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Ouriquense

20
Jun16

Cadeira do tombo

Eremita

Nós já sabíamos que as bebés, projectando as costas contra o encosto, repetidas vezes e violentamente, conseguem deslocar para trás a cadeira das refeições. A cada movimento, a cadeira recua um centímetro ou algo assim. Vamos precipitar o evento: o chão da sala de jantar está um degrau acima da sala de estar e do escritório, comunicando todas as divisões em open space, sem portas, e há uns dias, a L., sempre atenta e atarefada, disse-me para olhar pelas bebés (que estavam nas cadeiras e se se aproximassem do degrau poderiam tombar) o que fiz durante alguns minutos, até a L. me pedir também para talhar a melancia na cozinha, que está separada da sala de jantar apenas por uma bancada. Enquanto talhava a melancia, ouviu-se um grande estrondo. A L. percebeu logo e correu para a sala. Eu demorei e só depois veio o calafrio pela espinha. A L. apressou-se a tirar a bebé da cadeira, que estava por terra. A bebé berrava e a outra bebé juntou-se à berraria. As duas miúdas da L. mexiam-se com aflição de um lado para o outro, a L. dava colo à M., inspeccionando-lhe a cabeça, e eu rondava mãe e filha, acariciando qualquer parte do corpo de M. que estivesse à mão, e sentia uma vontade enorme de pegar na minha bebé. Por sorte, pura sorte, bendita sorte, a M. chorava apenas pelo susto e parecia ter saído do acidente imaculada. Já estava mais calma quando lhe pude pegar para que ela me consolasse. 

 

Pensámos imediatamente em formas de prevenir acidentes futuros. O raciocínio ia veloz. Por fazer: anular os desníveis, desmantelar a salamandra, pôr trincos especiais em todas as janelas e esticar umas redes, forrar os vértices e as arestas com borrachas, almofadar todas as superfícies, enfim, transformar a casa numa daquelas salas acolchoadas das alas de psiquiatria. De noite, no escuro, na cama, tentei de cabeça exercícios de física newtoniana que justificassem a ausência de traumatismo craniano e não era para excluir formalmente a possibilidade de um milagre e poder manter uma visão materialista do mundo, era mesmo para adormecer. Concentrei-me no momento do embate no chão, já depois de a cadeira ter descido o degrau e tombado, imaginando as forças de acção e reacção sobre o corpinho da M. e a sua cabecita, e estimando a relevância do encosto almofadado e dos 9 kg da bebé para aquele desfecho feliz. Assim adormeci e depois a vida prosseguiu. Só hoje, vários dias após o acidente, enquanto recordava o episódio para o descrever, reparei que na altura não acusei a culpa, creio que por causa da adrenalina, e que  a L. não fez me nenhum reparo, creio que por piedade. 

 

As famílias tendem a evitar falar da morte trágica de um dos seus, mas nas famílias sem mortes trágicas nas duas ou três últimas gerações são muito populares as histórias que quase terminaram em tragédia. Na minha famíia, por exemplo, conta-se que quando eu era bebé estive quase a cair ao mar quando o marinheiro que me segurava e se preparava para me passar para terra segura foi surpreendido pela ondulação e o barco de repente se afastou de um dos cais de São Jorge, nos Açores. Que a história do tombo na cadeira, talvez com outro nome para garantir o suspense, não seja substituída por nenhuma outra e tenhamos o privilégio de a contar sempre que nos pedirem. 

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