Domingo, 10 de Outubro de 2010
Domingo, 10 de Outubro, 2010

Gosto muito da enconomia com que José Luís Peixoto consegue criar os ambientes rurais; quase não há descrições e sabemos como as descrições do campo tendem a ser estereotipadas. Gosto da autoridade com que descreve a matança do porco, uma das experiências mais impressionantes por que passa uma criança que viva ou passe longas férias no Alentejo; gosto também da sobriedade com que o faz, pois qualquer escritor menos capaz ou mais gore aproveitaria o chinfrim do animal e a golfadas de sangue para um grande fresco. Gosto da entrada de Adelaide no livro, a menina vinda de fora que anima as sessões de fingida masturbação em grupo dos rapazes; gosto em particular da passagem "No domingo anterior, a sobrinha da velha Lubélia [Adelaide] tinha estado na missa pela primeira vez. O Cosme pôde mirá-la melhor quando, atrás da tia, ela foi tomar a hóstia. Flectiu o joelho e abriu a boca para recebê-la. O Cosme fechava os olhos para recordar essa imagem".

 

Do que não gosto na passagem anterior é da possível falta de rigor. As crianças nada percebem de sexo oral, nem se interessam. O sexo oral é uma descoberta dentro do sexo e as crianças têm curiosidade sexual, mas não andam obcecadas com a felação - que desconhecem. Se isto vai contra as teorias de psicologia infantil, eu e os meus amigos fomos crianças atípicas. Por isso, a passagem funciona maravilhosamente para o leitor adulto, mas é tão irrealista como a descrição das duas ratazanas que habitam a torre da igreja e têm cara de pessoa. É claro que Peixoto pode estar a jogar a dois níveis: Cosme encanta-se com a imagem da rapariga de joelhos por motivos mais estéticos do que sexuais e no encantamento do leitor pela passagem há uma inversão da ordem desses factores. Não sabemos, mas o contexto anterior - o simulacro de masturbação colectiva - sugere que Peixoto não pensou assim.

 

Não gosto ainda de uns atavismos de poeta que poluem a prosa; a repetição de vocábulos, nomeadamente, é exasperante, e a repetição muito próxima da mesma ideia torna a escrita excessivamente redundante, acelerando muito a leitura. Também não há cuidado em certas passagens. Por exemplo, quando escreve "todos os seres vivos se juntaram no caminho que levava à entrada da fonte" (página 27), "todos os seres vivos" é uma hipérbole desajustada. Como a narrativa tem um toque de fantástico, o leitor pensa imediatamente em episódios bíblicos, na Flauta Mágica ou num qualquer êxodo panzoófilo (já nem penso nas plantas, incapacitadas pela sua natureza de se juntarem em caminhos). Afinal não é nada disso, trata-se apenas de uma concentração de pessoas.

 

A apreciação global está a ser muito positiva. Confesso até que pensava vir a detestar este livro e não é isso que está a acontecer. Em tempos, João Pereira Coutinho, quando lhe perguntaram que livro gostaria de ver traduzido para português, soltou a boutade: "todos os de José Luís Peixoto". Obviamente, não deve ter lido nenhum.


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Eremita às 12:40
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