Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017
Segunda-feira, 30 de Janeiro, 2017

 

 

 

 

Bem sei que o título denuncia a minha idade. Nenhum jovem, a menos que seja um jovem tomado por alguma afectação, escreveria semelhante coisa. Só tenho pena de não me lembrar em que estado fiquei depois de ver The Mosquito Coast, há cerca de 30 anos, quando era adolescente. Do filme, lembrava-me o suficiente para ter estabelecido paralelos óbvios com o recente Captain Fantastic, que vimos ontem. Salta aos olhos que Captain Fanstastic é o The Mosquito Coast da nova geração. Em ambos, um homem invulgarmente inteligente, científico e carismático, crítico do consumismo e das religiões organizadas, tenta romper com a sociedade norte-americana e procura reencontrar-se com a natureza, arrastando com ele toda a família. Em ambos, este homem falha e causa grande infortúnio aos seus. Enfim, os paralelos são de tal forma ululantes que dei por mim a perguntar se uma das crianças de Captain Fantastic não teria sido escolhida por ter o nariz arrebitado como o de River Phoenix, actor que representa uma das crianças de The Mosquito Coast. Naturalmente, há diferenças. Se Harrison Ford, o actor em The Mosquito Coast, é um patriota desiludido com a vulnerabilidade da economia americana ao Japão (eram outros tempos), cuja quimera é dar a conhecer o gelo a uma tribo recôndita, Viggo Mortensen, o captain, é uma espécie de hippie anarco-sindicalista que venera Noam Chomsky e sonha em fazer dos filhos reis filósofos, submetendo-os por isso a um rigoroso treino intelectual e físico, que inclui exercícios como a escalada desportiva de dificuldade elevada, a aprendizagem de seis línguas, entre as quais o Esperanto, um ritual de passagem que consiste em matar à faca uma presa de grande porte e comer-lhe o coração palpitante, e ainda, para cúmulo, a leitura de Os Irmãos Karámasov. O primeiro é mais grandiloquente, trágico e complexo do que o seu algo sucessor, mas os filmes coincidem na mensagem, que é irremediavelmente conservadora: o problema das utopias não é a sua impossibilidade, nem sequer a sua realização aquém do idealizado (a eterna desculpa dos comunistas), mas o seu lado intrinsecamente distópico, nos dois filmes revelado pela teimosia, autoritarismo, irresponsabilidade e até loucura (no caso de Ford) dos pais. Não chega a ser uma revelação, pois basta lembrar que ninguém teria vontade de viver na ilha imaginada por Thomas More. Dito isto, hoje sinto-me mais obrigado a ensinar guitarra às gémeas do que há dois dias. 

 

 

 



Eremita às 10:51
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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2012
Quinta-feira, 22 de Novembro, 2012

Em The Firm (1993), não era tarefa fácil tornar verosímil a infidelidade de uma noite do jovem advogado representado por Tom Cruise: 1) apesar de advogado, naquela altura do filme Cruise ainda não vira os seus ideais serem postos à prova e tinha a consciência imaculada; 2) Cruise casara-se recentemente com a personagem interpretada por uma actriz atraente, ainda que de nome presciente, Jeanne Tripplehorn; 3) por algum capricho de Grisham (o autor do livro) ou de Pollack (o realizador), Cruise está sóbrio no momento do adultério. A única solução possível, excluindo a coacção, que iria dificultar a trama, passava por contratar uma mulher tão sensual que qualquer casal de espectadores iria experimentar um breve e tácito silêncio logo quando começasse a passar o genérico final. A actriz escolhida foi Karina Lombard e, em 1993, uma tentativa de sedução sua fracassada levantaria sérias dúvidas sobre a acuidade visual ou a orientação sexual do seu alvo, muito antes de concluirmos algo sobre o seu carácter. Como provavelmente sucede com outras pessoas, mesmo aquelas que ainda não estão a procurar "Karina Lombard circa 1993" no Youtube, depois de ver o filme fui à procura daquela cena marcante. Mas como talvez também suceda com outras pessoas, se houve uma altura em que o Youtube me fascinava por funcionar como uma memória colectiva infalível, hoje gosto mais das pesquisas frustradas, prazer que os mais novos nunca terão.

 

 


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Eremita às 10:16
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2012
Segunda-feira, 12 de Novembro, 2012

O mais fácil é fazer com que uma parte do cérebro volte à adolescência; o mais é consegui-lo sem perturbar as outras partes.

 

 

 


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Eremita às 08:22
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Quarta-feira, 17 de Outubro de 2012
Quarta-feira, 17 de Outubro, 2012

The French Lieutenant's Woman (1981) contém uma das cenas de sexo mais rápidas da história do cinema, que ainda não vi documentada. Foi o que fiz. São 41 segundos, se considerarmos o momento em que ela o recebe entre os braços; porém, a acreditar que um primeiro gemido mais alto identifica o momento em que ela o recebe entre as pernas, são 22 segundos. Este pequeno exercício não faz justiça à trama de pulsões em desacerto que o filme constrói, nem capta a solução narrativa para contar uma mesma história com dois finais, o que, embora hoje pareça algo datado e lembre uma versão sofisticada e autocrática do Você Decide, em tempos apresentado por António Sala, tem um virtuosismo a que não sou indiferente.  

