Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017
Sexta-feira, 27 de Janeiro, 2017

Parafraseando João Bénard da Costa, já não tenho idade e nunca cheguei a ter estatuto para desprezar publicamente os grandes clássicos da literatura. E há um elemento nos Karamásov que, não sendo original, também conto explorar no bwOs filhos karamásov são três. Porquê? Tese: porque, no mesmo plano, não é possível colocar mais de três elementos numa disposição tal em que cada um está exactamente à mesma distância dos restantes*. Iliocha, Ivan e Mítia são os três vértices de um triângulo equilátero e seria possível mapear a personalidade de qualquer leitor a partir da posição por este ocupada dentro do triângulo, isto é, o ponto em que se anulam os vectores de força correspondentes ao tropismo e à aversão que cada um dos irmãos desperta. Eu, por exemplo, em vias de começar o livro 11 (O Irmão Ivan Fiódorovitch), encontro-me longe do caprichoso e impulsivo Mítia, perto do místico e bondoso Aliocha, mas ainda atraído por aquilo que Ivan promete ser (quase não tem aparecido). 

 

 

Screen Shot 2017-01-27 at 10.13.03.png

 

* Num espaço tridimensional, um tetraedro em que todas as faces são um triângulo equilátero com as mesmas dimensões define um volume em que cada um dos quatro elementos (colocados nos vértices) está equidistante dos outros três, mas passa a ser mais difícil intuir o ponto de equilíbrio dos quatro campos de força, porque lidamos mal com o aumento de dimensões. Creio que a regra é k=d+1, em que k é o número de pontos equidistantes e d o número de dimensões. Obviamente, para mais de três dimensões tudo se torna inimaginável. Por outras palavras, três personagens asseguram a complexidade necessária e suficiente. 


tags: ,

Eremita às 09:28
# | comentar

Domingo, 23 de Março de 2014
Domingo, 23 de Março, 2014

tags:

Eremita às 09:42
# | comentar

Domingo, 9 de Março de 2014
Domingo, 09 de Março, 2014

Creio que só uma tragédia pessoal fará com que não concretize o BW. É uma certeza tranquila e não uma estratégia de circunstância, embora também pudesse parafrasear Durão Barroso e dizer que sei que vou escrever o BW, só não sei quando. 

 

Continua


tags:

Eremita às 10:13
# | comentar | ver comentários (1)

Quinta-feira, 2 de Maio de 2013
Quinta-feira, 02 de Maio, 2013

"Quando penso naquele ano, emerge sempre a página dos meus arquivos pessoais sobre o Sporting Clube de Portugal em que escrevi "8 de Junho de 2035" no canto superior direito e, com letras bem maiores, aproveitando toda a diagonal, "CAMPEÕES, CARALHO!" Os anos chegavam como chegam sempre, um após o outro, num longo e ininterrupto contínuo de que eu, alheado do ritmo das estações, dos balanços feitos pela imprensa e do réveillon, só ia dando conta pela dificuldade crescente em adoptar o novo ano quando escrevia a data. Na infância, era raro esse erro persistir a partir da segunda quinzena de Janeiro, talvez pela prática quotidiana de anotar as datas nos cadernos da escola. Mas depois de adulto, comecei a dar por mim ainda no ano anterior  quando já era Fevereiro e a cada ano esse atrito do tempo ia ficando mais forte, fazendo-me chegar a Março, a Abril, a Maio e até a "8 Junho de 2035", o meu recorde pessoal, estabelecido - já se viu - em 2036. Só no dia seguinte ao da vitória do Sporting dei pelo erro, que optei por não emendar. 2036 foi um ano singular, na história do meu clube e na minha vida."

 

BW continua a parecer-me uma excelente ideia que nunca concretizarei. 


tags:

Eremita às 10:24
# | comentar

Segunda-feira, 23 de Julho de 2012
Segunda-feira, 23 de Julho, 2012

Após meses sem tocar nos ficheiros BW, da leitura daqueles escritos não podia tirar uma conclusão mais categórica: que boa merda. Falta-lhes agilidade e graça, o humor é forçado, palavroso o estilo, parvo o narrador, que tudo quer explicar. Sobra apenas uma certeza: a ideia é boa. Talvez precise é de outra pessoa para a escrever. 

