez por isso, demorei a dar por ela no meu sonho, vindo só a descobri-la imediatamente antes de acordar. Toda a segunda metade do sonho foi dominada pela actuação de Ricardo Chibanga, que entrou  à super-herói na arena, usando o capote para abrandar a aproximação ao solo, acercando-se depois em passada oblíqua do touro, que media forças com Igor, para espetar um par de bandarilhas no dorso do ucraniano. A besta tombou e o touro enfiou-lhe um corno entre a tanga e o rego do rabo,  arrastando-o de seguida pela areia grossa em círculos de rabejador, até o deixar completamente esfolado, ensanguentado, numa desintegração que quase ameaçava os órgãos internos e remetia para a cena em que Messala está reduzido a bife tártaro falante num outro épico hollywoodesco, o Ben-Hur. Não houve sequer tempo para chorar Igor, pois Chibanga de imediato reciclou as bandarilhas e com ambas vazou os olhos do cristão atado ao poste, projectando-as de seguida, com a técnica de um ninja, de encontro aos outros dois inventores que estavam na tribuna imperial, morrendo um com a bandarilha no coração (o imperador) e o outro com a bandarilha na testa, talvez por ter uma armadura (o centurião). O inventor plebeu escapou a tempo e com alguma sorte não terá sido espezinhado pela multidão em fuga que se afunilava nas portas. Ricardo Chibanga, com um salto verdadeiramente alado, ganhou depois o parapeito da tribuna imperial e, sem nunca desviar o seu olhar dos meus olhos, começou a afagar os seios de uma estátua em tamanho natural. A estátua era Tatiana. Eu viria então a acordar, em grande sobressalto, ao som de uma gargalhada diabólica de Chibanga misturada com um bizarro barulho de seixos rolando sobre seixos ao sabor das ondas que só podia vir dos dentes partidos do matador à solta na sua boca. É que Chibanga não se saciou a apalpar os seios marmóreos e precisou de os morder violentamente. Ignorando a grande crítica literária, creio que algo em mim exige mais realismo mágico no Ouriquense e um papel de revelo para o fantasma de Ricardo Chibanga. Que se lixem os críticos, pois não quero outra noite assim. Enfim, feitas as contas, é verdade que acabámos de assistir à primeira  morte de Igor. Talvez valha a pena fazer uma série com as mortes imaginadas desta criatura. A crise aumentou a minha simptatia pelos desempregados, mas ainda estou dominado pelo delírio do crime passional

04
Abr09

Primeiro diálogo erótico em Ourique

Eremita

Há uns dias, o jantar em casa do inventor trouxe uma surpresa: uma das cosmopolitas de Ourique. Esta coincidência não é de espantar numa terra com tão poucos habitantes, mas deixou-me atrapalhado, inclusive antes de ela me ter tocado com o pé descalço, debaixo da mesa, pormenor que me lembrou uma cena de uma pornochanchada reprimida em que Arielle Dombasle, neste caso sobre a mesa mas também com a consequência de ter  excitado um dos convivas, grava o relevo do seu mamilo desperto num pacotinho de manteiga. Na verdade, a associação é pouco rigorosa, porque feita antes de ter respondido à questão que de imediato surgiu: havia ali intenção ou casualidade? Tratou-se de uma daquelas situações em que o Lucílio Baptista que existe dentro de nós mais prontamente se manifesta. O jantar decorreu sem mais incidentes, mas depois o inventor ausentou-se e eu fiquei a sós com ela.

 

- Não pode gostar de viver em Ourique.

- Gosto muito. Encontro aqui tudo aquilo de que necessito.

- Mas isso é sobreviver. Não tem falta do supérfulo?

- Tenho pena de estar longe do mar.

- E de Lisboa?

- Lisboa é um esterco.

- Sim, as ruas estão muito sujas.

- Não me referia à limpeza. Sufoco com a atmosfera de Lisboa.

- Mas há vida cultural, não acha?

- Não há tranquilidade. Os lisboetas estão sempre a comparar-se com as outras capitais. Não conheço outro lugar assim.

- Os estrangeiros gostam de Lisboa.

- Também não conheço outro lugar em que se dê tanta importância ao que os estrangeiros pensam.

