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Ouriquense

07
Mar11

Ainda há tubarões na Ponta do Sol

Eremita

Geodésicas*

 

[republicação]

Esta história começa por entrar na nossa cabeça pelos olhos de dois miúdos sentados com as pernas para fora no muro da ponte que liga a ilha ao rochedo onde se construiu o cais da Ponta do Sol. São miúdos equipados com a dita coragem física, pois conversam sem pensar no baloiçar das suas pernas, a uns 15 metros da linha de água, o que para outros seria vertiginoso, mesmo tendo eles as coxas bem assentes em lajes e que as partes traseiras dos seus pés por vezes tocam nas asperezas do muro. Depois de terem respondido ao cumprimento de um velho que por eles passou, vêem-no agora nas escadinhas do cais, com a água já pelos tornozelos. O mar não está agitado, só que sob aquela ponte pode parecer ameaçador, talvez por um confronto de correntes ampliado por um qualquer efeito acústico e seguramente pela zona de sombra que ao fim da tarde apanha aquelas águas, criando uma ilusão de profundidade. Mas como estão habituados a saltar dali, mesmo na maré vazia e ao meio-dia, quando os pedregulhos do fundo parecem tão à superfície que o mais avisado seria apontar o mergulho para o espaço entre dois deles, aqueles dois mostram o conforto de quem venceu cedo os desafios do lugar, ajudado pela ignorância de quem não sabe que a ponte teve em tempos as barras de dinamite de um movimento independentista. Olham pois para o velho com uma imperturbável curiosidade, alheios ao vento que entretanto se levantou.

 

Como o nosso ângulo de visão apanha os dedos dos pés descalços de apenas um deles, creio que observamos o velho pelos olhos do miúdo mais próximo da falésia da ilha. Se o miúdo olhasse neste momento para a sua direita e subisse o olhar pela parede aprumada, talvez conseguisse ainda ver o cimo das ruínas de um posto de observação de cachalotes, mas não o fez e o mais certo é nunca ter visto tal bicho, pois até o velho  só se recorda de lhe terem contado, quando era criança, que certo dia deu à praia um cachalote de que hoje já mais ninguém se lembra, embora talvez ainda dele alguém guarde um dente. Vemos então o pé do outro, que por vezes toca no velho, ao fundo, como se o empurrasse para a água. Nada mais parece chamar a atenção neste enquadramento. A luz do sol vem já rasteira, nenhum barco cruza a porção de mar que se abre pela frente,  a vila e a praia estão escondidas atrás da falésia e, como é Abril, não há veraneantes no cais e hoje calhou não ter vindo para aqui nenhum par de namorados.

 

Um dos miúdos comenta as pregas de carne e pele do corpo do velho. Parecem-lhe estar "no lugar errado" e creio que se refere às da sua região lombar, mas nenhum deles conhece os efeitos das grandes oscilações de peso. É-lhes literalmente estranho aquele corpo, demasiado branco e com tantas marcas de geotropismo que a terra parece estar mesmo chamá-lo. O velho não se decide a entrar no mar.

 

Os rapazes impacientam-se. Vemos o pé do miúdo a balouçar mais depressa, sem que o movimento se torne mais amplo; a ilusão óptica continua, pois o velho também não saiu do seu lugar. Só que o dedo não tomba o velho. "Achas que sabe nadar?" Ele sabe nadar. Nadou muitos anos naquela praia. Apanhou lapas de mergulho armado de uma espátula de bricolage, conheceu o fundo daquele mar, gozou as cores da castanheta preta e do peixe rei - testemunhou que são cores que morrem fora de água. Uma rotina sua era dar a volta ao cais. Uma volta ao cais é um percurso curto, que se cumpre sem paragens em menos de 5 minutos, mas que num passeio demorado, para apanhar lapas e búzios, ou simplesmente para contemplar a paisagem subaquática, pode demorar uma hora. Quando se dá a volta ao cais passa-se sempre sob a ponte, pelo que com o céu limpo é impossível não cruzar uma zona de sombra, mesmo quando o sol está a pino. Na extremidade do rochedo onde se fez o cais que aponta na direcção do mar, dependendo da maré, o corpo pode ficar sujeito ao efeitos de uma ligeira rebentação e a água ganha  turbulência por causa das bolhas de ar. O resto do percurso é mais tranquilo e quem olhar na direcão oposta à parede do rochedo que se contorna, excepto no estreito que a ponte cruza, vê sempre o fundo do mar, às vezes arenoso, outras vezes de seixos polidos, mas na horizontal não verá o fim, antes um azul a perder de vista, com uma profundidade ausente da campânula que é o céu e que é um horizonte indefinido, de onde de repente  surgem criaturas monstruosas. Ele nunca deu uma volta ao cais sozinho.