 

Como conseguem as pessoas concretizar? Não faço a menor ideia. Não faço mesmo. 


tags:

Eremita às 11:39
#

Terça-feira, 26 de Junho de 2012
Terça-feira, 26 de Junho, 2012

Tenho sobretudo pensado no que não quero escrever e na necessidade de fazer várias versões do capítulo entretanto escrito, mas desde domingo ando obcecado com uma cena cujas influências não consigo identificar; interpreto este vazio referencial como um sinal de qualidade, por contraste com outra cena, em tempos também muito presente e entretanto sossegada, em que Hans sai da água do mar e é observado por Guillaume com uma vaga curiosidade erótica, o que foi provavelmente decalcado de um James Bond recente. A nova obsessão é esta: Paulo, o primogénito de Guillaume que tem uma inteligência matemática acima da média, é incitado a começar uma colecção, mas não se interessa por cadernetas, nem selos, nem latas de refrigerantes, nem nenhum outro conjunto de diversidade conspícua, e descobre que gosta é das séries monótonas. Daí começar uma colecção de amostras de areia de diferentes praias, que cresce muito depressa, em parte alimentada pelo cosmopolitismo do pai. Paulo tem três preocupações: que a areia esteja sempre em frascos idêntidos, que as etiquetas sejam sóbrias, chegando a utilizar para o efeito uma impressora, e que nunca dois frascos estejam abertos ao mesmo tempo numa mesma divisão, para evitar contaminações com grãos de areia de outra praia. Mas Paulo não sabe que Pedro, o benjamim, por vingança e pela calada, um dia misturou quase todas as areias, segredo que depois partilhou com a irmã Patrícia, que nada disse a Pedro.

 

Adenda: os projectos de cenas passarão a ter números. Esta é a cena #1.


tags:

Eremita às 15:09
# | comentar

Segunda-feira, 30 de Abril de 2012
Segunda-feira, 30 de Abril, 2012

 

Escher

 

Forças indescritíveis obrigam-me a incluir uma mulher no enredo. Não são as pressões do mercado, pois aponto para a obra de culto; não é o olhar insinuante de Tatiana, pois resisto-lhe e agora até a acho gorda; não foi um sussurro de cama murmurado em Espanha, pois esqueço-me de todos na viagem de regresso e basta-me a FM. São forças. Indescritíveis ou descritas assim: homenzinhos, talvez barbudos,  em labor incansável, que percorrem os labirintos do meu cérebro como as figuras nas escadarias do Escher, mas em modo irrequieto. Fiz uns esquemas que não esgotam o leque de possibilidades  e conto comentá-los em ocasião oportuna:

 

Modelo femme fatale

 

Triângulo amoroso correspondido de contexto heterossexual

 

 

 

Triângulo amoroso com hetero e bissexualidade

 

 

 

Envolvimentos circularmente exclusivos

 

Modelo trevo de três folhas, aka tricórnio de matriz poliândrica 

 

 

Sinceramente, não sei como as pessoas escrevem romances com tanta facilidade. Estes esquemas, que são uma ínfima fracção de todos os enredos e permutações possíveis nas relações amorosas de quatro indivíduos, deixaram-me muito ansioso. Enfim, o mais simples será matar Sara(h) e mantê-la à distância com recurso ao flashback. Mas agora vou até ao café beber umas imperiais. 

 

 

 

 


tags:

Eremita às 18:18
# | comentar | ver comentários (1)

Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
Sexta-feira, 27 de Abril, 2012

Haeckel

 

 

O The Guardian Books Podcast acompanha-me nos percursos de bicicleta entre o Cotovio e a vila há muitos meses, mas é a primeira vez que aqui lhe faço referência. O programa de 20 de Abril foi sobre "Fathers in Literature".

 

Parece que David Foster Wallace  passava a maior parte do tempo a pensar no que não devia escrever, atitude que era oposta - e vem com QED - à de José Rodrigues dos Santos. Mas também se demonstra empiricamente que tomar Wallace por modelo, além do anacronismo de um enamoramento adolescente nesta altura da vida, comporta alguns riscos para a saúde. E assim se resume uma das grandes dificuldades da minha existência: não tenho qualquer dificuldade em definir o problema e os extremos do espectro de soluções, mas sou incapaz de afinar a posição que me maximizaria como indivíduo. Talvez isso explique que não tenha acrescentado uma única palavra ao BW em muitos meses, nem contactado um canalizador para me resolver uma infiltração na cozinha. Há alguma esperança?