 


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Eremita às 06:22
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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011
Quarta-feira, 03 de Agosto, 2011


 

O traço comum a todas as críticas de The Pale King, o romance póstumo e inacabado de Foster Wallace, é que nele se tenta tornar interessante um assunto imensamente chato. Inifinite Jest tem uma matéria-prima suculenta (drogas, dependência, competição e terroristas canadianos) e The Pale King parece ter o seu contrário (funcionários públicos de uma repartição de finanças), sendo esta busca do desafio derradeiro a prova definitiva do génio de Wallace. Isto parece-me demasiado esquemático, mas também é verdade que as críticas a Wallace e a própria forma de Wallace pensar sobre a sua obra e a sua pessoa me parecem básicas nas suas contradições e conclusões apresentadas. E já que é assim, permitam-me, aqui de Ourique, ser ainda mais esquemático e identificar a verdadeira imagem espelhada de The Pale King, que não pode ser Infinite Jest, visto que ambos tendem para o interessante. Quem consegue tal ousadia é Steven Soderbergh, em The Girlfriend Experience, a história de uma prostituta que, em filme, dá imenso sono. Nunca saberemos se foi intencional, embora a ideia de usar uma ex-actriz de filmes pornográficos no papel principal talvez seja a solução (favorável a Soderbergh) para este enigma. Em todo o caso, ainda bem que o Judeu adormeceu mesmo antes do fim, pois na última cena vemos um dos seus a ejacular apenas por dar um abraço à prostituta, percebendo-se que se trata de uma rotina entre os dois. Ora, qualquer pessoa sabe que os judeus ortodoxos são pessoas que reagem mal ao toque das gentias, mas há limites. Aquela cena não eleva em nada o povo eleito e seria capaz de pôr em campo o sionista que vive dentro do meu amigo.


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Eremita às 08:15
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Segunda-feira, 30 de Maio de 2011
Segunda-feira, 30 de Maio, 2011

 

A World Wide Web é tão wide e Portugal tão pequeno, que sobre qualquer assunto da actualidade que mereça uma atenção global é muito fácil encontrar online uma opinião que podia ser a nossa. Curiosamente, enquanto louvamos sem reticências o acesso à informação que a web possibilita, tendemos a esquecer o acesso à opinião, que parece ser o dirty little secret do intelectual. Um filão inesgotável de opinião prefabricada tem todas as características de uma tentação - dá-nos uma uma ilusão de saber, mas reproduz o efeito pernicioso da máquina de calcular: a certa altura, deixamos de saber pensar, como as crianças deixaram de saber fazer contas.

 

Há três formas de lidar com esta tentação. A mais radical, difícil e algo estúpida consiste em evitar qualquer leitura antes de termos uma opinião completamente formada sobre um determinado assunto. A mais preguiçosa consiste em devorar todas as opiniões e formar a nossa como se se respondesse a um teste de escolha múltipla. A posição mais sensata, creio, consiste em produzir  de modo autónomo - literalmente unplugged - uma ideia em embrião e usar depois a web para acelerar o seu processo de amadurecimento, identificando a forma para que o nosso esboço de ideia provavelmente iria evoluir. O que penso do último Malick está essencialmente aqui e só acrescentarei alguns pontos que são estritamente idiossincráticos, mas vai demorar uns meses.

 

Continua


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Eremita às 08:59
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Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010
Quinta-feira, 30 de Dezembro, 2010

Spoiler Warning

 

 

 

Há já algum distanciamento histórico para afirmar que, depois a reforma política de Donald Rumsfeld, as melhores frases do ano voltaram à ficção. A de 2010, sem qualquer sombra de dúvida, encontra-se em Due Date. O filme tresanda a Big Lebowski, já quase um odor da infância afectiva, e há até uma cena de lançamento de cinzas. Neste filme, o vento sopra de feição e as cinzas não são de um amigo, mas do pai daquele que as vai lançar. Antes assim, emboa tivesse temido o pior, pois a famosa cena do Lebowski é um combinado de ternura e humor hilariante formalmente impossível de superar. Para alegria de todos, a cena homóloga de Due Date não envergonha, devido à extraordinária frase de abertura:

 

Dad, you've been just like a father to me

 

PS I: Gaspar, o rapaz do Cineclube, detestou o filme e a frase. Não sei até que ponto o definido maxilar de Robert Downey Junior terá influenciado a sua opinião, mas a verdade é que começo a acumular sinais de uma pulsão homoerótica reprimida neste rapaz. Quanto a não ter gostado da frase, lamento ter de ir buscar a sua infância, mas é bem possível que  Gaspar seja habitado por problemas com os progenitores mal resolvidos.

