Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2016
Quinta-feira, 29 de Dezembro, 2016

[recauchutagem em curso]

Velhos de pijama e andar seguro na praça pública são exemplos de senilidade, mas se houvesse omnisciência e rigor deveríamos subtrair todos os casos que correspondem a ajustes de contas, pois só os lúcidos tentam recuperar a paz interior. Embora o esporádico assassínio por vingança faça com que os ajustes de conta se associem invariavelmente a pessoas, mas não é por falta de enquadramento penal que devemos desconsiderar os ajustes de contas com lugares. Quando me perguntam "ela marcou-te muito, não foi?", respondo com outra interrogação: "Paris ou Nova Iorque?" Ourique, Nova Iorque, Paris, Lisboa, o bairro dos Olivais, Setúbal e... de memória viva não consigo continuar esta regressão, o que deixa Bragança e a ilha de São Jorge, lugares onde me dizem que também vivi, como aprazíveis destinos de férias futuras. Curiosamente, alguns lugares de férias passadas podem pedir um ajuste de contas. No meu caso, esse lugar é a praia da Ponta do Sol, na Ilha da Madeira.

 

O meu irmão e eu assistíamos o meu pai no mergulho para apanhar lapas, que ele arrancava com uma espátula a uma profundidade pouco impressionante e nós depois recolhíamos para dentro de sacos de serapilheira de plástico; por vezes passava-nos também jacas, uns pequenos caranguejos que abundavam por ali. O objectivo era uma frigideira de lapas grelhadas, que a minha avó faria ao fim do dia, para se acompanhar com cerveja Coral ou laranjada Brisa, mas a apanha era também uma oportunidade para gozar o espectáculo daquele mar rico em castanhetas de roxos fluorescentes e iluminado até ao fundo pelo sol. Era o mundo do silêncio de Jacques-Yves Cousteau, mas com o silêncio interrompido por uma respiração inquieta e a paisagem a rodar periodicamente nos seus 360 graus, como se pretendesse evitar ser surpreendido pelas costas. De quem era a culpa? Minha, mas também do próprio Cousteau, que filmou o tubarão branco, um bicho de verdade e não o brinquedo mecânico do Spilberg; a culpa era ainda de quem me levou ao Museu de História Natural do Funchal, visita que taxidermizou para sempre alguns receios sobre monstros marinhos. Quando entrava naquele mar plácido a perder de vista, a minha cabeça era um oceanário arquitectado por um Jeronimus Bosch, cheio de criaturas que nunca haviam sido vistas na Madeira, mas que existiam em algum mar distante e podiam nadar até ali. O mar tinha a propriedade única de anular as distâncias - antes de ler sobre as asas de borboleta na China que provocam um furacão na América, já eu pensava nas batidas de barbatanas na Ponta do Sol que excitavam os tubarões dos recifes australianos.

 

O meu pai nunca soube. E com o meu irmão nunca falei disto, porque falamos pouco. Mas lembro-me de um dia estarmos a sair da água e ele me contar que quando fazíamos o percurso de regresso à praia a sós, só os dois, ele nadava muito depressa por causa dos tubarões. Creio que foi das vezes em que me senti mais próximo dele. Éramos miúdos, mas se o mano velho também tinha medo, era normal ter medo. A vergonha não chegou a desaparecer, apesar de nunca ter recusado uma ida ao mar. Mesmo depois de o meu pai ter capturado o único monstro marinho que vi na Ponta do Sol, o medo não desapareceu. A Ponta do Sol tinha um posto de observação de cachalotes em ruínas e o meu pai contou-me que quando era miúdo um desses gigantes veio dar à praia. Por vezes passavam barcos de pesca desportiva ao largo e eu sabia que eles apanhavam peixes assustadores, mas nunca vi nenhum ali. O único monstro marinho que vi foi um polvo que o meu pai caçou com as mãos.

 

Não sei se esta classificação faz algum sentido e se há algum fundamento neurológico, mas distingo as memórias animadas (como uma cena de filme) das memórias estáticas (como um quadro ou fotografia). A imagem que guardo do polvo é absolutamente estática. De calção de banho, diante dos amigos e da família, o meu pai mostra a sua presa com um sorriso de orgulho que hoje faria dele mais um inimigo dos amigos dos animais. Só o polvo varia em função do tempo e dos humores, indo de um bicho com tentáculos de choquinhos ao polvo gigante das 20 Mil Léguas Submarinas. Esta captura deu um belo polvo de escabeche e passou a ser usada para ilustrar que os actos de bravura costumam ter associada alguma imprudência (se o polvo estivesse agarrado a uma rocha e não a seixos soltos, estaria há décadas órfão de pai), mas para mim tem um  ensinamento mais íntimo. Lembra-me que ninguém pode fazer tudo por nós, nem sequer um pai que, sem o saber, limpa o mar dos monstros marinhos. Por isso, não imagino uma vida cumprida sem voltar a nadar naquele mar e vejo-me a cumprir a tal imagem do velho senil, não na versão de pijama, mas equipado com umas barbatanas e viseira modernas que liguem mal com o meu corpo flácido ou descarnado, para enfim nadar sozinho e respirar tranquilo sem nunca olhar para trás.

Publicado pela primeira vez no blog Sinusite Crónica, este post inaugura a série "Dias". 


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Eremita às 10:01
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Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010
Segunda-feira, 22 de Novembro, 2010

 

No Inverno de 1999, de manhã mas não muito cedo, entrei num comboio em Paris e só parei em Brighton, depois de uma penosa interacção com a senhora do guichet da estação de Londres. Creio que para mim o século acabou nessa mesma noite, enquanto mijava cerveja para o oceano Atlântico na praia, não muito longe de outros homens concentrados na mesma tarefa. Fazia luar e, embora não possa afirmar que a lua brincava nos arcos de chichi, guardo desse dia imagens relativamente precisas e uma sequência de eventos que não deve estar muito longe da realidade. Talvez me engane no ano. Pode ter sido em 2000, mas é irrelevante - aliás, a dúvida quanto ao ano aumenta a certeza da importância deste dia, pois o século acabou duas vezes, primeiro em 1999 e depois em 2000, por mais que nos queiram convencer com Astronomia, História e Matemática de que só acabou uma vez. Também não me lembro do mês, agora que penso nisso. Creio que foi em Novembro, mas pode ter sido em Janeiro. Ou em Outubro. Foi seguramente no Inverno. Não me lembro sequer do meu relationship status, se me é permitido o anacronismo, mas deduzo que estava livre, pois de outro modo não teria estado tão alerta à passagem do tempo.

 

Brighton é lugar triste, como sucede por toda a Inglaterra.

 

(continua)


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Eremita às 08:43
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