 

Há uma enorme e inesperada esperança. Depois do encontro com o livro de valter hugo mãe, o podcast Fathers in Literature foi mais um sinal de um apertar de cerco. Porém, voltei a sentir o alívio de que não me roubaram o tema. Com a ressalva de que pode ser apenas wishful thinki... não, que se lixem as ressalvas: sinto-me mesmo a cumprir um desígnio qualquer e possuído por uma fé. É claro que pode ser um primeiro traço de loucura. Sendo a solidão essencial para fugir à normalização do pensamento a que o convívio conduz, não sei se possuo capacidades cognitivas e outras suficientes para a suportar - aliás, tudo indica que não as possuo. Mas também esta apreensão se converte numa segurança acompanhada de um sorriso tranquilo. Tudo isto é muito estranho e por isso me pareceu importante documentar. 


tags:

Eremita às 08:00
# | comentar

Domingo, 15 de Abril de 2012
Domingo, 15 de Abril, 2012

As histórias do crisóstomo e do camilo, da isaura, do antonino e da matilde mostram que para se ser feliz é preciso aceitar ser o que se pode, nunca deixando contudo de acreditar que é possível estar e ser sempre melhor. as suas vidas ilustram igualmente que o amor, sendo uma pacificação com a nossa natureza, tem o poder de a transformar.
tocando em temas tão basilares à vida humana como o amor, a paternidade e a família... Nota sobre O Filho de Mil Homens, de valter hugo mãe

Em jargão de jornalismo, alguém foi "scooped" quando um competidor se antecipou a publicar a notícia em que essa pessoa também estava a trabalhar. A expressão também se usa muito na academia, em princípio com idêntico significado. Mas  na academia este estatuto tende a conduzir a dois comportamentos divergentes. O primeiro: há quem se diga* "scooped" quando, na verdade, não estava nem a milhas de publicar coisa remotamente parecida, o que nos leva a concluir que as pessoas mentem inclusive para serem reconhecidos como falhados. O segundo: há quem alimente a ilusão de não ter sido "scooped", descobrindo uns vestígios de originalidade na sua história que, em bom rigor, mais ninguém identifica. Naturalmente, haverá ainda quem acumule os dois comportamentos ao mesmo tempo, sem que por isso se restaure o estatuto original, pois o resultado é ainda diferente de todos os anteriormente descritos. É um pouco isso que sinto quando confronto as incipientes páginas de BW com este livro de valter hugo mãe. Mas curiosamente, a leitura do livro de hugo mãe só me fez perceber que trilho o caminho certo para mim. Talvez esta seja uma das vantagens da literatura face ao jornalismo e à ciência, que devemos agradecer aos gregos e aos clássicos: tirando os casos óbvios de plágio, hoje qualquer obra  literária nunca é uma cópia ou um original mas algo de intermédio.

 

* Na versão inicial, a palavra era "digna". Curioso lapso.

 

 

 

 

 

 

 

 




tags:

Eremita às 15:36
# | comentar

Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011
Quinta-feira, 15 de Dezembro, 2011

Devemos tomar ainda por banal qualquer ideia diametralmente oposta a uma ideia banal. Isto vale como regra de base e não como ortodoxia, sendo a explicação muito simples: quando a operação de transformação de uma ideia noutra ideia qualquer é simples, a desconfiança faz sentido, pois as manifestações de inteligência aparente, não ficando ao alcance de qualquer um, passam para as mãos de qualquer pessoa minimamente engenhosa que tenha descoberto o truque - o papagaio, por exemplo, é apenas um bicho que descobriu o truque da reprodução vocal, não o bicho que descobriu a fala com gramática sofisticada, mas, por momentos, ambos podem falar como Winston Churchill. É claro que esta vigilância deve ser tão mais apertada quanto mais importante para nós for a pessoa que produziu a ideia; por outras palavras, este processo ocorre sobretudo dentro da nossa cabeça e vigia  o nosso próprio pensamento. Vem isto a propósito da tão batida autonomia das personagens literárias, pelo menos no nosso país, que é um país à mercê das entrevistas de Lobo Antunes. Não tive propriamente a ideia oposta, o que seria um embaraçoso caso de ignorância  - Nabokov, como é sabido, cultivou a ideia de que o escritor é um tirano para as suas personagens. Mas a ideia que tive não consegue sair deste espectro lobo-nabokoviano e, nesse sentido, é uma ideia suspeita.