 

PS II: este filme deu-me uma ideia para mais um ensaio, a incluir no primeiro tomo da obra académica do Ouriquense.

 




Eremita às 09:46
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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010
Segunda-feira, 20 de Dezembro, 2010

 

Before the Devil Knows You're Dead deu-nos as personagens mais desesperadas da história do cinema recente. Em Stone, de Niro dá-nos a personagem mais triste. Peço deculpa pelo tom telegráfico e a armar ao crítico de cinema, mas preciso de terminar o Quijote antes de quarta.

 


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Eremita às 09:17
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Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010
Terça-feira, 14 de Dezembro, 2010

Onde se conta o primeiro breakdown de Gaspar*, mais conhecido como "o rapaz do cineclube"


 

 

 

Gaspar pirateou a Cinemateca e regressou com mixed feelings. Tecnicamente, foi um gesto notável e cuja descrição aqui censuro, pois sou um cidadão retirado do mundo, mas ainda assim responsável; digamos, para atalhar, que o feito está para o mundo das cópias piratas como roubar o Federal Reserve Bank para o mundo dos assaltos. Mas não  é a Lusomundo, nem é o Paulo Branco, os alvos habituais. Gaspar sabe que deu uma dentada no erário, por muito barato que seja o preço do bilhete na Cinemateca. Talvez essa culpa o tivesse predisposto para o sentimento que verbalizou no fim da sessão, quando já só os dois nos encontrávamos na sala e eu o ajudava a guardar o projector:

 

- Estes velhos em filmes velhos são uns mortais particulares, não achas? Um morto que não se mexa e só apareça em quadros ou fotografias é um assunto arrumado. Um vivo é um processo em curso. Mas se aparece um actor de um filme antigo e, ao resolvermos a equação que integra a sua idade aparente e o ano de filmagem, concluirmos  que só pode estar matematicamente morto, passa a ser um fantasma durante  todo o filme. Pode até estar a fumar um charuto a uma mesa rica, ser gordo e representar um banqueiro,  ou uma sex symbol de época, dengosa e de perna longa, que na minha cabeça aparecerá como se  estivesse a profanar as sua campa. Não interessa que ele seja irrepreensível ou, como se diz em Lisboa, que vá muito bem. Para mim é sempre um fantasma, às vezes cheio de vermes. Acreditas que não voltarei a ver o Spartakus se o Kirk Douglas não optar pela cremação? Isto explica a razão de não vermos clássicos em Ourique. Não é desinteresse pela grande cultura cinéfila, percebes? Eu leio os Cahiers. É só porque fico triste, triste, triste - estas palavras foram repetidas sem que mudasse a entoação, e depois foi brusco. Tu acreditas em fantasmas?

 

Preferi nada dizer sobre Ricardo Chibanga.

 

* Gaspar passa a ser a designação mais habitual do rapaz do cineclube e é até provável que tenha alguns efeitos retroactivos.



Eremita às 00:34
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Sábado, 2 de Outubro de 2010
Sábado, 02 de Outubro, 2010

 

Alle Anderen (2009)
Refiro-me menos à notável secura de carnes de Lars Eidinger e ao improvável rabo arrebitado de preta de Birgit Minichmayr e mais ao modo como Maren Ade os filma. As primeiras cenas são a melhor representação do enamoramento que vi no cinema, pelo menos desde a cena da sauna em Soleil Trompeur, de Nikita Mikhalkov. Depois o filme é um autêntico disparate, como também costuma acontecer às relações. São mesmo as cenas iniciais que o salvam.

Que seja um filme alemão a lembrar-me o que é o amor não seria tão bom como descobrir um brilhante cómico de stand up algures em Hamburgo, perdido num alinhamento de cabaret, mas chega para estilhaçar outro estereótipo. O amor no cinema europeu costumava acontecer na Europa do sul (Igreja e ilhas gregas), em Paris (mulheres a fumar), no Reino Unido (na versão amor de época, com um belo guarda-roupa,  e na versão do amor realista, com gente a carecer de um dentista) e na Escandinávia (quando Bergman filmava). Na Alemanha, na Áustria e em praticamente toda a Europa de Leste o tratamento do amor tende a ficar refém de grandes acontecimentos históricos, dos empalhamentos de Vlad Dracula ao nazismo e ao comunismo - bem sei que qualquer leitor se lembrará de vários exemplos que destroem esta tese, mas estou apenas a partilhar uma impressão pessoal. Acresce que a contribuição da Alemanha para o universo de referências erótico-passionais registava uma descida constante desde o fim dos anos noventa, por causa da subtil metamorfose que pôs  no rosto de Claudia Schiffer o eterno sorriso de um coelhinho e do desaparecimento daquele belíssimo enquadramento televisivo que era a posição de recepção de serviço de Steffi Graf filmada de costas, sobretudo quando em Roland Garros, talvez por o ligeiro ocre da terra batida ligar tão bem com o branco da roupa e realçar ainda mais aquelas pernas sublimes. Podia ainda referir incidentes menores, como as recorrentes gravidezes de Heidi Klum e, curiosamente, a substituição de Helmut Kohl por Angela Merkel (o chanceler Schröder é uma figura absolutamente irrelevante, neste contexto), que também contribuíram para o decaimento do erotismo da mulher alemã no contexto internacional. Vivemos pois uma época longe das glórias passadas que foram Marlene Dietrich, a adaptação cinematográfica de As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant e os anos dourados da pornografia centro-europeia antes da queda do muro de Berlim (isto li eu numa colectânea de ensaios), não sendo até descabido afirmar que o principal ícone feminino alemão contemporâneo é Bill Kaulitz, aquele moço do grupo Tokio Hotel.

