Quarta-feira, 5 de Maio de 2010
Quarta-feira, 05 de Maio, 2010

série curta-metragem

A câmara filma o moço de recados a acordar. Percebe-se que é de madrugada pela qualidade da luz e as sombras alongadas, e que é Verão porque o moço dorme de tronco nu e apenas se cobre com um lençol. O lençol é branco, a parede branca, as portadas brancas. O rapaz dá voltas na cama, mudando de posição várias vezes [montar imagens do seu corpo em diferentes posições numa sequência rápida, para passar a impressão de  que muito tempo passou]. Já na cozinha de azulejos brancos, diante do frigorífico branco que acaba de abrir, e ainda em tronco nu, o rapaz bebe leite meio-gordo pelo pacote [esconder a marca] e um fio de leite começa a escorrer-lhe pelo pescoço e pelo tronco, ficando uma gotículas aprisionadas nos pêlos do peito [não insistir demasiado na carga erótica]. O moço veste depois uns calções de banho [filmá-lo da cintura para cima; evitar as nádegas], pega na prancha de surf que estava encostada a uma parede caiada de branco e sai para a rua [saturar a película de luz, encandear o espectador]. O moço monta-se na casal 50 que ficou na família e dirige-se para fora da vila; leva a prancha às costas, como se irrompesse de uma mochila como um tubarão [ponderar se a falta de aerodinamismo transmite uma sensação de imbecilidade]. Sem nunca perder o moço de vista, a câmara mostra imagens da planície de montado durante algum tempo e filma uma placa que indica a distância para uma vila costeira ou perto da costa [Vila Nova de Mil Fontes? Aljezur? Zambujeira do Mar? Talvez esta]. A câmara continua a filmar o rapaz [nova sequência para dar a ilusão de que uma grande distância foi percorrida] e depois foca-o na cara [o cabelo - de surfista dos anos oitenta - acusa o movimento]. Quando o moço se imobiliza [captar bem a transição do barulho da motorizada para a calmaria de um discreto vaivém da água sobre a margem], a câmara afasta-se um pouco e vê-se o rapaz de frente, do peito para cima, com o céu azul ao fundo e nenhum ponto de referência. Vê-se o  rapaz avançar [resoluto] com uma expressão ambígua no rosto, mas fixando o olhar para lá da câmara. Ouve-se o barulho dos seus pés a caminhar e, de repente, a chapinhar. Percebe-se depois pelo movimento do corpo que pousa ele pousa a prancha na água [captar todos estes sons e exagerá-los]. A seguir a câmara faz um movimento de contorcionista, para começar a filmar o rapaz de topo e já o podemos ver deitado sobre a prancha, remando com os braços [o plano de água enche por completo a imagem, não se vendo o céu, nem as margens]. Após algumas braçadas, o rapaz imobiliza-se [fazer com que aproveite toda a inércia até parar] e senta-se sobre a prancha. Continuamos a vê-lo de topo [escolher um actor sem careca no cocuruto] e a câmara começa a subir e a abrir o ângulo. O ângulo abre, abre, vemos a primeira margem a entrar pelo rodapé, mais margem a entrar pelo lado esquerdo [ou o direito, é indiferente], depois pelo outro lado e finalmente por cima. Percebe-se então que o moço de recados não está no mar, mas na barragem do Monte da Rocha.

 

 

 


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Eremita às 11:11
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