Quinta-feira, 16 de Março de 2017
Quinta-feira, 16 de Março, 2017

Normalmente, na vida, na presença de dois contrários, é necessário procurar a verdade no meio; na nossa história, tal seria errado. O mais provável é que no primeiro caso ele tenha sido sinceramente generoso e, no segundo, ele tenha sido ignóbil com igual sinceridade. Porquê? Porque ele é, precisamente, uma natureza ampla karamazoviana - é a isso que pretendo chegar -, capaz de conter todo o género de contrários e contemplar de uma só vez ambos os abismos, o abismo de cima, o das ideias superiores, e o abismo de baixo, o da mais ignóbil e fedorenta queda. Dostoiévski, Os Irmãos Karamásov



Eremita às 08:50
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Sexta-feira, 10 de Março de 2017
Sexta-feira, 10 de Março, 2017

Continuo com os Karamásov, rigorosamente 20 minutos por dia, à sombra do plátano. Podemos concluir que Dostoiévski deu-me a volta, muito à custa dos excelentes diálogos que marcam o último terço do livro, tão bons que compensaram até a desilusão que foi dar com um Ivan fraco de espírito, quando esperava uma personagem com o carisma do niilista Bazarov (deve faltar um acento) de Pais de Filhos. Imagino já a ressaca que experimentarei quando terminar este livro, embora o protocolo seja óbvio: iniciar a leitura de uma novela a poucas páginas do fim de um romance longo.



Eremita às 09:00
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017
Segunda-feira, 30 de Janeiro, 2017

 

 

 

 

Bem sei que o título denuncia a minha idade. Nenhum jovem, a menos que seja um jovem tomado por alguma afectação, escreveria semelhante coisa. Só tenho pena de não me lembrar em que estado fiquei depois de ver The Mosquito Coast, há cerca de 30 anos, quando era adolescente. Do filme, lembrava-me o suficiente para ter estabelecido paralelos óbvios com o recente Captain Fantastic, que vimos ontem. Salta aos olhos que Captain Fanstastic é o The Mosquito Coast da nova geração. Em ambos, um homem invulgarmente inteligente, científico e carismático, crítico do consumismo e das religiões organizadas, tenta romper com a sociedade norte-americana e procura reencontrar-se com a natureza, arrastando com ele toda a família. Em ambos, este homem falha e causa grande infortúnio aos seus. Enfim, os paralelos são de tal forma ululantes que dei por mim a perguntar se uma das crianças de Captain Fantastic não teria sido escolhida por ter o nariz arrebitado como o de River Phoenix, actor que representa uma das crianças de The Mosquito Coast. Naturalmente, há diferenças. Se Harrison Ford, o actor em The Mosquito Coast, é um patriota desiludido com a vulnerabilidade da economia americana ao Japão (eram outros tempos), cuja quimera é dar a conhecer o gelo a uma tribo recôndita, Viggo Mortensen, o captain, é uma espécie de hippie anarco-sindicalista que venera Noam Chomsky e sonha em fazer dos filhos reis filósofos, submetendo-os por isso a um rigoroso treino intelectual e físico, que inclui exercícios como a escalada desportiva de dificuldade elevada, a aprendizagem de seis línguas, entre as quais o Esperanto, um ritual de passagem que consiste em matar à faca uma presa de grande porte e comer-lhe o coração palpitante, e ainda, para cúmulo, a leitura de Os Irmãos Karámasov. O primeiro é mais grandiloquente, trágico e complexo do que o seu algo sucessor, mas os filmes coincidem na mensagem, que é irremediavelmente conservadora: o problema das utopias não é a sua impossibilidade, nem sequer a sua realização aquém do idealizado (a eterna desculpa dos comunistas), mas o seu lado intrinsecamente distópico, nos dois filmes revelado pela teimosia, autoritarismo, irresponsabilidade e até loucura (no caso de Ford) dos pais. Não chega a ser uma revelação, pois basta lembrar que ninguém teria vontade de viver na ilha imaginada por Thomas More. Dito isto, hoje sinto-me mais obrigado a ensinar guitarra às gémeas do que há dois dias. 