 

Quando o irmão morreu, poucos anos depois da morte do seu pai, pensou em voltar ao cais. Ele gostava de nadar entre os dois, embora a sensação da segurança lhe pesasse na consciência, que aliviava forçando-se a por vezes a deixar o irmão nadar no meio, sem que alguma vez tivessem falado sobre isso. Só uma vez, ao fim de muitos anos, o irmão lhe confessou que não era por competição mas por medo que fazia tão depressa o trajecto de regresso do cais à praia. Não sabemos se isso lhe trouxe algum conforto, mas faz sentido pensar que a vontade de regressar ao cais quando já não havia ninguém no mundo capaz de o proteger nada tem de homenagem póstuma e mais não é que uma tentativa tardia de se reabilitar da sua cobardia de menino de que talvez até espere esfeitos retroactivos. Só que ter a água pelo tornozelo não chega.

 

Os miúdos percebem. Não percebem tudo, claro, mas o suficiente. A forma como o velho chega os braços ao corpo não é a de quem tem frio, mas a de quem tem medo. Sem hesitar, um deles atira-se do cimo da ponte. O velho é despertado do seu torpor pelo som do impacto na água e tem tempo de ver o mergulho do segundo miúdo. Tão novos. Os dois nadam depressa para perto dele e pedem que "o senhor"  se junte a  eles. O velho desata a chorar. Os miúdos ficam aflitos,  saem da água, pegam no velho pela mão, levam-no para junto da sua roupa e ajudam-no a vestir a T-shirt.  5.10.2010

 

* Uma definição fantasiosa das Geodésicas está aqui. A definição rigorosa é esta: são textos escritos sem levantar o rabo da cadeira.

04
Out10

A educação pornográfica de Inácio Ramalho

Eremita

[republicação]

 

Geodésicas

 

Foi na qualidade de cadete do colégio militar que Inácio Ramalho se iniciou na pornografia. Porque o desejo antecedeu em dois meses a competência para a masturbação, a data precisa depende do critério que se considere relevante, mas na primeira e na segunda foi usada a mesma revista, o mesmo número e até o mesmo exemplar. Como sempre acontece nos colégios, um colega empreendedor dominava o mercado negro da distribuição do material. Este rapaz cedo percebeu que o verdadeiro negócio estava no aluguer, mas optou por não plastificar o seu espólio, pois o papel autocolante transparente era caro e  aplicá-lo sem deixar bolhas de ar uma tarefa difícil para quem tivera negativa na disciplina de trabalhos manuais. A sua solução foi penalizar quem não devolvesse a revista como a recebeu; de início a penalização foi pecuniária, mas a dado momento passou a ser uma interdição de novos alugueres durante um mês, fórmula que vingou. Foi assim que Inácio desde o início adquiriu hábitos de higiene rigorosos, primeiro com papel higiénico e a seguir com guardanapos descartáveis, que têm uma folha mais absorvente e o tamanho certo.

A primeira namorada  tocava-lhe como se  ele não existisse da cintura para baixo, o que acentuou o consumo de pornografia. Livre das restrições do colégio, Inácio havia aderido com entusiasmo à filmografia centro-europeia, que consumia em vídeo, depois de uma experiência desagradável numa sala de cinema.  O namoro durou pouco tempo.