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Eremita às 02:35
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Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010
Segunda-feira, 30 de Agosto, 2010

 

Louis Garrel é uma pedrada no charco da minha heterossexualidade. Por amor de Deus, este novo problema é particularmente inoportuno.

 


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Eremita às 20:18
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Domingo, 16 de Maio de 2010
Domingo, 16 de Maio, 2010

 

Ninguém pode pôr em causa o empreendedorismo do rapaz do cineclube. Graças a ele, hoje pude ver o Como desenhar um círculo perfeito. Mas a sua ortodoxia começa a irritar-me ao ponto de o confronto físico ser praticamente inevitável - no fundo, estamos ambos à espera de um ciclo Bruce Lee.  Bem sei que a ortodoxia pode traduzir características nobres, incluindo a coragem. Só que também há nele uma obsessão pelo rigor que o leva a encarar algumas propostas menos convencionais com um cepticismo de ignorante que não é compatível com o seu estatuto de presidente do cineclube. E um inesperado complexo de classe que me deixou com vergonha alheia, para ser franco. No fim da projecção, o nosso diálogo - spoiler warning -  começou com um desabafo dele:
- Mais um gajo do Liceu Francês para aturarmos.
- Desculpa?
- Esta mania de fazer filmes em francês, pá... Detesto. Marco Martins está para o cinema como o David Fonseca para a música pop. Deve ser para ganhar prémios internacionais.
- Que disparate. Não me pareceu nada gratuito.
- Poupa-me. Só se a ideia era disfarçar as deficiências dos putos a representar em português. O ouvido para a língua nativa é sempre mais exigente.
- Não gostaste da Batarda?
- Não discutimos a Batarda.
- Certo. Não discutimos a Batarda. Os miúdos são bons. Aquela cena de sexo, não foi sublime?
- Sim, sobretudo porque ela não fala, só grita. Mas é a excepção.
- Não sejas desagradável.
- A cena é boa, concedo. Enfim, continuamos com pudor ao nu frontal, mas aquilo vai num crescendo muito convincente.
- Não me lembro de nenhuma cena de sexo feita em Portugal  tão conseguida. Nem no cinema, nem na literatura.
- Sim, na fotografia houve aquela série da Clara Pinto Correia.
- ...
- Só que a cena de sexo não compensa a falta de raccord. Há coisas que não tolero. Falta de raccord, quintas paralelas, o verbo "haver" mal conjugado. Há mínimos.
- Pelo menos não vemos microfones.
- Certo, mas eu vi a avó a respirar na câmara ardente. O filme é sobre mortos-vivos?
- Uma pequena falha.
- Ah, bravo. Não tentas uma interpretação.
- Não. Foi uma falha. Mas é irrelevante.
- E a placa da agência imobiliária? Estava presente à entrada da mansão ao fim da tarde e desapareceu de manhã. A casa foi vendida durante a noite? Com o mercado neste estado?
- Não reparei.
- E a cena final? Aquele círculo precisava de sair perfeito, não era?
- Não saiu?
- Não. O fim do risco não apanha o princípio. Pensei que a solução fosse ocultar essa parte da parede com a miúda e estava a correr bem, mas depois vê-se um rabisco.
- Não estás a exagerar?
- Como é que se chama o filme? O círculo perfeito remete para... ajuda-me.
-  Uma obsessão?
- Isso é vago.
- Uma impossibilidade de mudança? A dependência dessa impossibilidade?
- Sim, uma impossibilidade. Ora, o círculo imperfeito representa uma ruptura, esperança. O fim fica ambíguo.
- E isso é mau?
- Gosto de finais abertos intencionais e não de finais abertos por deficiências de comunicação.
- E que mais? Lembras-te do açúcar?
- Sim, bom som. O som foi a grande conquista do cinema português nas últimas três décadas. É uma vitória da tecnologia e dos subsídios.
- E o jogo do galo? E aqueles desenhos animados no fim da cena de sexo?
- O que é que têm?
- Nos marcos estereotipados das etapas do crescimento, deixar de perder ao jogo do galo segue-se a deixar de acreditar no Pai Natal. Só os idiotas e as crianças perdem ao jogo do galo. Mal se aprende o jogo, perde-se o interesse. Quando aquele pai desafia o filho adolescente para jogar com ele e o filho perde, para mais com o requinte de desenhar círculos perfeitos, sentimos que o pai não percebe nada e que o filho desistiu do pai.
- Perdi ao jogo do galo no outro dia.
- Não gozes.
- Perdi, juro. O judeu tramou-me.
- Estavas distraído. Tu percebeste. Também os desenhos animados reforçam a ideia de um regresso impossível à infância.
- É fascinante que ainda não tenhas tentado uma interpretação psicanalítica para todas aquelas masturbações incestuosas do miúdo, incluindo uma inspirada pela visão de seu pai a fornicar uma prostituta.
- As interpretações psicanalíticas são sempre aborrecidas...
- Não achas que se fuma muito naquele filme? É mais um sinal de francofilia. Até me surpreendeu não ver o logotipo do Canal Plus nos créditos finais.
- Há aí uma pontinha de xenofobia.
- E a mania de filmar interiores decrépitos?
- Sai-se melhor do que o Wim Wenders de Lisbon Story.
- Sim, é menos postaleiro, vê-se que é um lisboeta, mas chateia-me a estética on your face. Aquela chuva, a luz azulada.
- Estética on your face? Aqueles planos na praia são "on your face"? Não viste ali uma citação?
- Lá vens tu com o truque das citações encriptadas. Estás a fazer bluff, aposto.
- Não insisto.
- Insisto eu. O vizinho, pá, que nervos. Aquilo é dedo do M. Tavares, topa-se a milhas. O vizinho, se tivesse nome, era para aí o senhor Siegfried.
- O vizinho simboliza aqueles que passam a vida desenhando o mesmo círculo. Quando o pai oculta ao filho a imagem do vizinho morto, faz mais um mau serviço.
- Que perseguição ao pai do miúdo. Posso arriscar uma interpretação psicanalítica?
- Só se quiseres arriscar também um dente.
- Brrrrrrrr... que medo.
- Vai para o caralho.

