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Ouriquense

01
Jun16

Não discutimos o divórcio

Eremita

(...) Are you sure you want to live like common people
You want to see whatever common people see
You want to sleep with common people,
you want to sleep with common people like me.
But she didn't understand, she just smiled and held my hand.
Rent a flat above a shop, cut your hair and get a job.
Smoke some fags and play some pool, pretend you never went to school.
But still you'll never get it right
'cos when you're laid in bed at night watching roaches climb the wall
If you call your Dad he could stop it all (...)

Common People, Pulp

Há várias boas razões para seguir o blog Em Nome do Pai (grande título), de Rui Brasil. Como sucede na série Tribo do Ouriquense, Rui Brasil escreve sobre paternidade e conjugalidade, embora com uma generosidade e pragmatismo que eu não procuro; ninguém lerá o Ouriquense para saber quais são as melhores creches do Baixo-Alentejo. Num post recente, ele sugere que falemos do divórcio com o nosso parceiro e descreve a sua conversa. O aparente bom senso e as boas intenções de Rui Brasil tornam a proposta ainda mais trágica. Tal como a rapariga com o pai rico na canção dos Pulp não pode realmente saber como vivem e o que sentem as pessoas remediadas, é absurdo pensar-se que aquilo que se decide quando o casamento corre bem será ainda válido quando o divórcio se torna inadiável. Mas o mais trágico não é sequer o plano de Rui Brasil nada valer, e sim o simples facto de ter sido concebido. 

 

Quem, no século XXI, num país ocidental, se casa, inicia uma luta contra a estatística da percentagem  crescente de divórcios e do declínio dos números do casamento, contra a erotização crescente do espaço público, isto é,  contra os outdoors mostrando mulheres em êxtase orgásmico, gelados que nunca são gelados, séries que glorificam ou branqueiam a infidelidade, podcasts e publicações progressistas que promovem o "poli-amor" e o casamento com isenção de monogamia, e luta contra a simplificação burocrática e legal do divórcio, contra a tolerância generalizada em relação à infidelidade, contra o culto da felicidade permanente e da gratificação imediata, contra a novidade do amigo próximo que se divorciou, contra uma sogra, um genro ou por vezes ambos, porque certas tradições são perenes, contra  a memória da vida paralela que imagina para si se não tivesse casado, enfim, contra a realidade e as fantasias. É verdade que não foi ontem que se tentou conjugar o amor romântico, que emana da irracionalidade, com o casamento, que implica sensatez, mas nunca esta quadratura do círculo foi tão evidente. O que fazer? Ninguém sabe. Não casar é capitular, casar é arriscar. Porém, tomemos por certo isto: discutir o divórcio quando o casamento corre bem mata o amor romântico e não garante a salvação do casamento; aqueles casais que pretendem trocam o amor por uma segurança temporária, no fundo não merecem nem o amor, nem a segurança 1. Decidimos casar, hoje, e cumprir os constrangimentos do matrimónio, não por serem fáceis, mas por serem um desafio 2. Entre outros, tais constrangimentos incluem tabus, que uma vez quebrados ensombram a relação, num crescendo de dúvidas que pode até resultar do nada, mas que uma vez iniciado é imparável e deixa o casal numa armadilha de contornos kafkianos em que o pedido de esclarecimentos de dúvidas de um alimenta as dúvidas do outro e vice-versa. Não. Podemos discutir Deus e a virtude; discutir a pátria e a sua história; discutir a autoridade e o seu prestígio; discutir a família e a sua moral; discutir a glória do trabalho e o seu dever 3. Mas não discutiremos o divórcio.

 

1 Paráfrase de Ben Franklin.

2 Paráfrase de JFK.

3 Paráfrase de Salazar.

 

 

 

 

 

 

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