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Ouriquense

13
Abr17

Johnny Gentle

Eremita

Em tamanho, Infinite Jest é apenas um ponto percentual mais pequeno do que Guerra e Paz (tomando por referência uma tradução para inglês), pelo que qualquer passagem premonitória deve ser interpretada como um acaso favorecido pelo tamanho do livro. Mas eis Johnny Gentle, um crooner e actor de B-movies feito presidente dos EUA num futuro próximo, que, num filme de autor, se vira para os líderes do México e Canadá, dizendo-lhes "you have gorgeous souls", e conversa assim com um deles:

 

Gentle: Another piece of pre-tasted cobbler, J.J.J.C.?

P.M. Canada: Couldn't. Stuffed. Having trouble breathing. I would not say no to another beer, however.

Gentle: ...

P.M. can.: ...

gentle: So we're sympatico on the gradual and subtle but inexorable disarmament and dissolution of NATO as a system of mutual-defense agreements.

P.M. can. [Less muffled than last scene because his surgical mask gets to have a prandial hole]: We are side by side and behind you on this thing. Let the EEC pay for their oown defendings henceforth I say. Let them foot some defensive budgets and then try to subsidize their farmers into undercutting NAFTA. Let them eat butter and guns for their oown for once in a change. Hey?

Gentle: You said more than a mouthful right there, J.J. Now maybe we can all direct some cool-headed attention to our own infraternal affairs.

Our own internal quality of life. Refocusing priorities back to this crazy continent we call home. Am I being dug?

 

Obviamente, Reagan ainda está na memória e já estava na memória de Foster Wallace, que escreveu o essencial do livro no final dos anos 80 e primeiros anos da década de  noventa. Mas em 2017, leio internamente os diálogos de Gentle com a voz de Trump enquanto vou fazendo aquelas suas boquinhas idiossincráticas. 

 

 

29
Mar17

...

Eremita

- and then you're in serious trouble, very serious trouble, and you know it, finally, deadly serious trouble, because this Substance [álcool] you thought was your one true friend, that you gave up all for, gladly, that for so long gave you relief from the pain of the Losses your love of that relief caused, your mother and lover and god and compadre, has finally removed its smily-face mask to reveal centertless eyes and a ravening maw, and canines down to here, it's the Face In The Floor, the grinning root-white face of your worst nighmares, and the face is your own face in the mirror, now, it's you, the Substance has devoured or replaced and become you, and puke-, drool- and Substance-crusted T-shirt you've both worn for weeks now gets torn off and you stand there looking and in the root-white chest where your heart (given away to It) should be beating, in its exposed chest's center and centerless eyes is just a lightless hole, more teeth, and a beckoning taloned hand dangling something irresistible, and now you see you've been had, screwed royal, stripped and fucked and tossed to the side like some stuffed toy to lie for all time in the posture you land in. DFW, Infinite Jest

 

Tenho um pdf de Infinite Jest, mas todas as citações farei no Ouriquense serão dactilografadas por mim a partir do livro, como homenagem e exercício. Também faço links para um dicionário nas palavras que me parecem menos familiares para quem não tem o inglês como primeira língua. 

29
Mar17

Back to Infinite Jest

Eremita

infinite.png

 

A duas páginas do fim dos Karamásov, decidi retomar a leitura de Infinite Jest, interrompida na página 345. O livro anda comigo há vários anos. Estivemos juntos em Nova Iorque, na Cacela Velha, em Quito (Peru) e noutros lugares que entretanto esqueci. Tenho uma explicação algo sofisticada para andar a fazer render este livro, mas pode ser apenas preguiça ou, como sucede com tantos, ler muito mais facilmente o jornalismo e ensaísmo de David Foster Wallace do que a sua ficção. Conto aprofundar* este assunto nos próximos dias. Entretanto, assinalo a excelente qualidade das edições paperback da Abaccus, pois nenhuma as 1079 páginas se soltou. É também nestes pequenos detalhes que se percebe a grandeza dos EUA. 

 

* Na primeira versão deste post, escrevi "elaborar" e um leitor deu-me uma merecida cacetada. 