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Eremita às 22:10
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Quarta-feira, 21 de Abril de 2010
Quarta-feira, 21 de Abril, 2010

 

 


O rapaz do cineclube cortou relações com os pais quando se deu conta de que não havia em super-8 registo da sua infância. "Não é possível saber hoje como me movimentava quando tinha 3 anos. É inadmissível, havia dinheiro".


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Eremita às 12:27
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Segunda-feira, 8 de Março de 2010
Segunda-feira, 08 de Março, 2010

O rapaz do cineclube não tem namorada, embora seja um miúdo bonito. O diálogo seguinte (praticamente real) esclarece este mistério.

 

- Tu tens 22 anos, certo?

- 23.

- Mas não tens namorada, pois não?

- Não quero falar sobre isso.

- Partiu-te o coração?

- Deixou-me por um homem de 39 anos. Quase quarenta.  A cabra... Achas normal?

- Ele tem dinheiro?

- Não sejas pateta. Pareces uma personagem de ficção nacional a fazer de inspector da judiciária.

- Então?

- Não sei. Apaixonou-se. É revoltante.

- Tenta descobrir o lado reconfortante.

- O lado quê?

- Encontra-se sempre um reconforto escondido naquilo que nos revolta.

- Não tenho jeito para vítima, tu conheces-me bem.

- Sem ir por aí. No fundo, as diferenças físicas e psíquicas entre um rapaz de 22 anos e um homem de quarenta são tão grandes que é como se a tua namorada te tivesse trocado por uma mulher.

- Que disparate.

- Será? A frustração que vem de perder para um dos nossos desaparece quando se perde para outra pessoa que não nos é comparável. Não?

- Talvez. Talvez tenhas razão.

- E esse sorriso?

- Estou a imaginar o tipo vestido de mulher. Como no Tootsie. Devíamos fazer um ciclo Dustin Hoffman, não achas?

- Acho que deves encontrar uma miúda primeiro.


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Eremita às 15:09
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Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2010
Terça-feira, 16 de Fevereiro, 2010

Como se sabe, o lado negro do empreendedorismo do rapaz do cineclube é a sua prepotência. Não deve haver lugar em Ourique sob uma disciplina mais férrea do que o casebre onde têm lugar as sessões. Mas nunca pensei que o moço pudesse levantar a voz para que me sentasse. Tudo isto porque em Whatever Works há uma cena filmada naquele que era o meu restaurante preferido em Nova Iorque, o Cafe Mogador. A surpresa por ver a East Village em Ourique fez-me saltar da cadeira. Pois bem, como em Lisboa gastei toda a tolerância que tinha para criaturas prepotentes, recusei a ordem, soltei um "vai bugiar, fedelho" e bati com a porta. O meu desabafo soa pouco verosímil e deixou-me orgulhoso, pois é o resultado de um  esforço de extensão do vocabulário em situações de stress, que ainda não havia sido posto à prova. Pelo sucedido, ainda não sei ainda como acaba o filme.


