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Ouriquense

07
Fev17

Estão de passagem as cegonhas do mundo novo

Eremita

Por pressão ideológica, o Parlamento mostrou-se incapaz de aproveitar o desejado avanço nos direitos procriativos das mulheres para corrigir a aberração que é negar a crianças geradas com recurso a bancos de gâmetas o direito a conhecer a identidade dos progenitores biológicos. A ideologia que sustenta esta violação ululante do direito de personalidade diz-nos que a parentalidade é uma construção social. Mas a contradição salta à vista: se a parentalidade é uma construção social, então os pais de verdade não deveriam sentir-se ameaçados pela possibilidade de o filho que educam querer conhecer a sua ascendência biológica, nem precisariam de uma mentira caucionada pelo Estado e o negócio da procriação: a de que os seus filhos surgem por geração espontânea, sem ascendência. Naturalmente, um projecto ideológico bem gizado prevê formas de apaziguar as consciências, pelo que andamos há décadas a ser convencidos  de que é por se atender ao superior interesse da criança que se exclui o progenitor biológico da sua existência, mesmo que a criança, ainda criança, jovem ou já adulto expresse o desejo de o conhecer.

 

Causa surpresa. A criança não estranha pais homossexuais; são inúmeros os estudos que o provam. Aparentemente, só não se adaptará à coexistência de pais verdadeiros e pais biológicos. Mas porquê? Onde está o Q.E.D? Será que o estudo empírico desta questão não é do interesse dos pais verdadeiros (receosos de uma variável a mais nas suas vidas), nem do Estado e das clínicas de fertilidade (receosos da escassez de dadores de gâmetas voluntários)? Alguém duvida da existência de famílias homossexuais que optaram por não negar aos seus filhos o direito a conhecer os progenitores biológicos, que poderiam ser objecto de estudo? Alguém acredita que a reinvenção dos modelos de família com apoio do Estado atingiu a perfeição, assente numa mentira? Duvido. Como em quase tudo, é só uma questão de tempo - provavelmente uma geração ou menos - até se corrigir a lei sem comprometer o muito que entretanto se avançou. Do que precisaremos é de outros protagonistas, gente de um pós-feminismo, porque quem fez a luta dos direitos reprodutivos das mulheres deslumbrou-se com as conquistas recentes e não é sequer sensível ao problema que levanto. 

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