 

 

 



Eremita às 10:51
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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017
Sexta-feira, 27 de Janeiro, 2017

Parafraseando João Bénard da Costa, já não tenho idade e nunca cheguei a ter estatuto para desprezar publicamente os grandes clássicos da literatura. E há um elemento nos Karamásov que, não sendo original, também conto explorar no bwOs filhos karamásov são três. Porquê? Tese: porque, no mesmo plano, não é possível colocar mais de três elementos numa disposição tal em que cada um está exactamente à mesma distância dos restantes*. Iliocha, Ivan e Mítia são os três vértices de um triângulo equilátero e seria possível mapear a personalidade de qualquer leitor a partir da posição por este ocupada dentro do triângulo, isto é, o ponto em que se anulam os vectores de força correspondentes ao tropismo e à aversão que cada um dos irmãos desperta. Eu, por exemplo, em vias de começar o livro 11 (O Irmão Ivan Fiódorovitch), encontro-me longe do caprichoso e impulsivo Mítia, perto do místico e bondoso Aliocha, mas ainda atraído por aquilo que Ivan promete ser (quase não tem aparecido). 

 

 

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* Num espaço tridimensional, um tetraedro em que todas as faces são um triângulo equilátero com as mesmas dimensões define um volume em que cada um dos quatro elementos (colocados nos vértices) está equidistante dos outros três, mas passa a ser mais difícil intuir o ponto de equilíbrio dos quatro campos de força, porque lidamos mal com o aumento de dimensões. Creio que a regra é k=d+1, em que k é o número de pontos equidistantes e d o número de dimensões. Obviamente, para mais de três dimensões tudo se torna inimaginável. Por outras palavras, três personagens asseguram a complexidade necessária e suficiente. 


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Eremita às 09:28
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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2017
Terça-feira, 24 de Janeiro, 2017

Apareceu agora um sobredotado de 13 anos, que fala como um tribuno e pensa como Maquiavel. Não desisto. Nada me fará desistir. Se, num delírio pós-moderno, Fiódor Dostoiévski surgir na página seguinte mascarado de corista de cancan e com a barba em trança, não abandonarei a leitura, já que estou tão perto do fim. Sim, eu conheço a falácia do Concorde. Mas desde quando ter noção de uma falácia assegura que não cometeremos esse erro? Creio até que somos atraídos vertiginosamente pelas falácias de que temos consciência.



Eremita às 09:16
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017
Sexta-feira, 20 de Janeiro, 2017

O interrogatório a Mítia, alegado parricida, é um suplício para o leitor. O narrador bem tenta animar o leitor referindo várias vezes todas as trocas de palavras que abreviou, mas soa a ameaça velada. Pensar que este livro foi escrito pelo mesmo autor que inventou Raskólnikov e Porfiri Pietrovich deixa-me perplexo. Vem depois o livro quatro, que conta a história de Kólia Krassókin, um miúdo. É uma lufada de ar fresco ou - para ser menos preguiçoso e mais rigoroso - um inesperado sumo de romã no último posto de hidratação de uma maratona. O leitor sente-se salvo e revigorado. Pensemos em Os Capitães da Areia ou Sinais de Fogo. É evidente que miúdos, adolescentes e jovens (menos de 25 anos) dão quase sempre excelentes personagens, sobretudo quando comparados a homens maduros impulsivos, ciumentos e dramáticos, como Mítia. Longe no tempo, perto do coração.  Há ainda um pormenor que chama atenção do leitor: na página 227 do livro 4 (edição da Editorial Presença), lê-se: "A propósito, ia-me esquecendo de mencionar que Kólia..." Devo estar errado, mas pareceu-me ser a primeira vez que o narrador se refere a si próprio. Risco o apontamento até confirmação ulterior. 