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Eremita às 21:46
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Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010
Quarta-feira, 10 de Fevereiro, 2010

- Já assinaste a  "Todos pela Liberdade"?

- Não posso assinar.

- Não podes?

- Quero filmar aquilo e não me posso envolver.

- Mas assinarias?

- Se não fosse filmar? Claro.

- E não te irrita?

- A deontologia profissional? Claro. É uma carga de trabalhos.

- Admiro-te.

- Eu admiro-me é com outros. Mas, enfim, tenho um esquema.

-  Tu também?

- Convenci mais uma pessoa das que iria convencer se não fosse filmar.

- É notável!

- Sim. Desta forma excluo-me do fenómeno que pretendo filmar sem o perturbar. Já ouviste falar no princípio da incerteza?

-  Vagamente.

- Aprendi-o com Boaventura dos Santos.

- Com quem?

- Com Boaventura dos Santos, no livrinho Um Discurso sobre as Ciências.

- Ah.

- Depois do documentário conto escrever um ensaio para rebater o Boaventura com base no meu exemplo. Eu violei o princípio da incerteza. Eu vou observar o objecto sem o perturbar.

- Mas achas que o princípio diz mesmo isso?

- Lê o Boaventura.

- É dele, o princípio?

- Não, é de outro gajo.

- Pois, eu sei. E tu, sabes?

- É do... Eisenstein.

- Heisenberg.

- Estive perto.

- Pois. A esse Boaventura sucedeu o mesmo.

 

 

 


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Eremita às 11:27
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Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010
Quarta-feira, 03 de Fevereiro, 2010

 

Habitam o rapaz do cineclube uma série de qualidades: empreendedorismo, persistência, coragem e... enfim, creio que a enumeração é já exaustiva. Mas o moço tem também uma notória falta de sociabilidade. Pode ser desagradável, irascível ou  irrascível (para os criativos da língua), manipulador,  autoritário e capaz de pôr os seus intentos à frente de valores como a honestidade e a justeza. Ontem fez-nos mais uma. No preciso momento em que terminava Invictus e antes dos créditos finais,  acendeu a luz. A ideia era apanhar-nos em flagrante lacrimal. Como eu chorava ligeiramente, indignei-me, primeiro com o abuso e depois com a estupidez. Para o moço, não se pode chorar num filme e afirmar que não se gostou. Voltarei ao tema, pois houve aqui um encadeamento raro: partir de uma falha ética e acabar a trucidar a estética.


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Eremita às 00:56
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Sábado, 23 de Janeiro de 2010
Sábado, 23 de Janeiro, 2010

 

 

 

 

O rapaz do cineclube ouviu a minha ideia de se fazer um ciclo com os actores da geração pós Robert de Niro. O rapaz tem 38 anos - só o trato assim por ser mais novo do que eu - e escolhi exemplos que fizessem sentido para alguém com a sua idade. Imprimi umas folhas, quase um dossier. Creio que falei bem. O raio do puto não ficou convencido. Porra, dá vontade de chamar o Sá Pinto. De alguém que pirateia filmes no eixo Monumental-Barata Salgueiro vai para 2 anos esperava mais do que : "não é um pouco rabeta?"


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Eremita às 23:01
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Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
Segunda-feira, 18 de Janeiro, 2010

 

 

Das weisse band é o filme do ano a estrear em 2010 e suspeito que manterá o título até Dezembro. Com a morte de Rohmer, acentuou-se uma tendência: há referências a "contos morais" por todo o lado. Mas o que não é um conto moral, afinal? Lethal Weapon II não é um conto moral? Precisamos de um critério de demarcação, caso contrário vamos fazer da designação "conto moral" o que fizemos com a "condição humana", hoje reduzida a um cliché que já nada descreve. É neste contexto que o filme de Haneke tem uma função pedagógica. Não no sentido de ser moralista, obviamente. Não no sentido em que Haneke é por vezes demasiado explícito. E nem sequer por nos lembrar que The Age of Innocence era um filme optimista, pois o realizador mostra que a perda da inocência acontece logo na infância ou na adolescência e não na idade adulta. Haneke apenas nos ensina que o conto moral tem de bater num certo lugar da consciência, que está sempre à espera que o visitem. Brodsky escreveu que a consciência nasce com a primeira mentira, mas estava errado. A consciência nasce com o primeiro remorso. O que é então um conto moral? É qualquer história que seja incompreensível para o menino da imagem, a única criatura que no filme mantém a inocência.

