Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Ouriquense

17
Jul17

Gentil Martins: ignorar é o melhor remédio

Eremita

 

8-Sonia-and-Tracy-1988-RMF1.jpg

Sonia and Tracy, Robert Mapplethorpe, 1988

 

Tenho dúvidas de que um inquérito da Ordem dos Médicos ao Dr. Gentil Martins beneficie a sociedade. Temo que a principal consequência seja fazer do médico um paladino da liberdade de expressão (1, 2). João Semedo, do BE, lembrou a rapidez com que a Ordem reagiu a afirmações do Dr. Manuel Pinto Coelho sobre os efeitos de um medicamento, mas esse foi um caso em que basta confrontar o que foi dito com a evidência científica. As afirmações de Gentil Martins sobre homossexualidade, que o médico equiparou ao sadomasoquismo e à tendência para a automutilação, são de uma violência e insensibilidade muito pouco cristã para um católico praticante, e também irresponsáveis, tendo em conta o prestígio do cirurgião pediatra, mas quem as tentar rebater invocando a evidência científica descobrirá que se enfiou numa armadilha. 

 

Segundo a psiquiatria moderna, as afirmações de Gentil Martins estão desactualizadas há 44 anos, tomando por marco 1973, ano em que os psiquiatras norte-americanos deixaram de considerar a homossexualidade uma patologia. A classificação da homossexualidade como doença só trouxe sofrimento ao mundo, das terapias traumáticas e inúteis ao reforço de um estigma social ancestral. Quando se passou a considerar a homossexualidade apenas como uma das várias orientações sexuais possíveis de um espectro natural, aumentou o bem-estar dos homossexuais sem qualquer prejuízo para os restantes cidadãos. Esta evidência a posteriori legitima largamente que se tivesse retirado a homossexualidade da lista das anomalias psíquicas, só que não é uma evidência científica. E se aprofundarmos a análise,  a única conclusão que os defensores retirariam da descrição histórica de como a homossexualidade deixou de ser uma doença é que a decisão de 1973 foi influenciada pelos grupos activistas de defesa dos homossexuais (pois foi e ainda bem). Seria pois insensato partir para uma discussão de contornos epistemológicos sobre o que é a evidência científica e como se gera consenso em ciência, tendo em conta o nível do preconceito, os argumentos primários com que a posição do médico está a ser defendida nas redes sociais, que parecem confundir direito natural com direito inspirado na natureza, e um desconversar muito característico de uma pose de enfado, neste caso centrado na definição estrita da palavra "anomalia" enquanto desvio à norma (1, 2), que não se entende pois é evidente que Gentil Martins usou a palavra como sinónimo de patologia. Enfim, esta é uma conversa demasiado importante para ser iniciada por Gentil Martins ou o semanário Expresso, que o foi entrevistar sabendo perfeitamente a polémica estéril que iria gerar a custo zero, óptima para o tráfego online e a tiragem do jornal; enviar um repórter à Tchechénia para cobrir as perseguições aos homossexuais seria muito menos rentável. 

 

Após o desaparecimento do Dr. Daniel Serrão, aos 87 anos o Dr. Gentil Martins é hoje o último médico de prestígio capaz de fazer afirmações públicas grosseiras sobre a homossexualidade e de se mostrar contra o aborto mesmo no caso de violação. Não percamos tempo nem invoquemos a ciência para rebater as suas afirmações e as dos parasitas do politicamente incorrecto. O único ensinamento da ciência relevante para esta polémica foi enunciado pelo físico Max Planck da seguinte forma: "a ciência progride um funeral de cada vez". A sociedade também.

 

© Fotografia Nelson Garrido Richard Zimler Alexan

Nelson Garrido

 

 

 

44 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

Blogs

Cultura

Ajude Fausto:

  • Uma votação em curso

Ouriquense, S.A, Redacções por encomenda

Séries

Personagens ouriquenses

CineClube- programação

  •  

Filmes a piratear

  •  

Filmes pirateados

Alfaias Agrícolas

Apicultura

Enchidos e Presuntos

Pingo Doce

Imprensa Alentejana

Portal ucraniano

Guitarra

Judiaria

Tauromaquia

Técnicas de homicídio

John Coplans

Artes e Letras

Editoras Nacionais

  •  

Literatura Russa

Leituras concluídas

Leituras em Curso

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D