 

 

10
Nov12

Uma devoção

Eremita

O Judeu criticou-me por ainda não ter acabado a leitura de Infinite Jest. Disse-me que era inadmissível para quem mostra tamanha admiração pública por David Foster Wallace. Não tenho uma boa defesa. Ainda desenvolvi a tese de que as obras de um autor já morto podem ser consumidas devagar, se a projecção que considerar o nosso ritmo de leitura e a esperança de vida indicar que teremos tempo de ler a obra inteira. Mas foi uma tese apresentada sem grande convicção, porque não lido bem com o facto de Infinite Jest não ser, para mim, um page turner. O livro tem momentos muito desiguais e passagens que, francamente, não compensam o esforço que o autor nos pede, como a longa descrição de um complexo jogo de estratégia militar a que os rapazes da academia de ténis se dedicam, que parece apenas satisfazer um pico de desejo experimentado por Wallace quando estava já afundado num universo imaginado pouco compatível com a geopolítica. Repetem-se aqueles momentos em que folheamos prospectivamente um livro para medir a extensão da passagem aborrecida, o que faço com evidente desconforto. Mas não salto folhas, não abdico da minha devoção. 

 

Entretanto soube que a tradução do livro vai ser finalmente lançada. Prevejo um desastre editorial. Porque, pela dimensão, o livro não pode ser barato. Porque, perdendo-se muito na tradução da prosa de DFW, tal exercício será sempre inglório. Porque, sendo as mulheres quem mais romances compra e Wallace tão pouco dado à prosa sobre o amor, é pouco provável que o bouche à oreille dispare. Porque quem ganha afeição por Wallace vai logo lê-lo em inglês. Mas louvemos a extravagância da empreitada. Lembra o Fitzcarraldo e já não se atura a retórica dos "ganhos de eficiência". Afinal, que importa falhar, for por devocão? 

28
Ago12

Saturação

Eremita

A internet permitiu-nos cumprir um capricho antes inimaginável: aborrecermo-nos com as pessoas mais interessantes do planeta. Isto sucede porque podemos hoje consumir de modo obsessivo uma grande parte das entrevistas e debates em que essas pessoas participaram. E então percebemos que também elas acabam por deixar de nos surpreender. Estou a pensar no homem e não na obra, já que na obra do verdadeiro artista reconhecemos o esforço do autor para não se aborrecer com a sua pessoa. Entrevistas a Foster Wallace e a Žižek? O primeiro bocejo é só uma questão de tempo. 

15
Jun12

Contributos para Menezes & Menezes

Eremita

[actualização permanente com carácter de urgência]

 

 

Aconteceu em Ourique, mas sem subsídio da autarquia, a pedrada no charco cujos círculos concêntricos se propagam já no liso plano do meio cultural português. Ignorados pelos media, nem por isso nos calaram: ontem [13.06.2012] chegámos ontem a Vila Real de Santo António, a Aljezur e Barrancos, hoje contamos varrer Lisboa, amanhã estaremos em Gaia, minutos depois no Porto e antes do fim do mês alcançaremos Timor, vindo dos dois lados, para não excluir os compatriotas desterrados na Mongólia ou em Honolulu. Unidos e virulentos, com a resiliência dos que amam e a esperança de quem já venceu um braço de ferro com a administração pública, conseguiremos alterar o infame título da tradução de Infinite Jest.

 

Contamos já com algumas alternativas, que pingam em Ourique ao ritmo das chamadas telefónicas de um telethon em horário nobre. Junta-te a nós no esforço de encontrar alternativas ao péssimo título que não mais será aqui escrito, para que possamos pressionar os tradutores de Infinite Jest antes que as rotativas tenham para sempre manchado a estreia de David Foster Wallace na lusofonia. 

 

Cada novo contributo será adicionado a esta lista, que contamos enviar aos tradutores de Infinite Jest e à Quetzal no dia 4 de Julho. 

 

Bobagem sem Fim Rogério Casanova, que entretanto esclareceu tratar-se de uma sugestão irónica.

