Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Ouriquense

15
Jul17

Rocha Andrade: um mártir da República

Eremita

Várias pessoas, que respeito, pronunciaram-se de forma crítica contra a intervenção judicial neste caso. Parecem ignorar que, se calhar, a intervenção da justiça é proporcional à incapacidade da política de encontrar no seu seio formas de responsabilização ética. Provavelmente, foi porque não se tiraram conclusões éticas e políticas que agora terminamos, mais uma vez, a discutir estas questões na justiça. Miguel Poiares Maduro

 

fernando-1060x594-1060x594.jpg

Fotografia: D.R.

Parece existir algum consenso sobre Rocha Andrade: trata-se de um homem sério e muito inteligente, com experiência política e grande conhecimento técnico. Que uma pessoa com estas características tenha cometido a enorme imprudência de pedir à GALP um patrocínio para ir ver a bola é algo difícil de entender, mas tenhamos presente a visão retrospectiva como uma fonte inesgotável de desconcerto - quantos de nós poderão dizer que se reconhecem em todos os seus actos passados? É inegável que Rocha Andrade teve o azar de ter sido constituído arguido por uma prática que muitos entendem ser eticamente condenável, mas não merecedora de intervenção judicial, por ser tão comum há tantos anos. Daniel Oiveira e Pedro Adão e Silva, cujas crónicas de hoje no Expresso são hinos à manutenção do status quo, improváveis se a pessoa em questão fosse do PSD ou PP, lembram que também os jornalistas viajam a convite e que até um congresso de magistrados recebeu patrocínios de vários bancos. Enfim, se é esta a sua defesa, Rocha Andrade continua com azar. No caso do jornalismo, as boas práticas recomendam que os patrocínios sejam mencionados na peça, como já vi acontecer na nossa imprensa. E se não passa pela cabeça de ninguém que a classe de magistrados esteja a ser comprada pela banca por causa do patrocínio de um congresso, a indignação é natural quando aprendemos que um secretário dos assuntos fiscais pediu favores no valor de 3000 euros a uma empresa que mantém um contencioso com a Autoridade Tributária devido a uma dívida ao Estado superior a 200 milhões de euros.

 

Mais razão tem Poiares Maduro, ao concluir que a judicialização da política indicia a nossa incapacidade em lidar com estes problemas no plano político e ético. Por outras palavras, Rocha Andrade e os seus colegas deviam ter pedido a demissão no momento em que esta história saiu, mesmo tendo aparentemente sido noticiada sem o pormenor - surpreendente - de os convites não terem sido oferecidos pela empresa, antes pedidos pelos governantes à boa maneira de uma proposta irrecusável de contornos mafiosos. Tendo chegado onde chegou, é muito possível que este caso faça escola. Pedro Adão e Silva teme que mais ninguém queira ir para cargos públicos, mas estou mais optimista. Todos sabemos que a sede de poder é irresistível e seria bizarro ver Rocha Andrade na prisão por falha tão pequena e usual. A principal consequência da enorme chatice em que se meteu é o efeito dissuasor sobre semelhantes tentações futuras, infinitamente mais eficaz do que a aprovação de um certo código de conduta para membros do Governo e altos dirigentes da Administração Pública, há uns meses anunciado por Augusto Santos Silva para encerrar o caso Rocha Andrade, a que ninguém ligou.

 

A nossa cultura cívica tem crescido. Já ninguém se vangloria em público de não pagar impostos. Mas old habits die hard e não há nenhuma indicação de que a classe política iria ser capaz de erradicar de modo autónomo o favorzinho, o abuso de poder, o tráfico de influências e a pequena corrupção, por maior que fosse a censura social e o índice de abstenção. Será Rocha Andrade a melhor personificação destes comportamentos? É muito pouco provável; ele pode ter sido o homem errado num momento certo, porque tardava. Aplique-se agora mesmo critério a outros políticos que terão cometido o mesmo pecado na mesma altura, para que a judicialização não fique ensombrada pela partidarização. E faça-se depois para que esta acusação, realmente singular, constitua um momento de viragem, não no sentido da judicialização da política mas da prática de uma ética republicana que corte de forma abrupta com usos, costumes e convenções sociais inadmissíveis. 

 

 

 

2 comentários

Comentar post

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

Blogs

Cultura

Ajude Fausto:

  • Uma votação em curso

Ouriquense, S.A, Redacções por encomenda

Séries

Personagens ouriquenses

CineClube- programação

  •  

Filmes a piratear

  •  

Filmes pirateados

Alfaias Agrícolas

Apicultura

Enchidos e Presuntos

Pingo Doce

Imprensa Alentejana

Portal ucraniano

Guitarra

Judiaria

Tauromaquia

Técnicas de homicídio

John Coplans

Artes e Letras

Editoras Nacionais

  •  

Literatura Russa

Leituras concluídas

Leituras em Curso

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D