 

A verdade é que me cruzei com um cartaz colado à parede que anunciava, pela pose e olhar magnético de um maestro, um concerto de música clássica, algo raro em Ourique, que é sobretudo terra para anunciar touradas e festas de Verão, e vi ali, mas distintamente, como se me lembrasse, o rosto de Guillaume, o compositor em BW. Ora, a personalidade de Guillaume é exacerbada a partir da de um amigo, mas se um fosse posto ao lado do outro ninguém os tomaria por irmãos; os true events no rosto de Guilhaume são apenas as suas expressões genuínas. Para que isso acontecesse...

 

Continua

 

 

 

 

 

 


tags:

Eremita às 16:01
# | comentar | ver comentários (1)

Domingo, 8 de Maio de 2011
Domingo, 08 de Maio, 2011

Está um dia propício para a prática da escrita e sinto-me muito ansioso. Terminei dois capítulos que tiveram apenas mixed reviews de um painel de 5 leitores, mas a ansiedade é outra: sinto-me como a Alice do Carroll, quando a Rainha Vermelha lhe diz " Now, here, you see, it takes all the running you can do, to keep in the same place. If you want to get somewhere else, you must run at least twice as fast as that!" O esforço que tenho de fazer para evitar a solução fácil de injectar biologia nesta história consome-me. Entretanto, têm surgido algumas ideias e esclareci dúvidas.

 

1. Parece-me óbvio que não vou conseguir fugir à actualidade. O BW não será o primeiro romance sobre a crise, será talvez o vigésimo quinto, se tudo correr bem.

 

2. A misoginia na literatura é um recurso muito fácil e batido. Devo guardar a misoginia para a vida real em Ourique.

 

3. Sendo Hans alemão, é importante que o homoerotismo em BW não se reduza a ele, pois não há nada mais esterotipado do que um alemão straight com pinta de gay.  Talvez valha a pena consultar um psicanalista e expulsar da minha cabeça esta cena recorrente em que Hans está a sair do mar e é observado em silêncio pelo narrador e por Guilhaume, enquanto para eles caminha (nota: descobrir o psiquiatra não-freudiano mais próximo de Ourique).

 

4. É importante evitar tentar resolver os problemas da nação com este livro; nas cenas passadas em 2036 Portugal estará como sempre esteve: em crise. Porém, penso criar uma metáfora política com o Sporting Clube Portugal e tenho-me divertido muito com esta ideia. O Sporting terá um ano glorioso em 2036, depois de décadas de decadência e o que o salvou foi um sistema comunista.

 

5. O tema central do BW continuará a não ser tratado nestas notas sobre o BW.

 


tags:

Eremita às 11:29
# | comentar | ver comentários (1)

Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011
Sexta-feira, 21 de Janeiro, 2011

A conclusão do segundo capítulo de BW (que será um dos finais) libertou-me para começar a pensar nos capítulos intermédios. É a tarefa mais complicada. Como It was a dark and stormy night corre no nosso sangue, começar é sempre trivial, no conto e no romance.  A dificuldade está na conclusão. Mas se no conto o grande desafio é o fim, no romance (pela minha experiência de leitor) é a parte central que mais problemas levanta. Ainda assim, creio que tive duas ideias promissoras. Uma é sobre a relação de Hans com o seu biografado. A outra é sobre um plano para vencer a crise, posto em prática em 2020, que se articula bem com o tema central. O plano em si é  absurdo e demasiado actual, o que é sempre um risco, mas a ideia de tratar essencialmente o mesmo problema a dois níveis distintos - o individual e o colectivo (ou estatal) - parece-me organizadora.


tags:

Eremita às 11:23
# | comentar

Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011
Terça-feira, 11 de Janeiro, 2011

 

 

BW terá três tempos: 1994, 2006 e 2036. A terceira parte começará mais ou menos assim:

 

Quando penso naquele ano, emerge sempre a imagem da página dos meus arquivos sobre o Sporting Clube de Portugal em que escrevi  "14 de Junho de 2035: Campeões, porra!". Os anos chegavam como chegam sempre, um após o outro, num longo e ininterrupto contínuo de que eu, alheado do ritmo das estações, dos balanços feitos pela imprensa e do réveillon, só ia dando conta pela dificuldade crescente em adoptar a nova data. Na infância era raro esse erro sobreviver à primeira quinzena de Janeiro, talvez pela prática quotidiana de escrever as datas nos cadernos da escola. O certo é que, depois de adulto, em Fevereiro dava por mim ainda no ano anterior e a cada ano esse atrito do tempo foi ficando mais forte, para chegar a Março, a Abril, a Maio e a "14 Junho de 2035", o meu record pessoal, estabelecido - já se viu - em 2036. Apressei-me a emendar a data, também por ter presente a impossibilidade de o Sporting bisar um título. 2036 foi um ano absolutamente singular,  na história do meu clube e na minha vida.

 

Esta história parece estar a ser pensada para non-bestseller. Não o escrevo como disclaimer para um eventual fracasso comercial, o que seria cobarde e até parvo, nem no sentido de tratar a condição humana de um modo incompatível com o consumo em massa, o que seria pretensioso e até ridículo, mas por uma constelação de escolhas que afastarão o produto do grupo que lê mais romances: as mulheres. A misoginia de Guilhaume, o niilismo passional do narrador e, sobretudo, a usurpação de um tema que é tradicionalmente tido como feminino, jamais farão deste produto a primeira escolha da Oprah lusitana, quando aparecer uma. Mas até no futebol a escolha parece ter sido má. Para seduzir o editor e os futuros leitores, qualquer romancista experiente teria escolhido o Sport Lisboa e Benfica.

 


tags:

Eremita às 13:52
# | comentar | ver comentários (1)

Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010
Quinta-feira, 04 de Novembro, 2010

 

Há fortes indícios de estar a produzir um manuscrito planeado para não ser um bestseller. Isto será interpretado como uma fuga ao duro confronto com a realidade, mas tudo tende naturalmente para um romance sem uma grande história de amor, em que não há trama policial, em que os capítulos têm nomes de homens estranhos, em que o tom é levemente misógino, em que o protagonista é adepto do mais decadente dos três grandes de Portugal, em que haverá apenas duas referências concretas à trepidante realidade nacional do pós-25 de Abril (Vasco Graça Moura e Rui Jordão) e em que o "tema" é absolutamente secundário, a julgar pelas prioridades que a sociedade elegeu.

tags:

Eremita às 16:00
# | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010
Quarta-feira, 03 de Novembro, 2010

 

 

 

The loathsome cruelty of mankind to man forms one of his inescapable, characteristic and differentiative features; and it is explicable only in terms of his carnivorous, and cannibalistic origin.

The blood-bespattered, slaughtergutted archives of human history from the earliest Egyptian and Sumerian records to the most recent atrocities of the Second World War accord with early universal cannibalism, with animal and human sacrificial practices or their substitutes in formalized religions and with the world-wide scalping, head-hunting, body-mutilating and necrophilic practices of mankind in proclaiming this common bloodlust differentiator, this predaceous habit, this mark of Cain that separates man dietetically fom his anthropoidal relatives and allies him rather with the deadliest of Carnivora. Raymond Dart

Tenho uma história e tenho um método. Falta recriar uma atmosfera de gabinete de filosofia natural, em que os conceitos da Biologia funcionam mais como animais empalhados e preservados em formol do que como teses. Por outras palavras, falta o mais difícil.


tags:

Eremita às 09:37
# | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 5 de Outubro de 2010
Terça-feira, 05 de Outubro, 2010

 

 

 

Hooke

 