Inácio perdeu a virgindade e o vício da pornografia com a segunda namorada, que viria a ser a sua primeira mulher. Por comparação, o sexo verdadeiro parecia-lhe mais satisfatório, inclusive quando acabava. Na pornografia, Inácio experimentava sempre uma ressaca de culpa, que atribuía à disciplina militar e à catequese. Com a sua mulher essa sensação de ressaca desaparecera e dera lugar a uma satisfação muito próxima da felicidade, sobretudo ao sábado de manhã, se o céu estava limpo, o esquentador não falhava e não haviam usado preservativo. Era um prazer tão intenso e compensador que Inácio só voltaria a cruzar-se com a pornografia ao surpreender o filho adolescente de calças desapertadas no sofá da sala, diante do televisor, num dia em que voltou do trabalho mais cedo do que era habitual.

A mulher de Inácio acabaria por sair de casa para ir viver com o amante. Inácio não aceitou bem a separação e depois de umas aventuras inconsequentes acabou por voltar a cair no vício da pornografia. De início, recuperou as velhas rotinas e na aparência lembrava um adolescente. Mas se a pornografia começa por ser uma cábula da imaginação, tende a transformar-se num antídoto da memória. Assim foi. Inácio procurava expulsar as imagens eróticas que a sua ex-mulher lhe deixara e o mobilizavam insistentemente. Daí a escalada que começou na contemplação da rotina onanista de uma mulher asseada e ao fim de algumas semanas já envolvia uma loira oxigenada numa estrebaria. Seria a futura segunda mulher de Inácio a salvá-lo desta via de perdição e ele não voltaria a consumir pornografia nas duas décadas seguintes.

A viuvez de Inácio chegou devagar. A mulher fora diagnosticada com um cancro e logo ficou acamada. No início da doença, pedira a Inácio que procurasse junto de uma profissional a satisfação sexual que ela já não lhe podia assegurar. A proposta supreendeu-o vindo de uma mulher tão doce e recatada, dando-lhe coragem para sugerir  a opção da pornografia, que de súbito lhe pareceu muito pouco desrespeituosa. A mulher esboçou um sorriso fraco. Viria a falecer meses depois.

O luto de Inácio incluiu o nojo da pornografia. Por a ter consumido enquanto a mulher definhava, a culpa, que antes vinha na ressaca, instalou-se a montante e passou a ter um efeito dissuasor. Assim se passaram muitos anos, em que o natural  acumular de tensão sexual foi sendo dissipado pela progressão da velhice, num equilíbrio dinâmico. Até ao dia em que Inácio deu com uma publicidade a um detergente de máquina.

A alteração do papel desempenhado pelo homem no lar levara a mudanças na publicidade. De exclusivo dos anúncios das cervejeiras e das marcas de carros, a publicidade com figuras femininas carregadas de sexualidade extravasou para outros mercados, como o dos detergentes de roupa e amaciadores, que antes tinham por público-alvo donas de casa, tias e avós. Mas Inácio era de outro mundo e o confronto com a modelo peituda espojada sobre uma pilha de toalhas turcas veio com um misto de surpresa e excitação, num contexto redentor, pois nem um mamilo se topava.  Gozar o sorriso maternal da modelo na garrafa de amaciador passou a ser o momento alto das manhãs de Inácio. Depois também das tardes. E das noites. Inácio reencontrava um fulgor sexual e, pela primeira vez, não se sentia culpado, nem a montante, nem a jusante. Esta liberdade de consciência conduziu-o à obsessão, embora seja impossível estabelecer, com rigor médico, se Inácio efectivamente se masturbou até à morte. Em todo o caso, quando o filho forçou a porta de entrada da casa do pai, que andava desaparecido, deu com o cadáver na casa-de-banho e uma garrafa de amaciador na cama. Por não ter levantado a tampa da sanita, o filho não chegou a saber que um guardanapo, até então preso à louça da retrete acima do nível da água, seria arrastado pela descarga de água do autoclismo para os esgotos da cidade.

 

13
Fev10

A inspiração é uma coordenada

Eremita

Abomino os cursos de escrita criativa. A irritação começa logo no epíteto "criativa". Parece que existe para distinguir estes cursos das aulas de alfabetização, embora a muitos dos seus alunos talvez estas fossem uma opção mais avisada. Também a ideia de discutir os exercícios com os outros colegas é muito pouco apelativa. E se nesses cursos Salinger se deu bem sentado, quando aprendia, deu-se depois muito mal de pé, como professor. Haja respeito por um homem que conseguiu morrer duas vezes sem recorrer a truques místicos.

