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Ouriquense

11
Nov17

Alberto gonçalves versus Pacheco Pereira

Eremita

Há anos que Alberto Gonçalves se limita a oferecer exercícios de escrita aos fãs (grupo a que pertenço), que de original só têm as figuras de estilo. Exclusivamente assente numa visão depreciativa dos portugueses e no ressentimento por se associar a esquerda aos bons sentimentos, Alberto Gonçalves escreve como Helena Matos escreveria se fosse mais criativa e soubesse usar sinais de pontuação. Já não é nada mau "escrever bem", mas o gozo que uma pessoa sente a ler o Gonçalves fica logo ensombrado pela dúvida: o que defenderia este homem se despisse a armadura do cinismo? É provável que escrevesse as crónicas com o tom usado neste seu ensaio sobre a ditadura do politicamente correcto. Curiosamente, o libertário Gonçalves, que se incomoda tanto com os impulsos censórios das brigadas do politicamente correcto, esta semana mostrou-se muito incomodado com a forma como a sociedade reagiu aos elogios que Jerónimo de Sousa fez à Revolução Russa e à URSS. Não se percebe muito bem de que se queixa Alberto Gonçalves, nem o que pretende. Em primeiro lugar, houve variadíssimas reacções negativas, como a sátira feita pelo Canal Q, a crónica de Henrique Monteiro ou os muitos comentários negativos ao texto de Jerónimo de Sousa publicado no DN. Ao estilo de Vasco Pulido Valente, Alberto Gonçalves faz-se passar pelo único ("Ninguém estranhou") que reparou em algo em que todos reparámos: as inanidades, anacronismos e omissões lamentáveis de Jerónimo de Sousa. Também não se percebe muito bem o que propõe Alberto Gonçalves, esse grande defensor da liberdade de expressão. Que os jornais censurem o discurso do líder de um dos maiores partidos portugueses? Que eu tivesse lido, nas notícias que saíram os jornais limitaram-se a relatar o que aconteceu no Coliseu dos Recreios, onde os comunistas se juntaram, nada mais. Compare-se, a título de exemplo, o registo distante e objectivo da jornalista São José Almeida quando noticia as comemorações com a crítica às ideias de Jerónimo de Sousa que fez na sua coluna de opinião. A meu ver, tudo certo e no lugar certo. 

 

A realidade alternativa inventada por Alberto Gonçalves serve-lhe para não perder muito tempo a escrever uma croniqueta com umas quantas frases bem buriladas a que achamos graça. Mas se era para pegar num tema tão fascinante e já tão discutido como o motivo que faz com que o comunismo e Estaline tenham, em termos relativos, melhor imprensa do que o nacional-socialismo e Hitler, e até mesmo do que o fascismo e Mussolini, ler Alberto Gonçalves é pura perda de tempo. Mais vale ler Pacheco Pereira, que não só sabe sobre o tema infinitamente mais do que Alberto Gonçalves, como prefere os argumentos e as ideias às figuras de estilo. Na comparação destes dois cronistas, torna-se evidente que o engraçadismo não deve ter limites, mas tem limitações óbvias, sem com isto querer dizer que Pacheco Pereira esgotou o tema. Escreve o homem da Marmeleira:

 

A demonização e a santificação deviam levar-nos à conclusão de que o evento permanece vivo. É isso que os que a santificam (o PCP, em primeiro e único lugar, o BE, o esquerdismo, menos) e os que a demonizam (a nossa alt-right que nos “observa”, e a opinião “central” cada vez mais à direita ou pressionada pela direita) acabam por concluir. Ambos acabam por ter um resultado muito semelhante: o legado da Revolução de Outubro está vivo, continua a ter sentido, justifica um combate ideológico e político, ou em sua defesa ou atacando-o. O mesmo já não se passa com a Revolução Francesa, ou a Comuna de Paris, ou, para sermos mais detalhados, com a Revolução Mexicana ou mesmo a Revolução Chinesa. Sobre essas ninguém quer saber.