Hoje resolvi um problema complicado: os nomes dos capítulos. A solução é muito simples. Com excepção do primeiro e muito provavelmente do último capítulo, todos os outros terão nomes de biológos e de um ou outro médico. É importante que Darwin não apareça. Darwin é um dos nomes mais maltratados na história da civilização ocidental e não contem comigo para isso. Lamarck também não entrará, por ser demasiado batido; aliás, como aproveito apenas o apelido de cada nome, nem poderia gozar "Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de la Marck" em toda a sua plenitude. Mas quase todos serão figuras grandes da Biologia.  Penso em Vesalius, Leeuwenhoek, Haeckel, Buffon, Cuvier, Spallanzani, Kammerer e Goldschmidt, entre outros. Weismann terá honras de título e não acumulará nenhum capítulo.

 

Esta ideia ajuda-me a manter a concentração necessária à escrita de cada capítulo e o nome estará perfeitamente ajustado ao conteúdo, embora a associação não seja sempre óbvia, nem sequer para biólogos. Para o leitor, é mais importante que os nomes valham pela sua sonoridade do que pela biografia.

 

Estou em pulgas para começar o Spallanzani, mas por agora debato-me com o Leeuwenhoek - e não é que isto funciona mesmo muito melhor do que os números, mesmo quando são números romanos?


tags:

Eremita às 13:53
# | comentar | ver comentários (1)

Domingo, 5 de Setembro de 2010
Domingo, 05 de Setembro, 2010

A kriptonite de Guillaume são os filmes de Louis de Founès (lê-se fu-né-se), o que me obriga a algum trabalho de pesquisa.

 

 

 

 


tags:

Eremita às 18:53
# | comentar

Segunda-feira, 16 de Agosto de 2010
Segunda-feira, 16 de Agosto, 2010

[actualização permanente]

 

Guillaume: maestro e compositor francês, com uma carreira internacional, que se instalou em Lisboa por amor. Hedonista, excêntrico, radical e sedutor, tem uma tara por violoncelistas que o envergonha por ser tão estereotipada. É uma "força da natureza", com a segurança de Yevgeny Vasil'evich Bazarov, a personagem de Turgenev, e o radicalismo de Carlos Vidal, a personagem do blog 5 Dias. Padece da síndroma de Waardenburg, que lhe deu um olho de cada cor. A única kriptonite de Guillaume são as comédias de Louis de Funès, nomeadamente uma cena, recorrente na sua cabeça e que ele já não consegue associar a nenhum dos filmes, em que o actor diz: "Oh, j'va mourir".

 

Paulo: é o primogénito de Guillaume, filho do seu primeiro e único casamento, e órfão de mãe. Tem uma inteligência matemática acima da média.

 

Patrícia: a única filha de Guillaume e também órfã de mãe. Tem uma destreza verbal acima da média e a partir dos seis anos deixou de contar anedotas, para passar a exprimir-se em versos decassilábicos, não resistindo a um ocasional alexandrino. É a única personagem propositadamente inverosímil, não só pela peculiar forma como se expressa, mas também pelo conteúdo das suas afirmações, que incluem previsões acertadas e uma capacidade de análise rara numa criança de 10 anos. Outra manifestação do seu génio foi a precoce fixação pelo poeta, tradutor e ensaísta Vasco Graça Moura, iniciada com um tropismo irresistível que a levava a gatinhar na direcção da imagem televisiva do poeta e que depois foi ganhando qualidades adequadas ao cumprimento das grandes etapas da vida, como a primeira vez que caminhou, a primeira menstruação e o seu primeiro orgasmo.

 

Pedro: é o benjamim da família de Guillaume e o único que não foi amamentado pela sua mãe, que morreu no parto. Tem uma inteligência emocional acima da média e é impossível não gostar dele.

 

Hans: um académico alemão na reforma que veio para Portugal escrever a biografia de August Weismann e que nada todos os dias de madrugada no Tejo. O manuscrito da biografia ascenderia a mais de 20 000 cartões manuscritos (Hans é grande fã de Nabokov), mas ninguém o verá. Segundo ele, a demora na publicação da obra explica-se por se tratar da biografia definitiva, que é sempre uma "segunda morte para o biografado".

