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Ouriquense

09
Mai17

Manuel (8)

Eremita

Manuel, fiel, era assaltado pela dúvida de saber se a masturbação seria uma zona franca para a libertinagem. Nunca pensava na namorada de longa data durante tais práticas, uma exclusão que começou por lhe parecer sensata, para não associar o seu amor às lembranças traumáticas da puberdade, como as inquirições matutinas sobre as manchas nos lençóis ou os exercícios masturbatórios colectivos em que apenas participara devido à pressão dos pares, e que depois de entrar em Direito passaria a interpretar como uma prova de respeito, por ter concluído que estaria a abusar da imagem dela, o que configuraria uma violação do direito à imagem, algo impensável para ele; punheteiro, sim, mas formalista. Perguntar à namorada se o autorizava nunca foi parte da solução, porque pertencia ao grupo de homens para quem perguntar era um sinal de fraqueza. Com o passar dos anos, a sua explicação deixou de funcionar e, apesar de cada vez menos frequentes, cada masturbação no duche deixava-o moralmente ressacado. Foi então que, durante um serão entre colegas, sem que tivesse procurado o conselho, ouviu um aparte durante uma disputa de fanfarronices: "A infidelidade em pensamento só acontece quando se pensa em alguém em concreto". No caminho para casa, foi trabalhando a teoria e na manhã seguinte tinha apurado um conceito, que parecia manejar na cabeça com o mesmo prazer com que o garimpeiro roda nos dedos a pepita retida pela peneira. Com alguma pompa, apelidou a sua ideia de "diluição de responsabilidade por quimerização do objecto de desejo". Nesse dia, o duche foi mais longo do que era habitual, mas executou as restantes rotinas domésticas com um voluntarismo e ânimo tais que acabou por recuperar os minutos perdidos, chegando ao emprego a horas.

 

A quimerização do objecto do desejo parecia funcionar. Manuel punha em prática a sua ideia com o zelo de um criador que sente uma obra-prima entre as mãos. Ia buscar à Nouvelle Vague um corte de cabelo, da publicidade extraía um par de pernas e lábios polposos, um olhar de alguém com que se cruzou podia aparecer de repente, como um relâmpago inofensivo. Quando estava cansado e com pressa, recorria às nádegas e mamas da pornografia soft, mas ao fim-de-semana investia na construção de quimeras surpreendentes, verdadeiras criações que fundiam as imagens do cinema e da rua com as do retrato fotográfico, da pintura dos grandes museus, da estatuária em mármore, da banda desenhada francófona e da manga japonesa. As suas mestiças em mosaico sublimes e nunca repetidas entre masturbações, cuja diferente matéria  se harmonizava na cinética do corpo, eram, no fundo, mulheres sem personalidade jurídica, com uma biografia sem passado nem futuro, que se esgotava na fantasia que Manuel criava. O seu apuro atingiria um virtuosismo impensável, sobretudo na anonimização do rosto e na quimerização de segundo e superiores graus. O primeiro processo consistia na produção de uma imagem de fusão de múltiplas caras, fosse em composição cubista, síntese computurizada de uma simetria matemática ou por um efeito de estroboscópio, em que de múltiplos rostos acelerados surgia um rosto de uma placidez lasciva indescritível. O segundo consistia no uso de quimeras de fantasias anteriores como matéria-prima para a construção de novas quimeras, método em que, pela reiteração sucessiva, Manuel apostava, pois a libertação só lhe parecia possível no dia em que atingisse a completa abstracção do acto masturbatório.

 

Passaram-se anos sem história. Um dia, uma velha quimera bate à porta do quarto de hotel de luxo que Manuel fantasiava e a ménage à trois que se segue deixa-o apreensivo. Na vez seguinte, surgem mais velhas quimeras, que o perseguem com uma sofreguidão ninfomaníaca. Manuel sente-se refém das suas criações, sem lhes conseguir resistir. Cada fantasia transforma-se primeiro num bacanal, depois num enredo de contornos sadomasoquistas e a seguir num autêntico ajuste de contas com as quimeras a revelar consciência de classe, aguentando Manuel como podia, sem nunca deixar de reincidir, até ao momento marcante da desquimerização de um dos objectos de desejo, que o põe em confronto com imagens de múltiplas mulheres de existência real e o leva a abandonar para sempre a masturbação matinal no duche. 

 

 

 

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