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Ouriquense

28
Abr17

Júlio e Patrícia (7)

Eremita

Júlio, 32 anos, julgava que ter estado com oito mulheres a impressionaria, pois faria dele alguém experiente aquém de promíscuo. Mas ao olhar para a perversa beleza angelical dela, teve um momento de hesitação e disse: "Sete". Ela mostrou então algum embaraço, que não era propriamente decepção, mas que também o deixou mais nervoso, brotando da sua axila esquerda uma gota de suor que foi escorrendo muito lentamente, como que esticando ainda mais o tempo psicológico criado pela pausa dela. O número lá saiu, bruscamente, só que, em rigor, era uma estimativa: "60 e tal". Júlio encontrara Patrícia numa festa de amigos comuns e ficara siderado com a beleza dela. Alta e esguia, quase sem peito e ancas, era no rosto que se concentrava todo o seu encanto. Um amigo comentou com ele que ela parecia vinda de um quadro de Botticelli, mas Júlio afastou o amigo com delicadeza e nem procurou que ele o ouvisse enquanto avançava para ela e murmurava: "Botticelli, Botticelli o caralho... desde quando a Vénus de Botticelli dá tesão?". Dois dias depois tomavam café juntos. Júlio era bem-parecido e divertido; ela escolhera-o entre a mão cheia de outros homens desemparelhados que na festa também lhe lançaram olhares.

 

A sua pele era de uma cor indefinível e de uma ausência de textura que tentava o toque. Três sinais na cara, em perfeita constelação, contribuíam para o encanto e quando ele conseguia desviar os olhos dos olhos dela - verdes? Azulados? Cor de mel? A luz atraiçoava-o - era nos sinais que descansava a vista, pois fixar-se na sua boca seria denunciar-se ainda mais. Como se ela não soubesse. Patrícia tinha uma boca conspicuamente imoral, com o lábio inferior humedecido e polpudo, que incitava à mordida e o lábio superior em arcada acolhedora, inclassificável segundo os manuais de arquitectura. A resposta de Patrícia fez com que Júlio soltasse um esgar. "60 e tal?" Ela confirmou. "Mas falamos de pessoas com quem tiveste relações sexuais?" Nova pausa. Ela pensara que se tratava de qualquer pessoa que tivesse beijado na boca. Júlio sentiu então algum alívio, mas nem por isso deixou de fazer o seu cálculo segundo tal critério (foram 19). Patrícia tinha 28 anos e fora beijada na boca por mais de 60 miúdos, rapazes e homens. Naquela boca que tanto o fascinava. Um fascínio universall, Q.E.D.. Acusando alguma tristeza, não deixou de reformular a pergunta. "Bem, respondeu ela, nesse caso não foi ninguém". Disse-o com segurança, mas levantou-se de seguida para ir à casa de banho. Ele ainda procurou interpretar as palavras dela de modo a concluir que não estava na presença de uma virgem, mas em vão. Jamais lhe passaria pela cabeça que uma mulher tão atraente, independente e vivendo numa metrópole pudesse ser virgem aos 28 anos, embora tivesse logo acertado no motivo: a religião. E era seguramente uma vingança de Deus por ele se ter lentamente transformado num ateu. "Ou então foi o Botticelli, rancoroso", lembrou-se, sem esboçar um sorriso, no exacto momento em que ela regressava ao seu convívio.

 

 

 A revelação não acelerou a corte de Júlio nem o desencorajou. Dias depois beijavam-se pela primeira vez; Júlio* sentiu um êxtase profundo. E passados mais uns dias foi convidado a subir. Aos poucos ele foi percebendo que estar com uma virgem melhorava a sua técnica sexual, por ser um estímulo permanente à imaginação. Júlio habituou-se a dispensar a penetração e viciou-se na sua virgem. Era aquela boca que o fascinava e um simples beijo valia por qualquer das farras sexuais com as parceiras anteriores. A sua nova sexualidade fascinava-o, dava-lhe uma excentricidade que julgara para sempre perdida desde que se formara em gestão. Sexo com restrições, como o desafio à criatividade que é a métrica do soneto. Só que Patrícia começava a ficar irritada... Ela habituara-se a levar os seus parceiros quase ao desespero por recusar a entrega completa. O imperturbável fascínio de Júlio após meses de cama acabara por frustrá-la. E não havendo o gozo do poder, Patrícia viu-se tomada por um desejo incontrolável de ser possuída por ele. Porém, ele recusava-se a penetrá-la, queria preservar a sua virgem a todo o custo. E ela, consumida em excitação naqueles momentos, sentia que perdia o poder a que se habituara. Decidida a agir, uma noite, no pico do entusiasmo, põe Júlio fora de casa às 3 da manhã e bate à porta de um vizinho que vivia sozinho e a devorava com os olhos todas as manhãs. Aquele gesto precipitado passou a ser a sua rotina. Começava as noites com Júlio, pois mais ninguém a levaria ao grau de excitação que precisava para consumar o acto com o vizinho. Júlio contentava-se com aquela boca e suportava a humilhação de ser posto fora de casa a meio da noite. Afinal, morava perto e naquela cidade quase nunca chovia. É claro que Patrícia não lhe contava o que fazia depois. Para Júlio, ela continuava a ser a mulher imaculada da boca promíscua. Muitos anos depois, quando a vida os tinha separado e mantinham apenas um contacto intermitente e amistoso, ele veio a saber do antigo estratagema dela. Sem acusar grande indignação, a sua única preocupação foi saber se ela também beijava o vizinho ou se apenas fornicavam. Patrícia mentiu.

 

* Na primeira versão, escrevi "Mário". 

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