 

Comecemos pelo remake de uma espécie de anticomunismo combatente que acha que o comunismo ressuscitou com a “geringonça”. Alguém que saiba minimamente de história pode achar que existem bolcheviques escondidos nas pregas da nossa sociedade, prontos a tentar assaltar o Palácio de Inverno? É capaz de haver, a julgar pelo modo como à direita se usam epítetos e imagens para colocar o pacífico António Costa, a expedita Catarina Martins e o bondoso Jerónimo de Sousa como partes de uma sequência em faixa ou bandeirinha que começa em Marx, Engels, Lenine, Estaline e Mao Zedong [uma alusão explícita à capa do último livro de crónicas de Alberto Gonçalves], e chamar ao actual Governo “comunista” e de “extrema-esquerda” . Há que apelar ao Senhor para pedir perdão por eles, porque não sabem o que dizem. Seria a mesma coisa que colocar Mussolini, Hitler, Le Pen, Portas e Passos Coelho numa bandeira amarela, uma patetice semelhante. (...)

 

Considerar que há exploração, mesmo que há exploração implícita na relação capital-trabalho — a tese fundamental de Marx —, ou aceitar que há “luta de classes”, sejam quais forem as variantes de “classes” que se envolvem nessa luta, nada tem que ver com o comunismo, não definem “ser comunista” e muito menos “ser leninista”, seja em que versão for. Todas estas ideias são anteriores a Lenine e, em parte, mesmo a Marx, e fazem parte de um património que esteve na génese da crítica do socialismo nascente à insuficiência do liberalismo político para defrontar os problemas sociais ligados à pobreza, à exploração do trabalho, à desigualdade social. Elas são hoje partilhadas por todas as variantes de socialismo moderado, de social-democracia, estão presentes na doutrina social da Igreja, e não são alheias mesmo ao conteúdo de movimentos como a democracia-cristã originária. Não é por aqui que se é “comunista”, é-se comunista pela ideia de revolução, por uma certa ideia da revolução. (...)

 

...quer Rosa Luxemburgo, quer Lenine, o que diziam é que era impossível realizar-se a nova sociedade sem exploração a não ser por uma revolução, que tinha obrigatoriamente de ser violenta. Lenine traduziu essa distinção nas 21 “condições” para um partido ser considerado comunista e aderir à Internacional Comunista. (...)

 

... o PCP viola as regras básicas das “condições” leninistas para se ser considerado um partido comunista, a começar pela regra clara de que “os comunistas não podem confiar na legalidade burguesa e devem formar em toda parte um aparelho clandestino paralelo que possa, no momento decisivo, ajudar o partido a cumprir o seu dever perante a revolução”. Esta era a “lição” mais importante que os bolcheviques tiravam da Revolução de Outubro e da ruptura com o socialismo “reformista”. Havia toda uma outra série de normas, incluindo a obrigação de fazer propaganda comunista da revolução nos exércitos, a recusa de que alguma organização internacional (na época a Liga das Nações, hoje a ONU) tinha capacidade para impedir as “guerras imperialistas” sem derrube do sistema capitalista, e a necessidade de “depurações” permanentes dos efectivos dos partidos comunistas “para remover sistematicamente os inevitáveis elementos pequeno-burgueses”, que em nada correspondem ao que um partido como o PCP segue. Que eu saiba, o PCP não tem hoje nenhum “aparelho clandestino paralelo que possa, no momento decisivo, ajudar o partido a cumprir o seu dever perante a revolução”.

 

Se ultrapassarmos estes ajustes de contas históricos ou o uso utilitário a favor ou contra da Revolução de Outubro, a sua discussão informada tem todo o sentido. Só que sem voltarmos ao bolchevique de faca na boca, nem aos “amanhãs que cantam”, porque, como diziam os marxistas, “em última instância” isso prejudica a luta pela criação de uma sociedade mais justa, mais igual, onde haja menos exploração e onde “os de baixo” possam encontrar uma escada para se tornarem “os de cima”, sem haver “baixo”. É isso possível sem confrontos e sem violência? Duvido. Nunca aconteceu na história, mas isso está muito para além do que aconteceu num certo dia de Outubro, pelo velho calendário, agora Novembro de 1917, em que um destacamento militar dos sovietes controlados pelos bolcheviques ocupou a sede do governo, defendida por uma mistura de cossacos, cadetes e militares do sexo feminino, quase sem luta. Pacheco Pereira, Público

  

  

 

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