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Ouriquense

06
Dez15

Pai Nosso, de Clara Ferreira Alves

Eremita

Apressei-me a mandar vir de Lisboa o romance Pai Nosso, de Clara Ferreira Alves (CFA), e iniciei a sua leitura assim que as condições atmosféricas permitiram que me instalasse na espreguiçadeira sob o plátano. Esta urgência confirma a impressão, nunca antes por mim assumida, de que CFA é uma das minhas influências literárias. Isto porque, tal como não escolhemos a família, também não escolhemos os cronistas. Por acaso, quando comecei a ler jornais comprava-se lá em casa o semanário Expresso e os primeiros contactos são os mais marcantes. Abelaira, Carreira Bom, Miguel Esteves Cardoso, Vicente Jorge Silva e CFA, entre outros, colonizaram um cérebro praticamente virgem, circunstância que bastou para nunca mais os ter esquecido. Mas seria injusto não admitir que, ainda adolescente, na escrita de CFA encontrei um estilo que admirei e julgo até ter imitado. E se hoje não sinto pelas crónicas de CFA a necessidade que me despertam as de António Guerreiro ou Pacheco Pereira, quem me diz que as escolhas de agora são menos caprichosas e acidentais que as do passado? Há muito de inexplicável na relação com os cronistas. Por exemplo, admiro Ricardo Araújo Pereira e Pedro Mexia enquanto praticantes do português, mas não tenho paciência para as crónicas do primeiro, talvez por me parecerem reféns da punchline e de uma certa patetice ao estilo das manhãs da Rádio Comercial, nem para as do segundo, oscilando entre o registo autocentrado de tom melancólico que soa a humblebrag e a redacção sobre temas culturais para instruir a burguesia; pelo contrário, leio João Miguel Tavares enquanto polemista, apesar de não lhe reconhecer talento para a escrita.

Há uma segunda explicação, porventura a mais relevante. Durante décadas, a publicação de um romance de CFA foi sendo murmurada sem se concretizar. Não se tratou de um caso isolado. Depois do 25 de Abril, disse-se que nos anos seguintes seríamos testemunhas de uma avalanche de romances, até então escondidos na gaveta, mas os anos foram passando e a anunciada revolução literária pariu apenas o excelente e refrescante O que Diz Molero. Não havia livros escondidos na gaveta. Quanto às cem páginas do futuro romance que, no princípio dos anos noventa, Paulo Portas anunciava com a jactância característica, ainda devem estar numa qualquer disquete que nenhuma máquina conseguiria hoje ler. Enfim, muitos outros casos públicos haverá e nem sequer penso nos romancistas cujos romances são sempre anúncio de uma trilogia, mas não desconversemos. Para as pessoas mais novas do que CFA que se enbriagam com a ideia de escrever um livro, o adiamento do anunciado romance da jornalista foi o nosso aviso. Ninguém queria ser como CFA, a não-romancista. Ninguém queria expor-se como tendo "all the anguish and anxiety of the artistic personality without any of the talent". Pouco importava o motivo. CFA não escrevia por medo dos ajustes de contas no meio literário, depois de tantos anos a fazer crítica literária? Por perfeccionismo? Por pressentir que não tinha a graça de Martin Amis? Por preguiça e falta de disciplina? Era irrelevante, só importava a má impressão. E era essencial resistir à tentação de anunciar o nosso romance, para não nos cobrirmos do mesmo ridículo. Mas eis que, sem que já ninguém o esperasse, em 2015 CFA publica um romance. Soaram e ainda soam as fanfarras; informam-me que em certas livrarias as fotos da autora são maiores do que as de um Camilo Lourenço em tamanho natural; o livro está nos tops e neles permanecerá até ao Natal, alimentado pela reputação da jornalista, o seu mediatismo televisivo e um título feliz e apropriado à época que se avizinha. 