 


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Eremita às 10:19
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Sábado, 16 de Janeiro de 2010
Sábado, 16 de Janeiro, 2010

O rapaz do cineclube não é apenas um idealista. É também um fanático com um formalismo desconcertante. Como tenho uma box de Eric Rohmer, propus uma sessão de homenagem, mas o raio do puto fez finca-pé, por não ter pirateado nenhum dos filmes do realizador, condição sine qua non (sic) para passar as fitas. Depois de muito discutirmos, chegámos a uma solução de compromisso. O puto vai assaltar-me a casa e roubar-me a box. Por isso, daqui a uns dias teremos mesmo uma sessão de homenagem a Rohmer. Infelizmente, não consegui convencê-lo a roubar-me a casa comigo lá dentro (o que seria pretexto para a sua reeducação por espancamento) e lá aceitei que ele fizesse um furto, pela calada. Enfim, pelo menos prometeu que não iria estragar a fechadura.


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Eremita às 14:35
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Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010
Segunda-feira, 04 de Janeiro, 2010

 

 

 

 

Uma resolução de fim de ano do rapaz do cineclube foi voltar ao saque de filmes em Lisboa. Este jovem fez uma depressão há umas semanas, quando lhe sugeriram que seria mais simples recorrer ao download de filmes. Alguns pensaram que ele se viu sem projecto de vida e por isso se deixou abater, mas outros - como eu - ainda defendem que o miúdo fraquejou por se sentir incompreendido. Não perceber que é pelo esforço investido no saque das imagens um filme numa qualquer sala da capital que as sessões do cineclube ganham sentido é reger-se por um pragmatismo absurdo. Suspeito que esta tecnocracia aplicada às horas vagas, que faz de um cobarde e preguiçoso download uma solução ideal, foi ideia de uma das libertinas. Estas gajas ainda não perceberam que o cineclube é uma célula  de activismo cultural contra a hegemonia da capital. O rapaz não anda a pôr bombas no Monumental porque é um moderado e tem familiares lisboetas, mas roubar as imagens que são projectadas na capital e oferecê-las de borla aos ouriquenses, na mesma semana em que estreiam em Portugal, é o seu manifesto.

 

Ontem vimos o Un Prophète. A sensação que experimentei foi absolutamente nova. Havia familiaridade misturada com supresa, como se passasse por um déjà-vu irrecuperável. Só no fim percebi, quando uma das libertinas passou por mim e me disse que sou parecido com Malik, o delinquente que é personagem principal. Tem só alguma razão, mas é a primeira vez que reconheço alguma parecença com um actor. Escusava era de o ter sussurrado ao ouvido.

 

 


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Eremita às 21:50
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Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Quarta-feira, 21 de Outubro, 2009

Ainda não contei uma história sobre uma rapariga que conheci no cineclube. É adorável, de uma beleza que tolera umas sobrancelhas por arranjar e com sangue azul espanhol nas veias. Soube que a rapariga tinha um namorado antes de a conhecer. Começámos a falar. Um dia aproximou-se de nós um rapaz que eu nunca vira e que ela abraçou demoradamente. É verdade que não o beijou na boca, mas pegou nas suas mão e deu-se tanto que pensei tratar-se do seu namorado. Invejei-o. Passaram umas semanas e percebi por conversas cruzadas que aquele rapaz era apenas um amigo. Hoje, no café, a rapariga desafiou-me para a acompanhar até à rua, pois queria fumar. Aceitei o convite. Conversámos. Quando nos despedimos, ela agarrou-me pelo braço, abraçou-me quando a beijei na face e pediu-me que voltasse na semana seguinte. Quase explodi de entusiasmo naquele momento, mas lembrei-me depois que ela parecia ter pelos amigos o carinho que outras nem pelo namorado têm, o que me reduzia à condição de mero conhecido.


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Eremita às 02:05
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Domingo, 15 de Março de 2009
Domingo, 15 de Março, 2009

 

O rapaz do cineclube acaba de chegar da capital. Vem triunfante.  Às 13 horas pirateou o Grand Torino, no Monumental Saldanha, e ainda hoje quer organizar uma sessão, que coincidirá com a sessão das 19:45 do mesmo Monumental. A diferença de dias entre a estreia de um filme em Lisboa e em Ourique nunca foi tão pequena. Ainda há em Portugal quem tenha brio na sua actividade. O entusiasmo do rapaz é tal que acabo de me fazer sócio do seu clube e dobrei-lhe a jóia, depois de ele me prometer que vai melhorar a captação do som e eliminar digitalmente a sua respiração, por vezes demasiado presente, a lembrar o Glenn Gould. Artistas...

 

Temos Clint Eastwood. Depois do thriller falhado que é Mystic River, depois do díptico de efeito fácil sobre Ywo Jima, depois do pastelão competente que é Changeling, eis um filme sobre redenção que recupera a magia de Perfect World, com o qual estabelece o paralelo mais óbvio. De certa forma foi um alívio, pois o trailer fazia supor que estaríamos perante um Dirty Harry na reforma, o que teria sido aborrecido. Ainda assim, [spoiler! Retomar em "Bruno"] a última cena é uma espécie de variação do "go ahead, make my day", em que a Magnum é substituída por um isqueiro.  Bruno Vieira Amaral, o melhor português a escrever de graça sobre cinema, apesar dos tiques de antropólogo, explica o resto e eu concordo com quase tudo.

