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Ouriquense

09
Fev18

Sobre os rankings das escolas

Eremita

Para que os chamados temas fracturantes (orientação sexual e adopção, transexualismo, aborto, eutanásia, bem-estar dos donos e dos seus animais de estimação versus segurança de crianças na via pública, etc.) e os temas recorrentes (prevenção e combate aos fogos, rankings das escolas, Natal e ateísmo, etc.) sejam discutidos ciclicamente com desembaraço, a amnésia é fundamental, ou seja, não devemos citar o que outros já escreveram sobre o assunto, pois é grande o risco de nada termos para acrescentar, nem recordar o que já lemos, para que o texto novo funcione como mais uma dose da droga capaz de suspender a ressaca. À falta de argumentos novos, tendo a desperdiçar a pouca lucidez que me escapa durante estas pedradas induzidas pela leitura a comparar estilos. E de vez em quando encontro alguém que ainda é capaz de escrever sobre este tema com elegância e referências tão pertinentes que só mesmo a amnésia instrumental a que me referi explica que não seja copiado por todos os outros. 

 

Atribui-se geralmente a um sociólogo e político inglês, Michael Young (1915-2002), a paternidade da palavra “meritocracia”, que surge como um significante-mestre num romance satírico que ele publicou em 1958, com este título: The Rise of Meritocracy. Nesse romance, um sociólogo narrador situado no ano de 2033 conta e comenta o extraordinário progresso conseguido no seu país ao longo dos últimos cinquenta anos, graças à superação das velhas ideologias igualitárias e graças ao triunfo da meritocracia. A intervenção no campo da educação e das instituições escolares tinha desempenhado um papel crucial na grande transformação: primeiro, as escolas tinham simplesmente seguido a economia na luta pelos mercados, mas a certo ponto uma nova política tinha feito da escola o lugar de experimentação de estratégias mais eficazes e sistemáticas de separação dos inteligentes face aos estúpidos, um processo que depois se impôs com sucesso a outros sectores. E, na fase mais avançada deste processo, as indústrias começaram a aplicar medidas selectivas com base no modelo da escola. No fim, até o exército tinha aprendido a lição escolar. O romance de M. Young é uma utopia negativa. E o seu autor cunhou a palavra “meritocracia” com uma evidente intenção crítica. Mas ela foi reciclada e passou a ter um significado plenamente positivo. E o processo descrito no romance para construir uma escola apta a transformar uma aristocracia de nascimento numa aristocracia de engenho parece ter inspirado a campanha dos rankings, que chega sempre à meia-noite, como o Pai Natal. Tal como no romance de M. Young, a escola “democrática” é assaltada pela lógica do clube selectivo que funciona por cooptação. A concorrência e a competição promovidas pelo rankingà imagem da norma do mercado tornam-se um factor importante da reprodução social. A estrutura social das escolas é cada vez mais afectada pelas estratégias de distinção das famílias. O ranking, no fundo, simula um mercado escolar que verdadeiramente não existe. E se existe como um quase-mercado, ele não é fruto de uma lógica espontânea, não se faz naturalmente por obra das “leis imanentes” do capitalismo (como pretendem os partidários da lógica do mercado aplicada ao campo escolar), mas de uma construção política. E essa construção tem no ranking das escolas uma poderosa ferramenta. António Guerreiro

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