Terça-feira, 21 de Setembro de 2010
Terça-feira, 21 de Setembro, 2010

 

1. Starbucks do Aeorporto de Lima, 10 de Setembro de 2010, 6:30 (AM): Chego ao Peru vindo de Lisboa e com escala feita em Madrid. Não a vi à saída e resolvo fazer tempo até que sejam horas apropriadas para incomodar o contacto que ela me deu. Peço um chocolate quente e logo se produz um primeiro equívoco comunicacional. O empregado pergunta-me o nome; não deve ser tradição local, será certamente política da empresa. Ele queria saber o meu nome para não se equivocar nos pedidos e poder identificar o meu chocolate quente. É simpático e eficaz, mas percebe-me mal: "Rasco?" Sorrio por motivos que ele jamais poderá entender e quase confirmo, mas ainda fui a tempo de o corrigir.

Sento-me a uma mesa já com o chocolate quente e aproveito o incidente para elaborar um esquema com que proteger a identidade dos intervenientes neste relato. Imagino recorrer a iniciais, A., B., C., etc., por ordem de entrada das personagens principais, e a algarismos - 1, 2, 3, etc. - para as personagens secundárias, explorando o colorido dos nomes próprios com as personagens marginais e para sempre irreconhecíveis. Apercebo-me depois do absurdo deste esquema e de todos os esquemas similares, por mais ou menos complexos que sejam. O clássico  tratamento por iniciais, em muito casos, serve apenas para indicar que o autor sabe sobre aquela pessoa muito mais do que escreve - quando não se trata de um bluff pueril, é então menos uma forma de pudor do que uma manifestação de poder. A única forma de proteger a privacidade dos intervenientes é contar apenas aquilo que pode ser contado e o melhor será tratá-los pelos nomes. Sobretudo quando os nomes são bonitos. Ana e Arturo são nomes bonitos.
Continua



Eremita às 02:07
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Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010
Segunda-feira, 20 de Setembro, 2010

Viagens

 

Quase ninguém me arrasta para fora de Ourique, mas Ana tem esse poder, sobretudo depois de eu lhe ter falhado como amigo. Quase nada me arrasta para fora de Ourique, mas imagino uma viagem a Machu Picchu desde os meus 12 anos.

 

Em Setembro de 2010 fui até "Cidade Perdida dos Incas" e, apesar de ter a melhor das companhias, ia com a certeza de que a realidade ficaria aquém do que imaginara. Talvez por essa premonição de um desencanto, numa semana tirei mais apontamentos do que em qualquer outra viagem.

 

O relato que se segue é baseado em cerca de 40 páginas manuscritas. Há alguma urgência em verter para o Ouriquense esse material, pois a minha caligrafia é praticamente indecifrável e funciona sobretudo como uma cábula para a memória; mais do que interpretar um alfabeto, associo uma mancha gráfica a uma determinada ideia ou ao momento e lugar em que essa ideia apareceu.  Quantos mais dias passarem, menos úteis serão os apontamentos.

 

O que escrevi foram apenas notas. O que escreverei agora são textos a partir dessas notas. Nesse sentido, Machu Picchu y nada más volta a não ser um diário de viagem, pois é sempre a posteriori que escrevo textos desse tipo. A grande diferença foi não ter lido nada sobre o Peru antes de escrever os apontamentos (geralmente leio o Lonely Planet adequado ou até literatura) e de ter lido alguma coisa entretanto e enquanto estiver a compor o relato, o que nunca aconteceu antes. Três livros que farão parte desta bibliografia mínima são: Lost City of the Incas, de Hiram Bingham (1952), Sueño y Realidad de América Latina, de Mario Vargas Llosa (2008) e um outro, momentaneamente desaparecido - mas isto é normal - e que não consigo citar de memória.

 

Importa ainda referir que este relato termina antes do fim da viagem ao Peru e que há enxertos dos últimos dias (na forma de episódios, de informação reforçada ou de alusões) nos dias propriamente relatados. É uma pequena aldrabice, mas que serve o texto.



Eremita às 18:33
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