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Ouriquense

26
Abr17

Mário (5)

Eremita

Ah, as mamas fartas ou juvenis, marmóreas ou acolchoadas, em ninho de andorinha ou geotrópicas, de mamilos indolentes ou voluntariosos, com suas auréolas rosadas ou escuras, quando não indistintas, as mamas que aprisionam odores velhos junto ao tronco ou sempre frescas e asseadas, as mamas em soutiens pensados por engenheiros ou então soltas no trote de alcova, as mamas que são seios para boca e tetas para as mãos, as mamas fartas ou juvenis. Mário apreciava tanto mamas que lhe dava vergonha. Diz-se que gostar de mamas é de homem, mas temia que o seu caso fosse distúrbio. Queria as suas namoradas inteligentes, cultas, dinâmicas, carinhosas, íntegras, simpáticas, e com boas mamas. Queria-as com sentido de humor, diligentes, sensuais, corajosas, e com boas mamas. Ele sabia que a única condição necessária, embora não suficiente, era o par de mamas. Envergonhava-se da inclinação, que interpretava como um atavismo do cérebro primitivo e um resquício do impulso do recém-nascido. Jovem quadro superior vindo de boas famílias e com os contactos certo no partido, maxilar viril e têmporas que daí a três décadas ficariam perfeitas de tom grisalho, receava que tamanha obsessão por mamas comprometesse o seu futuro político promissor. Como manter um casamento? Como evitar um escândalo sexual divulgado em todos os jornais? Como contratar uma secretária segundo os critérios de meritocracia e exigência tão essenciais à imagem de um governante, ao desenvolvimento do país e à convergência europeia? Ainda longe dos holofotes, na intimidade do quarto já ele fazia de paparazzo de si próprio, dispondo sobre a colcha da cama, como cartas de uma paciência, as fotos de todas as namoradas antigas, e compondo na cabeça os títulos boçais com que as revistas de mexericos fariam alusão à característica partilhada por todas aquelas mulheres. Passava o tempo a imaginar cenários, denunciando uma certa megalomania. Pressentia-se ministro. Perdido em tais pensamentos, Mário ia nas nuvens, na verdade, sobre as nuvens, cadeira 23A do voo Lisboa-Nova Iorque-Los Angeles. A viagem surgira na pior altura. Julgava-se apaixonado pela primeira vez e custava-lhe ausentar-se. A sua namorada despertava-lhe uma imensa ternura, um alvoroço tranquilo que para ele era novidade. Sabia que estava perante a mulher da sua vida, a sua companheira. Sabia-a uma preciosidade, uma mulher de aguda consciência social e com um sublime par de mamas. Talvez por isso, preferiu omitir o destino final da sua viagem. Ia para Las Vegas, a uma despedida de solteiro de um amigo norte-americano que conhecera na adolescência durante um curso de Verão. A mentira por omissão não lhe causava grande transtorno e era até um bom treino para a sua vida profissional. Não conseguia era deixar de pensar na ida ao clube de striptease que fazia parte das festividades. Como seria capaz de resistir a tais encantos? E se houvesse por ali portugueses que o viessem a reconhecer numa campanha futura? Uma lap dance é sexo? Sentia-se atraiçoado pelas próprias questões que colocava, derrotado moralmente, indigno de ser uma figura de proa da democracia representativa. E então o amor? Não o deveria preocupar mais o respeito que a sua namorada merecia? Era também uma questão, talvez não a prioritária. Entristecia-o chegar a tal conclusão. Mas talvez a amasse de verdade, um amor só ultrapassado pelo seu patriotismo. Como se esta explicação nem o próprio convencesse, adiou o problema com dois comprimidos para dormir.

 

Mário entra decidido no clube. A sua primeira impressão é de desilusão e alívio. Nada do deboche que imaginara,: salão amplo e moderno, asseado, a meia-luz, muitos neónes, alguns espelhos, sofás espaçosos, muitos obesos e carecas isolados, raparigas seminuas ao balcão, dois gorilas de tuxedo em pontos estratégicos. Não havia música, mas logo percebeu que tinham chegado entre dois actos. Instalam-se todos, começa a tocar Madonna e uma rapariga sobe ao palco para iniciar o seu número. Mário resolve testar-se olhando de imediato para ela. Nada. Nenhuma excitação incontrolável. Seios perfeitos, sim, mas o que lhe chama a atenção é o extremo enfado com que ela dança. “Uma última réstia de orgulho”, pensa Mário. Em vez de excitação, ele sente empatia, compõe-lhe uma biografia trágica e apetece-lhe salvá-la. A noite começou bem, mas as mulheres circulam agora pelos sofás, metendo conversa. Uma preta de olhos verdes e seios hirtos pergunta-lhe de onde ele é. Mário responde a medo e ela afasta-se sem insistir, talvez à espera que a bebida faça efeito, ignorando que ele beberica uma gasosa. Alguns dos seus companheiros não perdem tempo e Mário observa com detalhe uma lap dance. Um dos seus companheiros de farra requisitara os serviços de duas mulheres ao mesmo tempo. Mário via-as de costas, debruçando-se sobre o homem que parecia agrilhoado, pois nem perante os movimentos mais insinuantes delas levantava as palmas das mãos do sofá. Apesar das nádegas proeminentes e das costas nuas das profissionais, a Mário a cena evocava sobretudo um episódio de necrofagia em que duas criaturas debicam um cadáver. Só mesmo ao seu lado não pôde deixar de reparar que o joelho de uma rapariga friccionava o escroto de um outro companheiro. “Lap dance é sexo”, apressou-se a concluir, no preciso momento em que cruzava as pernas. A noite foi avançando, as raparigas viam-no defensivo e deixavam-no em paz. Aos poucos vai dando conta de que ao excesso de oferta não correspondia um estímulo proporcional, antes pelo contrário. Tanta mama à solta desmotivava-o. Mário volta inclusive a pensar na primeira rapariga, que lhe apetecera salvar e não mais voltou a ver. Os seus valores cívicos levavam a melhor sobre os instintos. Nem a pressão dos outros homens o levaria a ceder – não que alguém se preocupasse com ele. E quando a preta dos olhos verdes veio de novo em sua direcção, Mário engoliu a seco mas sentia-se preparado. A sua preocupação não é resistir-lhe, antes não a magoar. Ele sente o seu instinto politico a emergir, preocupa-se em agradar, mesmo diante das franjas excluídas da sociedade. A mulher senta-se com languidez no braço do sofá. Mário toma a iniciativa e apenas lhe diz, quase segredando: és muito bonita, mas eu sou… sou gay, percebes? Só estou aqui por causa dos meus amigos". Ela agradece-lhe o elogio, mas foi a explicação que lhe restaurou o brio. Uma desculpa perfeita. Mário olha para os lados, procurando alguém a quem contar o seu triunfo, mas todos estão ocupados, inclusive o noivo. Opta então por comemorar sozinho, vai até ao bar e pede um Jack Daniels. Finalmente descontraído, protegido pelo seu estatuto forjado e pela língua materna, ao terceiro copo começa a comentar em voz alta as raparigas que sobem ao palco - “sublimes”, “um pouco exageradas”, “boas, mas falsas” – e acaba por ser o último a sair do clube. Adormece dentro do táxi e só acorda com o embate do trem de aterragem na pista. Acabara de aterrar.

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