A Graça Infinita Eremita

O Dichote Infinito Anão Gigante

O Chiste Sem Fim Anão Gigante

O Eterno Deleite Judeu

Brincadeira Infinita Sérgio Lavos

Brincadeira Sem Fim Sérgio Lavos

 

Vício Infindo Rapaz do Cineclube

Infinitamente Cômico Dulce Silva

Um Riso Sem Fim Dulce Silva

A Sorrir Eternamente Dulce Silva

Eternamente a Sorrir Dulce Silva

Um Eterno Riso Dulce Silva

Uma Eterna Laracha Dulce Silva

A Pilhéria Infinita Dulce Silva

Loooooool Dulce Silva

Infinita Pilhéria Tinoco
Infinita Galhofa Tinoco
Infinita Chacota Tinoco
Infinito escárnio Pirata-Vermelho
Um escárnio sem fim Pirata-Vermelho
A infinita borga Beach

 

Alguns comentadores sugeriram que o melhor seria ter como ponto de partida uma boa tradução de Hamlet, pois "Infinite Jest" é retirado da descrição que Hamlet faz de Yorick, o homem que em tempos habitou a famosa caveira: "...I knew him, Horatio: a fellow of infinite jest, of most excellent fancy..." Tenho sérias dúvidas sobre o valor intrínseco deste exercício, mas como qualquer alternativa é superior à tradução que não mais mencionarei e este nosso projecto está ferido de morte, visto nos faltar autoridade, a sugestão acaba por não ser má. Acresce que esta informação faz de "Bobagem Infinita", a sugestão de Rogério Casanova que o próprio aparentemente já renegou, uma das melhores, se a colagem à fonte original for relevante, pois Yorick era o bobo do rei.  Enfim, alguém sabe como esta passagem foi vertida nas traduções de referência? Abri uns tupperwares, só que da vez em que estive mais perto a tradução de Álvaro Cunhal era do Rei Lear. E online, o que encontrei foi isto:

 

#1 Conheci-o, Horácio; um sujeito de chistes inesgotáveis e de uma fantasia soberba.

 

#2 Eu conheci-o, Horácio... Era um homem grandemente gracioso, dotado da mais fecunda imaginação. 

 

#3 Eu o conhecia[,] Horácio: um camarada de infinita espirituosidade, de mui excelente imaginação.

 

#4 Conheci-o, Horácio, era uma mina inexg[s]otável de ditos engraçados; tinha uma imaginação viva e fecunda!

 






09
Jun12

Um título trágico

Eremita

 

A Quetzal lança a tradução de Infinite Jest em Novembro (vem no Ípsilon). Trata-se de um acontecimento editorial e espero que façam com Wallace o que fizeram com Bolaño: muito barulho. O artigo do Público faz referência a "100 notas [de rodapé]", o que me deixa apreensivo: foi lapso da jornalista Isabel Coutinho ou a tradução elimina (388-100=) 288 notas de rodapé? * A tradução é de Salvato Telles de Menezes e Vasco Telles de Menezes, pai e filho, que "optaram por dividir o livro", razão para ficar ainda mais apreensivo, apesar do curioso desafio académico que será descobrir no livro a descontinuidade de Telles de Menezes, ou seja, o sinal de pontuação que separa o trabalho dois dois tradutores. Mas o mais assustador é o título que pretendem dar ao livro: "A Piada Infinita". Estão malucos? Assim de repente, consigo lembrar-me de uma alternativa que, não sendo ideal, tem uma adequação polissémica e sonoridade superiores: "A Graça Infinita" ou apenas "Graça Infinita". Enfim, qualquer solução me parece melhor.  Não só "piada" é das palavras mais feias que temos, como "A Piada Infinita" é uma expressão dominada pelo contraste entre a brevidade que associamos à piada e a eternidade para que "infinita" remete, o que seria inteligente e inteligível se não corrompesse a ideia do romance. Por favor, encontrem outro título. O próprio Wallace teve um título provisório antes de se decidir por Infinite Jest

 

Rogério Casanova, com justiça descrito como "o maior especialista português da obra de Foster Wallace", tem a obrigação moral de usar a sua autoridade para impedir esta tragédia. Mas como Casanova, com a excepção que foram as eleições no SCP, não tem por hábito intervir na realidade antes de a realidade lhe surgir nas mãos devidamente contextualizada por uma capa e contracapa, o melhor mesmo é criarmos um movimento de cidadãos. Contem comigo para marchar sobre Lisboa e parar as rotativas. Se houve vaga de fundo para alimentar o ego de Manuel Alegre, há vaga de fundo para qualquer coisa. Juntemo-nos.