 

 

Note to self: recorrer a apelidos apenas em caso de estrita necessidade (mas evitar os eslavos).


tags:

Eremita às 12:11
# | comentar

Domingo, 15 de Agosto de 2010
Domingo, 15 de Agosto, 2010

Isto é muito mais difícil do que pensava.


tags:

Eremita às 13:41
# | comentar | ver comentários (1)

Sábado, 14 de Agosto de 2010
Sábado, 14 de Agosto, 2010

 

 

 

O manuscrito está (alegadamente) estruturado em três períodos:

 

Paris (1993-1995): o narrador conhece Guillaume na Cité Universitaire, durante os anos do Governo de Édouard Balladur. Têm 20 anos.

 

Lisboa (2010-2012): o narrador convive com  Guillaume e a sua família. Em 2010, Paulo tem 12 anos, Patrícia tem 10 e Pedro tem 5.  Hans chega a Lisboa com 58 anos.

 

Lisboa (2030): o narrador volta a encontrar Guillaume e a sua família. Hans continua a nadar no Tejo, apesar dos seus 78 anos.


tags:

Eremita às 16:26
# | comentar

Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010
Sexta-feira, 13 de Agosto, 2010

Notas

 

Como o meu editor não me autoriza a escrever sobre isto, todas as afirmações devem ser precedidas na mente do leitor pelo advérbio de modo "alegadamente".

 

Terminei ontem o primeiro rascunho do primeiro capítulo do futuro primeiro manuscrito. Fiz uma experiência com um leitor-cobaia e o resultado não foi animador, mas continuo a acreditar que a reviravolta final vai funcionar um dia e catapultar o leitor para a leitura dos capítulos seguintes.

 

Há um parágrafo que ainda sofre de excesso de pudor. Ter personagens inspiradas em pessoas reais facilita a caracterização, mas com um preço.

 

É cada vez mais claro que a Biologia vai ter um papel muito mais relevante do que havia pensado - pegar no Saturday e repetir em voz alta o que não funciona.

 

O segundo capítulo arranca com uma escrita muito mais telegráfica e será essencialmente sobre Joseph Guillaume [raios, é claro que será francês!], um maestro muito sedutor que tem a síndroma de Waardenburg.


tags:

Eremita às 09:34
# | comentar

Terça-feira, 13 de Julho de 2010
Terça-feira, 13 de Julho, 2010

 

Haeckel

 

 

 

A frase inicial é uma mera surrogate, que serve para arrancar e será eliminada na altura das revisões. O capítulo começa bem e consigo conduzir o leitor por uma experiência após a morte sem fantasias, o que muito me agrada. Também já decidi que BW terá momentos de humor. Há Luiz Pacheco, Orson Welles e Charles Lindbergh.

 

Este método de escrever um romance só para evitar a vergonha de tudo não passar de uma invenção parece-me promissor e até patenteável. É como se a exigência de verosimilhança não ficasse pelo conteúdo da escrita e contaminasse o próprio acto de escrever. Isto parece-me tão bom que não pode ser novidade, mas deixem-me sonhar.


tags:

Eremita às 17:49
# | comentar

Terça-feira, 13 de Julho, 2010

 

Temos título e temos capa. No título vem o nome de um senhor estrangeiro, o que geralmente faz aumentar as vendas e facilita a internacionalização da obra. A capa é um espermatozóide em trajectória circular, desenhado com recurso às técnicas da ilustração científica. Como 90% dos futuros compradores que irão adquirir este produto não passarão da capa e da lombada, já fiz o grosso do trabalho. Ficam a faltar as 400 páginas.


tags:

Eremita às 17:30
# | comentar

Quarta-feira, 2 de Junho de 2010
Quarta-feira, 02 de Junho, 2010

Acabo de ler O Testítulo Esquerdo: Alguns aspectos da Demonização do Feminino, de Clara Pinto Correia. É um livrinho muito agradável, que se consome em hora e meia e justifica o que por ele paguei na Feira do Livro. Não me custa recomendá-lo, também por gostar de Clara Pinto Correia, de resto, ela própria uma figura demonizada desde o incidente do plágio. Clara Pinto Correia é demasiado grande para Portugal, que não é suficientemente pequeno para lhe dar o seu devido valor - um dia explico esta aparente contradição.