 

O mais fascinante na noite de cineclube de ontem não foi o filme, foi mesmo o rapaz que anima estas sessões. Quando ele saltou para diante do projector, a instantes de começar o filme, passava a mensagem contra a pirataria, que de repente ficou partida entre as letras focadas na parede e as letras desfocadas na T-shirt e cara do miúdo. Foi nestas condições acidentalmente cinéfilas que ele arrancou a justificação da sua pirataria. E que emoção... Percebia-se ali uma retórica também cinéfila, retalhos de discursos épicos famosos (Citizen Kane, Braveheart, First Blood,  Mr. Smith Goes to Washington, To Kill a Mockingbird, Twelve Angry Men, Scent of a Woman, entre outros). Convenceu-me. Seria capaz de o perdoar se ele tivesse matado para que o cineclube sobrevivesse. E para o Verão prometeu um drive in clandestino, se alguém se chegar à frente com uma parede caiada em lugar remoto, pois ele assegura a projecção. Pensei logo no Cotovio. Ainda há por lá uma parede a prumo. O Cotovio pode vir a ser a minha Wonderland: um monte em ruínas, povoado por galinhas, com livros em tupperwares, um plátano frondoso que confundi com um castanheiro,  um poço que nunca seca, uma ribeira com peixe-rei, tiros de caça que quixotescamente interpreto como salvas de artilharia de um confronto distante  entre o exército de Napoleão e outro qualquer, uma parede caiada de fresco para projectar filmes pirateados em Lisboa e um sobreiro que se destaca dos restantes, por marcar o local onde pernoitei ao relento com Tatiana ou onde atingi mortalmente Igor, whatever comes first.


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Eremita às 18:55
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Terça-feira, 7 de Outubro de 2008
Terça-feira, 07 de Outubro, 2008

 

Juntámo-nos com indisfarçável entusiasmo para ver o último dos Coen. Havia bolinhos, doçaria e sandes mistas,  como se a sessão fosse uma quermesse - o que aconteceu pela primeira vez desde que participo nestes eventos. Os minutos de estado de graça que concedemos a um filme são directamente proporcionais ao respeito que os autores nos merecem e inversamente proporcionais à expectativa que o filme gera. Como estes dois efeitos antagónicos tendem a estar associados, o período de estado de graça passa a depender de circunstâncias difíceis de determinar. Durou uma meia hora. Foi depois duro aguentar o disparate. Teria o meu sono sido importante? A verdade é que em regra entro nas salas de espectáculo predisposto para a sesta  e se é certo que as caiadas paredes do armazém estão longe do breu de útero materno da sala da Cornucópia, ontem - como sempre acontecia na Cornucópia - dormi durante alguns minutos. Mas um sono breve nunca me impediu de ajuizar, nem de ficar com  impressões positivas. Os plebiscitos  também vale o que valem, porém falamos de cinéfilos. O que dizer então da reacção da plateia? Alguém se lembrou de arremessar um projéctil contra os créditos finais. O projéctil embateu na parede e demorou a cair - parecia ter a consistência e o aspecto de uma graúda caganita de ovelha.  A plateia animou-se então de um gozo juvenil, alguns vieram até à mesa dos petiscos e logo houve uma saraivada que não poupou sequer o nome do electricista. Fiquei meio atónito e só no fim percebi que não eram caganitas de ovelha, eram brigadeiros. Dos bons.


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Eremita às 08:48
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Terça-feira, 16 de Setembro de 2008
Terça-feira, 16 de Setembro, 2008

 

Na noite passada houve sessão no cineclube. Mais tarde escreverei sobre este filme - e sobre o par de namorados que tanto se beijavam durante a sessão pirateada no domingo, no King de Lisboa, criando aqui na parede caiada do cine de Ourique um efeito grotesco e cómico: perfis unidos por lábios que se descolam e de novo se unem como delicadas sombras chinesas, mas também silhuetas de rodapé sobre um fundo em que Philip Seymour Hoffman penetrava Marisa Tomei à canzana. Por agora queria apenas deixar esta nota: a vanguarda intelectual de Ourique inclui quase todos os tipos sociais que vi também reproduzidos em Paris, Nova Iorque e Lisboa. Mas se nas grandes cidades é isso mesmo que se espera, pela dimensão da amostra populacional, o caso de Ourique é surpreendente. Surpreendente porque não se trata de caricaturas, como numa qualquer telenovela brasileira passada num lugarejo. É gente a sério e gente igual à gente que sempre conheci. A tal estrutura fractal das sociedades faz com que uma vila envelhecida e com poucos milhares não perca material humano. Estão  todos aqui. Mais tarde também escreverei sobre isto - agora é tempo de ir rachar lenha.


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Eremita às 08:14
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