 

* A falha foi minha e peço desculpa a Isabel Coutinho pela precipitação. São "100 [páginas] de notas" e não 100 notas de rodapé.

 

 

14
Set11

Escolas

Eremita

Rogério Casanova escreveu recentemente (Público) o primeiro texto decente sobre David Foster Wallace a aparecer na imprensa lusa e talvez contribua para que alguém traduza o americano (good luck). Dito isto, Casanova é mais um discípulo da escola que se rege pelo mandamento "Não falarás do suicídio de DFW", que se opõe diametralmente à escola adepta de uma reinterpretação da obra de DFW à luz da sua morte. Não querendo com isto provocar o Judeu, é natural que os debates se polarizem. O problema não está no pólo que se escolhe, mas no que essa escolha pressupõe. Não é um perigo universal. No debate sobre a possível causa humana para o aquecimento global, a escolha não coloca ninguém numa posição à partida subserviente. Já nos debates entre cristãos e ateus, os primeiros assumem sempre a dianteira, pois os segundos são definidos ou definem-se a si próprios pela negativa. No caso de DFW, a polarização também não favorece quem faz do seu suicídio um tabu. Isto não me ocorreu lendo algum dos textos de DFW mais facilmente associáveis ao suícidio, como o The Depressed Person. Foi ao ler o ensaio sobre a autobiografia de Tracy Austin, o prodígio do ténis feminino que viu a sua carreira terminar aos 21 anos. Uma das teses do texto é a de que o discurso habitualmente aborrecido e cheio de chavões dos campeões traduz uma autoconfiança e incapacidade de entrar nas espirais da dúvida que são essenciais ao sucesso, mas há um subtexto, provavelmente inconscientemente censurado, alimentado pelo absoluto desconcerto de um DFW a tentar entender como aquela mulher não soçobrou com o fim da sua carreira no ténis. 

 

Sem tempo para mais agora, prometo voltar aqui. Prometo mesmo. Por uma vez, acreditem em mim.


26
Jul11

Cheiro e riso

Eremita

 [reformulado - umas 5 vezes]

James Orin Incandeza, Jr., pai de Hal, Mario e Orin, suicida-se colocando a cabeça dentro de um aparelho de microondas. É Hal quem primeiro o encontra morto e a experiência leva-o a umas sessões de terapia.

 

'The grief-therapist encouraged me to go with my paroxysmic feelings, to name and honor my rage. He got more and more pleased and excited as I angrily told him I flat-out refused to feel iota-one of guilt of any kind. I said what, I was supposed to have lost even more quickly to Freer, so I could have come around HmH in time to stop Himself? It wasn't my fault, I said. It was not my fault I found him, I shouted; I was down to black street-socks, I had legitimate emergency-grade laundry to do. By this time I was pounding myself on the breastbone with rage as I said that it just by-God was not my fault that —’
That what?’
'That's just what the grief-therapist said. The professional literature had a whole bold-font section on Abrupt Pauses in High- Affect Speech. The grief-therapist was now leaning way forward at the waist. His lips were wet. I was in The Zone, therapeutically speaking. I felt on top of things for the first time in a long time. I broke eye-contact with him. That I'd been hungry, I muttered.’
'Come again?’
'That's just what he said, the grief-therapist. I muttered that it was nothing, just that it damn sure wasn't my fault that I had the reaction I did when I came through the front door of HmH, before I came into the kitchen to get to the basement stairs and found Himself with his head in what was left of the microwave. When I first came in and was still in the foyer trying to get my shoes off without putting the dirty laundry-bag down on the white carpet and hopping around and couldn't be expected to have any idea what had happened. I said nobody can choose or have any control over their first unconscious thoughts or reactions when they come into a house. I said it wasn't my fault that my first unconscious thought turned out to be —’
'Jesus, kid, what?’
' "That something smelled delicious!" I screamed. The force of my shriek almost sent the grief-therapist over backwards in his leather chair. A couple credentials fell off the wall. I bent over in my own nonleather chair as if for a crash-landing. I put a hand to each temple and rocked back in forth in the chair, weeping. It came out between sobs and screams. That it'd been four hours plus since lunchtime and I'd worked hard and played hard and I was starved. That the saliva had started the minute I came through the door. That golly something smells delicious was my first reaction!’
'But you forgave yourself.’   David Foster Wallace, Infinite Jest