Li umas quarenta páginas. Vou continuar. Pai Nosso é um page-turner, que ninguém tenha dúvidas sobre isso. Se não der para mais, lembremos que escrever page-turners requer engenho. Conta a história de uma académica frustrada que decide fazer tema de uma repórter fotográfica de guerra famosa e a vai encontrar no Iraque pós-Saddam. Há alguns descuidos, que uma revisão cuidada teria evitado: duas referências a Ali Babá separadas por apenas  onze linhas (página 38); frases de mérito literário duvidoso, nomeadamente "direitos de autor a escorrerem como águas de furacão" e "Nunca andei a passear o Proust, como um colega que insistia em procurar o tempo perdido" (página 37); uma passagem que atropela noções elementares de Física, quando a académica se compara a "um pássaro, desses que continuam a pousar nos fios eléctricos sem se darem conta da descarga" (página 25);  traduções do inglês com o efeito curioso de soarem ainda mais batidas que o original, como  "Viajo leve" (página 29) e "delicadeza de estranhos" (página 32); a frase enigmática "Bagdade tem tanta graça como [o] betão armado e confesso que se pensasse duas vezes enfiava-me no primeiro carro para o aeroporto...", talvez restaurada pela sugestão indicada entre parêntesis; a contradição de haver "guerras boas e guerras más", tendo as boas "uma luz mais libertadora" (página 38), para depois sermos informados pela voz da mesma personagem de que "Guerras vi muitas e são todas iguais..." (páginas 42 e 43). O  estilo é tão marcado pela frase curta que dá saudades das modulações do ritmo de leitura que as orações subordinadas criam, enriquecendo a experiência de quem lê. De resto, fica a ideia de que CFA está a escrever pensando em não complicar a vida de um futuro tradutor da obra para inglês. Sendo legítima, tal ambição acarreta o risco de gerar um produto demasiado genérico. As descrições e alusões são previsíveis para quem conhece o estilo da jornalista e acompanha pelas notícias as guerras no Médio-Oriente. Inevitavelmente, somos presenteados com referências a objectos e marcas que fazem apelo ao cosmopolitistismo caro à autora e com impressões do Médio-Oriente tão banais (a confusão dos bazares, as precauções do foro gastro-intestinal quanto à comida, a insistência dos locais e os seus olhares lascivos) que poderiam ser as de uma mulher turista em Marraquexe. CFA parece censurar qualquer impulso lírico e pergunto-me se a infeliz calúnia de Vasco Pulido Valente não a terá marcado, porque nas primeiras quarenta páginas as descrições são remetidas para enumerações apressadas e sente-se a falta de umas pinceladas de orientalismo, de cheiro e cor, de um pôr-do-sol em Badgade. É possível que seja uma escolha consciente e também livre. Afinal, trata-se de uma história de jornalismo de guerra. Mas se tal hipótese redime o livro de uma falha, também o enferma de outra, mais grave. Porque o narrador é a académica especialista no Médio-Oriente antigo, não a jornalista das guerras presentes, e partimos do princípio de que são pessoas diferentes. Sucede que, apesar das biografias distintas, dificilmente distinguimos as vozes. A académica e a jornalista de guerra falam da mesma maneira, pensam da mesma maneira e, como se isso não fosse suficiente para irritar, são as maneiras e manias da CFA que conhecemos das crónicas e televisão. Talvez CFA queira surpreender o leitor mais para o fim com um volte-face redentor que faça da jornalista a mãe da académica ou nos apresente uma brecha no espaço-tempo para que uma seja a versão da outra noutra idade, mas duvido.

Do pouco que li, persiste a dúvida de saber se os vícios da CFA jornalista e cronista não serão o principal obstáculo à sua carreira como romancista, porque à falta de autonomia das vozes das personagens acresce um débito de opinião tão elevado que só deixaria o texto respirar se fosse guiado pelo génio aforístico de uma Agustina. Enfim, são detalhes. É pouco importante saber se estamos perante um triunfo literário e ainda menos se reproduzirá o sucesso comercial de Miguel Sousa Tavares. Pai Nosso é já o grande comeback de CFA e um triunfo pessoal merecido que põe em xeque todos os que usavam o exemplo da jornalista como justificação para a sua inconfessada preguiça ou incapacidade para concluir um romance. 

 

 

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