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Ouriquense

22
Abr17

Infidelidade: uma abordagem prática

Eremita

Há vários anos, noutro blog, iniciei uma série de micro-histórias sobre a infidelidade. A série não gerou o interesse que eu antecipara e o blog viria a terminar em 2008. A aceitar a definição de insanidade atribuída a Einstein, que a terá descrito como a expectativa de um resultado diferente pela repetição incessante do mesmo procedimento, retomar a série no Ouriquense com o intuito de a concluir só pode revelar insensatez, mas outra coisa não seria de esperar de quem trocou Lisboa e uma carreira encaminhada por Ourique e a precariedade da tradução e da agricultura de subsistência. Seguem-se algumas considerações e depois uma entrada desta série por dia, pelo menos até meados de Maio. 

 

Podemos ser infiéis aos deuses, a uma ideia ou a um amigo, mas aqui apenas escreverei sobre a infidelidade amorosa. Sendo este um dos temas mais explorados pelas artes, o desafio que assumi foi o de descobrir um ângulo novo. Na esmagadora maioria dos casos, quem escreve sobre a infidelidade sente-se vítima de uma ou então tenta expiar a sua culpa. Estes estados de alma podem ser uma energia inesgotável para a escrita, mas tendem a deixar os textos reféns do ressentimento e da vitimização, da raiva e da vingança, ou de um qualquer tipo de sublimação. Apesar da empatia que serão capazes de gerar, tais textos tendem a ser mais interessantes para quem os escreve do que para quem os lê. Evitar essas pulsões naturais pode ajudar a saltar mais alto, mas é depois preciso safar os calcanhares, contornando o sarcasmo, a ironia e o cinismo, que são registos fáceis e batidos. Cumprido tal exercício, pode ser que o texto resulte original e, muito provavelmente, amoral. Não me parece um mau resultado. Afinal, sobre a infidelidade já foi tudo dito, declamado, escrito, filmado, por vezes esculpido e infinitas mais vezes cantado. Existe uma taxinomia do infiel, se não ainda compilada num único volume, seguramente à mercê de uma qualquer pesquisa bibliográfica ou online. Existirão também, com toda a certeza, tratados sobre a infidelidade ao longo dos tempos, ensaios a rebentar de antropologia, sociologia e contemporaneidade, e não faltam exemplos de reportagens nos semanários, consultórios sentimentais, especialistas em sexualidade a perorar nos media e da inevitável literatura de auto-ajuda explícita. Sobra então o exercício de estilo. É claro que o leitor pode sempre suspeitar que a semente é a mais comum das motivações, ou seja, que se escreve para lidar com uma infidelidade de que se foi vítima, agente, cúmplice ou tudo isso (inclusive em simultâneo). É uma suspeita legítima, mas que nada acrescenta. O importante foi tentar a amoralidade.

 

A amoralidade manifesta-se sobretudo no tom acrítico com que são descritas as soluções encontradas pelas personagens para resolver problemas que vão da mera logística ao conflito interno. Quem praticou alguma ciência biológica de tipo celular ou molecular antes do aparecimento da internet, talvez tenha tido a oportunidade de usufruir de um dos volumes da série A Practical Approach, publicada pela Oxford University Press. Aí se compilavam, sob um tema comum, protocolos escritos por especialistas. Dessa série não retiro apenas o nome para esta série. Nas ciências biológicas, um protocolo descreve um encadeamento de acções que levam à produção de um resultado de eventual valor científico. Salvo as situações que podem infligir dor a um animal, que envolvem algum plágio, associações ao Terceiro Reich ou exigem uma prática clandestina, do fabrico de vinho a martelo ao das drogas ilegais, como a cocaína, heroína e a metanfetamina, a execução do protocolo é amoral. E apesar de requerer atenção, deve ser realizado maquinalmente – nas palavras de um cientista meu conhecido, “nos dias em que se faz experiências, não se pensa”. Porque o protocolo cristaliza um conhecimento que devemos pôr em prática a uma velocidade que é incompatível com o aprofundar de cada uma das suas etapas, tal como um discurso fluente só se produz se evitarmos mergulhar na etimologia de cada palavra pronunciada. A isto se chama pragmatismo e ninguém negará que a ausência de reflexão e escrúpulos aumenta o leque de soluções práticas.

 

As histórias serão publicadas no Ouriquense sem critério aparente (se encontrarem um, avisem-me). Têm por título nomes próprios, tantos que dão a sensação de se estar a ser exaustivo, mas o número almejado (100) corrigirá tal impressão, pois os números redondos revelam que se parou por capricho. 

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