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Ouriquense

09
Mar11

Paradoxo e solução

Eremita

Sem entrar em grandes cálculos matemáticos, não é difícil aceitar que durante uma existência de longevidade normal um homem passará por cerca de 10 dias 1 de Janeiro que serão domingos. O domingo carece da legitimidade astronómica do 1 de Janeiro.  Ainda assim, o domingo está para a semana como o 1 de Janeiro para o ano. Por outras palavras, parte da angústia do domingo resulta de ser o primeiro dia da semana, tal como, descontando o lento reestabelecimento do corpo depois pelos excessos da véspera, parte da angústia do 1 de Janeiro é essencialmente psicológica. Aos domingos e no dia 1 de Janeiro passado e futuro estão demasiado presentes. Esperar-se-ia então que esses 10 dias especiais fossem mais angustiantes do que os dias em que o 1 de Janeiro cai a um sábado ou a um dia útil. Tal não se verifica. Como explicar a ausência de um efeito cumulativo da angústia e até a sua anulação parcial? Avanço uma hipótese. Se a angústia de domingo tiver um efeito dominante sobre a angústia do 1 de Janeiro, um domingo que calhe nesse dia do ano será sobretudo o domingo mais fácil e menos o princípio do ano mais difícil, pela simples razão de que o 1 de Janeiro é o dia mais curto do ano, medindo o tamanho dos dias pelo número de horas entre o momento em que se acorda nesse dia e o momento em que começa o dia seguinte.

09
Jan11

O medo de persistir

Eremita

 

 

 

 

Há razões para pensar que o domingo foi reaproveitado pela religião católica como mais uma ferramenta de promoção da natalidade. Não me refiro à criação de condições para uma longa manhã de sexo, obviamente, apesar do horário altamente suspeito da missa do meio-dia. A ideia de descansar ao domingo só é boa ao primeiro olhar, porque com o passar do tempo se descobre que respeitar uma ordem de descanso é, em si, algo trabalhoso. Preencher o vazio do domingo passa então a ser um problema que, à falta de outras ideias, se tenta resolver começando uma família. É isso que a religião explora. Para tal contribui a tendência para a introspecção quando não há nada de urgente para fazer, o impulso biológico para procriar, embora por vezes já bastante atenuado por uma qualquer filosofia alemã ou francesa, a memória das ocupações familiares e domingueiras dos nossos pais, e o desaparecimento ao domingo dos amigos que criaram uma família, tidos por gente que resolveu o problema com sucesso. A outra solução é o passatempo.

 

Mas o passatempo é uma solução imperfeita. Há o utilizador de passatempos compulsivo, que ao domingo tem uma agenda de chefe de Estado, mas é um caso raro e um exemplo esclarecedor de desajustamento entre a profundidade do problema e a ligeireza da solução. O passatempo é também uma via perniciosa, porque qualquer decisão que não implique um risco não chega propriamente a ser uma decisão. Ora, o passatempo nunca chega a falhar;  não há grupos de apoio a filatelistas desiludidos.

 

Pescar, caçar, ir a exposições, passear no jardim, ver televisão e ler é deixar o tempo correr. A família é apanhar o tempo,  perpetuando-o. Por outras palavras, estas duas soluções não são apenas distintas, mas antagónicas. São também diferentes na sua essência, porque o passatempo evolui para a inconsequência, enquanto a família tende a evoluir para a crise. Sucede que essa prática continuada da crise na família gerou planos de contingência muito eficazes, nomeadamente a lidar com o vazio de domingo. No caso do divórcio, por exemplo, surgem as figuras do domingo sem as crianças e do domingo com as crianças, o único hábito regular capaz de valorizar este dia. Assim sendo, o refúgio no passatempo não é só uma cobardia, é sobretudo uma estupidez. Como sucede com muitas formas de melancolia, de resto.

02
Jan11

Domingos e feriados

Eremita

Era uma vez uma mãe e sua filha que se alugavam nas tardes de domingo aos homens solitários. Cobravam 2000 €, porque a mãe era muito bonita e a filha encantadora. Trabalhavam sempre juntas e sabiam-se muito mais competitivas como par, preenchendo um nicho de mercado que as brasileiras e ucranianas, talvez por inibição cultural delas e desconfiança dos autóctones, demoravam a conquistar. Cumpriam assim uma fantasia masculina que, não sendo novidade, registava uma procura crescente e alguns relacionavam com a progressiva dissolução dos costumes. Eram muito profissionais e aceitavam que o cliente lhes desse outros nomes, se fosse esse o seu desejo. Geralmente faziam o serviço ao ar livre, em sítios muito frequentados, o que reforçava a segurança delas e intensificava o prazer deles. No final de uma tarde passada na praia, cada um na sua toalha e todos protegidos por um chapéu-de-sol da mãe, ela permitia que o cliente tirasse a areia dos pés da criança. E no final de um passeio de uma tarde inteira num qualquer jardim público, sempre de mãos dadas, a mãe não impedia o cliente de comprar um gelado à filha. Mas nunca deixava de verificar se os pés dela estavam bem limpos, nem de confirmar com o homem da geladaria que os seus produtos não tinham corantes artificiais, reflexos que faziam sempre a delícia do cliente, pois era nesses instantes que a fantasia lhe parecia mais verdadeira. Mãe e filha também despachavam aos dias feriados e o preço não variava. Mas depois de alguns dissabores, a mãe criara uma tabela de preços que desencorajava a fidelização. [escrito a 24 de Outubro de 2010 e de onde surgiu a ideia da série "Sétimo Dia", a escrever em 2011]

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