- Ainda pensei que me fosse falar da decadência da cidade. Dos prédios devolutos, da prostituição nas ruas, da pobreza...

- Disso gostava.

- Por amor de Deus. Também acha que já só os pobres têm nobreza?

- Não. Mas gostava de ver os transexuais do Conde Redondo.

- Credo...

- São figuras fascinantes, não acha?

- Está a provocar-me.

- Não, digo-lhe o que penso. São casos únicos.

- Como assim?

- Por me atraírem muito quando estão longe e me assustarem tanto quando estão perto.

- Acha isso raro?

- Muito.

- Ora. Sinto que também eu o atraio à distância e o assusto agora.

- Engano seu. São só mesmo os transexuais e o Cristo-Rei.

-  ... Fale-me mais dos meus enganos.

15
Mar09

Erros meus

Eremita

Antes de me mudar para Ourique, os dois "géneros" que mais gostava de cultivar em blogues eram a máxima e a série de textos curtos sobre um mesmo tema. São dois géneros intrinsecamente errados. Quando mostrei as máximas ao meu único amigo intelectual, ele disse-me que eram "péssimas" e que a máxima - na altura empregámos o termo "aforismo"  - é um registo muito difícil, só ao alcance dos grandes escritores. A crítica foi dura, ainda que vaga. O meu problema com a máxima é outro, talvez por não ser um intelectual. Para mim, a máxima é o cúmulo da exposição do autor. É mais cruel do que a autobiografia e talvez tão cruel como uma biografia não autorizada inadvertidamente autobiográfica. Isto porque a máxima é o único caso em que o original coincide com a autocitação, o que é demasiado revelador. Revela a inteligência do autor, como qualquer texto, mas na revelação da consideração que o autor tem pela sua própria inteligência ultrapassa todos os outros géneros. Se continuo é por vício, mas tenho noção do ridículo.

 

O problema que a série coloca é distinto. Na série o diferencial entre o gozo do autor ao escrever e o gozo do leitor ao ler o que foi escrito é superior ao de praticamente todos os géneros, a menos que  autor e o escritor se conheçam e esse conhecimento tenha impacto sobre a fruição da escrita e/ou da leitura - penso numa carta de amor escrita por um amante perdidamente apaixonado por alguém que se quer ver livre dele e tem escrúpulos.  Sentia esta suspeita, mas ontem confirmei-a em casa do inventor. Depois do jantar o meu anfitrião ausentou-se de repente, como costuma fazer, e fiquei a bisbilhotar a sua biblioteca. Descobri então um volume delgado: La Cuisine Cannibale, de Roland Topor. Trata-se de uma série de textos que começam por ser chocantes, depois desconcertantes, depois divertidos, a seguir previsíveis e por fim profundamente aborrecidos. Topor teve uma boa ideia: imaginar receitas de culinária em que os ingredientes são seres humanos.  O tom é propositadamente amoral. Eis um pastiche:

 

Pretinho com laranja: o pretinho deve ter menos de 12 anos e procure surpreendê-lo com um golpe rápido de cutelo, caso contrário ele ficará muito agitado e acumulará ácido láctico na carne. Retire as miudezas pelo ventre. Golpeie depois a carne, preenchendo os cortes profundos com louro e malaguetas;  massaje o corpo com 4 mãos cheias de sal grosso, antes de o deixar a marinar de véspera em vinha de alhos. No dia seguinte, unte o pretinho com  manteiga e leve ao forno, pré-aquecido a 220 graus. Quando o corpo começar a dourar, regue-o abundantemente com sumo de laranja e cubra-o com papel de alumínio. Continue a assar durante duas horas. Retire o prato do forno, decore a gosto com rodelas de laranja antes de servir. Acompanhe com batatas a murro e tinto alentejano. 

 

Topor repete esta receita uma série de vezes. Com bebés, com barbudos, etc. A ideia depressa deixa de resultar, inclusive os suíços de fricassé. Se a série não tem uma estrutura que faça o todo superior à soma das partes, depressa se entra na subtracção. Também aqui, se continuo é por vício; sei que é uma aposta perdida, a menos que encontre uma estrutura. 

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