 

 

O nome do livro faz alusão à crença, que remonta pelo menos ao tempo de Moisés, de que "só um dos testículos do homem operava em cada ejaculação, uma vez que de cada parto só nascia, por regra, uma criança" - os gémeos resultavam de uma dupla descarga, coisa rara, e o pai de trigémeos teria três testículos. O que surpreende é a facilidade com que se provaria a inverosimilhança desta tese, embora talvez o pudor tivesse explicado que ninguém fosse confirmar a existência do trio de testículos nos pais de trigémeos. Aliás, esta suspensão da descrença é ainda mais incrível no caso da telegonia, a teoria das impressões maternas, que dizia ser a imaginação da mulher uma poderosa arma na remodelação do feto, apontando como exemplo a criança de uma princesa branca que nasceu "negra como um mouro" só porque sua mãe teria olhado para um quadro com um mouro no momento em que estava a ter relações sexuais com o príncipe. Como surpreende este teste de virgindade: "se atirarem sementes de papoila sobre carvão a arder e uma rapariga que foi deflorada inalar o fumo, verá coisas maravilhosas; se a rapariga for casta, não verá nada de extraordinário" (The Complete Masterpiece, 1741). A ideia não só é absurda por fazer o resultado de um teste da virgindade dependente da reacção ao ópio, como por fazer da mulher sob suspeita relatora do seu próprio teste. Deste e de muitos outros exemplos descritos no livro, podemos concluir que a demonização da mulher pelo homem tem feito um longo caminho e evoluiu para formas correntes já muito distantes das de antigamente pelo seu grau de apuramento, como é do conhecimento geral.

 

Este livrinho e a sua bibliografia entram para a bibliografia do magno projecto BW1.

 

 

Adenda: experimentei algum desconforto no momento em que coloquei uma foto de Clara Pinto Correia e optei depois por melhorar a minha qualidade de vida. Não posso começar a mostrar mulheres a torto e a direito. Somos fiéis a Tatiana e a fidelidade vem sempre com alguma dose de fanatismo.


tags:

Eremita às 06:17
# | comentar

Quinta-feira, 13 de Maio de 2010
Quinta-feira, 13 de Maio, 2010

Tive hoje uma boa ideia para a capa de BW. A genealogia próxima desta ideia é apenas aparente. Não nego que, a propósito do novo filme de Marcos Martins, se ande a falar muito da arte de desenhar círculos perfeitos e que a associação seja óbvia. Em minha defesa, só posso assegurar que contactei com a imagem fundadora da futura capa muito antes deste frenesim. Aliás, há uma diferença fundamental. No círculo perfeito desenhado com a mão solta o agente é exterior à imagem que produz e na futura capa o agente faz parte do círculo que desenha. E mais não digo, pois ainda não terminei o primeiro de 25 capítulos.


tags:

Eremita às 09:40
# | comentar

Domingo, 2 de Maio de 2010
Domingo, 02 de Maio, 2010


 


 

 

Vai ser preciso muito cuidado, um enorme cuidado.


tags:

Eremita às 13:48
# | comentar | ver comentários (1)

Domingo, 02 de Maio, 2010

O projecto secreto do Ouriquense vai crescendo: temos cerca de 6 páginas, uma grande ideia e um primeiro capítulo completamente esboçado, com um arranque já expurgado de qualquer conclusão pré-sintética e um fim de capítulo simultaneamente surpreendente, terno e bizarro. Aliás, creio mesmo poder vir a arriscar um registo tributário de Comunidade, de Luiz Pacheco, para poder juntar desconforto à surpresa, ternura e bizarria. Como não tenho essa obra de Pacheco em Ourique, descobri uma verdadeira maravilha. Tentem não fazer dinheiro com isto.

 

Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor unscom os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossasveias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem compassadamente silenciosamente duma igual vivificante seiva.   Luiz Pacheco

 

 


tags:

Eremita às 13:40
# | comentar


.pesquisar neste blog
 
.Março 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9

12
14
15
17

22
25

26
27
28
29
30
31


.posts recentes

. Geometria descritiva

. Um elogio da mediania

. Uma certeza

. Citar-se como quem fere o...

. Uma constatação

.arquivos
.tags

. todas as tags

.links
.subscrever feeds