 

Com a bibliografia de "escrita criativa" a relação é distinta, sobretudo porque não há convívio. Mas quando olho para trás, o melhor conselho que aprendi num desses livros ou artigos não é de E. M. Forster, John Gardner, James Wood ou qualquer outro nome respeitável. O melhor conselho é de Stephen King. Não o King provocador de fiction writers, present company included, don't understand very much about what they do—not why it works when it's good, not why it doesn't when it's bad. I figured the shorter the book, the less the bullshit. Nem o King assertivo de I believe the road to hell is paved with adverbs, and I will shout it from the rooftops - uma tirada que entusiasma adolescentes mas em que a primeira oração é boa e a segunda sofrível. É mesmo o King que gasta alguns parágrafos do seu pequeno livro a explicar como a sala onde se escreve deve estar mobilada. Tal preocupação tocou-me fundo. Durante anos pensei que uma carreira de escritor estaria à distância do IKEA mais próximo. Depois apurei o juízo, comecei a ir a antiquários. Mas foi em vão. Nunca consegui recriar o local ideal para escrever - e seria uma recriação, pois fui tendo imagens na cabeça. Só em Ourique vim a perceber que o meu erro foi ter feito uma interpretação literal do conselho de King. 

 

Aqui no Cotovio não há propriamente mobília, pois a casa está em ruínas e tão vazia por dentro que parece ter sido pilhada. Só que no outro dia, quando descia do monte encimado pelo marco geodésico e caminhava ladeado de arbustos que se enchem de flores brancas na Primavera, flores grandes, capazes de atrair abelhas e até apicultores, senti ali, ali mesmo, não uma promessa de Primavera mas algo que, à falta de outro termo, eu diria, sem mais demoras, poder ser descrito como "inspiração". Se sempre pensara que a inspiração descia sobre os homens vinda dos céus, experimentei algo distinto: a minha inspiração subiu-me pelas pernas e vinha tão carregada do cheiro aos actinomicetos da terra molhada que, em rigor, também me entrou pelas narinas. Estaquei logo, como se fosse um  descobridor de água por radiestesia que, de súbito, sente vibrações no seu graveto em forquilha. Sentei-me num pequeno afloramento xistoso, senti a pedra quente, etc., tirei o bloco de notas e comecei a escrevinhar impacientemente, freneticamente e depois obsessivamente (grita, Stephen, vai gritando). Nunca nada assim me havia acontecido. Há homens que têm dias triunfais; eu tive umas boas 3 horas triunfais. E materializou-se uma história no fim. Uma história em que não havia sequer pensado até então, nem mesmo quando estava junto do marco geodésico, mas que não é filha da escrita automática. A história não tem qualidade para se apresentar ao público e só a sua génese importava contar.

 

Tenho voltado ao mesmo sítio. Ao fim do primeiro dia, temi que aquela experiência tivesse resultado do cheiro a terra molhada. Todos sabemos que não há nada mais forte do que um estímulo olfactivo para reavivar a memória, com a excepção do waterboarding. Por isso decidi voltar nos dias seguintes. Escolhi dias solarengos e secos, dias frios, tardes amenas e até uma noite de luar. Fiz variar tudo o que se pode variar, inclusive os meus humores. Cheguei mesmo a ir para aquele lugar com vontade de urinar. Só não levei lá o moço de recados, pois seria incapaz de lidar com a confirmação de que também aquele idiota pode ser possuído pela minha inspiração. O resultado tem sido sempre o mesmo: a terra pode estar seca, a minha bexiga acalma-se sempre e o que vem, sem falta, é uma compulsão para a escrita que dura 3, por vezes 4 horas. É sempre com o frenesim do primeiro dia que tenho composto contos. A qualidade varia muito, mas conto mostrar dois deles nos próximos dias. Um é sobre um tenista etíope de 2 metros, a envergadura de um albatroz e um serviço tão infalível e indefensável que as regras tiveram de mudar para o jogo não morrer, matando-o a ele. O outro é sobre um velho que troca a pornografia hardcore por uma modelo peituda que nem os mamilos mostra. A demora explica-se pela dificuldade em decifrar a minha caligrafa - mesmo vertida sem urgência, é praticamente ilegível. 

 

 

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