 

O cheiro apetitoso que Hal sente, ainda sem estar a par da tragédia que acaba de ter lugar, é o da cabeça chamuscada de seu pai. O estereotipado episódio do incesto involuntário, presente dos Gregos a Eça de Queirós e capaz de induzir a insidiosa culpa que vem de uma revelação que nos torna cúmplices inimputáveis mas consumados, é aqui pervertido, embora apenas no que tem de acessório, para dar origem a uma cena hilariante. A cena é extraordinária porque o riso não é um simples indicador de prazer ou de empatia. Hal sofre e o  leitor ri - aliás, ri justamente por estar iluminado por aquilo que Hal desconhecia. Mas é como se estes extremos se tocassem e ambos - personagem e leitor -  fossem vítimas da mesma experiência. A única diferença qualitativa, além da brutal diferença de intensidade, é que o leitor não pode ser salvo por aquilo que poderia eventualmente salvar Hal (a percepção da sua ignorância). Hal não chega sequer a ser traído pelos seus sentidos, é traído pela realidade. O leitor sofre uma traição mais íntima, porque é o seu corpo que falha, visto que há um instante em que, no contacto com o mundo livre de constrangimentos sociais que só o solitário acto de ler permite, não conseguimos reprimir a vontade de rir. E no fim não dá para reler esta cena macabra sem rir e poder, assim, reclamar alguma civilidade, tal como seria inútil a Hal ter voltado a passar por aquela porta em busca de paz. Mas é esta a forma de nos aproximamos de Hal e experimentamos com ligeireza - obrigado, David - a sensação de que os traumas, com ou sem terapia, não seriam traumas se não fossem irreversíveis.  A salvação é aguentar, não há mais nada. Agora preciso de ir jogar bilhar com o Judeu.

03
Abr11

Infinita mortalidade

Eremita

 

Já foi por outros tratada a angústia do leitor. Ele começa a fazer contas ao tempo de vida que lhe resta, aos livros que leu, à sua velocidade de leitura, medida em número de páginas ou centímetros de lombada por unidade de tempo, e conclui que não lhe será fisicamente possível ler tudo o que gostaria de ler. Como há alguma matemática neste exercício, talvez as gentes das humanidades falhem a estimativa e vivam numa ilusão de imortalidade, mas quem sempre acertava no ponto em que se cruzam o comboio que parte de Lisboa em direcção ao Porto à velocidade de 90 Km e o comboio que, ao mesmo tempo, sai do Porto em direcção a Lisboa a 80 Km, tem uma noção exacta do fim da linha. Em regra, esta angústia traduz-se num lamento público e, na sua forma mais criativa, o lamento gera soluções, sendo a seguinte ainda mais estapafúrdia do que a anterior: fazer um curso de leitura acelerada, abandonar os filhos, a mulher e o trabalho, contratar um actor que ande sempre ao nosso lado e nos leia ao ouvido, inventar uma engenhoca que se aplique na cabeça e coloque o livro à distância ideal, deixando as mãos livres e o ângulo de visão ainda amplo o suficiente para evitar acidentes enquanto se caminha. Na forma mais aborrecida, o leitor apenas refere os livros que leu, os que conta ler e os que provavelmente já não lerá e gostaria. Sinto esta sofreguidão com todos os autores que me parece importante conhecer, menos com David Foster Wallace. Devoro imediatamente tudo o que encontro escrito sobre ele, de que é exemplo esta recensão de The Pale King (belo título, livre de verbos), a obra póstuma e inacabada, mas consumo a sua prosa muito devagar, parecendo dar goles pequeninos no último copo de um vinho precioso. Pode ser que se trate de uma espécie de tributo, uma forma de lhe prolongar a existência, como se ele continuasse vivo enquanto houver prosa virgem por descobrir, mas eu apenas já só acredito no critério da parcimónia para decidir entre duas explicações e aprendi a desconfiar das que são belas porque me comovem. 

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