Eremita às 09:03
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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2017
Quinta-feira, 12 de Janeiro, 2017

O "No child left behind", slogan de Bush (o filho) sobre a educação, foi depois reciclado em "No child's behind left" por Christopher Hitchens, quando se referia às práticas pedófilas de padres católicos. Após a morte do patriarca Karamásov, o meu mote "No book left behind" também se corrompeu em "No book left beyond". É preciso descobrir o responsável que primeiro espalhou o boato de que Os Irmãos Karamásov é um dos melhores romances de todos os tempos. Não é. E agora que morreu a sua melhor personagem, não serão os filhos a salvá-lo. Falta-me cerca de um quarto e cumprirei o plano, mas sabe Deus a que custo. Que Musil me perdoe. 



Eremita às 09:10
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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017
Quarta-feira, 04 de Janeiro, 2017

A leitura do terceiro livro dos Karamásov tem sido algo penosa. Depois do magnífico episódio da morte do monge, nada de muito interessante ocorreu. Mítia, o Karamásov dado às tentações da carne, é demasiado ciumento para ganhar o meu respeito. E é nestas alturas, quando o enredo não prende e escasseiam as reflexões do narrador, que um leitor fica menos tolerante. Ora, é sabido que as contribuições dos russos mais perniciosas para a humanidade foram o comunismo e as variações sobre os nomes próprios, que incluem diminutivos e outras formas. Como se não bastasse a fonética estrangeira, que dificulta a memorização como a fisionomia asiática dificulta a identificação, cada nome aparece metamorfoseado mais de uma vez, como se um chinês mudasse de penteado todos os dias. O resultado é uma enorme confusão na cabeça do pobre leitor português, sobretudo quanto às personagens femininas. E então estamos nisto: Mítia destrói a sua vida por causa de uma mulher e eu não consigo distinguir a aristocrata da sopeira. 



Eremita às 09:14
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Sábado, 17 de Dezembro de 2016
Sábado, 17 de Dezembro, 2016

Bem avançada vai a leitura de Os Irmãos Karamásov, traduzida pelos Guerra. Como Dostoiévski não é um estilista da frase, o romance pede imersão completa durante longos períodos, quase uma impossibilidade quando há bebés e uma família para sustentar. É um livro para lermos nas férias grandes e na adolescência, livres de obrigações e cheios de dúvidas. Sinto que teria delirado com a conversa entre Alioska (um monge aprendiz) e o seu irmão Ivan (um ateu), caso entretanto não me tivesse fartado dos debates sobre a existência de Deus, em que são trocados argumentos para que no fim fique tudo na mesma. Nada de relevante para este debate aconteceu depois de o russo escrever a sua obra-prima, mais de duas décadas após a publicação de A Origem das Espécies, de Darwin. Desde então, seja por uma vontade natural de insurreição, anticlericalismo de esquerda ou adesão ao positivismo, cada geração assegura uma dose fresca de jovens ateus, carregados de passionate intensity. Comigo o percurso passou pelo inevitável Why I am Not a Christian, de Bertrand Russell. Muitos anos depois, voltei a interessar-me pelas polémicas, mas menos pelo fundamento dos argumentos (que, repito, não são novos) do que pela retórica e o fenómeno sociológico que são os "novos ateístas" (Dawkins, Harris, Hitchens e Dennett), o que revela o meu conformismo e a impressão de que, como jamais nos livraremos delas, mais vale uma religião velha na mão do que duas novas à solta. Que dizer, então? Talvez isto: o livro três abre com a morte de um monge cujo corpo começa a feder durante as cerimónias fúnebres, levantando suspeitas sobre antecipada santidade do defunto. Não sei se esta minha revelação é um spoiler, se o eventual futuro leitor de Os Irmãos Karamásov me rogará pragas depois de ler estas linhas ou esboçará um sorriso ao ler as linhas de Dostoiévski e me derá razão quando afirmo que se trata de um episódio sublime. Mas se apenas o assombro pela técnica sobrevivesse à perda das convicções, seria terrível. Felizmente, sobra também a lembrança do período em que a existência de Deus era uma questão inquietante. E isso basta. 



Eremita às 08:27
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